Perdoar é uma escolha dos fortes

É muito difícil perdoar. Às vezes, somos magoados de maneira tão profunda que a simples lembrança traz sentimentos horríveis e nossa vontade é encontrar uma forma de vingar-se da outra pessoa.

Entretanto, por mais que o desejo de vingança seja a reação natural diante de algo que nos feriu tanto, o que nos diferencia como humanos é justamente a capacidade de perdoar.

Perdoar é uma escolha dos fortes. É preciso decidir perdoar. Apenas quem conta com forças superiores dá conta de perdoar. E perdoar liberta. Liberta da mágoa, da ferida e nos ajuda a seguir vivendo.

O desejo de vingança

Viver é perigoso, dizia Guimarães Rosa. Embora experimentemos muitas coisas boas, emoções indescritíveis, a vida também nos machuca. Machuca pelas perdas… Machuca pelos danos sofridos nas relações.

Não são raras as vezes que somos profundamente magoados por pessoas próximas. Parentes ou não. Amigas e não amigas.

Talvez pela minha personalidade, por não me expor tanto, vivi poucas situações em que fui humilhado, agredido verbalmente… Mas ainda assim esses episódios me deixaram triste, com raiva, ódio. Quando recordo, ainda dói. E já desejei muita coisa ruim para essas pessoas.

A ofensa é tão danosa que, dependendo do impacto causado, gera tantos sentimentos que fica difícil controlá-los. A vontade de vingança é talvez o maior deles.

A pessoa que humilha, agride, ofende, geralmente esquece. Com o tempo, até acha que tudo não passou de uma bobagem. A vítima, não. A vítima sofre com as lembranças. E a vontade de ver o agressor punido é enorme.

Sim, a gente quer que o outro sofra também. Sofra como a gente sofreu. Quem sabe, sofra até mais.

De alguma maneira, queremos que a pessoa talvez possa aprender que não pode fazer o que fez.

E não estamos errados em sentir o que sentimos. O desejo de vingança é legítimo. É humano. A raiva, o ódio… A vontade de ver o outro ferido, chorando como choramos… Esses desejos são naturais.

Mas sabe de uma coisa? Raramente podemos efetivamente nos vingar. E, mesmo quando isso é possível, podemos até nos alegrar em ver a perda do outro, mas ela não repara o dano primeiro que foi causado. A ferida ficará para sempre em nós. Talvez sintamos prazer de saber que o agressor foi “punido”. Porém, as marcas deixadas pela humilhação sofrida sempre estarão conosco. O medo, a insegurança, a desconfiança… O receio de que volte a acontecer.

Então qual o melhor caminho? Perdoar. Perdoar não por causa da outra pessoa; perdoar por nós mesmos. Perdoar para não carregarmos o peso da mágoa, do desejo de vingança e até da culpa por nos apequenarmos em tentar retribuir na mesma medida a agressão sofrida.

Perdoe-se!

Viver nunca foi fácil. E nunca será. Mas tem gente que gosta de complicar. Sei que a pessoa provavelmente não tem culpa, nem percebe o que faz. Ainda assim, por que não consegue olhar para frente e deixar de se cobrar pelos erros cometidos?

Tenho comigo um princípio: erros cometidos são parte do passado. E se são passado, passaram. Já foram. Devem ser enterrados. A bobagem que fiz ontem pode ainda me deixar com raiva hoje, mas amanhã ou depois tem que estar na lista dos erros que vou tentar não cometer mais. E pronto. Vez ou outra vou espiar pelo retrovisor da vida, pensar comigo “mas que imbecil eu fui”, mas só isso. Não vou ficar me torturando por isso, porque já foi, já passou. E não tenho controle do que já fiz.

É fato que tem gente que adora apontar o dedo, nos fazer lembrar e até nos acusar pelas falhas que cometemos. Ainda assim, não podemos entregar a chave da nossa paz interior nas mãos das outras pessoas. Para respondê-las, o argumento que uso é bem básico: “Errei, mas já passou. Estou fazendo o meu melhor para não falhar novamente. Eu me aceito com meus erros. Se você me ama, vai me aceitar também“.

Acontece que tem gente que não consegue fazer isso. Conheço pessoas que se torturam por fracassos ou “pecados” cometidos há anos. Não se perdoam. Você olha para a pessoa e diz: “Querida, já foi… Você não pode fazer mais nada. Siga adiante”. Porém, parece incapaz de aceitar que não há mais nada a fazer.

Quem não se perdoa, perde a chance de viver. Sofre pelo passado e deixa de aproveitar o presente. 

Sabe, esse princípio que tenho comigo, que aplico para mim, não é meu. É de alguém que foi o maior dos mestres. Jesus foi quem ensinou a seguir em frente. O que ele quis ensinar foi algo simples: “Fez bobagem? Não faça mais! Toque sua vida. Seja feliz!”.

