Reféns de uma imagem idealizada

As redes sociais na internet potencializaram os jogos de aparência. Muitos de nós criamos personagens de nós mesmos. Uma imagem falsa de si, mas que se sobrepõe ao que de fato a pessoa é.

Projeta-se algo e vive-se o que foi projetado. Nas redes.

A pessoa vira refém da imagem. É necessário se mostrar bem-sucedida, com vida amorosa bem resolvida, bons relacionamentos, amizades… Uma vida social invejável.

Na vida real, todo mundo tem problema. Mau humor, fracassos profissionais, desencontros afetivos… Contas pra pagar, viagens horríveis – ou até a impossibilidade de fazer um passeio bacana. Isso tudo faz parte do cotidiano das pessoas.

Li recentemente uma observação feita por um autor: problemas financeiros todo mundo tem; até o homem mais rico do planeta. E é fato. Os problemas com dinheiro, do todo-poderoso da Amazon, Jeff Bezos, são diferentes dos nossos, mas certamente ele tem que enfrentar problemas para lidar com investimentos, com empresas concorrentes, gente querendo a grana dele… E até o recente divórcio, que deve fazer com que metade da fortuna dele fique com a ex-esposa. Dividir o patrimônio bilionário não será algo divertido para ele.

Ninguém gosta de expor seus fracassos. Nem a rotina pouco empolgante do dia a dia. A gente quer mostrar nossa melhor face. É preciso mostrar-se feliz.

E, particularmente, não vejo nada de mal nisso. Eu mesmo exponho muito pouco da minha vida, das coisas que faço… Apresento apenas um recorte. Não é ruim. Passaria a ser um problema se a imagem que as pessoas fazem de mim nas redes pautasse minhas decisões diárias, minhas escolhas.

Precisamos ser quem de fato somos. Autênticos. Sem exageros. Sem amarras. Apenas verdadeiros – não por causa dos outros; mas em respeito a nós mesmos, a nossa identidade.

Notícias falsas causam linchamento

Minha insistência em falar sobre os conteúdos falsos que circulam na internet tem relação com vários fatores. Um deles é porque conheço o processo de produção de notícia na imprensa profissional. Sei da responsabilidade que existe por parte de uma equipe de pessoas especializadas no assunto e também sei os métodos e técnicas aplicadas na apuração de um fato.

Ou seja, parte do meu incômodo é motivado por uma espécie de luta pessoal em defesa do bom jornalismo.

Entretanto, outra razão é o efeito dos conteúdos falsos junto ao público. As informações distorcidas ou mentirosas que circulam na rede desinformam. E ao desinformarem, impedem que as pessoas vejam os fatos concretos.

Exemplo, no meu boletim anterior enviado à Band News, e que está também nas minhas redes pessoais, muita gente sustentou o questionamento da qualidade de formação dos médicos cubanos sob o argumento de que o curso de Medicina deles tem apenas 3 anos.

De onde tiraram isso? Certamente de tweets, mensagens de whatsapp ou blogs pseudo-informativos. Em Cuba, o curso de Medicina tem 6 anos – semelhante ao do Brasil.

A diferença existe apenas no modelo de formação – o que é chamado de currículo. Enquanto no Brasil o ciclo teórico é de 4 anos, mais 2 de ciclo clínico, em Cuba, são 2 anos de ciclo teórico, 3 anos de ciclo clínico e mais 1 ano de trabalho em campo, sob supervisão.

Mas o processo de desinformação não promove apenas a ignorância que leva as pessoas a falarem bobagem. A desinformação, por vezes, motiva decisões. E mais que isso, promove o ódio.

Uma reportagem divulgada esta semana no site da BBC mostrou o que aconteceu com dois homens em uma pequena cidade do México. Boatos sobre sequestros de crianças se espalharam pelo whatsapp. Os homens foram identificados como os supostos responsáveis. A comunidade espancou, colocou fogo nos dois homens ainda vivos. Eles foram mortos antes que alguém pudesse checar a veracidade do que havia sido divulgado no whatsapp. E o linchamento foi filmado por vários celulares.

