Do caderno da vida, nada se apaga

É provável que quase todo mundo tenha alguma história passada que gostaria de apagar. Talvez seja um episódio bobo, tipo um “mico” que constrangeu muito. Mas pode ser uma experiência dolorosa ou mesmo um erro que gostaria de não ter cometido.

Eu costumo dizer que o passado é passado. A gente aceita, perdoa a si mesmo e segue em frente. O máximo que dá pra fazer é evitar viver situações semelhantes. Ou seja, aprende com o erro e tenta não fazer as mesmas bobagens.

Ainda assim, às vezes a gente olha para o retrovisor e observa que aquela curva na estrada foi uma das piores coisas que aconteceu. E você não gostaria que estivesse ali, não gostaria que fizesse parte de sua história. Se tivesse uma oportunidade de apagar aquele momento de sua vida, apagaria.

Sempre gostei de pensar nas páginas de um caderno como uma espécie de metáfora da vida. A cada dia temos a chance de escrever nossa história. Porém, dias atrás, enquanto apagava anotações que estavam num caderno e arrancava algumas de suas páginas, observei o quanto o caderno falha como metáfora da vida. Do caderno, posso apagar textos escritos. E até eliminar algumas páginas. Da vida, não tem como apagar, não tem como eliminar nada.

Sabe, não adianta nos culparmos pelas falhas que cometemos em momentos que achávamos que aquelas eram as melhores escolhas. As escolhas foram feitas com base em expectativas e desejos de um outro momento. Nosso conhecimento era outro. E foram justamente os erros que nos ajudaram a repensar, a rever… Então, por mais que erros marquem nossa existência, não há mais nada a fazer. Só seguir em frente.

Por outro lado, justamente pela impossibilidade de apagar as páginas que escrevemos de nossa vida, é fundamental viver com sabedoria. As escolhas precipitadas, as escolhas mais ousadas, aquelas que contrariam os conselhos de pessoas mais experientes… Essas escolhas têm sempre maior chance de afetar negativamente nossa vida. Para evitar essas dores, vale sempre ouvir mais, refletir mais, esperar mais. Afinal, do caderno da vida, nada se apaga, nenhuma página se elimina.

Quando não temos a vida que gostaríamos de ter

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Nem sempre as pessoas têm a vida que gostariam de ter. É natural que a gente sonhe coisas que não passam de projeções fantasiosas. Mas não raras vezes o problema nem está em expectativas frustradas. Na verdade, a vida simplesmente tomou um rumo que, hoje, você olha e pensa: “putz, que droga!”. Você até tentou fazer tudo certo. Mas não deu.

O problema pode ser o casamento… Você tomou todo cuidado, escolheu alguém que tinha perfil para viver contigo… Conversaram bastante, pensaram estratégias para sobreviver às dificuldades, porém os anos foram passando, a distância foi aumentando entre o casal e hoje vocês parecem dois estranhos.

O problema pode ser os filhos… Você os desejava muito. Planejou tudo, criou com todo amor e carinho. Colocou na melhor escola que podia, entretanto talvez as amizades os levaram para longe. Talvez se comportem de um jeito que te decepciona, talvez usem drogas, talvez tenham se revoltado e virado as costas para sua fé…

O problema pode ser o trabalho… Você fez a faculdade que queria, investiu tudo nos estudos, mas, com o tempo, percebeu que as atividades que desenvolve não te fazem bem. Vive cansado pelas horas e horas no escritório, as ligações que recebe nos fins de semana, o serviço que precisa levar pra casa…

Há muitos outros motivos que podem levar-nos a concluir que a vida que temos é vazia, não faz sentido. Como eu sempre digo, não existe vida perfeita. Todos nós temos problemas. Porém, às vezes não é apenas uma área da vida que está comprometida. A pessoa olha para si, olha para os lados e nota que nada ali está funcionando bem.

Tem gente que até tenta corrigir o rumo. Mas arrumar algo no meio da vida é quase como querer consertar a turbina do avião em pleno voo. Não dá. O certo seria pousar o avião e começar tudo de novo. O problema é que, com a vida, isso não é possível. Às vezes a pessoa já tem filhos, carreira construída… E qualquer “ajuste” terá consequências. É como num jogo de xadrez: você mexe com a peça na expectativa de ser a melhor jogada, mas não pode controlar os próximos movimentos no tabuleiro.

