O Brasil sem os cubanos…

O governo de Havana já decidiu: os médicos que atendem deixarão o Brasil. A medida é uma espécie de retaliação, em virtude das declarações recentes do presidente eleito Jair Bolsonaro.

Bolsonaro, ao que parece, sofre de sincericídio – um comportamento inadequado para um político, especialmente para um presidente da República. O eleitorado de Bolsonaro pode até admirá-lo por ele falar o que vem à cabeça. Porém, para ser bem sucedido, um governante nunca diz tudo que pensa e nem faz tudo que deseja.

O Programa Mais Médicos é totalmente dependente dos cubanos. E, por mais que isso seja um problema – e seja injusto principalmente com esses profissionais de saúde -, principalmente em virtude do modelo de convênio firmado pelo governo brasileiro com Cuba, o Brasil, hoje, precisa dos médicos cubanos.

São cerca de 8 mil médicos vindos de lá e que estão trabalhando em mais de 2 mil cidades – principalmente pequenas cidades, municípios pobres e até aldeias indígenas.

E por que eles são imprescindíveis? Porque, nesta quantidade, não existem médicos brasileiros dispostos a trabalharem na rede pública de saúde. De fora do Brasil, também são poucos os profissionais interessados em migrarem para cá a fim de atender ao programa.

Cuba, pelo investimento histórico feito na educação e na saúde, tem excedente dessa mão-de-obra. E, diferente do que muita gente pensa, os cubanos são muito bem formados, são excelentes profissionais.

Basta notar os índices de satisfação do público atendido, no Brasil, pelos médicos cubanos. Além de capacitados, possuem outra qualidade: atendem de forma humana, atenciosa, respeitosa – algo que falta a muitos médicos brasileiros, que atendem no SUS.

Jair Bolsonaro ainda não tomou posse. E o nosso desejo é que seja um presidente muito bem sucedido. Porém, a sua visão estreita, a inexperiência administrativa e o pouco tato com as palavras, podem comprometer o sucesso de seu governo.

Se a saída dos cubanos se concretizar, o Brasil começará 2019 numa situação muito delicada. A saúde é um dos maiores dramas de nosso país. O Mais Médicos foi um dos maiores acertos do governo Dilma Rousseff.

Milhões de brasileiros têm sido atendidos pelos profissionais contratados por meio desse programa.

Michel Temer, quando assumiu a presidência, chegou a colocar em dúvida a manutenção do contrato com os cubanos. Porém, o Ministério da Saúde, sob o comando do maringaense Ricardo Barros, agiu de forma pragmática: renovou o contrato.

E por que Ricardo Barros fez isso? Porque, mesmo não sendo médico, é um homem inteligente. Só um tolo colocaria em risco a continuidade do Mais Médicos.

O então ministro afirmou o desejo de reduzir a presença dos cubanos, mas reconheceu que, sem esses médicos, o atendimento da população mais pobre estaria em risco.

Bolsonaro, ao que parece, ainda desconhece a extensão da responsabilidade dele. Nem dos estragos que pode causar se continuar falando o que quer.

Ainda os médicos cubanos

medicoComeço achar que o problema é preconceito. Depois de toda crítica que o governo Dilma recebeu pelo lançamento do programa Mais Médicos, os resultados apareceram e desestabilizaram até mesmo a oposição. Entretanto, ainda hoje encontro gente se apegando a pequenas coisas para questionar principalmente o trabalho dos cubanos.

Dias atrás, encontrei um blog para apontar possíveis erros nos procedimentos desses médicos. Puro preciosismo. Cheguei a pensar: e se a gente criasse um espaço para questionar os profissionais brasileiros? Aqueles que mal olham pra cara do paciente? E as indicações erradas de medicamentos? Ah… convenhamos, né?

Outro dia vi no Facebook uma nota sendo compartilhada para reclamar de gastos com hotéis onde se hospedam alguns desses médicos. Essas mesmas pessoas que não perdem tempo na crítica não fazem as contas, não verificam qual o número de pessoas hospedadas, quanto custaria aluguel equivalente, valor normal de diárias etc. Simplesmente criticam.

Sabe, eu ainda me incomodo com a maneira como aconteceu a contratação. Não me agrada o repasse do salário para uma organização que faz, posteriormente, o pagamento para os médicos cubanos. Fica a impressão que o governo brasileiro financia o governo cubano. Entretanto, essa foi a forma encontrada para trazer esses profissionais para o país. E trazê-los está mudando a realidade da saúde pública.

Até mesmo a grande imprensa tem se rendido aos resultados. E, apesar de certa resistência ao governo Dilma, trazem reportagens curiosas com relatos comoventes. Em cidades do norte e nordeste do país, gente que nunca tinha atendimento médico chega a se ajoelhar para agradecer aos cubanos. Os pacientes relatam que são tratados com carinho, respeito, humanidade. Gente, estamos falando do SUS. Atenção, cuidado… no sistema público. Isso não tem preço, caríssimos. No postinho, o povo está acostumado a ser recebido como se fosse cachorro de rua.

Por isso, não consigo entender quem ainda critica a presença dos cubanos entre nós. Sim, parece preconceito. Querem dizer que há outros problemas no sistema? Concordo. Mas quem precisa de saúde, precisa primeiro de um médico que acolha, olhe, ouça, atenda. Então, que sejam muito bem-vindos os cubanos!

