Mudar é imperativo!

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Gente, esse período de quarentena tem me surpreendido sob vários aspectos. Mas um deles, em particular, me incomoda bastante. Eu tenho repetido que uma das características da sociedade pós-moderna – ou, noutras palavras, do mundo que a gente vive – é a flexibilidade, a capacidade de adaptação.

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Um sociólogo famoso definiu a característica principal desse nosso mundo como “modernidade líquida”. E por que ele utilizou a ideia do líquido? Porque todo o líquido é fluído, toma a forma do recipiente no qual é colocado. Se você tiver dois litros de água numa garrafa, a água toma a forma daquela garrafa; se for numa jarra, ganha a forma da jarra; se for num balde, assume a forma do balde… Enfim, acho que você já entendeu.

E esta é justamente uma das principais características da nossa sociedade: a liquidez. E quem vive nela, ou pelo menos sobreviver nela, deve também ter essa capacidade de mudar, de assumir novas formas. Pessoas extremamente rígidas, apegadas aos seus métodos, sofrem demais e encontram dificuldade para lidar com tantas mudanças.

E o que a pandemia provocada pelo novo coronavírus fez? Virou a mesa e mudou a vida de todo mundo de um dia pra outro. Empresas que só vendiam no balcão estão tendo que migrar para a internet, fazer delivery… Profissionais que nunca trabalharam em casa tiveram que montar suas estações de trabalho em casa… Professores que nunca gravaram uma aula estão agora dando suas disciplinas pela internet…

Mas… qual é o meu incômodo então? Justamente a rigidez de algumas pessoas. Tem gente que parece incapaz de se adaptar. Por exemplo, eu perdi um colega, professor, que preferiu desligar-se a ter que administrar as novas demandas do ensino remoto. Ele é o único com dificuldade? Evidentemente, não. Toda mudança gera desconforto. Entretanto, quando alguém trava e perde uma oportunidade de trabalho ou mesmo começa a sofrer de ansiedade, estresse, pânico, perde o sono… Enfim, quando a pessoa não consegue lidar com as mudanças, tem um problema. E um problema sério – de ordem emocional, com efeitos pessoais e profissionais. Sem contar que, além de se prejudicar, pode prejudicar todo um grupo.

Deixa eu te falar algo muito importante: se você não é flexível, se te falta aquilo que a gente chama de “jogo de cintura”, se sofre demais com mudanças, procure ajuda! Leia sobre o assunto, procure um mentor, faça terapia… Mas procure mudar.

É fato que se trata de um traço de personalidade. Também é fato que, no passado, a fidelidade a determinadas características representava inclusive um nobre valor na identidade pessoal. Hoje, não! Quem não se adapta, está fora do jogo. E jovens rígidos, inflexíveis, vão sofrer demais ao longo da vida. Qual a chance das práticas profissionais de uma determinada atividade profissional serem as mesmas daqui 20 ou 30 anos? Nenhuma! Na verdade, o intervalo entre as mudanças é cada vez mais curto.

Então… se você tá sofrendo com as mudanças, procure trabalhar isso em você! Mudar hoje é imperativo. E não apenas por conta da quarentena. Mudar sempre é a nova regra!

Tempo, criatividade, arte, um texto

Recebi por email a sugestão de uma leitora… Ela pede que eu escreva sobre o professor. Uma reflexão onde revele a importância do educador, seu desprendimento, o desejo de compartilhar conhecimentos. O tema é interessante. Empolgante. Afinal, sou apaixonado pelo assunto.

Mas a sugestão me fez pensar noutra situação: a inspiração do escritor. Vou atender minha leitora. Entretanto, não será desta vez. Quero refletir mais a respeito do educador, suas convicções, motivações e até mesmo, suas frustrações. Preciso disto antes de escrever.

Sei que posso. No entanto, todo texto carece de uma certa maturidade. Do contrário, fica frágil. Textos de blog geralmente são imediatos. Às vezes, passionais. Por isso, sujeitos a erros que muitas vezes carecem ser corrigidos, retratados. Mas, embora escreva primeiro para o blog tudo que publico no jornal ou falo na rádio, minhas inquietações nem sempre permitem que faça um texto com essas características. Sinto necessidade de esperar o momento mais apropriado para produzi-lo. Talvez seja coisa que os artistas chamam de inspiração.

Não, não sou artista. Sou um jornalista atrevido, pesquisador iniciante, amante das letras e admirador dos gênios. Por isso, sinto que falho sempre que me atrevo a permitir que as emoções falem mais alto. Ou quando ouso falar ou escrever sobre algo que ainda não está devidamente elaborado. Esta produção mais qualitativa não se dá no tempo que desejo; acontece nas experiências, vivências e após muita introspecção.

O problema é que vivemos debaixo da ditadura do tempo. O artista não produz no ritmo de sua inspiração. Trabalha-se contra o relógio para dar conta das encomendas. Um escritor produz um novo livro com data de entrega prevista em contrato. Um músico escreve suas composições de acordo com o prazo estabelecido pela gravadora. Um roteirista de cinema tem que dar conta do filme conforme as demandas do estúdio. O autor da novela se vê obrigado a escrever um novo capítulo a cada dia. Todos se tornaram operários da arte. A criatividade se faz escrava do calendário.

Não há talento que resista. Ainda que haja espaço para momentos de inspiração plena, quem produz um texto, uma tela, faz uma pintura, compõe uma canção etc nem sempre consegue se realizar em sua obra. A criatividade lhe escapa. Faltam as palavras, os assuntos, as cores, as notas musicais… O resultado é a ausência de sentidos e de significância. Poucos conseguem eternizar suas obras.

Imaginar um retorno aos tempos em que a produção era mais importante que o dinheiro que ela pode render é utopia. Contudo, ainda acredito que há espaço para experimentarmos cada momento intensamente. Até para sonharmos que a vida não precisa passar tão ligeira.