Como viver quando faltam certezas?

incertezas

Há momentos em que tudo que temos são dúvidas. O que fazer? Como fazer? O que decidir? Como decidir?

A vida é incrível. E também por isso. Não há rumos certos, definidos e definitivos. Mas judia do coração não saber o que fazer. Ou por onde começar.

Muitas vezes, até temos noção do que nos faz bem. Porém, temos medo, insegurança. E o que parece nos fazer bem também traz perigos. Olhamos para um lado, olhamos para o outro e nada se apresenta como concreto, como seguro.

E segurança é uma das coisas que mais carecemos. Faz parte de nossa natureza. Por isso, flutuar por um universo que não nos oferece nada muito firme, sólido, causa um enorme vazio.

É bom quando as coisas parecem conspirar a nosso favor e tudo se mostra de maneira clara: este é o caminho, é o certo a fazer. Entretanto, a vida não é simples assim.

Às vezes, estamos insatisfeitos com a carreira, mas há tantas coisas envolvidas que não sabemos como agir. Outras vezes, sentimos a necessidade de mudar alguma coisa no ambiente familiar, mas não temos ideia de como resolver. Há situações que envolvem o relacionamento, mexem com as emoções, desestabilizam, porém, faltam iniciativas. E todas supostas soluções que aparecem se mostram ruins, inclusive deixar como está.

Quando faltam certezas, resta-nos esperar. É ruim. Cansa, desgasta, faz sofrer. A ansiedade incomoda. E com a ansiedade se mistura a insegurança. Ficamos atordoados. Afundamos na ausência de boas expectativas. No entanto, ter calma, paciência é a única atitude sensata. Quando faltam certezas, decisões geralmente são precipitadas e bastante arriscadas. Ter fé e esperança ajudam a esperar.

É preciso se aceitar

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Gosto demais da palavra “aceitar”. Em especial, gosto do que ela significa. Nos relacionamentos, por exemplo, representa entender o outro, acolher o outro, tolerar alguns defeitos… Aceitar que a perfeição não existe. Mas, antes de conjugar o verbo na relação, é fundamental aplicá-lo a nós mesmos. Precisamos nos aceitar.

Semanas atrás ouvi alguém se lamentar. É uma pessoa que cometeu erros no passado, muitos deles ligados à personalidade, ao seu jeito de agir diante da vida e até no trato com a família, amigos, colegas de trabalho.

– Talvez um dia eu consiga mudar.

A frase trazia um tom triste. Era como se estivesse lutando, lutando… Porém, ainda faltasse muito para tornar-se quem realmente quer ser.

Reconhecer nossas fragilidades é o primeiro passo; o segundo, é querer mudar. Se a gente identifica os defeitos e deseja superá-los, há chance de ser melhor, de tornar-se uma pessoa melhor. No entanto, também é necessário se aceitar. Não adianta viver se lamentando. Muito menos achar que “num estalar de dedos”, vai estar mudado, será outro. Os erros que cometi ontem poderão ser repetidos amanhã – nem sempre por uma decisão deliberada, mas por hábitos adquiridos.

Crescimento é isso: aprender com os erros, aperfeiçoar-se, tornar-se um ser humano melhor.

Estar insatisfeito com certos comportamentos é condição necessária para ser diferente. Ainda assim, é preciso entender que todos nós temos coisas para trabalhar. Ninguém está pronto. Nunca estará. Não adianta “deprimir”.

Neste sentido, há uma doutrina cristã que pode ser aplicada aqui. Segundo o pensamento bíblico, como pecador que é, o homem nunca será santo, mas deve buscar incansavelmente a santificação. Acho que o processo é mais ou menos esse mesmo: temos defeitos, mas, se desejamos mudar, podemos mudar. A mudança, porém, é uma conquista diária. É devagar… Um passo de cada vez. E também nisto consiste a beleza da vida: a cada dia temos um novo desafio a vencer – ainda que seja apenas dentro de nós, em nossa luta interior.

Não existem finais felizes

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Os contos de fadas nos enganaram. Também pouco ajudam as histórias do cinema, os finais de novela. Eles falam de finais felizes, mas a vida está longe de terminar em “happy end”.

Crescemos envoltos numa atmosfera de heróis, príncipes, princesas. Disseram pra gente que a prosperidade estava logo ali. Falaram pra gente sobre felicidade. Nos fizeram acreditar que tudo sempre termina bem.

Eu gosto de acreditar que tudo vai terminar bem. Mas quando termina? Sabe, existem problemas sem solução. Tem situações que aparecem que exigem muito de nós, nos esgotam, causar suor e lágrimas. Mesmo assim, vão continuar ali. Não há o que fazer. Pode ser um caso de doença, uma casa velha, um parente problemático… Há relações difíceis, pessoas com as quais teremos que conviver por toda vida.

Quantos investem seus dias num sonho, numa carreira, num projeto e nunca conseguem realizá-los? Quantos carregam uma frustração por não terem se casado com a pessoa amada? Quantos têm que conviver anos a fio com uma doença limitante, que os impede de comer o que gostam, de praticar atividades físicas ou até de fazerem sexo?

