Coitado do Monteiro; pobre de nós

Já escrevi aqui que devo ser o cara errado, na hora errada, no mundo errado. Gente, estou desanimado. A coisa está preta. Desculpa, não posso falar assim, né? Pode ser entendido como preconceito, discriminação.

Socorro, viu?

O tal do Iara – Instituto de Advocacia Racial – agora quer tirar de circulação o livro “Negrinha”, do Monteiro Lobato. Não bastasse o ataque contra “Caçadas de Pedrinho”, agora o instituto quer proibir outra obra do autor.

O Iara, que faz o papel de protetor dos negros e de suas causas, tem atropelado o bom senso em nome do politicamente correto. A justificativa é sempre as mesmas: o texto de Monteiro Lobato é preconceituoso, apresenta o negro numa visão estereotipada.

Como “Negrinha” faz parte do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), do governo federal, o instituto quer a obra banida da lista. Não admite que, com dinheiro público, se financie o que chama de uma obra “fortemente carregada de conteúdos raciais”. E promete, inclusive, recorrer à cortes internacionais para tirar o livro de contos das prateleiras.

Gente, livro é livro. Na literatura, pode tudo. E os textos de Monteiro são fruto do contexto histórico. O autor era racista sim. Mas é um dos nossos maiores escritores. A gente precisa aprender a separar as coisas.

E tem mais. As obras literárias funcionam sob a lógica do exagero. O que seriam os vilões se não fossem pintados em cores fortes, carregadas? O que seria a mocinha se não fosse a mais bela, a mais gentil?

Cenários e personagens até podem se inspirar na realidade, mas são obras de ficção. Por isso, o estereótipo é recurso comum. Essa é uma característica da arte. O que seria do humor se os personagens não fossem caricatos? Que graça teria um gay no humor se seus traços e gestos não fossem exagerados?

Convenhamos, gente educada sabe diferenciar realidade e ficção. E as escolas têm sido palco de discussões importantes sobre preconceito, racismo, discriminação etc etc. Professores não precisam ser “treinados” para usar os livros de Monteiro Lobato em sala. E, ainda que não fossem, leitores de “Negrinha”, “Caçadas de Pedrinho” não olharão o negro de forma estereotipada por conta do texto do autor. Quem acredita nisso subestima a inteligência do leitor. Ignora que a fixação de significados, a construção do imaginário popular, se dá pela redundância, pela repetição e quando o discurso se mostra coerente.

Banir ou censurar textos, principalmente literários, é um recurso pobre, mesquinho, de quem pensa pequeno. Gente que tem em si mesmo enraizado preconceitos e mania de perseguição. Na tentativa de corrigir o passado, estão matando o presente.