O Brasil precisa popularizar a Medicina

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Diante da repercussão a respeito do texto “Eu quero médicos ‘padrão-Cuba’”, acabei respondendo no Facebook os comentários de alguns leitores. Um aspecto que procurei ressaltar: meu texto não teve como proposta primeira discutir a vinda dos médicos cubanos. Posso garantir que não teria receio algum de ser atendido por eles. Até desejaria. Gostaria de conhecê-los e ter mais elementos para embasar meus argumentos sobre a necessidade de médicos “padrão-Cuba”. Porém, como isso não é possível…

Meu texto também não teve a intenção de apontar que não existe a necessidade de infraestrutura básica para se fazer medicina. Pelo contrário. O Brasil precisa sim de mais investimentos em hospitais, clínicas, postos de saúde, laboratórios… equipamentos. A tecnologia é ferramenta importante para o diagnóstico e tratamento de muitas doenças.

Meu questionamento, porém, é em relação à glamourização da profissão. Além do mais, entendo sim que a gente precisa de mais faculdades de Medicina. E há espaço para implantação e com estrutura adequada. Custa caro? Custa sim. Mas dá para ampliar o número de vagas nas instituições existentes. Também existem muitas faculdades particulares bem estruturadas e que poderiam estabelecer parcerias com hospitais de suas cidades, com unidades de saúde etc a fim de garantir a prática médica dos acadêmicos. Essa coisa de “não pode, não dá” é argumento vazio de quem elitiza uma área do conhecimento que precisa ser popularizada. Transformaram a Medicina numa coisa… Ela é quase inatingível – tanto para quem quer ser médico como para quem quer ter acesso a atendimento de saúde. Só se fala em dinheiro, dinheiro, dinheiro…

Convenhamos, mais da metade da demanda da Saúde não é especializada. É de gente que precisa de um médico para resolver problemas clínicos… E estes não necessitam de laboratórios de última geração – apenas de um médico disponível, alguém que as escute, que faça um diagnóstico através da observação atenta… As pessoas precisam de um profissional que olhem para elas, que falem, perguntem, escutem. Isso se faz com conhecimento médico e humanidade.

Veja a situação de nossas crianças… Cadê os pediatras? Eles são cada vez mais raros. Que médico quer ser pediatra? Quem quer ser clínico? Não querem porque há outras especialidades muito mais rentáveis.

Por isso, sustento sim a necessidade de popularizar o curso. Sustento sim a carência de mais profissionais. E principalmente de acabar com a lógica do médico distante do povo. Salários de oito, dez mil reais – pagos pelo SUS – não são ridículos. Representam renda digna e que atende plenamente as necessidades básicas – moradia, alimentação, vestimenta, educação e lazer – de uma família. Entretanto, pela reserva de mercado, médicos se formam – inclusive em instituições públicas, financiadas pelos nossos impostos – e se dão ao luxo de atenderem apenas por convênios e consultas particulares (que chegam a custar mais de R$ 300,00). Isso tem que amar.

PS, Como eu disse, não teria nenhum problema em receber atendimento dos cubanos. Eles podem até não ter toda a tecnologia disponível, mas metade do sucesso no diagnóstico e tratamento de um paciente passa pela escuta atenta por parte do profissional de saúde. E isso poucos profissionais de saúde brasileiros têm disposição de fazer. Medicina se faz sim com tecnologia, mas, no passado, muita coisa se resolvia sem a interferência de aparelhos e equipamentos modernos. As doenças não se tornaram tecnológicas… Dá para resolver muita coisa com conhecimento e boa vontade. Sem contar que a medicina mais eficaz ainda é preventiva. E esta não precisa de aparelhos.

Eu quero médicos “padrão-Cuba”

medicosA chegada de médicos cubanos constrangeu muita gente. Brasileiros estão acostumados com o glamour dos nossos profissionais de saúde. Eles fazem parte de uma categoria que ganha bem, tem bons carros, casas… No Brasil, médico tem status.

E os cubanos? São gente simples. Muitos são negros. E como nosso povo é preconceituoso, o médico de lá foi classificado por muitos como mal formado por ter “cara de pobre”.

É assustador!

Pois bem… Eu quero médicos “padrão-Cuba”. Tenho sim questionamentos a respeito da política do governo federal em trazer esses profissionais estrangeiros. Porém, não teria receio de ser atendido por eles. Pelo contrário. E defendo que está na hora do Brasil rever o conceito que tem do médico.

Conheço muitos desses profissionais, tenho carinho e respeito por muitos deles. Meu filho quer ser médico. No entanto, penso que médico tem que ser, antes de tudo, gente que gosta de gente. Tem que escolher a profissão não pelo carrão que vai ter na garagem, mas porque faria qualquer coisa pra salvar uma vida.

Por isso, sustento que o “doutor” precisa sim de um salário digno, mas essa profissão carece ser popularizada. O Brasil necessita dobrar, triplicar, quadruplicar o número de faculdades de medicina. Quem quer ser médico tem que ter vaga garantida. Temos que acabar com essa história de concorrência de 200 candidatos por uma vaga – ou mensalidades R$ 5 mil, se for estudar numa faculdade particular.

Médico tem que ser aquele sujeito que não tem medo de pobre, não tem nojo de pegar na mão de uma pessoa malcheirosa, não se sente desconfortável em ir até a periferia ajudar um idoso…

A lógica hoje está errada, invertida. O profissional de saúde se enclausura num consultório perfumado e, mal começa a atender, só falta instalar uma máquina registradora na recepção. Claro, existem exceções sim. Porém, o status parece ser parte do “pacote” que se deseja conquistar ao cursar Medicina.

Ps, Desculpem-me os que pensam o contrário. É só uma opinião. E volto a ressaltar, tem muita gente que ama medicina, faz por amor… Acredito nisso. Tem outros que fazem por amor e o status se tornou apenas um “plus” da profissão. Por isso, reproduzem o modelo glamouroso até de forma inconsciente. E o defendem, por se tratar do que é tido como “normal”. Talvez a chegada dos cubanos nos faça pensar que nem tudo é tão normal quanto aparenta ser.