As bibliotecas deixarão de existir?

Amo as bibliotecas. Não necessariamente as que temos… Cheias de mofo. Ou em locais improvisados. Essas daí precisam ser modernizadas. Mas ninguém parece muito interessado em fazer isso.

Apenas universidades e grandes centros de ensino recebem investimentos nesses espaços de conhecimento.

As bibliotecas da cidade geralmente mal são contempladas por recursos para compra de livros.

As instituições de ensino gastam com infraestrutura e obras porque as bibliotecas fazem parte dos critérios de avaliação feita Ministério da Educação. Além disso, não se faz educação sem livros.

Mas o povo não é contemplado por bibliotecas modernas, equipadas e com bom acervo. E isso não acontece basicamente por um motivo: as pessoas não se interessam por elas.

Em 2012, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que mais de 70% da população sabe onde estão localizadas, mas não frequenta as bibliotecas.

Como os programas eleitorais apresentados pelos nossos governantes levam em conta o imaginário popular, os supostos desejos da população, as bibliotecas raramente são ou serão contempladas.

Mas, até em função das novas tecnologias, as bibliotecas estão condenadas?

Cá com meus botões, entendo que bibliotecas não são depósitos de livros. Nunca foram.

Biblioteca é um local de promoção do saber. O livro não é a finalidade da biblioteca, mas sim o conhecimento. E este é o fundamento da construção de uma vida melhor, como disse Thomas Jefferson:

Encaro a difusão da luz e da educação como o recurso mais confiável para melhorar as condições que promovem a virtude e aumentam a felicidade do homem.

As palavras do ex-presidente dos Estados Unidos estão gravadas em letras douradas na parede da Trustees’ Room da Biblioteca Pública de Nova York. Elas servem até hoje de inspiração.

E apontam para o futuro: a gente se desenvolve, cresce à medida que tem acesso ao conhecimento. Por isso, livros e bibliotecas não podem morrer. Se deixarem de existir, morreremos juntos.

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Incentivo ao uso da bicicleta

Vez ou outra me alegro ao ver iniciativas que incentivam o uso de meios alternativos de transporte. Hoje, fiquei sabendo que a bela cidade de Bolonha, no norte da Itália, criou um projeto para estimular as pessoas a andarem de bicicleta ou fazerem uso do transporte público.

O objetivo é reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa. Afinal, como a gente sabe, os gases emitidos pelos veículos são um dos causadores do aquecimento do planeta.

Pensando nisso, a cidade de Bolonha criou um sistema de recompensas para quem optar pela bicicleta. Nada muito grande ou custoso… A iniciativa premia quem deixa o carro em casa com sorvetes, cerveja, ingressos de cinema e outros brindes para quem prefere pedalar.

Eu me alegro quando vejo iniciativas como essa porque confirmam que não é preciso fazer muito para mobilizar as pessoas em torno de algo realmente relevante.

Nas médias e grandes cidades brasileiras, o número de veículos nas ruas e avenidas já se constitui um problema grave. Mas, pelo menos por aqui, ainda pouco tem sido feito. Com frequência, as políticas públicas se restringem a construção de ciclovias e ciclofaixas. Embora essa iniciativa seja importante, faltam programas que estimulem de fato as pessoas a usarem a bicicleta.

Em Maringá, por exemplo, as ciclovias estão cada vez mais presentes no cenário urbano. Isso tem levado muita gente a pedalar, inclusive para ir ao trabalho ou à escola. Mas o movimento ainda é tímido, diante do potencial que a cidade tem.

O que ocorre é que faltam campanhas que incentivem as pessoas a usarem menos os veículos. A criação de uma nova cultura necessidade de estímulos. Recompensas, como em Bolonha, na Itália, são uma estratégia importante para lembrar as pessoas que é bacana pedalar.

Parece pequeno dar brindes como sorvetes, ingressos… Entretanto, é o tipo de ação, de baixo custo, que coloca o assunto em pauta. E mexe principalmente com os mais jovens, que são as pessoas mais abertas a incorporarem novos hábitos.

Ah… E a ideia em Bolonha nem surgiu na prefeitura. Foi um urbanista que motivou a cidade a aderir a proposta e implementá-la – inclusive com a participação do empresariado.

Isso mostra que cuidar de uma cidade, cuidar do planeta, envolve todo mundo – mas que há necessidade do empenho principalmente daqueles que comandam cidades, empresas, associações, organizações das mais diversas. Mais que pensar apenas nos dividendos políticos e, no caso dos empresários, em seus lucros, é fundamental lideranças pensarem em ações que transformem a cidade em que vivem.