As pessoas são cruéis. De certo modo, isso está em nossa natureza. O processo de desinformação promovido pelos conteúdos falsos que circulam na rede potencializa imagens falsas a respeito da realidade levando muita gente a acreditar no que não existe. Disseminam-se preconceitos, reforçam-se estereótipos… reputações são colocadas em xeque.

Justamente por isso insisto na importância de duvidarmos sempre. Checarmos as informações que chegam até nós. Questionarmos nossas certezas. O que foi nos dito, aquilo que lemos, ouvimos e assistimos pode não ser verdade.

O conforto das mentiras nas redes pessoais

Diariamente, recebo nas minhas redes pessoais inúmeros textos, vídeos, áudios com conteúdos políticos. Não abro nenhum. Quer dizer, em alguns casos, até espio pra ver a fonte, de onde veio, quem produziu… Se trata-se de um material informativo elaborado por empresas sérias, idôneas, e o tema me interessa, até dou uma espiada. Mas, como regra, descarto o material que vem pelo whatsapp, messenger, email, vídeos do Youtube…

E faço isso por uma razão: o conteúdo que circula inbox nas redes pessoais frequentemente sofreu algum tipo distorção. Pode até ser humorístico – um meme, por exemplo -, mas a chance de apresentar uma versão verossímil é quase nula.

Infelizmente, eu sou a exceção. A regra, hoje, é o consumo de conteúdos pelos aplicativos. Com isso, as pessoas pautam seus argumentos e decisões baseadas em conteúdos duvidosos. E é impressionante como algumas dessas pseudo-informações são capazes de fazer com que a gente duvide até do que assiste ou vê num canal sério.

Ainda ontem, tive que assistir de novo a sabatina feita pela equipe da Isto É com a então pré-candidata à presidência, Manuela D´Avila, em junho deste ano. O que ela falou na entrevista não repercutiu na época. Porém, há cerca de 30 dias, um trecho editado de uma fala da Manuela circula nas redes para sustentar a tese de que a agora candidata a vice na chapa do PT se declara não cristã.

Eu precisei assistir de novo porque até eu estava duvidando do que tinha entendido. Quase comprei a versão editada e mentirosa. Assisti duas vezes para ter a certeza que minhas conclusões não estavam erradas e a fala da candidata, de fato, havia sido distorcida.

Pois é… O fenômeno que vem sendo chamado de pós-verdade tem esse efeito: relativiza a verdade e banaliza a mentira. Esses conteúdos em vídeo, texto ou memes provocam uma desordem na opinião pública. A objetividade dos fatos se perde em meio ao discurso emocional, que nos pega em nossas fragilidades. O medo, o preconceito, a vitimização, a hostilidade são técnicas eficazes de persuasão.

Afetados por esse universo pseudo-informativo, perdemos o rigor, a capacidade de racionalizarmos, ficamos cegos. Chegamos ao ponto de, mesmo diante dos fatos, preferirmos acreditar na versão distorcida. Parece que ela é mais confortável, melhor que a própria verdade.

Lamentável que seja assim.

Fake news: as pessoas acreditam no que querem acreditar

Nos últimos meses, várias agências de checagem de notícias foram criadas. Ainda hoje pela manhã, li sobre o lançamento de uma nova agência, ligada a um dos maiores grupos de comunicação do país. A proposta é investigar se são fatos ou fakes algumas notícias que circulam na rede.

Esse movimento me parece bastante relevante. A quantidade de notícias falsas é assustadora. Mas o que mais me preocupa é o comportamento das pessoas.

Ainda dias atrás, uma jovem que conheço, pessoa que considero, debateu comigo a respeito de uma informação que outra colega havia compartilhado. Eu argumentei, com base numa agência de checagem de informações, que a notícia era falsa. Ela rebateu questionando os interesses da agência. Em outras palavras, colocou em dúvida a agência e, de alguma forma, sustentou que a notícia, que eu entendo como falsa, era verdadeira.

Enfim… É justamente isso que me preocupa. Tenho a impressão que, quando algumas pessoas tomam um conteúdo como verdadeiro, nem mesmo a checagem de sua veracidade é suficiente para desmenti-lo. As pessoas acreditam no que querem acreditar. E aí usam como argumento qualquer coisa, inclusive ideias de conspiração.

