Ninguém quer se sentir um mero executor

Um dos erros frequentes dos gestores da velha guarda é ignorar que as pessoas que estão em seu entorno são capazes de pensar. De pensar por si mesmas.

Chefes do passado, mas que estão espalhados em várias empresas, querem que seus subordinados sejam seus olhos e seus braços. O cérebro segue sendo o deles.

Nessas empresas, predomina a máxima de que tudo que se faz e como se faz deve refletir o espírito do dono.

Contudo, o mundo contemporâneo é o mundo em que as pessoas desejam ser autoras de suas histórias. Quando confrontadas com a vontade imperativa de um chefe que tenta perpetuar a mentalidade dele, sentem-se agredidas intelectualmente.

Ninguém quer se sentir um mero executor.

Vivemos um tempo em que desejamos ver um pouco de nós naquilo que é feito. Isso ocorre porque uma das lutas dos sujeitos na contemporaneidade é pela subjetividade; e esta se dá na construção de uma identidade.

Na identidade do sujeito parece não haver espaço para a ideia de que ele está na empresa apenas para fazer o que é mandado; tampouco que deve agir como se fosse o dono – afinal, ele sabe que não é.

Na verdade, o sujeito deseja ter um jeito próprio de atender, de negociar, de tratar as pessoas…

O colaborador quer dar uma ideia e ver a ideia acolhida, implementada…

A gente vive numa sociedade que as pessoas querem ser notadas… Sentirem-se únicas!

Observemos o que acontece nas redes sociais: a gente publica, escreve, curte, interage, faz selfie… Por quê? Porque cada vez que a gente posta nas redes é como se disséssemos “eu existo; estou aqui; me veja; eu sou alguém!”.

Numa empresa que impõe o olhar do dono, a identidade do sujeito é massacrada. Ele se sente alienado, ignorado. É como se não importasse. Isso cria insatisfação e distanciamento e, por consequência, pouco envolvimento.

Os bons gestores conseguem identificar os talentos e são bem sucedidos não porque a empresa assume a cara deles, mas por conseguirem ter o melhor de cada colaborador e somar todas as habilidades, aptidões e ideias no desenvolvimento do negócio.

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Os erros de julgamento

Parece ser da natureza humana a disposição para julgar, avaliar, criticar. Algumas pessoas mais, outras menos, mas praticamente todo mundo tem sempre uma observação a respeito de algo que foi feito ou deixado de fazer.

Aquelas pessoas mais maduras geralmente questionam o próprio julgamento e, por vezes, nem chegam a verbalizar o que inicialmente pensaram. Mas a maioria não tem esse tipo de filtro. Rapidamente, fala o que tem em mente. E, infelizmente, comete injustiças.

No mundo do trabalho, frequentemente vejo gente reclamando de decisões, questionando a decisão de um chefe ou mesmo mudanças no organograma da empresa. O julgamento é feito do lugar onde a pessoa está, partindo da visão dela e dos interesses dela. Ou seja, para avaliar a decisão da chefia, ela enxerga tendo como referência a maneira como foi afetada e o que vislumbrava que poderia ser feito.

Por mais que eu entenda as razões dessas coisas acontecerem, confesso que ainda me surpreendo com a falta de capacidade de algumas pessoas problematizarem o próprio julgamento. Parece haver alguma falha cognitiva.

Uma decisão no meio corporativo geralmente é tomada diante de uma visão do todo. Muitos problemas conhecidos pela alta gestão nunca chegam a todo o grupo de colaboradores. Às vezes, por falhas na comunicação interna; outras, por se tratar de situações estratégicas ou da necessidade de evitar fofocas.

Cito o ambiente corporativo como exemplo, mas isso acontece na igreja que a gente frequenta, no clube, na escola, na faculdade, na gestão pública… E até na nossa casa. Não raras vezes, os pais tomam decisões incompreendidas pelos filhos, pelos sogros ou parentes próximos. E fazem isso por terem ciência de quadros que nem sempre são conhecidos de todo mundo.

Portanto, ainda que seja clichê, vale repetir: antes de julgarmos, é sempre oportuno questionarmos se temos conhecimento de todos os processos envolvidos. Com frequência, nossas avaliações são parciais, porque geralmente desconhecemos todas as versões de um fato.