Políticas de atendimento aos moradores de rua

Defendi e defendo uma política mais ostensiva para reduzir o número de moradores de rua. Em Maringá e noutras cidades do Brasil, mais que um problema social, a presença dessas pessoas nas ruas também representa um risco à segurança.

O poder público em nossa cidade tem falhado no enfrentamento dessa realidade.
Contudo, tem gente que questiona esse posicionamento. Primeiro, afirma que agir de forma mais ostensiva para reduzir os moradores de rua significa ausência de sensibilidade social. Segundo, tem também quem alega que o aumento da população de rua é culpa do (des)governo Michel Temer que teria ampliado os bolsões de miséria.

Posso assegurar que tenho sensibilidade social e reconheço que o (des)governo Temer tem potencializado a miséria no país. Contudo, ficar achando culpados não resolve o problema.

A gente precisa agir. E em duas frentes. A primeira, no reconhecimento das causas que levam às pessoas pras ruas. Com isso, desenvolver políticas de tratamento de dependentes químicos, inserção em cursos profissionalizantes e apoio às famílias. Mas a segunda frente é de caráter imediato. Trata-se da presença efetiva do poder público nas ruas. Ação de abordagem, levantamento de dados, investigação de antecedentes criminais… Isso precisa ser feito todos os dias. Quem mora nas ruas precisa sentir-se vigiado, monitorado. Eu disse e volto a repetir: as pessoas precisam perceber que a cidade tem comando.

Hoje, observa-se nitidamente que a ausência de políticas ostensivas motiva o crescimento da população de rua. Eles migram inclusive de outras cidades. Tá tudo muito fácil.

Essas pessoas que moram nas ruas devem ser estimuladas a deixar essa condição de vida, ainda que para isso, inicialmente, sintam-se pressionadas.

Sustentabilidade: o Brasil precisa passar do discurso à prática

FOTO: LAURENT REBOURS (AP) - REPRODUÇÃO DE EL PAÍS
FOTO: LAURENT REBOURS (AP) – REPRODUÇÃO DE EL PAÍS

Quando o assunto é mobilidade urbana, o Brasil segue muito atrasado. O incentivo ao uso dos carros passa, inclusive, pelo próprio poder público. As cidades são pensadas para privilegiar os veículos. E, recentemente, durante a política de redução de impostos promovida pelo governo para não permitir o desaquecimento da economia, o setor automobilístico foi um dos mais beneficiados.

Enquanto isso, na Europa, os carros ganham status de vilões do meio ambiente. Todo projeto de sustentabilidade que se discute por lá prevê menos veículos nas ruas (por aqui, o povo briga quando são reduzidas vagas de estacionamento pra carro e ninguém luta por bicicletários). A França, por exemplo, está muito empenhada em fazer uma transição energética. Não se tratam de projetos pontuais, mas sim para toda a nação. O governo de François Hollande está determinado em viabilizar a proposta e já recebeu sinal verde do Legislativo francês para promover uma grande mudança no país.

A lei em discussão prevê medidas de curto, médio e longo prazo. A meta é tornar a França campeã ecológica na Europa até 2050. Entre as principais medidas estão incentivos para as empresas que motivarem os funcionários a usar bicicletas. Cada quilômetro rodado de magrela vira dinheiro no bolso do trabalhador. E a empresa ganha benefícios fiscais.

Além disso, as companhias com mais de 100 funcionários deverão apresentar um plano de transporte para sua equipe envolvendo transporte coletivo, carros compartilhados e uso das bicicletas.

Paris é a cidade mais empenhada no projeto. A capital ganha cada vez mais espaços para os veículos de duas rodas. Também estão sendo instaladas milhares de “tomadas” para atender veículos elétricos.

O francês que for trocar o carro a diesel por um elétrico também ganha uma espécie de prêmio – bônus. E o poder público também faz sua parte. Na renovação da frota, para cada dois veículos comprados, um deve ser elétrico.

Entretanto, o “pacote ecológico” não tem apenas medidas visando reduzir a poluição e melhorar o trânsito. Também saem de cena as sacolas plásticas descartáveis, os pratos e talheres do mesmo material. E como o objetivo é promover uma transição na matriz energética, edifícios devem ser reformados visando reduzir o consumo de energia de lâmpadas e equipamentos de ar condicionado. Quem for fazer a reforma, recebe incentivos fiscais e pode fazer empréstimos com juros subsidiados.

