Trump e os efeitos do discurso de ódio

Não é novidade que desde a campanha de 2016, Donald Trump, em nome da defesa de uma América grande, tem acendido o ódio a estrangeiros e às minorias.

Dias atrás, no Twitter, o presidente norte-americano atacou quatro parlamentares de origem estrangeira e sugeriu que deixassem os Estados Unidos. Curiosamente, das quatro, três nasceram nos Estados Unidos. Apenas uma delas, que nasceu na Somália, chegou ao país quando criança.

Nesta semana, num comício, Donald Trump voltou a atacar as parlamentares. Criticou as quatro durante 20 minutos, mas dedicou especial atenção à muçulmana Ilhan Omar. Fez acusações sem fundamentos contra a deputada. E a resposta foi um coro de milhares de pessoas: “mande-a embora; mande-a embora!”.

O racismo, o preconceito e, a agressão contra pessoas de origem étnica diferente não são exclusividade dos americanos. Na verdade, a essência da constituição norte-americana é do respeito às diferenças. Os Estados Unidos foram construídos com a força, a inteligência e a beleza da diversidade de povos.

Contudo, entre as pessoas – seja nos Estados Unidos, na Europa ou aqui no Brasil -, esses sentimentos mesquinhos, de ódio àquele que é diferente de mim, sempre existiram.

Por meio da força da lei e do discurso de grandes lideranças que comandam as nações, o desejo de expulsar o outro de diante de mim era silenciado. Havia certo pudor de expor esse lado sujo que há na alma de muitos de nós. Além disso, tornava-se crime agredir a outra pessoa em função de sua etnia, gênero, orientação sexual ou classe social.

Entretanto, com a ascensão de homens como Trump ao poder, o ódio emergiu. O que era silenciado atrás das máscaras da convivência social agora é alardeado à luz do dia. Isso é assustador!!

A existência de governantes como Trump coloca em risco estrangeiros e minorias não por que eles necessariamente farão algo contra essas pessoas. Trump ataca as quatro parlamentares, mas não creio que fará com elas nada mais que isso. As palavras de Trump são retórica. Ele joga para a platéia. Trump não vai mandar nenhuma delas embora. Entretanto, as palavras do presidente americano são um problema porque possuem o efeito de liberar o ódio.

Se a deputada Ilhan Omar passasse perto do comício de Trump nesta semana, ela poderia ser apedrejada.

Este é o risco real de ter homens como Trump no poder.

Governantes como ele, que estão chegando ao poder em diversos países, abrem as portas do que há de pior em cada povo, em cada ser humano. Os discursos inflamados deles ganham votos e, ao mesmo tempo, liberam a perversidade que há em nós.

Democracia e redes sociais

As redes sociais na internet têm provocado um fenômeno que nos leva a práticas quase primitivas. Ao assegurar que os usuários consumam informações que se identificam com a maneira de pensar de cada um deles, colocam-nos de volta ao tempo em que as informações comuns eram restritas aos grupos, às pessoas que viviam juntas. Ou seja, circulavam apenas nas próprias tribos, nas comunidades locais, em guetos. E sem nenhuma garantia de veracidade.

Ainda antes de Cristo, o Império Romano compreendeu que a força de uma nação está no consenso obtido por informações precisas que chegam a todos. Noutras palavras, a força está no acesso comum, de todas as pessoas, de informações de uma mesma natureza. Desde então é a qualidade e o alcance de um mesmo tipo de informação que assegura os sentimentos comuns de um povo, inclusive de pertencimento, que fazem com que haja identificação com a pátria e com as ideias vigentes.

Acontece que as redes sociais estão acabando com isso. Cada pessoa defende a sua ideia, a sua bandeira. Já não há interesses comuns; há apenas os meus interesses e os interesses do meu grupo. Na verdade, a internet e tudo que ela traz no que diz respeito à comunicação representam um tipo de progresso que acontece sem que haja reflexão da parte de seus desenvolvedores e até mesmo das autoridades. Vale apenas o negócio, o lucro obtido. Progresso inconsequente!

Com as redes, estamos deixando de compartilhar informações comuns. As informações que eu recebo são distintas da que você recebe. Ditadas por algoritmos, estão dispostas no feed de acordo com os rastros que vamos deixando na internet. O problema é que se todos nós recebemos informações diferentes, com a nossa cara, como vamos encontrar um denominador comum? Um denominador que nos permita conviver, respeitando as diferenças e, ao mesmo tempo, beneficiando toda a coletividade.

O não acesso e compartilhamento de informações comuns é prejudicial para a democracia. E, pior, acentua as diferenças entre as pessoas e elimina os filtros que ajudam na confirmação da veracidade dos conteúdos em circulação. Na internet, é bastante duvidosa a qualidade das informações. Há um agravante: os preconceitos e as ideias falsas são abundantes.

