O educador deve acreditar que a mudança é possível

Este é mais um texto da série “Aprendendo com Paulo Freire”.

Paulo Freire sustenta que o educador deve acreditar que a mudança é possível. Para ele, o mundo não é assim, o mundo está assim. Há uma grande diferença entre ser e estar. Se o mundo não é assim, se o mundo está assim, significa que a face atual que conhecemos não representa a verdade do mundo, representa apenas a face assumida pela sociedade atual. E isso pode ser mudado.

Eu confesso que essa ideia de Paulo Freire é uma das que mais me confrontam. Sou educador. Preciso transmitir alegria e esperança, como disse em textos anteriores. E devo levar isso para sala de aula porque acredito que a mudança é possível. Mas, para mim, não é simples acreditar na mudança.

Veja… Quando olho para o mundo econômico, não consigo vislumbrar um cenário mais favorável às pessoas. O que vejo é o aumento da concentração de riquezas, a escalada da desigualdade, a fragilização cada vez maior das leis que protegem os trabalhadores, empregos precários, fechamento de postos de trabalho, sistema previdenciário injusto…

No mundo político, os embates revelam apenas a luta pelo poder. A lógica de favorecimentos aos grupos “amigos” e aos poderosos é muito semelhante ao que a sociedade vivia ainda na antiguidade e no regime feudal, durante a Idade Média.

Se volto o olhar para a educação, vejo escolas públicas com estruturas precárias, professores mal remunerados e, muitas vezes, pouco qualificados para ensinar – além de pouca paixão pelo ato de ensinar. A proposta pedagógica do país é inadequada para realidades tão distintas e, na tentativa de oferecer uma quantidade enorme de conteúdos, não é eficaz no básico: ensinar bem a ler, escrever e fazer contas.

Porém, Paulo Freire tem razão… O Brasil não é assim, o mundo não é assim; as coisas estão assim, porque homens e mulheres deram ao mundo essa cara. E é possível mudar. Nada é estático. Tudo pode ser alterado. Basta querer.

Porém, quem realmente está comprometido com a mudança? Quem está, de fato, empenhado em romper com os próprios interesses e promover o bem comum?

O egoísmo que nos é natural parece nortear as escolhas e motivar mais injustiças. Cada um quer o melhor pra si, não para o coletivo.

É neste cenário que Paulo Freire afirma: ensinar exige a convicção de que a mudança é possível.
Note, trata-se de uma exigência. Exigência de convicção.


E por que é necessário ter convicção na mudança? Porque quando o educador acredita que é possível mudar, ele entra em sala e contagia as futuras gerações; o professor motiva os alunos a serem os agentes da mudança.

Se nós, adultos, somos incapazes de alterar as coisas, nossos filhos e filhas podem construir uma sociedade mais justa. Mas, para isso, carecem de professores e professoras que não apenas ensinem conteúdos para formar mão de obra especializada. Eles precisam de educadores que plantem boas sementes em seus corações, sementes de esperança e de compromisso com a construção de um mundo melhor.

Ensinar exige segurança, competência…

Este é 19o texto da Série Aprendendo com Paulo Freire.

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Quem compartilha uma informação, deve estar seguro daquilo que diz, precisa ter certeza de que o conteúdo que está oferecendo para o outro é um saber válido, comprovado.

Infelizmente, nem sempre é isso que acontece. Em tempos de fake news, o que menos se faz é confirmar a veracidade da informação.

Entretanto, quem ensina, quem se dispõe a entrar numa sala de aula para contribuir com o processo de formação de outra pessoa deve estar plenamente comprometido com sua atividade profissional e, principalmente, possuir o domínio do conteúdo que está oferecendo aos seus alunos; é fundamental que tenha convicção que conhece o assunto e suas diferentes interpretações. Isso assegura uma aula produtiva e o desenvolvimento do educando.

De acordo com Paulo Freire, “o professor que não leve a sério sua formação, que não entende [o tema sobre o qual ensina], que não se esforce para estar à altura de sua tarefa não tem força moral para coordenar as atividades de sua classe”.