Coisa boa, né? Pois bem… É desse tipo de avanço que a gente precisa. No Brasil, um debate político sério também deveria contemplar projetos ambiciosos dessa natureza. Entretanto, por aqui, nossos supostos representantes ainda carecem de maturidade para fazer o enfrentamento de temas mais complexos. E a sociedade, por sua vez, está acomodada e é só quer saber de mudanças que, na verdade, não mudam nada.

Tragédia em Santa Maria: o que falta fazer?

santa maria
Começamos o domingo ouvindo as notícias da tragédia ocorrida na cidade gaúcha. Pelo menos 248 pessoas morreram após o incêndio ocorrido na Boate Kiss. Outras estão hospitalizadas.

Foi a segunda maior tragédia do gênero ocorrida no país. Também por isso é impossível ficar alheio. Até a mídia internacional destaca o fato.

Pela manhã, o noticiário era quase todo baseado em vítimas, relatos de sobreviventes e especulações sobre as condições da boate. No meio da tarde, o foco mudou. A discussão passou a ser: de quem é a culpa?

Todas as condições estruturais da boate, a ação dos integrantes da banda que, de alguma forma, motivou o início do incêndio, o comportamento dos seguranças… tudo virou foco da imprensa. Inclusive com a presença de especialistas comentando sobre como devem ser organizadas festas e o espaço físico adequado para evitar ocorrências que motivem tragédias como a de Santa Maria.

Neste fim de domingo, já sabemos:

a) a boate estava com alvará vencido;
b) a boate não tinha sistema adequado de prevenção e combate a incêndio;
c) a boate não tinha saídas de emergência adequadas;
d) os seguranças complicaram a saída das pessoas;
e) o pessoal não estava treinado para enfrentar uma situação de emergência;
f) faltavam entradas e saídas de ar;
g) um efeito pirotécnico usado pela banda iniciou o incêndio.

O que me incomoda diante disso não é a bobagem feita pela banda. Quem estava no palco é o menor dos responsáveis.

Mas quem deve responder por essas mortes? Os proprietários da boate e as autoridades – todas elas. Os erros e a responsabilidade dos proprietários da boate não podem ser ignorados. Mas a casa só recebeu o show porque nada foi feito para fechá-la. Não adianta deixar de renovar um alvará, mas permitir que siga funcionando. E quem impede o funcionamento não é o dono. Dele pode até se esperar consciência. Entretanto, infelizmente, é pedir muito. Tem coisas que só acontecem com a interferência do Estado – que pode ser representado pela Prefeitura, Corpo de Bombeiros, Polícia etc.

Bem, mas e agora?

Entendo que as investigações em Santa Maria não podem parar. Os responsáveis devem ser punidos. No entanto, o fundamental seria, a partir dessa segunda-feira, ter uma mobilização nacional para investigar as condições de casas de shows, boates, ginásios, igrejas, teatros… Enfim, todos os espaços de aglomeração de pessoas deveriam ser fiscalizados. Quem tem condições de continuar em funcionamento, continua. Quem precisa de reparos, faz reparos. Quem tem problemas mais graves, fecha.

A gente não precisa de novas leis. O país carece da aplicação prática da legislação existente. É isso que pode evitar tragédias como a de Santa Maria.

Hora de tirar os carros das ruas

Regularmente discuto aqui os problemas do trânsito de nossas cidades. Ontem encontrei um texto do Paulo Moreira Leite, salvei nos rascunhos do blog e, hoje, resolvi tirá-lo de lá.

O experiente jornalista trata da necessidade de tirar os carros da rua. Moreira Leite sustenta que não há outra saída para pôr fim ao caos do trânsito. Pra quem mora no interior, o problema ainda não é tão grave. Mas mesmo em Maringá já sofremos com os congestionamentos. É verdade que em nossa cidade a situação também reflete a pouca habilidade (ou lentidão) do pessoal da engenharia de trânsito em apresentar soluções para melhorar o fluxo.

Pois bem… O jornalista apresenta argumentos que valem a pena ser refletidos. Veja:

Retirar esses carros das ruas será o primeiro passo para um trânsito civilizado. Isso pode ser feito na marra, por leis e multas. Ou pelo mercado. Ou pelos dois fatores combinados.

Os carros estão fora de circulação das ruas centrais das grandes cidades americanas porque o estacionamento é inviável. A primeira hora começa em U$ 20 dólares e se você ficar o dia inteiro pode passar de U$ 80. Ninguém usa o carro para trabalhar.