Muita gente tem ignorado o efeito nocivo das redes. Em todo o mundo, o consumo distinto, individualizado das informações, tem contribuído para que as pessoas tenham uma visão enviesada do mundo e, de certo modo, esses conteúdos reforçam visões particulares a respeito de fenômenos diversos – sejam eles a respeito da própria humanidade, das ciências, das religiões e da política.

As redes sociais na internet têm alimentado o fogo do populismo, do racismo, do preconceito contra os imigrantes e contra todos aqueles que são diferentes do que seria tido como normal. Elas têm estimulado a intolerância, a raiva, o ódio. Isso não é nada bom.

Os algoritmos criam bolhas e, nelas, todo tipo de ideia – inclusive falsas ideias – ganha força e passa a funcionar como verdade, acentuando as rivalidades e tornando a convivência entre as pessoas muito mais difícil. A busca de denominadores comuns que possam fazer com que lutemos por causas comuns deixa de existir. O que emerge é uma espécie de guerra, de disputa entre discursos, de confrontos verbais em que cada lado tenta gritar mais alto. Há pouca chance de acabar bem, porque, para que certas crenças se consolidem, haverá necessidade de serem impostas, talvez por meio da força ou da repressão. É o que tem acontecido em alguns lugares do planeta e, de certo modo, já há um esboço disso aqui no Brasil.

Mortas em nome da honra

violencia

Jovem, apenas 32 anos… Tamar Zeidan morreu. Não foi acidente, não foi doença. Ela foi assassinada pelo próprio pai. Foi estrangulada durante o cochilo, após o almoço. O pai a amava; não queria matá-la. Porém, se não tirasse a vida de Tamar, sua família continuaria sendo alvo de pressão. Ele precisava limpar a honra, o nome da família, por causa dos “atos vergonhosos” da filha. Quando soube da notícia, uma tia fez festa para comemorar a morte da sobrinha.

Tamar era palestina. Casou-se à força aos 15 anos. Há quatro, estava divorciada. Já havia renunciado a guarda de três filhos. Estava na casa dos pais. Na verdade, praticamente escondia-se ali.  Então um homem se interessou por ela e a queria como segunda esposa. A descoberta dos vizinhos motivou revolta. Tamar teve que esconder-se na casa da irmã. Mas os boatos não pararam. Num documento assinado por 51 parentes, foi exigido que o pai tomasse providências. Era preciso restabelecer a moral da família.

A jovem morta em dezembro passado é apenas uma das cerca de 20 mil mulheres assassinadas a cada ano em nome da honra. São vítimas da própria família. Geralmente são estranguladas, envenenadas, decapitadas, apunhaladas, queimadas ou até enterradas vivas. Quais os crimes delas? Contrariar os costumes da sociedade. São jovens que querem estudar, querem ter um emprego, querem ser donas do próprio corpo, querem escolher seus parceiros e/ou maridos.

Pouco pode ser feito por essas mulheres. As autoridades fingem que não enxergam o problema. As leis são frágeis. Não há quem pressione. Quem tenta mudar essa realidade, corre o risco de morrer. Por isso, muitas mulheres preferem fugir, esconder-se. As mortes são silenciadas. E filhas de mulheres que traíram seus maridos geralmente também são tratadas como vadias e, na maioria dos casos, sequer conhecem quem foram suas mães.

Quando alguém é condenado, fica pouco tempo preso. Por isso, é normal que as famílias usem os filhos menores para cometerem o crime. Assim, ninguém vai preso.

É comum quem está distante dessa realidade, vivendo no Ocidente, culpar a religião por esses crimes. Porém, a religião tem pouca responsabilidade nisso. Tratam-se dos costumes, das tradições desses povos. Ou seja, da cultura deles.

Embora, pareça-nos assustador o que fazem com as mulheres de alguns países orientais, não é muito difícil encontrar exemplos por aqui. No Brasil, são inúmeros os casos de violência e até mortes de mulheres, geralmente vítimas de seus próprios maridos. No entanto, também há pais que se sentem donos, proprietários das filhas. Quando confrontam os “valores” familiares, são renegadas, expulsas de casa. Outras, apanham, sofrem castigos e, em algumas situações – quando há homem envolvido -, não são raras as ameaças de morte.

E o que dizer daqueles que escondem a sexualidade por anos e anos? Não são poucos os pais que viram as costas para os filhos quando assumem a homossexualidade (outros até os espancam). Sentem vergonha deles. Rejeitá-los parece ser a única forma da não manchar o nome da família.