Então o que resta fazer quando a vida está uma droga? Cá com meus botões, entendo que sempre há possibilidade de mudar. Se a gente se conhece, se sabe o que faz mal, dá para tentar melhorar. Porém, até as mudanças são limitadas. Nem tudo a gente controla. Existem coisas que nos afetam, mas também afetam pessoas próximas. E mexer com a vida da gente significa alterar o rumo da vida de outras pessoas. E até que ponto é justo que pessoas que amamos sofram por nossas escolhas?

Por isso, quando a gente se vê frustrado com tudo, triste pela vida que tem, é necessário aceitar que não vivemos num paraíso e nunca teremos tudo que sonhamos. O mais importante ainda é ter fé. Acreditar que existe Alguém que pode fazer por nós aquilo que não podemos. E seguir adiante… sem perder as esperanças.

Tem como consertar nossos erros?

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Não sei se sou prático demais, mas não me agrada ficar lamentando os desastres da vida. Sejam eles grandes ou pequenos. Entretanto, tem gente que parece não ser capaz de seguir adiante. A pessoa comete um erro e para de olhar pra frente. Fica voltando ao passado. Ou melhor, não abandona o passado.

E é interessante como essa forma de encarar a vida se dá a partir das pequenas coisas.

Derramou o leite? A pessoa fica ali tentando achar uma justificativa para o leite derramado… Queimou a roupa? Fica irritada com o ferro que está velho demais, com o filho que distraiu ou com o marido que nunca ajuda… Bateu o carro na garagem? Reclama que o arquiteto fez um projeto ruim, o vizinho estacionou mal… A comida estragou na geladeira? Acha ruim que ninguém lembrou de comer, briga com quem comprou demais, quer saber quanto tempo faltava pra vencer o produto…

Eu prefiro viver de outra forma. Derramou leite? Limpa. Queimou a roupa? Fazer o quê… Já foi. Bateu o carro? Vamos tentar prestar mais atenção pra não acontecer de novo. A comida estragou? Joga fora e fica o alerta pra evitar desperdício.

Nos relacionamentos, na vida profissional ou acadêmica, a gente também falha. E fracassa. A gente magoa pessoas, decepciona, trai… Perde vendas, troca de emprego na hora errada… Atrapalha-se, não se dedica o suficiente e perde o ano de estudos… Essas coisas acontecem. E nem sempre por que houve uma intenção.

Quando erramos, temos duas alternativas: ficar lamentando os erros cometidos ou desculpar-se pela bobagem, assumir as consequências e seguir em frente. As vezes, as bobagens que cometemos cobram uma conta muito alta. As consequências são variadas. E machucam. Ainda assim, o que dá pra fazer? Tem como reparar os erros? Não tem. O passado é passado. Foi um tempo vivido, mas que não tem como ser mudado. Entretanto, o futuro… a gente escreve. Se a gente ficar chorando os erros de ontem, perderemos a chance de tratar das feridas hoje e voltar a sorrir amanhã.

As lembranças que afetam o relacionamento

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Nossas ações e reações refletem as experiências vividas. A memória presentifica o passado e faz significar cada momento que experimentamos no dia a dia. Nada que fazemos, nada que recebemos está imune de sofrer o efeito do que já foi vivido. Interpretamos, inclusive as palavras e atitudes da pessoa amada, tendo como referência o que passou, os sentidos adquiridos em relacionamentos passados. E o romance de hoje, muitas vezes, torna-se vítima do passado.

Não se trata de um desejo, de uma busca por lembranças. Nem sempre se quer lembrar. Nem sempre se lembra conscientemente. Ainda assim, mesmo aquelas histórias silenciadas, já resolvidas afetam o romance. E isso acontece pelo inconsciente. Você esqueceu o outro, não sente, não ama mais. Não tem recordações que fazem suspirar. Porém, as marcas estão lá… E se fazem sentir nas suas atitudes e nas do parceiro atual.

Sabe aquele comportamento que tanto te irritava no ex e que você não suportava mais? Pois é… Um dia, o seu namorado reproduz. Nem é característica dele. É incomum. Entretanto, ele fez igualzinho. Você não lembrava que o ex agia daquele jeito. E nem lembrou do outro quando o atual fez a “bobagem”. Mas uma coisa você sabe. Ou melhor, você sente. Sente muita raiva, ódio. Tem vontade de xingar o parceiro. Quer socá-lo. A pessoa amada se assusta, não entende nada… Pede desculpas, mas você segue irritada. Quer brigar, gritar… É o efeito da memória se fazendo sentir.