Alguns candidatos e políticos fazem isso (Donald Trump é um “belo” exemplo). Movimentos como o MBL, idem. Quando são confrontados, quando a gente diz: “é mentira o que vocês estão dizendo”, preferem desqualificar as fontes de informação e até rebatem dizendo que a checagem é que é falsa.

Isso só reforça a certeza que o problema na qualidade da informação na rede, nos grupos de whatsapp, vai para além dos interesses envolvidos, da superficialidade ou mesmo da pressa em passar uma informação adiante; o problema está na qualidade da formação cultural das pessoas ou, em alguns casos, até mesmo na ausência de ética e caráter.

A “morte” de Amin Khader e as mentiras na internet

Já que o assunto aqui hoje é internet, volto a falar sobre as bobagens que se publicam na rede. Pegadinhas sempre foram normais. Mentiras mesmo. Na rede, ganham proporção desmedida. E o povo acredita. Inclusive nós, jornalistas.

Dias atrás um amigo e ex-aluno falou comigo quase desesperado. Ele viu uma notícia, achou um absurdo o fato retratado e não conseguia se convencer que trava-se apenas do chamado “jornalismo mentira”.

Eu dizia:

– É mentira. Só uma brincadeira.

Ele replicava:

– Mas está num blog sério.

Já avisei: internet é terra de ninguém. A mentira vira verdade. É preciso duvidar sempre.

Nesta terça-feira, uma brincadeira(?) de David Brazil levou muitos canais de TV, gente no Twitter e uma galera de blogs a noticiarem a morte do promoter Amin Khader.

Não passava de pegadinha.

Tenho dito, não sou dono da verdade. Mas, convenhamos, é preciso ser menos precipitado e principalmente menos inocente ao consumir informações na web.

Fica a dica: leia de novo este post aqui.

Na internet, compra-se gato por lebre

Sou eu o idiota? Acho que sim. Vira e mexe repito aqui: não acredite em tudo que circula na internet. O negócio na rede é estranho. Internet é terra de ninguém. Todo mundo fala o que quer. E a gente não pode sair acreditando em tudo que lê ou vê.

Mas parece que esse meu discurso não cola. Acho até que perdi um amigo. O cara me mandou um texto sobre o activia – é aquele mesmo… aquele iogurte que ajuda no funcionamento do intestino e que você já viu a propaganda.

Pois bem, tem um email circulando na rede (e está inclusive em blogs) falando que, na composição, o produto tem fezes. Para tudo, minha gente. O que a Danone, uma empresa fundada há quase 100 anos, presente em cerca de 120 países, estaria fazendo com seus clientes?

Então, respondi o email do amigo, apresentando informações que rebatem os argumentos da mensagem, e pedi que tomasse mais cuidado antes de sair espalhando conteúdo duvidoso. Ele não me respondeu e nem escreveu mais.

Fazer o quê? Depois dou um jeito e fazemos as pazes. Rsrs. Afinal, não vou perder um amigo por causa da tal “fezes no activia”.

Faltando sério… A democratização na produção de conteúdo – todo mundo se tornou um produtor de conteúdo (ainda que mentiroso, muitas vezes) – acabou dando nisso. O sujeito inventa uma teoria e espalha. E outro acredita. Mais que isso, compartilha pra um monte de gente. Que replica… E a mentira se torna uma verdade.

Tudo de maneira inconsequente.

A rede é fantástica. Sou fã nesse negócio aqui. É maravilhoso perceber a força que tem a internet e que gente anônima, desconhecida acaba por exercer no meio digital. Basta ver o que aconteceu no caso da Arezzo. A marca simplesmente tirou das lojas toda uma coleção feita em couro de raposa por causa da reação nascida nas redes sociais.

No entanto, plantar mentiras na web – outras vezes compartilhá-las sem saber que se trata de uma informação não verídica – é muito comum. Por isso, tem que filtrar. Saber a origem, checar.

Nos jornais, rádios e tevê também se erra. Porém, o fato de existirem profissionais por trás da notícia e uma preocupação com a credibilidade (que é o que garante a audiência e, consequentemente, o faturamento) resulta num conteúdo menos sujeito a falhas.