Portanto, ainda que nos orgulhemos de nossa cultura ocidental, não estamos plenamente livres de preconceitos, discriminações, machismo… Nem rompemos de vez com o sentimento de posse do outro. Também por aqui se mata (o corpo ou alma) para “lavar a honra”. Mata-se por si, mata-se pelos vizinhos ou pela família – para não sofrer a vergonha de ser traído. Sim, estamos no século XXI, mas muito de nossa cultura ainda é medieval.

Coitado do Monteiro; pobre de nós

Já escrevi aqui que devo ser o cara errado, na hora errada, no mundo errado. Gente, estou desanimado. A coisa está preta. Desculpa, não posso falar assim, né? Pode ser entendido como preconceito, discriminação.

Socorro, viu?

O tal do Iara – Instituto de Advocacia Racial – agora quer tirar de circulação o livro “Negrinha”, do Monteiro Lobato. Não bastasse o ataque contra “Caçadas de Pedrinho”, agora o instituto quer proibir outra obra do autor.

O Iara, que faz o papel de protetor dos negros e de suas causas, tem atropelado o bom senso em nome do politicamente correto. A justificativa é sempre as mesmas: o texto de Monteiro Lobato é preconceituoso, apresenta o negro numa visão estereotipada.

Como “Negrinha” faz parte do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), do governo federal, o instituto quer a obra banida da lista. Não admite que, com dinheiro público, se financie o que chama de uma obra “fortemente carregada de conteúdos raciais”. E promete, inclusive, recorrer à cortes internacionais para tirar o livro de contos das prateleiras.

Gente, livro é livro. Na literatura, pode tudo. E os textos de Monteiro são fruto do contexto histórico. O autor era racista sim. Mas é um dos nossos maiores escritores. A gente precisa aprender a separar as coisas.

E tem mais. As obras literárias funcionam sob a lógica do exagero. O que seriam os vilões se não fossem pintados em cores fortes, carregadas? O que seria a mocinha se não fosse a mais bela, a mais gentil?

Cenários e personagens até podem se inspirar na realidade, mas são obras de ficção. Por isso, o estereótipo é recurso comum. Essa é uma característica da arte. O que seria do humor se os personagens não fossem caricatos? Que graça teria um gay no humor se seus traços e gestos não fossem exagerados?

Convenhamos, gente educada sabe diferenciar realidade e ficção. E as escolas têm sido palco de discussões importantes sobre preconceito, racismo, discriminação etc etc. Professores não precisam ser “treinados” para usar os livros de Monteiro Lobato em sala. E, ainda que não fossem, leitores de “Negrinha”, “Caçadas de Pedrinho” não olharão o negro de forma estereotipada por conta do texto do autor. Quem acredita nisso subestima a inteligência do leitor. Ignora que a fixação de significados, a construção do imaginário popular, se dá pela redundância, pela repetição e quando o discurso se mostra coerente.

Banir ou censurar textos, principalmente literários, é um recurso pobre, mesquinho, de quem pensa pequeno. Gente que tem em si mesmo enraizado preconceitos e mania de perseguição. Na tentativa de corrigir o passado, estão matando o presente.

Crentes, modernos e na moda

Rabugento como sou, raramente acho graça dessas bobagens que o pessoal inventa e compartilha no Facebook. É muita besteira pro meu gosto. Mas gostei desta “campanha” aqui.

Embora bastante simples, uma leitura sensata das imagens permite refletir sobre o estereótipo que se tem dos evangélicos. A proposta é questionar a Globo. Mas esse estereótipo não é apenas da emissora carioca. Muita gente ainda vê o evangélico como alguém que não sabe se vestir, que tem mau gosto, só sabe falar de Bíblia… Como se fosse uma gente sem cultura.

É verdade que existem crentes assim. Mas o cristão é gente; É como qualquer outra pessoa. E pode vestir-se bem, frequentar bons lugares, ouvir boas músicas, ler bons livros, ter amigos… Enfim, viver. Ele não é refém da religião. É livre.

Uma vida de fé não é uma vida alheia ao mundo, ao que é bom. E, como em qualquer segmento da sociedade, tem gente que sabe viver e aproveitar o melhor da vida e tem gente que não sabe. Simples assim.

Pra ser preconceituoso, não é preciso ser cristão. Pra discriminar pessoas, idem. Vale o mesmo para o jeito de se vestir, para os cuidados com o corpo etc.

Tempos atrás, por exemplo, descobri a página de uma jornalista que passei a admirar. Ela é jovem, descolada e… cristã. Ela criou o blog Bonita Adventista. Na página, tem dicas de beleza, de estética facial, corporal… e moda. Nada mais contemporâneo.

Portanto, tem sim muitos evangélicos resistentes à moda, aos valores estéticos (como tem gente resistente a um monte de coisas nessa vida). Mas estas são pessoas que ainda acham que fé se traduz no tamanho da saia, num rosto sem maquiagem ou na camisa de manga longa e fechada até o pescoço. Entretanto, identificar todo um segmento – diversificado como são os evangélicos nos dias atuais – por uma única imagem é perpetuar um estereótipo – que, como o termo diz, o estereótipo distorce a realidade.