Como não usa para trabalhar, também não leva o filho na escola. Pais e filhos tomam ônibus.

A tarefa não é simples. Gostamos de nossos carros. E, diferente dos países de primeiro mundo, o nosso transporte coletivo é pouco eficiente – demorado, desconfortável, caro. Mas Moreira Leite acredita que, sem os veículos particulares nas ruas, os ônibus melhoram.

Só com ruas mais livres, o transporte coletivo pode andar melhor. É assim em toda parte. Em Nova York ninguém anda todo dia com o próprio carro. Em Washington também não. A população toma ônibus e metrô que, longe do que gostamos de acreditar, nem sempre garante aquele passeio perfeito e confortável para toda parte.

Ele conclui:

Eu acho que a cidade pede passagem e o primeiro inimigo, sinto muito dizer, é o automóvel.

A evolução da humanidade ensina que ninguém abre mão do próprio conforto por um ato de generosidade. É difícil e desagradável.
Os mais belos momentos de progresso não foram atos de consciência — mas fruto da necessidade.

Eu acho que esse momento chegou para o automóvel.

Concordo com Moreira Leite. Por mais radical que seja, há necessidade de intervir nesse problema. O único “senão” é que medidas duras, precisam ser tomadas por gente séria. Políticos sérios, que sejam os primeiros a dar o exemplo. E estes andam em falta.

PS- Falando em exemplo, quantos políticos você já viu deixando o carro em casa e usando o transporte coletivo? Já vi em campanha eleitoral. Só. Fora disso, nunca. Talvez seja por que usam carros oficiais, têm motoristas, combustível pago e vagas reservadas de estacionamento.

Pobre trabalha mais para pagar impostos

É o que aponta uma pesquisa do Ipea. Os mais pobres têm de trabalhar 197 dias do ano para pagar os tributos cobrados pela União, Estados e municípios. Já os mais ricos precisam de “apenas” 106 dias. O estudo revela a distorção histórica das políticas de nossos governantes e reforçam a tese de que defendem a elite do país.

Reconher isto – ou insistir neste discurso – não significa ser um esquerdista ultrapassado, como tenho ouvido regularmente. Trata-se de notar que governos vem e vão e mantêm políticas que privilegiam os poderosos. E isso tem a ver com a ideologia burguesa. Os mais pobres só são beneficiados de forma secundária. O olhar é assistencialista. Nunca transformador.

Dessa maneira, persiste a desigualdade e o tratamento injusto a pobres e ricos. Ou seja, por aqui o pobre sofre duas vezes. É vítima de sua pobreza e da estrutura excludente e ainda é penalizado pelas políticas públicas.

PS- Minha reflexão não tem a intenção de sugerir que empresários, investidores, empregadores devem ser excluídos pelas políticas públicas. O que defendo é a necessidade de os governantes terem políticas que priorizem, primeiro, as classes mais pobres. Uma transformação social que aconteça de baixo para cima.

Trânsito…

Duas vezes por semana vai ao ar pela rádio Novo Tempo um programete produzido por mim. Hoje, gravei sobre o trânsito. É um tema que me preocupa, mas que não parece incomodar muita gente. Quase sempre, os motoristas entram em seus carros, aceleram e querem apenas chegar aos seus destinos… O que está sendo feito – ou se tem deixado de fazer – para tornar o trânsito mais funcional, não preocupa tanto os motoristas. Por isso, sugeri a reflexão neste programete. Entre outras coisas, disse:

Se observarmos o crescimento da frota de veículos em Maringá e as políticas públicas para tornar mais funcional o trânsito da cidade, logo chegaremos a conclusão que alguma coisa tem deixado de ser feita.

Em todo mundo, as cidades que conseguiram melhorar o trânsito, sofreram a interferência direta do poder público. Ou seja, para que eu e você possamos transitar com segurança, seja de bicicleta, a pé ou de carro, a prefeitura precisa pensar e implantar políticas públicas que atendam a uma nova realidade: o crescimento populacional e a frota de veículos.

No caso específico de Maringá, não é preciso fazer muito esforço para notar que as políticas públicas atuais para o trânsito não tem produzido o resultado esperado. Talvez porque nós e nossas autoridades entendamos que o trânsito depende apenas dos motoristas. Entretanto, não é assim que as coisas funcionam. Se apenas políticas de conscientização forem desenvolvidas, vamos chegar a um ponto em que não será possível transitar de uma quadra para outra…