Todo professor deve ter segurança dos temas sobre os quais ensina. Para isso, não basta ter feito uma faculdade, especialização, mestrado, ou quem sabe, até o doutorado. A segurança é conquistada com o estudo diário, a atualização constante do conhecimento.

Ao professor, não cabe a ideia de que basta um dia ter aprendido para se dispor a ensinar. Também não são os anos em sala de aula ensinando as mesmas coisas que garantem a eficiência no exercício da educação.

Na minha experiência docente, mesmo em disciplinas que leciono há quase 15 anos, nunca repeti exatamente a mesma aula. A cada ano, atualizo as minhas leituras sobre os assuntos, vejo novidades, sento diante do computador e refaço parte das aulas ou até mesmo crio aulas completamente novas e arquivo outras.

Como professor, devo ter consciência que aquilo que compartilho em sala de aula fará parte dos conhecimentos de meus alunos e alunas.

O professor atualizado, com domínio dos saberes, conectado com a realidade, tem confiança. E isso impacta positivamente o processo de ensino-aprendizagem. O aluno percebe quando o professor tem segurança. E respeita esse professor.

Por isso, Paulo Freire é bastante contundente ao falar sobre a competência de quem se dispõe a assumir a docência. Para entrar em sala, não basta ter se formado; é necessário ter competência. E a competência se revela num processo contínuo de formação, de esforço para executar com propriedade seu papel. Do contrário, não tem força moral para estar em classe.

Ensinar exige curiosidade

Este é o 18o texto da série Aprendendo com Paulo Freire.

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Meu encantamento por Paulo Freire se deve à beleza de seu pensamento. Semanas atrás, ao tratar em sala de aula sobre como o conhecimento é produzido, um aluno levantou a mão e disse:

  • Professor, partindo dessa ideia, tenho a impressão que a escola brasileira nunca ensinou de fato. Afinal, os conteúdos oferecidos quase nunca têm conexão com a realidade dos alunos. Há uma distância enorme entre o que é ensinado e o que as crianças vivem no dia a dia delas.

O comentário desse futuro jornalista foi certeiro. A beleza e simplicidade do pensamento de Paulo Freire não estão presentes como prática pedagógica na escola brasileira. E sabe por quê? Porque não dá para sistematizá-lo em procedimentos padrões que possam ser repetidos por todos os professores. Educar, tendo Paulo Freire como referência, é viver a educação como uma filosofia de vida em que há espaço para a luta, para a esperança, para o respeito ao indivíduo e para o contínuo encantamento pela diversidade de saberes e ideias.

Veja, por exemplo, o tema de hoje de nossa conversa: ensinar exige curiosidade. Em princípio, esse pressuposto parece bem básico. Afinal, sem curiosidade não há aprendizado. E o professor que não está aprendendo todos os dias não é um bom educador. A vida é movimento. E aprender sempre é quase uma obrigação.

Entretanto, a curiosidade sobre a qual Paulo Freire fala vai além da simples vontade de descobrir mais. Observe o que ele diz:

“Nenhuma curiosidade se sustenta eticamente no exercício da negação da outra curiosidade”.

Aqui fica claro que, na perspectiva freireana, educar não significa impor um pensamento. Enquanto eu me movimento pela descoberta do novo não posso negar ao outro o direito de descobrir de outra maneira, também a respeito de outras coisas, de outros saberes. Ou seja, não posso impor a minha curiosidade sobre a outra pessoa.

Veja o que ele também afirma: “A curiosidade que silencia a outra se nega a si mesma também”.

Lindo, né? Lindo e, por sua simplicidade, torna-se complexo de viver e praticar.

Professor e alunos devem se assumir curiosos. E uma curiosidade que permita a abertura para todos os saberes, sem julgamentos prévios, preconceitos, rejeições…

Não há em Paulo Freire lugar para verdades prontas – sejam elas filosóficas, políticas, científicas etc. O educador que deseja ensinar tendo as ideias dele como referência deve estar constantemente aberto ao questionamento, a dúvida. Tendo como parâmetro a ética e o bom senso, deve permanecer curioso em aprender, sem negar o valor de nenhum tipo de saber.

Ensinar exige alegria e esperança

Este é o 17o episódio da série “Aprendendo com Paulo Freire”.