Lembre-se, a vida é um eterno reconstruir-se!

O amor dele é verdadeiro?

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Acho que não é novidade para ninguém que nem todo mundo que diz “te amo” ama de fato. Muita gente mente. E, na verdade, tem mais um monte que não sabe direito o que é amor. Às vezes, é só desejo, carinho ou… ilusão.

O amor se revela em práticas. Quem ama, demonstra. E não demonstra apenas na cama, ou nos momentos que antecedem o sexo.

Como amor bom é amor prático, alguns comportamentos sugerem que é necessário colocar em dúvida o “te amo” que o parceiro diz. Vou listá-los.

Justificar seus erros – Quem ama, não magoa. É fato que vez ou outra todo mundo erra. Porém, é questionável o amor de gente que toda hora precisa ficar se justificando, explicando que não fez isso ou aquilo por querer. Quando o parceiro ama de verdade, a família nota, as pessoas próximas percebem que você é bem tratado/a.

Sabe perdoar – Quem ama, perdoa. Não significa ser bobo. Significa compreender que, mesmo quando há amar, erros podem ser cometidos. A pessoa que ama tem um olhar generoso, compreensivo. É capaz de aceitar as diferenças e até mesmo as limitações do parceiro.

Se promete, cumpre – Esse é um aspecto fundamental. Gente que tem problema em honrar com seus compromissos é gente que não tem palavra. E se não tem palavra, o “te amo” pode ser vazio, como qualquer outra promessa. Quem cumpre o que promete é digno de confiança.

Cuida de você – Cuidar não é o mesmo que ter ciúme enlouquecedor. Também não tem nada a ver com fazer papel de pai ou mãe. Cuidar é respeitar, proteger, amparar, acolher, abraçar, ouvir… A pessoa que cuida está sempre por perto. E não abandona mesmo quando você está doente, aborrecida, chata.

Prefere a sua companhia – Manter certa individualidade, preservar amizades, ter tempo para você, para a família e para os amigos são atitudes fundamentais inclusive para a saúde do relacionamento. Entretanto,  quando a gente ama, é com a pessoa amada que a gente quer ficar.

Inclui você nos planos futuros – Pelo menos, pra mim, esse é um dos pontos mais importantes. Quando a gente ama muito uma pessoa, quer essa pessoa com a gente. Pra sempre. Você sonha, mas seus sonhos incluem o outro. Nos seus sonhos, esse alguém participa, está junto. Se a pessoa que diz “te amo” não possui projetos que incluem você, não divide os projetos dela contigo, sinto lhe informar que esse amor é da boca pra fora. 

Quais as diferenças entre amor e paixão?

amor

Inúmeros livros e filmes tratam do tema como se amor e paixão fossem a mesma. E não contribuem para esclarecer que existe diferença. A paixão pode se tornar amor. Mas nem sempre isso acontece.

Em muitas ocasiões, quando paixão e amor se confundem, as pessoas sofrem, se decepcionam e acabam perdendo a chance de viver a felicidade de uma vida a dois.

Mas, afinal, o que é a paixão? Nunca é simples definir as nossas emoções. Porém, dá para dizer que a paixão é aquela sensação maluca de que encontramos a alma gêmea. Cada dia parece único… A vida fica colorida, tudo é lindo, maravilhoso. A pessoa parece andar sobre nuvens, sonha acordada… E sente necessidade de ver o outro a cada segundo.

Essas sensações são bem conhecidas de quase todos nós. Quando você se apaixona por alguém, chega ter a impressão de que foi amor à primeira vista. Tem gente que não sabe se pula, se canta, se dança… A pessoa parece tomada de felicidade.

Quando a paixão bate forte, a pessoa muda. Já não sente mais necessidade de andar com as amigas, com os amigos… Todo tempo livre tem que ser dedicado ao amor de sua vida. O casal repete juras de amor eterno, declara que nunca poderão viver separados.

Acontece que o tempo passa… E se não houver reconhecimento de que mudanças (os corações se acalmam) fazem parte da dinâmica de todo relacionamento, a chance de terminar o romance de maneira desastrosa é bastante grande.

Algumas pessoas se casam sob efeito da paixão, mas sem conhecer o amor verdadeiro. Tomadas pela magia desse sentimento arrebatador, vão morar juntas, dividir uma vida… Aos poucos descobrem os defeitos, as limitações… Um parece já não representar mais novidade para o outro… E as únicas “novidades” são os defeitos que antes pareciam não existir.

É nessas horas que a gente descobre se existe amor ou se tudo não passa de paixão.