“Antes pegador que veado”

Caio Castro
A frase é do sujeitinho aí do lado. O global está na novela Fina Estampa. Faz parte da lista dos novos famosos.

Sinceramente, não tenho o hábito de trazer “celebridades” aqui pro blog. Nem falar da vida delas. Entretanto, fiquei impressionado com a fala desse ator.

O cara consegue numa só frase revelar machismo e preconceito. Impressionante!

Pior é que são essas cabecinhas que andam inspirando muito gente. E fazendo as meninas suspirarem.

O sujeito tem que pensar muito pequeno para fazer tal comparação. Primeiro, porque não há mérito em ser “pegador”. E, segundo, porque ser homossexual não torna ninguém digno de pena nem faz a pessoa ser pior ou melhor que outra.

Homofobia, preconceito e o politicamente correto

Marcos Mion está sendo processado por homofobia. Ele e a Record. Não, não vou discutir o caso. Quem quiser entender, clica no link e vai ver mais sobre o assunto noutros sites. Quero apenas refletir sobre este momento chato que estamos vivendo. Danilo Gentili falou sobre isto ao defender Mion. Ele está certo. Tudo é proibido. Vivemos o tempo do politicamente correto. É um “deus-nos-acuda”. Qualquer palavra ou frase mal colocada pode render ação na Justiça. Ou o sujeito se vê obrigado a retratar-se.

Dia desses compartilhei por aqui a sensação que tive de constrangimento em sala de aula por usar um termo comum. Ao falar mandar um “Então o neguinho acha que”, parte da sala ficou olhando pra mim como se eu fosse um cidadão que estivesse algum tipo de preconceito contra negros.

Tudo bem, acho que existem exageros. O racismo é uma verdade. Homofobia, idem. Mas peraí… Estamos perdendo a noção das coisas. Daqui a pouco nada pode.

Pra fazer rir, a piada sempre foi construída com base naquilo que constrange. É assim que funciona.

Por que tenho enorme dificuldade até para contar piada? Porque sou todo certinho, tenho cuidado com as palavras, sou todo polido… Enfim. Isso me torna um chato. E não um cara engraçado. Muito menos me faz um defensor das minorias.

Convenhamos, está na hora de educarmos a sociedade para romper com os sentimentos preconceituosos – de todos os gêneros. Não é por meio de leis e pressão que vamos mudar as pessoas. Pelo contrário, só causa mais confrontos e separação. Rir de si mesmo sempre foi a melhor forma de ser aceito e se tornar agradável.

Racismo, preconceito e o politicamente correto

Tenho acompanhado a uma certa distância esses casos de racismo envolvendo jogadores que estão na Europa. O último caso badalado teve como protagonista o atacante Neymar. No jogo contra a Escócia, ele “ganhou” uma banana. Seria uma forma de chamá-lo de macaco.

Embora o fato esteja sendo questionado – se houve ou não uma atitude racista contra o atleta -, vejo essas manifestações com muita preocupação.

Por um lado, acho que há um exagero. Tudo agora é racismo, preconceito… Esta semana, por exemplo, enquanto explicava um assunto mandei um:

– “Então o neguinho acha que…”

Não estava falando de nenhum negro. Foi só uma forma de expressão. Poderia ser substituído por outro termo. Algo do tipo: “o sujeito”, “o camarada” etc etc.

Ao terminar a frase, notei alguns alunos trocando olhares como se estivessem dizendo: “o professor tem preconceito” ou “ele não gosta de negros”. Afinal, sou branco, classe média… Fica fácil dizer que minha atitude foi discriminatória.

Nessas horas é que entendo existir exagero. Tudo tem que ser politicamente correto. Por isso mesmo, andaram querendo até banir livros do Monteiro Lobato. Loucura!

Mas, retomando… Essas manifestações de racismo me preocupam. Muita coisa tem melhorado, é verdade. Principalmente porque as leis são cada vez mais severas. Então, se o sujeito é racista, precisa calar-se. Do contrário, pode ter problemas. Contudo, noto que, a busca por estabelecer o respeito e a igualdade, tem levado alguns a ter ainda mais ódio pelos negros, homossexuais e outras minorias. É como se tal luta ferisse essas pessoas, levando-as a reagir com mais violência.

Cá com meus botões fico pensando se isso não poderá criar uma sociedade ainda mais dividida. Afinal, a harmonia, o afeto, a amizade não nascem por meio de leis. Essas são necessárias para proteger as minorias. Mas não criam um sentimento de respeito. Em alguns lugares (Europa, por exemplo), o que temos observado é uma separação e rivalidade ainda maiores. O que é lamentável.