Ninguém quer se sentir um mero executor

Um dos erros frequentes dos gestores da velha guarda é ignorar que as pessoas que estão em seu entorno são capazes de pensar. De pensar por si mesmas.

Chefes do passado, mas que estão espalhados em várias empresas, querem que seus subordinados sejam seus olhos e seus braços. O cérebro segue sendo o deles.

Nessas empresas, predomina a máxima de que tudo que se faz e como se faz deve refletir o espírito do dono.

Contudo, o mundo contemporâneo é o mundo em que as pessoas desejam ser autoras de suas histórias. Quando confrontadas com a vontade imperativa de um chefe que tenta perpetuar a mentalidade dele, sentem-se agredidas intelectualmente.

Ninguém quer se sentir um mero executor.

Vivemos um tempo em que desejamos ver um pouco de nós naquilo que é feito. Isso ocorre porque uma das lutas dos sujeitos na contemporaneidade é pela subjetividade; e esta se dá na construção de uma identidade.

Na identidade do sujeito parece não haver espaço para a ideia de que ele está na empresa apenas para fazer o que é mandado; tampouco que deve agir como se fosse o dono – afinal, ele sabe que não é.

Na verdade, o sujeito deseja ter um jeito próprio de atender, de negociar, de tratar as pessoas…

O colaborador quer dar uma ideia e ver a ideia acolhida, implementada…

A gente vive numa sociedade que as pessoas querem ser notadas… Sentirem-se únicas!

Observemos o que acontece nas redes sociais: a gente publica, escreve, curte, interage, faz selfie… Por quê? Porque cada vez que a gente posta nas redes é como se disséssemos “eu existo; estou aqui; me veja; eu sou alguém!”.

Numa empresa que impõe o olhar do dono, a identidade do sujeito é massacrada. Ele se sente alienado, ignorado. É como se não importasse. Isso cria insatisfação e distanciamento e, por consequência, pouco envolvimento.

Os bons gestores conseguem identificar os talentos e são bem sucedidos não porque a empresa assume a cara deles, mas por conseguirem ter o melhor de cada colaborador e somar todas as habilidades, aptidões e ideias no desenvolvimento do negócio.

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Gestores dinossauros

Os conflitos nos modelos de gestão corporativa são bastante comuns. Principalmente num tempo em que as rupturas são constantes e há poucas certezas. Nada se faz como se fazia há 20, 40 ou 100 anos. Tudo é fluído.

E não se trata apenas de demandas que surgiram em função da legislação. As mudanças ocorrem por um conjunto de variáveis. Entre elas, a quantidade de informações, as tecnologias digitais, a profissionalização por meio da educação continuada, as exigências do público consumidor.

Tudo isso faz com que as pessoas que estão no comando sejam pressionadas a se atualizarem.

Entretanto, o processo não é tão simples.

É difícil esperar que alguém que está numa determinada função há 30 anos se atualize. É comum que gente que está no mercado há muito tempo, principalmente em posições de gerência, coordenação, chefia, sustente-se no argumento de que possui mais experiência que os demais e sabe quais são as melhores estratégias.

O problema é que pouca coisa que se fazia no passado ainda tem valor hoje. As pessoas não são as mesmas, as expectativas são outras e o conjunto de procedimentos adotados precisa ser renovado.

A insistência naquilo que dava certo gera descompasso com o mundo contemporâneo. Às vezes, o negócio até se sustenta financeiramente, mas fica estável – não cresce, não se desenvolve e, o que é pior, geralmente afasta os bons talentos.

Gente com cabeça aberta, que dialoga com as novidades de mercado, quase sempre gosta de experimentar, inovar – ainda que corra o risco de errar. É gente que observa as tendências e tenta incorporá-las. Procedimentos históricos podem até ser funcionais, mas não são atrativos. Por isso, esses profissionais entram em choque com os modelos antigos de gestão. São pessoas que pensam por si mesmas – algo que não é bem aceito pelos velhos administradores.

E como será o futuro dos dinossauros das empresas? Vão quebrar? Alguns sim. Mas não todos. Muitos apenas perderão a oportunidade de se tornarem referência entre lideranças que se adaptam e dão exemplo de como viver o novo mundo se cria e recria a cada dia. Serão ilhas, não de excelência – apenas daquela antiguidade saudosista que insiste que o passado parecia melhor que o presente.

Ps. E o presente não é nem melhor nem pior que o passado; é apenas isso: o presente.

O que faz um líder eficaz?


A consultora de liderança e cientista organizacional, doutora Sunnie Giles, num artigo publicado na Harvard Business Review, apresentou algumas conclusões bastante interessantes.

Quero compartilhar por aqui algumas delas. Escolhi três características que me parecem relevantes não apenas para chefes, diretores de empresas, empresários… Mas também para quem ocupa outras tantas funções e têm o papel de conseguir o comprometimento, envolvimento das pessoas.