O problema é que, por vezes, também quem está nos meios de comunicação tradicionais repetem o erro da internet – que é boa fonte de pautas. Um exemplo foi o que fez dias atrás o Serginho Groismann. Ele se pautou na história de que uma mulher conseguiu o direito de se masturbar no trabalho e levou o assunto para uma sexóloga que participa do Altas Horas. Ele não viu a tag “jornalismo mentira”. Pautou a pergunta e pagou mico.

É o tipo de coisa que pode acontecer com qualquer um de nós. Por isso mesmo, o termo “redobrar a atenção” (redobrar é mais que dobrar, concorda?) é mais que bem-vindo em tempos de internet. Nunca antes corremos tanto o risco de “comprar gato por lebre”.

BBB 11, Veríssimo e a internet

Tenho repetido que a internet é terra de ninguém. Ambiente próprio para que verdades e mentiras circulem com a mesma autoridade. Gente famosa, conhecida divide espaço com milhares, milhões de anônimos que também ganham status de produtores de conteúdo. Todos podem consumir informações, dar ou compartilhar notícias.

Hoje, Arnaldo Jabor comentou na CBN que a internet é uma criação mais significativa que a própria imprensa. Tomando como exemplo os conflitos no Egito, ele tratava disso no contexto das revoluções que têm sido possíveis em função das redes sociais.

Concordo que a internet é revolucionária. Porém, como pontuei no primeiro parágrafo, é terra de ninguém. Pessoas dotadas de inteligência e responsabilidade circulam por aqui ao lado de outras tantas sem nenhum compromisso. Apenas com a ousadia e/ou coragem permitidas pelo anonimato ou por contarem com a precipitação alheia que transforma boatos em verdades absolutas.

Ainda nesta manhã lia um suposto texto de Luís Fernando Veríssimo. Nele, o cronista e escritor simplesmente desconstruía o BBB 11. Por sinal, há vários argumentos interessantes no tal artigo. Entretanto, embora não seja especialista em Veríssimo, estranhei o estilo e, como aprendi a desconfiar de tudo que circula na rede, pesquisei o famigerado texto.

Como supunha, nada prova que seja do Veríssimo verdadeiro, o gaúcho, autor premiado e colunista de grandes jornais. Além disso, quem faz circular o artigo tratou de atualizá-lo, já que uma versão semelhante circula desde os tempos do BBB 10.

Na prática, a situação só reforça minhas crenças que a gente precisa ter um pouco mais de bom senso e desconfiança com o que vê ou com o que é falado na internet. Não é por que um texto vem assinado como do Jabour, do Veríssimo, do Alexandre Garcia ou seja lá quem for que vamos sair por aí afirmando: viu o que fulano escreveu? Reproduzindo algo que pode não passar de mais uma tremenda bobagem.

Ainda há pouco, apontei que há argumentos interessantes nesse texto. Porém, o “artigo” perde autoridade por seu autor simplesmente não ter a capacidade de assiná-lo, de dizer quem é. Lamentável.

Cá com meus botões, penso que não é preciso ser um Veríssimo para questionar os valores – ou a falta deles – no Big Brother. E, convenhamos, também não será o Veríssimo ou outro intelectual famoso que vai levar o povo a deixar de ver o programa global.

Ciclo da mentira

Recebi ontem um email de uma ouvinte. Ela acompanha meu trabalho pela Rede Novo Tempo. Queria saber o que penso sobre a vacina contra gripe A. Ela enviou em anexo um texto que circula pela internet falando horrores da vacina. Entre os argumentos há inclusive indicação de que pode causar a morte.

Minha ouvinte estava preocupada. Por isso, achou que eu pudesse ajudá-la ao falar o que penso a respeito do assunto. Também disse que vários amigos não querem se imunizar contra a gripe A. Eles estão com medo.

Claro, não sou médico. Estou longe de ter autoridade para fazer uma ampla defesa da vacina. Entretanto, estou “vacinado” contra as bobagens que circulam pela internet. É impressionante a quantidade de informações falsas que estão na rede. Elas são enviadas por email, nas redes sociais e repercutidas aos montes em blogs e outras páginas pessoais.

Lamentavelmente, as pessoas são inconsequentes. Não checam a origem, não crédito a esses conteúdos e retransmitem. Perde-se a chance de romper com o ciclo da mentira.