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É dever do educador manter-se alegre e promover a alegria entre seus alunos. Mais que isso, o professor deve ser um agente de esperança.

Esta filosofia é mais uma contribuição de Paulo Freire para a educação.

A ideia de que ensinar exige alegria está intimamente relacionada à esperança. Por ter esperança no futuro, existe alegria no presente.

Mas como ter esperança em meio ao caos, às injustiças, desigualdades e tantas outras mazelas que afetam inclusive o ambiente escolar?

Segundo Paulo Freire, o educador não deve ser um sujeito alienado. Observar a realidade, ser um crítico dela, permitir-se ter raiva das injustiças e lutar contra elas são atitudes inerentes ao trabalho do professor. Porém, justamente por atuar com a educação, o professor deve ser alguém que promove a esperança.

Afinal, se existe alguma razão para se alegrar num mundo injusto, violento, desigual, esta é a esperança de que o futuro pode ser melhor.

E como isso seria possível? Por meio da educação.

A educação muda as pessoas. E pessoas mudam o mundo, afirma Paulo Freire.

Se o ensino é a ferramenta principal da educação, todo professor é um instrumento que contribui para que as pessoas mudem e o mundo possa ser melhor.

Acreditar que a educação é transformadora e que o seu trabalho contribui para tornar o mundo mais justo, humano, tolerante e inclusivo faz com o que o professor tenha esperança e a promova entre os alunos, contagiando-os.

Essa esperança faz com que cada dia em sala de aula seja acompanhado do brilho dos olhos que nasce na confiança de que dá para ter menos desigualdade, menos corrupção, menos mentira…

É a esperança de um mundo que assegure relações mais justas, mais respeitosas… A esperança de um mundo assim alegra o coração. Faz com que o ato de ensinar tenha sentido, tenha um propósito real. Um propósito de vida para as pessoas. E sentir que a vida não é vazia, de que não precisa ser uma caminhada tão dolorosa faz as pessoas sorrirem hoje, mesmo em meio ao caos.

É dever de todo educador lutar por condições dignas e salários melhores

Este é mais um texto da Série “Aprendendo com Paulo Freire”.

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Ainda que o salário não seja a única maneira de reconhecer o trabalho de um profissional, a remuneração continua sendo uma importante medida para dizer que aquele trabalho e aquele trabalhador fazem a diferença.

Historicamente, a questão salarial é uma das grandes fragilidades da educação brasileira. Embora existam professores e trabalhadores do setor que sejam bem remunerados, principalmente em algumas instituições de ensino superior, a grande maioria dos professores e servidores – da educação infantil, ensinos fundamental e médio, além de certas faculdades – ganha um salário que está longe de assegurar o mínimo necessário para que o trabalhador se sinta relevante. E, principalmente, para que consiga investir em si mesmo como profissional.

Quando os setores público e privado pagam mal um trabalhador da educação, de certo modo, estão dizendo para a sociedade que aquele trabalho não importa. E uma das consequências imediatas é a desmotivação. Outra, talvez ainda pior, é o efeito sobre o restante da sociedade. De fora, as pessoas olham para quem é da educação como coitadinhos ou de maneira pouco respeitosa. Afinal, o dinheiro tem sido uma marca de sucesso. Isso acaba provocando uma terceira consequência: poucos adolescentes e jovens têm interesse em se tornarem professores, em trabalharem com a educação.

Para o educador Paulo Freire, justamente pela importância que o trabalho docente possui e em função do pouco reconhecimento salarial, é dever de todo trabalhador da educação lutar por condições dignas e salários melhores. Quando se silencia diante das injustiças salariais praticadas contra a categoria, torna-se co-responsável por tudo que acontece de negativo. Sua passividade ajuda a perpetuar o desrespeito, a indignidade a que são submetidos professores e servidores.

Por isso, para Paulo Freire, o comprometimento com a luta por salários e melhores condições de trabalho é um dever ético. Sua luta não é por um interesse meramente pessoal, individual; trata-se de luta em favor da dignidade da prática docente e da valorização da educação como um bem de toda a sociedade.