A doutora Sunnie, depois de realizar um estudo em 15 países, notou que os grandes líderes demonstram uma ética sólida, proporcionam sensação de segurança aos colaboradores e criam um ambiente favorável no tratamento de acertos e erros.

Segundo o estudo, um líder com altos padrões éticos transmite compromisso com a justiça, instigando a confiança das pessoas de que as regras do jogo serão respeitadas, de que não haverá surpresas no meio do caminho. Isso motiva a equipe a se dedicar mais pela empresa.

Além disso, ao comunicarem suas expectativas de maneira clara, demonstrando ética, os líderes não confundem as pessoas, não geram ruídos no ambiente corporativo e os colaboradores podem relaxar. Isso faz com que a equipe dedique mais energia, e capacidade do cérebro, ao engajamento social, a inovação, criatividade e desejo de crescimento pessoal e da empresa.

Outra conclusão do estudo realizado pela doutora Sunnie, e que chamou minha atenção, é que os bons líderes oferecem segurança aos colaboradores, mesmo quando eles cometem erros.

Gente disposta a dar o melhor de si não é nada fácil de encontrar. Entretanto, muitos colaboradores não se doam completamente porque, quando são inexperientes numa função, se preocupam com a avaliação dos chefes e diretores. Receiam ser censurados. Quando experientes, às vezes não se atrevem a dar o melhor de si, porque nem sempre querem correr o risco de contrariar as práticas já estabelecidas no ambiente.

Falhas são comuns em todos os processos produtivos. E o fracasso é necessário para o aprendizado. Porém, se isso não ficar claro para a equipe, a busca pelos resultados desejados pode desencorajar os funcionários a se arriscarem. Para resolver este conflito, os líderes devem criar uma cultura que suporte a tomada de riscos.

São características aparentemente simples, mas que demonstram que há necessidade de uma grande mudança na mentalidade de quem deseja ocupar funções de liderança.

Práticas convencem pessoas

Nem sempre os empresários, chefes e gestores se dão conta de que os colaboradores precisam de muito mais que um salário para se sentirem parte da empresa.

É claro que uma remuneração justa, a oferta de prêmios, bônus são importantes. Mas se o trabalhador não acreditar no negócio, não se sentir seguro de que o emprego é dele, não entender que as relações de trabalho são justas… Se isso não acontecer, o empregado poderá ser extremamente eficiente, mas não vai se doar completamente.

Os especialistas afirmam que as empresas devem entender que uma das estratégias mais eficientes para o crescimento dos negócios é contar com colaboradores que estejam felizes e acreditem no lugar onde trabalham.

Gente que se sente valorizado, que observa os colegas também serem valorizados, vende melhor. Vende produtos e vende o mais importante, a marca.

A melhor estratégia para o sucesso é compreender que “pessoas compram pessoas”. Ou seja, o cliente não é fiel a uma empresa; ele é fiel a uma ideia gerada na relação que o cliente possui com os colaboradores dessa empresa.

E, preste atenção… Esse princípio pode ser aplicado nos mais diferentes campos. Inclusive na política. Basta notar que o candidato que lidera as pesquisas eleitorais e é o favorito na corrida presidencial, praticamente não fez campanha.

Não está no horário eleitoral… Há semanas, não participa de debates, entrevistas… E ainda assim, uma multidão está mobilizada por ele, conquistando cada vez mais simpatizantes e, o principal, votos.

No mundo empresarial e até mesmo numa comunidade religiosa, o que atrai as pessoas não é necessariamente caras campanhas publicitárias. As pessoas são atraídas pelas ideias produzidas na relação que estabelecem com os colaboradores – ou militantes.

Tem jeito de deixar as reuniões menos chatas?

group of confident professional employees in a serious meeting from aboveEu tenho pavor de reuniões. Não gosto delas. Acho improdutivas, chatas. Enroladas, na verdade. Raramente é possível ser objetivo, prático e motivador nessas ocasiões. Aquela imagem colocada nas revistas de negócios de gente sentada em volta de uma mesa, interagindo, sorridente… é uma grande balela.

As reuniões de trabalho são necessárias, reconheço. Não todas, claro. A maioria é perda de tempo. Ainda assim, são uma forma de expressão da própria democracia. Organizações que não proporcionam esse espaço de debate de idéias geralmente são autoritárias. Há apenas uma linha mestra que rege as atividades de todos. Ainda assim, não gosto delas.