A vida é complicada. É cheia de altos e baixos. E as pessoas podem ser boas e más, ao mesmo tempo. Nós somos assim. Todos nós podemos fazer sorrir e fazer chorar. Muitas vezes agradamos; outras tantas, decepcionamos. Não existe uma linearidade. Ninguém segue um único caminho. Há desvios, tropeços… E alguns problemas são maiores que nossos esforços ou estão acima das potencialidades das ciências.

Reconhecer que as coisas podem dar errado, admitir que, muitas vezes, nos decepcionaremos são atitudes que nos ajudam a viver melhor. O mundo “cor-de-rosa” não existe. Aceitar o que temos, e até mesmo as nossas limitações e também a dos outros, pode ser o primeiro passo para vivermos em paz.

Estresse no romance encurta a vida

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Uma das razões pelas quais escrevo sobre relacionamentos é porque entendo que a vida acontece na dinâmica da convivência com o outro. Embora entenda que é possível ser feliz sozinho, a gente quer mesmo ter alguém por perto pra tocar, sentir, amar. E quando essa dinâmica não funciona, a gente não funciona. Tudo parece se complicar quando o romance não vai bem.

Entretanto, uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Copenhague, Dinamarca, revelou que não apenas as emoções ficam abaladas quando o relacionamento tem problemas. Casais que brigam demais abrem mão de viver em paz, abrem mão de viver mais. Após observar 9.870 pessoas entre 30 e 60 anos, num período de 11 anos, os estudiosos descobriram que relacionamentos estressantes triplicam o risco de morte. Ou seja, um relacionamento ruim destrói as emoções e encurta a vida.

Pior, a morte quase sempre acontece porque o cenário ruim do relacionamento mexe com as emoções e, ao fazer isso, provoca doenças – como o câncer. Na verdade, o que acontece é justamente a reprodução de uma lógica que já ocorre noutras situações: quando as emoções vão mal, o corpo sofre, doenças surgem. Pode começar com irritação, dores de cabeça mais freqüentes tonturas, gastrite… E os quadros se desenvolvem para depressão, câncer, doenças hepáticas, doenças do coração. Um relacionamento ruim aumenta, inclusive, as chances da pessoa se suicidar.

Outras pesquisas já demonstraram que vive mais quem tem um casamento calmo, maduro, de parceria, de segurança… Curiosamente, até quando ficam doentes, os casados têm mais chance de descobrirem o problema precocemente, tratarem-se e se curarem. E nós homens somos os principais beneficiados – justo nós que temos menor expectativa de vida. Portanto, investir num relacionamento que administra os conflitos, que se desenvolve em harmonia, também é investir em qualidade de vida e numa velhice mais longa e muito melhor.

Viver em paz

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Tem comentários cotidianos cheios de verdade, mas que, por vezes, ignoramos. Um que gosto bastante é sobre nossa condição anatômica: temos dois ouvidos e apenas uma boca. Isso sugere que deveríamos ouvir mais e falar menos.

Com frequência, a gente faz justamente o contrário: fala mais e ouve menos. E mesmo quando silencia, não ouve. Tem uma passagem bíblica na carta de Tiago que é traz um conselho precioso.

– Lembrem disto, meus queridos irmãos: cada um esteja pronto para ouvir, mas demore para falar e ficar com raiva (Tiago 1:19).

Consegue perceber a dimensão da orientação? Primeiro, a gente deve ouvir mais que falar. Segundo, a gente deve ter disposição para ouvir. Terceiro, a gente deve refletir antes de falar. Por fim, a gente deve ter controle das emoções.

Quando eu era garoto, meu avô usava uma expressão que eu achava o máximo. Ele dizia “quem fala demais, dá bom dia a cavalo”. Bom, não sei bem o que significa dar bom dia a um cavalo, mas sei o que ele queria dizer. Seo Américo sustentava – e praticava – a tese que é mais prudente falar pouco. E, ao recordar dele, posso assegurar que a “regra” funciona. Meu avô era um homem que tinha autoridade e era respeitado. Justamente por falar pouco, geralmente não magoava as pessoas. O que ele verbaliza parecia ser estudado, resultado de uma reflexão. Por isso, quando abria a boca, a gente sabia que era algo importante; deveríamos ouvi-lo.

Na verdade, esse também é um dos problemas de falar demais: as palavras se tornam banais, vazias. Perdem força. Há pressa, ansiedade em falar, falar e falar.

Entretanto, mais que ter cuidado com o que se fala, é desafiador se manter disposto a ouvir. A gente tem fôlego pra falar, mas pouca paciência em ouvir. E estar pronto para ouvir é estar preparado para ser ofendido, inclusive. Ou para escutar coisas que desagradam, que não nos interessam. Num momento de intolerância e egoísmo, quem se prontifica a ouvir? E nem digo de ouvir num confronto; falo, por exemplo, do ato de ouvir alguém que precisa desabafar. Na verdade, as pessoas hoje parecem não se importar uma com as outras. No confronto, a situação tende a ser muito pior.