Talvez tenha sido a primeira vez do “episódio” no relacionamento atual. Aparentemente, seria fácil desculpar, aceitar, tolerar. Mas a história se presentifica. E, pra você que sofre a ação negativa do parceiro, não é a primeira vez. Está lá na memória. Não havia acontecido com ele. Porém, na vida, é algo que está inscrito, guardado, registrado. Por isso, não suporta mais. Não quer que se repita. Falta paciência, disposição para tolerar.

Dentro da gente a coisa funciona mais ou menos assim: o relacionamento passado se desgastou por conta de uma série de coisas que faziam mal, então não quer mais experimentar “tudo de novo”. Claro, o coitado do parceiro não sabe nada disso. No entanto, ele vai “pagar” pelas coisas ruins que já foram vividas.

Não importa o quê serviu de “gatilho”. Pode ser a toalha jogada sobre a cama. Pode ser o prato sujo deixado na pia. Pode ser a camisa que ela queimou com ferro de passar. Pode ser a data do primeiro beijo que foi esquecida. Pode ser a falta de um presente no aniversário de namoro. Pode ser a resposta atravessada àquela pergunta que você fez por telefone. Pode ser o “não” que disse quando quis fazer amor… Ou a forma como te procurou na cama.

Não importa o quê. Frustrações passadas, que causaram marcas, cicatrizes, dores profundas… a gente não aceita viver de novo, experimentar outra vez. A pessoa amada pode até ter feito sem querer, mas vai sofrer as consequências das marcas que o passado deixou. E não dá para evitar a negatividade dessas memórias. Nem o efeito sobre o relacionamento atual. O que resta é dialogar consigo mesmo – para entender as motivações de certas reações – e com o parceiro – a fim de se prevenirem do retorno de comportamentos que despertam emoções que incomodam e fazem sofrer.

PS- Experiências ruins vividas com a família, com os pais, censuras recebidas ao longo da vida também podem estar na memória e afetar os relacionamentos. Cuidar do romance também é cuidar da memória e tratar dos traumas passados.

Como viver sem culpa?

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Não temos controle de tudo, mas é possível ter paz de espírito, viver livre das mágoas. A vida pode ser mais simples ou mais difícil, dependendo das nossas escolhas. A maneira como olhamos os desafios que temos vai determinar nossas ações e, principalmente, nosso estado de espírito. Ou seja, a angústia e o sofrimento podem ser menores ou maiores. A decisão é nossa.

Parece racional demais. Ou até auto-ajuda. Afinal, como já escrevi noutras ocasiões, a razão parece não comandar o coração. Entretanto, podemos conversar com nossos sentimentos. Esse diálogo interior ajuda a reorganizar os sentimentos.

Há coisas que acontecem conosco que não procuramos entender. Não questionamos os motivos, as razões. Acontece que, sem procurar resposta para as dores da alma, abrimos mão de viver melhor.

Às vezes nos pegamos tristes. Pode ser por causa de um relacionamento mal resolvido, de uma amizade desfeita, uma desavença com um professor… Ficamos recordando tudo que houve ou ainda existe de ruim, alimentando a dor interior. Sofremos durante dias – alguns, até por anos – por algo que poderia ser trabalhado, sublimado.

Mas como?

Em qualquer dessas situações, a primeira pergunta a responder é: “por que estou triste?”. Se o problema for identificado, a segunda pergunta é: “posso resolver?”. Se posso, “de que maneira?”.

Temos condições plenas de avaliar perdas e ganhos diante de qualquer situação. Se o caso for de um relacionamento, é preciso concluir: “vale a pena mantê-lo como está?”, “devo romper?”, ou ainda “invisto na reconstrução?”. Afinal, quais as consequências? Que consequências posso assumir? O que eu consigo fazer? Tem algo que posso fazer?

Precisamos compreender que a solução perfeita não existe. Nenhuma opção é livre de consequências. Todas terão graus variados de perdas e ganhos. Por isso, conformar-se é uma capacidade que deve ser desenvolvida.

Para alcançar novos sonhos, talvez alguns antigos terão de ser abandonados. Ninguém vive feliz se não compreender esse princípio da vida. O mundo nunca será perfeito. E nem a vida, cor-de-rosa.

Por fim, os erros de ontem nos servem de aprendizado. Não podem ser lembrados para alimentar a culpa. Ninguém volta atrás. Insistir na culpa é investir no passado e ignorar o futuro. Só reconhecemos que certas escolhas foram desastrosas porque as experimentamos. Do contrário, poderíamos nos arrepender por não tê-las vivido.