 Foto: Laís Semis/Nova Escola

Cuidar bem da escola é uma atitude de respeito aos alunos e professores

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Ao longo dos anos, o Estado brasileiro frequentemente tem negligenciado uma premissa básica para o sucesso do processo de ensino-aprendizagem: o cuidado com as condições ambientais, higiênicas e estéticas da escola.

Gente, é nocivo para o ensino e para a aprendizagem o descuido com a escola. Não basta pagar excelentes salários, oferecer material didático de qualidade e ignorar o cuidado com o local onde se dá todo o processo de ensino-aprendizagem. É fato que, no Brasil, salários e material didático também são um problema. Como também são problemáticas as diferentes propostas pedagógicas em vigor. Entretanto, teríamos um salto de qualidade na eficácia do trabalho do professor e no aprendizado do aluno se a escola estivesse muito bem cuidada. Certamente, seria um primeiro e importante passo na busca por melhorias na educação.

Calor ou frio em sala de aula, espaços mal ventilados, carteiras velhas e quebradas, portas defeituosas, equipamentos que não funcionam, quadros velhos que ninguém consegue apagar adequadamente, ambientes sujos e paredes com rachaduras e pinturas antigas, desbotadas, sanitários que não funcionam, pátios inadequados, quadras esportivas envelhecidas, sem piso adequado para a prática das atividades – algumas inclusive sem cobertura… Essa lista é um pouco do quadro atual que encontramos em muitas das escolas brasileiras – incluindo universidades (temos salas de aulas que precisam ser desocupadas quando chove).

Esse cenário mexe com a motivação do professor e do aluno, prejudicando a aprendizagem.

Eu costumo fazer uma analogia simples: por que nos preocupamos com as cores da nossa casa, com a qualidade do piso, o revestimento do banheiro, os detalhes do acabamento? Não bastariam as paredes, o telhado, sanitários e alguns mobiliários? Investimos tanto no espaço doméstico porque queremos sentir prazer, satisfação quando estamos ali. A gente quer se sentir bem em casa. Um espaço esteticamente adequado, higiênico, produz alegria, bem-estar.

Mas e a escola? Como se sentir bem num ambiente em que reina o abandono?

Paulo Freire tratou disso em suas discussões. Num de seus textos, ele afirma:

“O professor tem o dever de dar suas aulas, de realizar sua tarefa docente. Para isso, precisa de condições favoráveis, higiênicas, espaciais, estéticas, sem as quais se move menos eficazmente no espaço pedagógico. Às vezes, as condições são de tal maneira perversas que nem se move. O desrespeito a este espaço é uma ofensa aos educandos, aos educadores e à prática pedagógica”.

Acho essa última frase extremamente relevante. Quando o espaço escolar não possui boas condições estéticas, estruturais e higiênicas, professores e alunos são desrespeitados e a prática pedagógica fracassa.

Ensinar exige bom senso

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Não faz muito tempo que me encontrei diante de um impasse para avaliar um aluno. O regulamento para casos como o daquele acadêmico listava algumas regras que resultariam na reprovação já no processo preliminar de fechamento da disciplina. Mas, olhando para o histórico dele, o desempenho, o esforço empreendido e conhecendo as condições externas que o afetavam naquele momento do curso, era nítido que o regulamento, se aplicado, levaria a uma injustiça. O que fazer nesses casos? Uma única resposta: ter bom senso!

O bom senso não existe nos manuais; não é uma regra explícita, textual, mas, na prática pedagógica, é essencial.

O educador brasileiro Paulo Freire é o responsável por discutir esse tema. Para ele, quem ensina precisa ter bom senso.

O bom senso é a sensibilidade que todo o educador deve ter; trata-se da capacidade de olhar para além das regras, do que dizem os regimentos e ver as condições que envolvem os processos de ensino, aprendizagem e o próprio contexto que envolve o aluno.

Essa capacidade de avaliação, para além das aparências, é baseada na capacidade de enxergar o outro, de ter empatia, de se importar com o aprendiz. Também requer uma vivência ética, a busca por equilíbrio e justiça – sem ser frio e legalista.

