Viver em paz

harmonia

Tem comentários cotidianos cheios de verdade, mas que, por vezes, ignoramos. Um que gosto bastante é sobre nossa condição anatômica: temos dois ouvidos e apenas uma boca. Isso sugere que deveríamos ouvir mais e falar menos.

Com frequência, a gente faz justamente o contrário: fala mais e ouve menos. E mesmo quando silencia, não ouve. Tem uma passagem bíblica na carta de Tiago que é traz um conselho precioso.

– Lembrem disto, meus queridos irmãos: cada um esteja pronto para ouvir, mas demore para falar e ficar com raiva (Tiago 1:19).

Consegue perceber a dimensão da orientação? Primeiro, a gente deve ouvir mais que falar. Segundo, a gente deve ter disposição para ouvir. Terceiro, a gente deve refletir antes de falar. Por fim, a gente deve ter controle das emoções.

Quando eu era garoto, meu avô usava uma expressão que eu achava o máximo. Ele dizia “quem fala demais, dá bom dia a cavalo”. Bom, não sei bem o que significa dar bom dia a um cavalo, mas sei o que ele queria dizer. Seo Américo sustentava – e praticava – a tese que é mais prudente falar pouco. E, ao recordar dele, posso assegurar que a “regra” funciona. Meu avô era um homem que tinha autoridade e era respeitado. Justamente por falar pouco, geralmente não magoava as pessoas. O que ele verbaliza parecia ser estudado, resultado de uma reflexão. Por isso, quando abria a boca, a gente sabia que era algo importante; deveríamos ouvi-lo.

Na verdade, esse também é um dos problemas de falar demais: as palavras se tornam banais, vazias. Perdem força. Há pressa, ansiedade em falar, falar e falar.

Entretanto, mais que ter cuidado com o que se fala, é desafiador se manter disposto a ouvir. A gente tem fôlego pra falar, mas pouca paciência em ouvir. E estar pronto para ouvir é estar preparado para ser ofendido, inclusive. Ou para escutar coisas que desagradam, que não nos interessam. Num momento de intolerância e egoísmo, quem se prontifica a ouvir? E nem digo de ouvir num confronto; falo, por exemplo, do ato de ouvir alguém que precisa desabafar. Na verdade, as pessoas hoje parecem não se importar uma com as outras. No confronto, a situação tende a ser muito pior.

O que me parece ainda mais difícil é controlar as emoções. Como não ficar com raiva se aquilo que ouvi me ofende ou agride pessoas que amo? Como ter disposição para ouvir, demorar-se pra responder e pra ficar com raiva? Posso garantir que sou um sujeito bastante controlado. Contudo, estou distante demais de combinar essas “habilidades” do conselho do apóstolo Tiago. Parece quase uma utopia. Como viver dessa maneira? Sinceramente, não sei. Ainda assim, para além de uma crença religiosa ou de ser um ensino bíblico, sei que se trata do jeito certo de viver. Se praticássemos o que está nesse texto, viveríamos bem melhor, faríamos bem às pessoas com as quais nos relacionamos e certamente a convivência com os outros se tornaria mais prazerosa.

Não quero te ouvir

atencao
Poucas vezes escrevi inspirado por uma imagem. Entretanto, algumas imagens reclamam sentidos. Pedem que a gente converse com elas.

Hoje, “trombei” com esta fotografia. Foi compartilhada no Facebook. Tinha uma legenda. Nem li. Apenas salvei. Queria dialogar com a foto. Sem a interferência de outros dizeres.

Enquanto contemplava a cena, pensei na maneira como temos vivido. Estamos ilhados. Não ouvimos mais ninguém.

somPara muita gente, a companhia é um som qualquer. Uma música, alguém falando no rádio. No ônibus, no carro, caminhando pelas calçadas, ou mesmo enquanto corre em volta do parque, pessoas de diferentes idades se isolam do mundo. Optam por nada ouvir. Nem mesmo a voz do coração. Roubam a oportunidade de se (re)conhecerem.

O barulho das ruas, o trânsito, o movimento. Ou o simples ruído que vem das árvores, dos pássaros… nada é ouvido. Nada é notado. De alguma maneira, o aparelho ajuda a nos fecharmos em nós e para nós mesmos.

Enquanto o fone está ali, mandamos um recado para quem se aproxima:

– Não quero te ouvir. Me deixe em paz!

Mais que se distanciar de tudo, quando não escutamos, deixamos de perceber, sentir, experimentar. Sentimentos, emoções; sorrisos ou lágrimas… Tudo é ignorado. O outro é rejeitado.

Na medida em que o volume aumenta, cresce o abismo entre nós e aqueles que nos cercam. Quem reclama nossa atenção, não basta chamar. Nem adianta apenas tocar. Conquistar a escuta de alguém é sonho de outros tempos. Talvez por isso tanta gente fale alto. É um grito interior, desejo de ser notado.