Não significa que sou contra a democracia. Apenas penso que é quase impossível juntar um monte de gente e fazer as coisas fluírem de maneira rápida, funcional. Sempre tem aquele colega que parece ter necessidade de aparecer. O sujeito fala, fala, falta… interrompe, dá palpites. Tem o outro que bota defeito em todas ideias. Na opinião dele, nada vai dar certo. Fica pior quando quem conduz a reunião é preciosista. A pessoa é carente de atenção, quer mostrar que sabe, ou quer se apresentar como alguém flexível, tolerante…

Reuniões ainda nos fazem conhecer os bajuladores, maldosos, invejosos, falsos. A gente encontra de tudo. É preciso ter estômago. O meu não dá conta: a gastrite reclama logo. Por isso, nessas horas o café é sempre indesejado.

E não sou apenas eu que não simpatizo com reuniões. Uma pesquisa feita com 2 mil executivos brasileiros apontou que 69% deles as odeiam. É muita coisa, né. Quase 7 de cada 10.

Bom, meu texto não é pra propor um guia, uma fórmula. Nada disso. Nem se trata de algo voltado pro mundo corporativo. Não mesmo. Eu só busco um jeito melhor de viver. E as reuniões me incomodam. Acho que dá pra ser democrático sem obrigar uma equipe inteira a participar desses encontros chatos. Tem coisas que não carecem de reunião pra serem resolvidas. Com as tecnologias também dá pra pensar em debates online, em tempo real ou não (onde todo mundo vai lá, palpita etc). Um mediador pode facilitar esse processo e conduzir as conversas. Mas o mais inteligente ainda é ouvir as pessoas, fazer uma pesquisa… Tentar achar alternativas pra torná-las menos desagradáveis. Contornar horários, ter coisas que as pessoas gostam (comida, por exemplo)… E mais dois pontos: o primeiro, garantir equilíbrio entre todas as vozes (ninguém fica sem falar e nenhum participante pode falar demais) e, o principal, ter horário pra começar e terminar.

Sei lá… Pra mim, acho que ajudaria um bocadinho. Ah… e implementar o que foi decidido, né? Não dá pra ficar indo do nada pro lugar nenhum. Falar, falar e não fazer nada do que foi conversado.

Jogadores: profissionais ou mercenários?

Enquanto lia a Folha de São Paulo, esbarrei numa crítica feita por um leitor à premiação que será dada pela CBF aos jogadores do Brasil, caso a seleção conquiste o inédito ouro olímpico. A lógica do sujeito é bastante simples: os atletas deveriam ter prazer em vestir a camisa amarela e defender o país. Para o leitor, brigar pelo título é uma obrigação patriótica.

Eu achei curioso o comentário. Fiquei pensando no que ele disse. Algumas perguntas surgiram:

– Defender a seleção brasileira é defender o país?
– Conquistar um título olímpico é obrigação do atleta?
– O jogador deve defender a seleção por prazer?
– Jogador de seleção não deve ser remunerado por isso?

Olha, eu entendo que o jogador convocado deve sentir-se honrado. Também penso que, em campo, deve dar o melhor de si. Concordo que precisa estar comprometido com o grupo e brigar por títulos. Entretanto, a seleção brasileira não é a nossa seleção. Ela é da CBF, uma entidade privada e altamente lucrativa.

Quem joga pelo Brasil não joga pela nação. A tese do patriotismo, de um grupo de atletas como representantes de um país, é apenas uma estratégia de mobilização das massas. Nós, torcedores, nos sentimos parte. Há um apelo para isso. E nós somos seduzidos por esse apelo, pois vibramos, choramos, rimos juntos com o time. No entanto, a seleção não é do povo. Não atende uma demanda pública e social. Ela faz parte de um mercado, um mercado específico, mas tão voltado para o capital quanto qualquer empresa.

Mesmo numa competição, como as Olimpíadas, a demanda do esporte não é pela saúde, pela competição, pela representatividade de uma nação. A competição segue uma lógica de investimentos, patrocínios… e algumas milhares de pessoas são diretamente beneficiadas com os lucros resultantes do evento. O país-sede até pode ser beneficiado. Mas ainda assim não se pode ignorar os investimentos bilionários feitos para receber o evento. E nem o fato de que o país – representado pelo Estado – pouco – ou nada – pode interferir na organização da competição.

E neste contexto quem são os atletas? São profissionais. São os operários do espetáculo. São eles que dão o show, que resulta em grandes públicos nos estádios, arrecadações milionárias, audiências impressionantes na televisão, patrocínios significativos para confederações esportivas etc etc. Então, por que não devem ser remunerados? Por que devem jogar apenas pelo prazer? Qual a justificativa para gerarem lucro para entidades como a CBF e não receberem por isso?

O tempo da prática esportiva por paixão já passou. Hoje, os atletas são profissionais. Entram em campo, entram em quadra, mas querem ser pagos por isso. Essa é a lógica que faz funcionar a engrenagem do mundo capitalista. Não seria diferente no futebol, no vôlei, no basquete e em nenhum outro esporte.