O amor é muito diferente da paixão. O amor sobrevive quando esfria a paixão. Sobrevive, porque você ama o outro, apesar dos defeitos. Você ama o outro pelo que o outro é, não pelo que você gostaria que ele fosse.

Você permanece ao lado, mesmo quando o outro se mostra vulnerável, porque o outro também vai te decepcionar algumas vezes… O outro também tem carências, o outro também fracassa, tem problemas familiares, perde promoções no emprego… Quando há amor, há compromisso com o outro e aceitação do outro em sua totalidade.

O amor é entrega, é paciência… É disposição para respeitar, tolerar, superar dificuldades junto com a pessoa amada. Amor é a capacidade de encarar com bom humor até mesmo as grandes quedas… e saber perdoar dia a dia.

Pais que ferem filhos; filhos que perdoam pais

Nem sempre a relação entre pais e filhos é harmônica
Nem sempre a relação entre pais e filhos é harmônica

Eles cuidam, protegem… Querem o bem. Sonham dar o melhor para os filhos. Mas erram. E muito. Machucam, ferem. E, por vezes, plantam mágoas que criam abismos. Existem exceções, claro, mas os pais não fazem por mal. Na tentativa de ajudar, afastam os filhos.

Dias atrás, ao conversar com uma mãe, ela se mostrava irredutível. Dizia que faria tudo para afastar o filho de uma garota. Brigaria, ameaçaria, usaria de chantagem… Estava nervosa, irritada. O filho, segundo ela, estava cego. O rapaz não podia ficar com a menina. Ela não prestava. O moço já havia dito que preferia se afastar da mãe a deixar a namorada. Então tentei mostrar para essa mulher que estava escolhendo a pior estratégia para lidar com o problema.

É verdade que são raros, mas ainda existem “casos Romeu e Julieta”. E a confusão está armada na família, inclusive com perdas irreparáveis nos relacionamentos.

Entretanto, nem sempre as mágoas são construídas por impedimentos que se cria de um namoro na adolescência. Há outras situações. Muitas delas por meio de palavras, que são ditas que ferem a ponto de não ser esquecidas. Tem repressões, xingamentos, surras. Há coisas aparentemente pequenas, mas que, no mundo da infância são significativas demais. Por exemplo, uma coleção de figurinhas que o pai joga fora num momento de raiva pode criar uma ferida que ele desconhece, mas que persistirá no coração do filho. Uma humilhação após o resultado de uma prova… Um brinquedo jogado no chão após uma resposta desrespeitosa da criança… O tapa na mãozinha onde está a boneca favorita e que a faz cair desmontada no chão… O contato deletado no skype daquele “primeiro amor” que nasceu na escola…

Os pais não percebem, mas fazem os filhos chorar lágrimas eternas. Às vezes até reconhecem que exageram na dose, mas como minimizam a atitude, não se desculpam de verdade, não conversam sobre o que aconteceu, acabam por gerar um distanciamento que se aprofunda na juventude e na fase adulta. Por isso, não são raros os filhos que guardam mágoas dos pais. Contam as horas para sair de casa e, quando saem, as ligações tornam-se raras e as visitas acontecem apenas em datas especiais. Conheço casos de famílias que não se reúnem há anos. Já idosos, os pais lamentam a ausência dos filhos, mas estes parecem criar estratégias para evitar encontrá-los.

Muitos têm a chance de reconhecer que erraram e pedir perdão. Conseguem restabelecer a convivência e aproveitar os filhos como não o fizeram durante a infância e adolescência. Outros simplesmente ignoram o que motivou o afastamento. Passam a vida chorando a perda. Ou dizendo frases do tipo:

– Ele é um frio. Dei tudo. Paguei faculdade, fiz festa de casamento e ele nem liga no Natal.
– Ah… ela casou e nem traz os netos para passar férias em casa. Parece esconder os meninos de mim.

Sabe, faz mal viver essa realidade. Por isso, tentar entender o que houve, humilhar-se é a melhor forma de promover o reencontro. Entretanto, até por muitas vezes desconhecerem que foram os responsáveis por plantar as mágoas, cá com meus botões, acredito que, por mais duro que seja, os filhos devem aprender a perdoar os pais. Perdoar não é esquecer, mas é uma atitude, uma forma de aceitar e compreender o outro. E restabelecer os laços é fundamental para se viver bem, em paz. Ninguém é completo, ninguém se sente pleno carregando uma relação mal resolvida com a mãe, com o pai… Não é fácil. Há feridas que parecem tão profundas que nunca irão cicatrizar. Porém, vale a pena tentar. Dói dar o primeiro passo, dói atropelar o orgulho, o amor próprio. Mas vale a pena. Punir o outro com rancor consome a gente mesmo, tira a paz e realimenta emoções negativas.