O que me parece ainda mais difícil é controlar as emoções. Como não ficar com raiva se aquilo que ouvi me ofende ou agride pessoas que amo? Como ter disposição para ouvir, demorar-se pra responder e pra ficar com raiva? Posso garantir que sou um sujeito bastante controlado. Contudo, estou distante demais de combinar essas “habilidades” do conselho do apóstolo Tiago. Parece quase uma utopia. Como viver dessa maneira? Sinceramente, não sei. Ainda assim, para além de uma crença religiosa ou de ser um ensino bíblico, sei que se trata do jeito certo de viver. Se praticássemos o que está nesse texto, viveríamos bem melhor, faríamos bem às pessoas com as quais nos relacionamos e certamente a convivência com os outros se tornaria mais prazerosa.

Na segunda, uma música

Michael Jackson não foi apenas o rei do pop. Ele era gênio. Compôs músicas incríveis. E fez mais… Era detalhista na criação de cada clip, de cada espetáculo.

Entretanto, hoje não destaco o artista ou conjunto da obra, mas trago uma de suas canções pela importância do discurso. “Heal the world” expressa o desejo de um lugar melhor pra se viver.

E acho que essa é uma vontade de todos nós. As coisas não andam boas. Não se trata de um problema da economia. Não é a tecnologia. É o ser humano que parece menos humano, menos gente. Estamos menos sensíveis, mais egoístas, cruéis. Por isso, um mundo melhor deveria ser mais que uma vontade; deveria ser uma busca real, um clamor de todos nós.

Há caminhos para chegar lá
Se você se importa o suficiente com a vida
(…)
Cure o mundo
Faça dele um lugar
Para você e para mim
E toda a raça humana

Michael Jackson aponta o caminho para se construir um mundo melhor. Só o amor transforma. Só o amor nos faz humanos.

O amor não pode mentir
O amor é forte
E só nos dá dádivas alegres
Se nós tentarmos, nós veremos
Nesta benção
Não podemos sentir medo ou temor
Paremos o existir e comecemos o viver
Em seguida, sempre sentiremos
Que o amor é suficiente para nós crescermos

Para ouvir e pensar, Michael Jackson… A gravação foi feita num show do cantor em Munique, Alemanha, em 1997.

Por que o outro não pode ser diferente?

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Deveríamos nos dedicar em promover a paz, a igualdade na diversidade

Não entendo a intolerância. A resistência ao outro. Não compreendo o prazer em humilhar o diferente. Enquanto navegava na rede, encontrei uma notícia sobre homossexuais agredidos por jovens russos. Os atos foram publicados na internet. Os rapazes gays foram, inclusive, obrigados a beber urina. Tudo filmado e colocado na rede.

Claro, houve reação em vários lugares aos atos de humilhação. Muita gente pede punição aos agressores.

Crimes como esses – e outros tantos cometidos contra homossexuais, prostitutas, negros, mendigos etc – não podem ficar impunes. A pena contribui para conter um pouco os impulsos criminosos. Evita a manutenção daquela sensação de que “pode fazer, porque nada vai acontecer”.

Mas o que me incomoda é a motivação. A punição não elimina o desejo de fazer mal.

Por que o outro não pode ser diferente de mim? Por que não posso aceitá-lo? Se não consigo amá-lo, por que não dou conta de pelo menos respeitá-lo? Por que preciso fazê-lo sofrer por não ser o que eu entendo como normal?

Na história da humanidade, esse tipo de comportamento sempre existiu. A nossa natureza má que se materializa em ações contra o outro. Quem é diferente nada fez contra a sociedade, mas o fato de ser diferente, parece uma afronta. Por isso, há o desejo de atacá-lo, até eliminá-lo.

Nessas horas, dá vergonha de ser gente.

Não é raro ouvir em rodinhas de amigos um e outro ridicularizando um colega de trabalho gay. A garota que é lésbica. O menino que fala errado. Se a piada já é um ato de pura maldade, torna-se incompreensível quando existe ódio. E o ódio transparece em ações como desses jovens russos. Também é declarado nos assassinatos de homossexuais que acontecem todos os dias no Brasil.

Eu não entendo isso. Não entendo o prazer em humilhar, o prazer em agredir, a vontade de extirpar. As vítimas são pessoas. Gente como a gente. Talvez não se encaixem no padrão da maioria. Mas e daí? Qual o problema?

Se me incomoda, se não combina com minhas crenças… preciso “convertê-lo”, mudá-lo, fazê-lo sofrer, eliminá-lo?

Cá com meus botões, resumo isso tudo como insegurança, medo, medo do diferente, intolerância, ausência de amor. Essas pessoas se colocam no lugar de um Deus, se acham justas e superiores a ponto de estarem revestidas do direito de “limpar” a Terra. Limpar do quê? Deveriam lutar por mais respeito, dignidade, aceitação, igualdade na diversidade.