Jornalismo descartável

A quantidade de informações disponível ao público atualmente gera uma angústia constante: o que é, de fato, relevante? E problema vai para além disso. O que se publica, divulga etc. quase sempre é descartável.

É comum abrir as páginas dos jornais, folheá-las e ter a impressão que nada ali é interessante. Vale o mesmo para os telejornais, emissoras de rádio e sites na internet. A gente espia, ouve, assiste e “vai do nada para lugar nenhum”. Nada ali parece ser realmente significativo. Eu experimento essa angústia diária e, com frequência, chego à conclusão que boa parte dos noticiários são descartáveis. Não fazem diferença alguma se deixarem de existir.

Nos noticiários locais e regionais, a situação é ainda mais visível. Com exceção do noticiário policial (que não aprecio, mas chama a atenção de parte expressiva da população) e, vez ou outra, alguma polêmica política, o que existe de informação que vale a pena ser consumida? Quase nada!

Resultado da saturação? Em parte, sim. A pseudo necessidade de gerar muito conteúdo atualizado resulta numa espécie de esgotamento do público. Afinal, o que é novidade? O que é diferente? Mas existe um outro problema. Os veículos de comunicação têm levado pouco em consideração o desejo das pessoas. Oferta-se conteúdo, mas não se planeja o que será disponibilizado. A notícia então torna apenas mais um produto na prateleira, sem utilidade alguma.

Daniele e o namorado dormindo: o que eu tenho com isso?

Nada. Nem você. Mas por que a foto saiu em quase todos os sites de notícias? Porque um montão de gente gosta desse tipo de “notícia”.

Pra quem não viu e não sabe do que estou falando (não está perdendo nada, é preciso deixar claro), trata-se desta “notícia” aqui:

Danielle Winits posta foto na cama com o namorado na Tailândia

A atriz, que sabe como poucos manter-se em evidência na mídia, postou a foto. E, claro, a foto, com direito a algumas frases e parágrafos, foi parar nos principais sites e blogs.

Sempre tem aqueles que criticam a mídia por esse tipo de publicação. Eu diria que a mídia até tem responsabilidade, mas, nesses casos, a responsabilidade maior é do público – que consome baboseiras. O que tem de informação na foto? O que tem de interessante? Na verdade, o que há de interessante nesse namorado e nessa atriz? Desculpa aí, eu não achei nada. Mas se a mídia noticia é porque tem gente lendo esse tipo de bobagem.

Folha vai cobrar por notícias na rede: o conteúdo free estaria com os dias contados?

Sou fã do compartilhamento de conteúdos de graça. O mundo da rede é o mundo free. Livre. Livre para produzir e para consumir.

Reconheço que jornalões estão perdendo leitores e precisam encontrar formas de aumentar as receitas. Entretanto, não entendo que cobrar do público, como fará a Folha a partir dessa quinta-feira, 21, é a saída para melhorar o caixa.

Não vou apostar que a proposta não dará certo – afinal, os caras devem ter consultoria, pesquisa e tudo mais para decidirem por tal medida. Apenas digo o que vou fazer: vou ler as 10 notícias/mês de graça. As outras 10, com cadastro. E pronto. Vou fuçar noutros sites, nas redes sociais, mas não pagarei os R$ 29,90 para seguir lendo os textos da Folha. E sei que não deixarei de estar informado por abandonar a Folha.

O site terá mais colunistas, blogueiros, conteúdo ainda mais diversificado? Sim. Pelo menos é o que a Folha promete. Entretanto, para mim, o conceito de rede ainda é free, e com oferta de publicidade – como faz desde o princípio o Google e, mais recentemente, o Facebook.

Defendo que gente que produz seja remunerado. E não importa se é rádio, televisão, impresso ou internet. Porém, ainda não dou conta de pagar para ter acesso a conteúdo disponível na web. Acho que o caminho dos portais de notícias não deveria ser esse. Como tudo na internet ainda é um tanto experimental, vamos ver se a “novidade” da Folha cairá nas graças do leitor. Mas sem pagar pra ver.