Na segunda, uma música

Estava procurando uma foto e, sem querer, esbarrei com a música que compartilho. Fiquei pensando nas vezes que erramos e machucamos as pessoas que amamos. Curiosamente, por essas coisas que não dá para explicar, quem está mais perto, quem mais amamos geralmente é o maior alvo de nossas grosserias, de nossos ataques de raiva. A gente ama, mas a gente fere.

As histórias de amor muitas vezes são marcadas por desencontros. Por medo, insegurança, intolerância ou egoísmo transformamos o romance num cenário de dor. Em algumas ocasiões a vida nos dá a chance de pelo menos pedir perdão, reclamar uma nova chance.

Será que você me perdoa outra vez?
Eu não sei o que disse
Mas eu não quis te magoar
Eu escutei as palavras saindo
Senti que morria
Dói tanto te magoar
Depois você olha pra mim
Já nem diz nada
Está silenciosamente “partido”
Agora daria qualquer coisa
pra apagar aquelas palavras de você
Cada vez que digo alguma coisa, eu arrependo-me, eu choro “eu não quero te perder”

Embora ninguém queira um relacionamento em que se pede perdão hoje pra errar de novo amanhã, pedir perdão é o caminho que se trilha para manter viva a chama do amor. Quando feito com sinceridade, quando reafirma o desejo de querer bem, o pedido de perdão ajuda a cicatrizar as feridas e torna a vida a dois muito mais simples.

Você foi feito pra mim
De alguma forma farei com que você perceba
O quanto me faz feliz
Eu não consigo viver esta vida
Sem te ter do meu lado
Eu preciso de você pra sobreviver
Por isso fica comigo
Olhe-me nos olhos e eu grito por dentro que estou arrependida
[…] eu nunca tive a intenção de te magoar

Vamos ouvir? Forgive Me, com a banda americana Evanescence.

Eu me arrependo…


Eu me arrependo de não ter tentado mais, insistido, acreditado. Fiquei com medo. Estava insegura e perdi o grande amor da minha vida.

Não faz muito tempo que ouvi esse relato. Com o coração triste, ela tentava dizer que estava muito arrependida. O tempo e as consequências de suas escolhas levaram-na a perceber que cometeu erros e, por isso, estava arrependida.

Lembrei dessa história dias atrás quando recebi a sugestão para falar sobre arrependimento. Eu até brinquei:

– Hum… Não sou muito bom para falar sobre isso. Não é um sentimento que conheço bem.

O assunto acabou virando brincadeira, mas fiquei com vontade de escrever sobre o assunto.

Do ponto de vista cristão, o arrependimento é fundamental para se receber o perdão divino. Quando o homem peca, ao reconhecer seu pecado, deve arrepender-se. Só o arrependimento genuíno leva ao perdão. Porém, quando se arrepende, confessa o erro e pede perdão a Deus, busca-se não voltar ao passado. Os textos sagrados dizem que o Divino lança nosso passado no fundo do mar. Portanto, aquele pecado não existe mais. Ou seja, a pessoa está livre. Não há razão para continuar se culpando.

Bem, mas não é desse arrependimento que estou falando – embora a sabedoria cristã possa trazer algumas sugestões de como lidar com as situações sobre as quais não temos controle.

Na vida, arrepender-se de algo que a gente fez ou deixou de fazer é muito natural. Quem nunca descobriu depois de um tempo que cometeu a maior besteira de sua vida? Pode ser por uma escolha profissional ou a perda de um amor.

Não acertamos sempre. Errar é consequência de ser humano.

Mas viver se culpando, passar o tempo todo pensando no que podia ter sido feito e não foi feito é martirizar-se. Esse tipo de arrependimento não produz crescimento; só faz sofrer.

Duas coisas são necessárias para não se arrepender no futuro. A primeira é ter consciência plena de que somos influenciados pelo momento e que nunca teremos uma visão completa da realidade. Ou seja, nossa capacidade de julgamento no aqui e agora é limitada. A segunda é fazer que estiver em nossas mãos. Entregar-se, mergulhar, com responsabilidade e sem precipitação. Ser prudente sim, mas nunca deixar de fazer o que pode ser feito. É muito melhor, no futuro, poder dizer “eu fiz tudo que podia fazer para dar certo” que viver se lamentando por ter fugido. A vida a gente enfrenta, não foge.

E para aqueles que convivem com arrependimentos e culpas, não existe receita. Só há uma coisa a fazer: aceite-se, perdoe-se. Você fez o que achou que devia fazer. Errou? Errou. E daí? Já foi, passou. Aceite o passado, perdoe você mesmo e use os erros. Transforme-os em sabedoria para lidar com o presente e construir o futuro.