Todo professor exerce autoridade em sala. Ele toma decisões, orienta atividades, estabelece tarefas, cobra a produção individual e coletiva do grupo. Isso faz parte de seu papel. Não é sinal de autoritarismo; é obrigação do professor. Por outro lado, no cumprimento do seu dever, é fundamental transcender ao formalismo insensível que o “faz recusar o trabalho de um aluno por perda de prazo, apesar das explicações convincentes do aluno”. Nem sempre uma segunda chance é displicência ou desinteresse em ensinar. Muitas vezes, acolher um aluno que parece ter falhado no percurso da aprendizagem é uma maneira de dizer a ele que vale a pena tentar de novo; é garantir o incentivo necessário que pode definir o sucesso futuro ou o fracasso do aprendiz.

O ensino envolve afetos. O ato de ensinar e o de aprender não são mecânicos. Por isso, o bom professor sempre será aquele que vai além dos planos pedagógicos, dos regimentos institucionais… O educador é quem se importa com o aprendizado do outro e, para isso, exerce o bom senso – algo que não cabe em papel. Afinal, na busca da coerência com a própria dinâmica da vida, o bom senso é a transformação do amor ao saber e do interesse real pelo aluno numa prática virtuosa de educação.

É tolerável que um professor ridicularize os conhecimentos de um aluno?

Este é mais um texto da Série “Aprendendo com Paulo Freire”.

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É tolerável que um professor ridicularize os conhecimentos de um aluno? Poderia, talvez, fazer piada com alguma característica física ou mesmo sotaque de uma pessoa?

O mais importante educador brasileiro, Paulo Freire, é radical quanto a esse tipo de comportamento. De acordo com ele, ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando – seja criança, jovem ou adulto. Nada justifica que o educador se coloque num lugar superior, como sendo maior, mais importante que o educando.

Freire sustenta: “o respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”.

A declaração de Paulo Freire é belíssima. Note, o respeito à autonomia e à dignidade é um imperativo ético; não há exceções, condicionamentos. É dever, obrigação de todo educador. O pensador nos coloca diante de grande importância: o educando deve ser visto como um igual, um ser que possui os mesmos direitos e deveres que o educador. Nada que o educador possua – sua fama, títulos, livros publicados etc. – justifica qualquer atitude rude ou agressividade verbal, tampouco dá ao professor o direito de atacar ou desqualificar os saberes e/ou crenças que o educando possui.

Lamentavelmente, há professores que, embasados em suas teorias, atacam alunos por seus posicionamentos. Existem relatos, por exemplo, de ironias e piadas com as crenças religiosas de alunos. Há informações conhecidas de alguns que se sentiram ridicularizados por professores em salas de aula de universidades em função da fé que possuem. E esse é só um exemplo. Para Paulo Freire, esse tipo de atitude é um desvio ético, uma transgressão ao compromisso de educar.

Segundo Paulo Freire, o professor falha em seu papel quando “desrespeita a curiosidade do educando, o seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, mais precisamente, a sua sintaxe e a sua prosódia”. Ou seja, nenhuma característica do aluno, inclusive relacionadas à cultura ao gosto estético, justificam atitudes de ironia, risos, piadas…

Entretanto, Paulo Freire vai além. Ele diz que “o professor que ironiza o aluno, que o minimiza, que manda que ‘ele se ponha em seu lugar’ ao mais tênue sinal de sua rebeldia legítima, tanto quanto o professor que se exime do cumprimento de seu dever de propor limites à liberdade do aluno, que se furta ao dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiência formadora do educando, transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência”.

Observe, caro leitor, que até mesmo os questionamentos mais atrevidos devem ser acolhidos pelo professor. A suposta rebeldia não lhe dá o direito de ridicularizar ou desrespeitar as crenças que o aluno possui.

Ao abordar sobre o respeito à autonomia do ser, Paulo Freire ainda trata da discriminação. Segundo ele, “qualquer discriminação é imoral e lutar contra ela é um dever por mais que se reconheça a força dos condicionamentos a enfrentar”. Discriminações de raça, do homem em relação à mulher e até mesmo econômicas são imorais e não combinam com a educação. Por isso, além de não ser um agente de discriminação, é papel do educador combater toda e qualquer forma de discriminação dentro e fora da sala de aula.