É dever do trabalhador fazer bem feito

Vez ou outra sinto necessidade de revisitar meus textos. Pode ser apenas para consulta, leitura; mas também pode ser para rediscutir, ampliar a reflexão que havia proposto.

É o caso do último post.

Ao falar sobre a gestão da carreira e a necessidade de não se deixar influenciar pela ausência de reconhecimento, notei que precisava ir além.

Sabe, pouca gente se dá conta do que significa estar contratado por uma empresa. Geralmente, o trabalhador consegue a vaga, acerta o salário, começa a desenvolver suas atividades e, meses depois, está insatisfeito. Quase sempre por dois motivos: sente-se frustrado com o trabalho e não reconhecido pela empresa.

Na verdade, o sujeito, ao desempenhar suas tarefas, alimenta certas ilusões. Entre elas, que o trabalho não se constituiria numa rotina e de que a chefia estaria dando tapinhas em suas costas como quem diz:

– Cara, você é o máximo. Parabéns!

Aí, tempos depois, seria chamado pelo diretor para ganhar uma promoção.

Como raramente isso acontece, o empregado fecha a cara, reclama de tudo e lamenta o dia em que foi contratado.

Ontem, quando tratei da falta de reconhecimento, não era disso que eu falava. Refletia sobre a ausência de aprovação e compensações, inclusive financeiras, quando o profissional vai além do lugar-comum. Quando ele faz o seu melhor e ainda consegue surpreender. Falava daquela pessoa inquieta, que quer mais, busca mais, faz mais. E nem por isso recebe, num primeiro momento, o que parece justo.

Por que explico isso? Por uma razão muito simples: o profissional que faz bem, mas apenas o seu trabalho, não faz nada além da obrigação. Quem só é cumpridor de tarefas não pode almejar algo para o qual não se esforçou.

Nenhum empregador contrata um funcionário esperando que ele seja “meia-boca”. A pessoa é contratada porque, supostamente, é capaz, é qualificada. Portanto, poucos patrões vão olhar pro sujeito e falar:

– Poxa, que legal, você está fazendo direitinho seu trabalho.

Cidadão, acorde!!! Não se iluda!

Ninguém vai fazer isso. E não vão fazer porque você foi contratado para essa atividade. Fazer bem é o que se espera de todo profissional.
Sempre comparo essa situação com a relação existente entre jornalistas e políticos. Estes sempre reclamam dos profissionais de comunicação. Acham que os jornalistas deveriam aplaudi-los quando fazem algo digno. Costumo responder:

– Eles foram eleitos para fazerem. E fazerem bem feito.

Portanto, se investem em educação, saúde, estradas etc etc ou se legislam com responsabilidade, não fazem nada mais que a obrigação.

Essa também é a lógica do empregador. Por isso, são raros os elogios ao empregado que faz bem feito, mas apenas aquilo para o qual foi contratado.
Aí, o camarada reclama:

– Ah, mas quando erro, todo mundo cai de pau.

É de rir, sabia? Ninguém coloca um trabalhador na empresa para dar prejuízo.

Esses princípios são básicos.

É verdade que existem empresas que as relações são insustentáveis. Também é verdade que um elogio cai bem. Entretanto, se ele não vem, e se você só está fazendo o que se espera de sua função, lembre-se: não espere ser premiado pelo seu trabalho, você já ganha por ele. Se quer reconhecimento, dê um passo além. É isso que fazem aqueles os gestores do próprio sucesso.

O mercado da fé

Ouvi há pouco um especialista em negócios falando sobre quais são as demandas atuais do mercado da espiritualidade. Ele falava sobre as áreas nas quais vale a pena investir para tem bom retorno financeiro.

Cá com meus botões, fiquei incomodado. Não com o comentário. De jeito nenhum. O especialista está na função dele: sugerir possibilidades de renda. Entretanto, me incomoda ver que a fé se tornou um negócio.

É triste observar que a fé potencializa lucro, acumulação de riquezas. E isso é histórico. Mas é ainda mais triste notar o desenvolvimento do que se chama mercado da fé, explorado principalmente por gente que se esconde atrás da fachada de líderes religiosos.

Recordo da fala de um colega… Ele sempre dizia:

– Se ganhar na Mega Sena, abro uma igreja.

O que era só uma piada revela, porém, uma grande verdade. Tem gente fazendo carreira, ficando rico explorando a fé das pessoas. É um grande negócio. Lucra-se com a ingenuidade das pessoas. Vende-se a ilusão – da cura dos males da alma até doenças, passando ainda pela promessa da solução para todos os demais problemas, inclusive financeiros.

Diante de um cenário confuso, alguns reagem com ceticismo ao discurso da fé, outros de forma fanática – a favor e contra a prática religiosa.

Isso só me faz lamentar… Afinal, nos afastamos cada vez mais da essência de uma vida em busca do bem e do divino.