O que vale ser publicado?

É interessante como uma semana de férias muda nosso ritmo. Tem coisas que a gente faz no “piloto automático”. Quando desliga e fica um tempo sem aquela rotina, a impressão que dá é que precisa readquirir o ritmo. Escrever faz parte da minha lista de coisas que preciso fazer continuamente para não perder o hábito.

Ontem, por exemplo, apareci por aqui, compartilhei uma música. No twitter, escrevi uma ou outra coisa, mas me senti meio “amarrado”. Os assuntos parecem desinteressantes. Ou pelo menos não merecedores de serem divididos com os seguidores da rede.

Por sinal, o que realmente vale a pena ser publicado?

Ontem, retornei ao microfone da CBN e também à sala de aula. Ao apresentar o programa de uma das disciplinas, disse aos alunos que vamos discutir sobre “saturação da informação”. Ou seja, a proposta é mostrar que se produz tanta notícia que não damos de consumir tudo. E isso acontece porque vivemos sob a ditadura do novo. Não importa a relevância; importa ser novo, diferente, atual. E coisas do tipo…

Grávida, Letícia Birkheuer exibe celulite em praia francesa

Rodrigão ganha beijo de Adriana

… viram notícia.

Eu confesso que tenho dificuldade em usar o blog como muita gente usa. Até compartilho algumas coisas pessoais, uma futilidade ou outra, mas não dou conta de escrever algo que não tenha uma aplicação, ou seja resultado de uma reflexão. No twitter ou facebook, não vejo graça usá-los para dizer onde estou, o que estou fazendo ou para expressar um sentimento momentâneo.

Não quero que dizer que este jeito de usar as redes é a correta. De jeito nenhum. Cada um faz o que bem entende. Porém, num mundo de tanta futilidade, não consigo perder tempo lendo coisas vazias.

Talvez eu ande chato demais…

A “morte” de Amin Khader: qual a responsabilidade da imprensa?

Uma das discussões que faço com meus alunos na disciplina de Leitura Crítica da Mídia é sobre o comportamento da imprensa em relação aos seus próprios erros. Um autor que uso como referência para tratar do assunto, Patrick Charaudeau, diz que a mídia não é autocrítica. Ela transfere os erros para os outros, para as circunstâncias; nunca se auto-avalia, nem tenta analisar qual sua responsabilidade no processo.

Estava pensando nisso ao ver na manhã desta quarta-feira o desdobramento envolvendo a falsa notícia de que o promoter Amin Khader teria morrido. O foco está em quem inventou a história. Nenhum veículo de comunicação assumiu ou vai assumir que esqueceu de algo básico: ligar para o telefone do “morto”, para algum empregado ou para alguém que morasse com Amin. E mais: se ele estava morto, o corpo deveria estar em algum lugar. Então por que não checar esse detalhe tão básico a fim de confirmar a morte?

Ninguém fez isso. O fato de um amigo(?) ter noticiado a morte foi suficiente para compartilhar com o público. Era preciso ser rápido. O mais rápido possível devido a relevância(?) e urgência(?) do assunto.

Se foi o David Brazil ou o próprio Amin que inventou a história, pouco importa. Quer dizer, importa. A gente pode discutir o caráter das pessoas, a necessidade de aparecer, a falta de bom senso… coisas do tipo. Mas importa ainda mais refletir sobre o jeito de se produzir e dar notícias.

Não tem graça alguma informar e desmentir depois. Perde-se tempo demais com bobagens. É a espetacularização da ausência, do vazio, do não existente. E o público embarca. O que é relevante fica silenciado, ou em segundo plano, pois a novela de uma falsa morte torna-se mais importante que qualquer outro fato.

Convenhamos, está na hora de virar a página. E a mídia (na pessoa inclusive de jornalistas, apresentadores e outros profissionais) de reconhecer que também é responsável por situações como essa. Quem deu eco a mentira foram os veículos de comunicação e os apressados de plantão que, inocentes ou tolos, preferiram a farsa a gastar tempo em busca da verdade.