A educação é um direito de todos?

A constituição federal diz que a educação é um direito de todos. Crianças, adolescentes e jovens, pobres ou ricos, têm direito à educação.

A ideia de ser um direito parece ter tido um efeito bastante nocivo na visão que temos da educação.

De certo modo, parte significativa da população se relaciona com a educação de maneira passiva. Se é um direito, eu mereço ser educado. Ou seja, essa visão implica a obrigação de um terceiro fazer algo por nós. Alguém nos educa.

O problema é que essa visão transfere para o outro o dever de fazer com que o processo de educação dos nossos alunos seja bem sucedido.

E a dinâmica, na prática, é outra. A educação é algo que se conquista. É algo que o aluno faz por si mesmo. O professor, a escola, o Estado não podem fazer pelo aluno aquilo que é papel dele.

É dever do Estado (ou do dono da escola) assegurar a vaga, o funcionamento da escola, a estrutura física adequada, a presença do professor na escola; mas cabe ao aluno o dever de se abrir para o que é ensinado e buscar efetivamente a sua formação.

Esta deveria ser a compreensão de todos nós a respeito da educação. A educação não é algo que alguém faz por mim; é algo que eu faço por mim.

Quando a gente entende isso, muda toda a dinâmica. Muda, porque, se alguma coisa não está funcionando, a gente vai atrás. Cobramos, questionamos e, principalmente, entendemos que somos os protagonistas de nossa história – os responsáveis pelo sucesso de nossa formação.

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Tem doutrinação nas escolas?

A educação é tema de toda campanha eleitoral. Faz parte do tripé que aparece nas prioridades de todo candidato a prefeito, governador ou presidente da República. Afinal, que político não faz promessas para educação, saúde e segurança?

No que diz respeito à educação, curiosamente, todo mundo fala, todo mundo palpita.

O problema é que a maioria desconhece o que efetivamente acontece nas escolas e, principalmente, nas salas de aula.

Esse desconhecimento se estende às famílias – que tem filhos estudando. A maioria dos pais não sabe o que está sendo trabalhado pelos professores, desconhece a rotina e quase não participa da vida escolar dos filhos. Os pais estão alheios ao que ocorre – e por opção deles, não por causa da escola.

Um dos temas recentes, que faz parte das bobagens que as pessoas repetem, é a suposta doutrinação que ocorreria por parte dos professores.

Trata-se de uma bobagem tão grande que não sei como classificá-la. Talvez se assemelhe ao saci pererê, mula-sem-cabeça ou algo parecido. Tem gente que diz que existe e que viu, mas não passa de lenda.

Doutrinar seria um processo que transcende o mero convencimento. Uma criança, um adolescente, vítima de doutrinação, ficaria cego, veria o mundo apenas na perspectiva para a qual foi doutrinado.

Noutras palavras, os professores fariam lavagem cerebral em seus alunos.

Não, amigos, isso não acontece.

Eu reconheço e concordo que existem professores que, em sala, são militantes. E isso é um fato. Professores que militam em prol de causas que entendem ser justas e necessárias. Entretanto, o número de docentes que faz isso é muito pequeno. E, se os pais participassem da vida escolar dos filhos, poderiam cobrar a escola para inibir essas práticas, pois a legislação que trata da educação é clara: a sala de aula é um ambiente para um ensino plural, que abrange diferentes perspectivas.

Detalhe, quase sempre professores-militantes estão nas universidades – e também por isso exercem pouca influência sobre a maioria dos alunos. Na prática, viram motivo de piada e até de rejeição por parte de alguns estudantes.

Nas escolas da rede fundamental e nos colégios de ensino médio, os militantes – supostos doutrinadores – praticamente são inexistentes. Professores que atuam nessas etapas da educação raramente possuem formação para serem militante. Por isso, quando militam, atuam quase de forma caricata.

Tem outro detalhe, as escolas, hoje, até o ensino médio, possuem tantas demandas, exigem-se tantas coisas para serem trabalhadas, que sequer dá tempo de o professor ficar levantando bandeira em sala de aula.

Volto a repetir, é fato que vez ou outra aparece um professor se posicionando de forma contundente a respeito de algum assunto, atropelando o bom senso e até mesmo os valores dos alunos e suas famílias – inclusive desrespeitando a orientação das próprias escolas. Mas essas situações são esporádicas, não justificam a imposição de uma lei que instale a mordaça e que acabará por impor uma única forma de ver o mundo.

Uma última palavrinha: se você ainda acha que tem doutrinação, visite a escola de seu filho. Procure conversar com coordenação, direção, professores… Tome conhecimento da rotina escolar, dos conteúdos em sala. Acompanhe! Certamente você vai descobrir uma série de problemas, mas também verá a escola com outros olhos.

Quem estimula o aprendizado é o professor

Quando o assunto é educação, não existem posições definitivas. Nem uma única forma de ensinar e/ou de aprender. Ser flexível, rever conceitos são atitudes fundamentais. Tanto ao pesquisador da educação quanto ao professor.

O educador também é um aluno. Por vezes, um aluno de seus alunos. Ouvir e aprender com eles é ser sábio. O professor não sabe tudo. Nunca saberá. Outras vezes, os sinais emitidos pelos alunos sugerem que é preciso rever a proposta pedagógica ou mesmo o jeito de ensinar. Manter-se fiel ao mesmos métodos, as mesmas fórmulas, é a receita do fracasso. Cada turma é única e aprende de um jeito muito particular.

Como pai de alunos, pesquisador da educação e professor, noto que alguns colegas ainda se incomodam com o desinteresse do aluno e o culpam por isso. Na tentativa de fazê-lo permanecer em sala e se envolver com o programa da disciplina, criam estratégias das mais variadas que tornam aquele espaço quase um quartel militar.

Recordo que quando comecei a dar aulas, era um desses professores dispostos a tudo pra manter o acadêmico em sala – ainda que não estivesse interessado em minhas aulas. Uns dois anos atrás, conversando com uma jovem, que havia sido uma das minhas alunas mais brilhantes, aprendi uma grande lição: a melhor maneira de fazer o acadêmico estar em sala é despertar nele o desejo pelo conhecimento que tenho a oferecer. O que eu digo, o que eu falo, o que eu ensino tem que fazer algum sentido. Eu tenho que oferecer algo que possa mexer com eles. Não é fazê-los rir. Professores não são humoristas. Porém, o encanto deve estar no conhecimento. O saber atrai.

Se o aluno percebe que o professor tem algo a oferecer e este saber pode lhe ser interessante, ele estará em sala. O conhecimento é o que deve estimular, não as ferramentas coercitivas.

Esta filosofia é transformadora. Por duas razões: reconheço minha responsabilidade em provocar o desejo pelo conhecimento ao mesmo tempo dou liberdade ao aluno de escolher se quer ou não aprender.

Admito, não é simples encarar os alunos e impactá-los. Mas confiar no que tenho para oferecer, ter domínio daquilo que vou ensinar me garantem autoridade para fazer com que cada aula seja especial.

A mudança de método me fez descobrir que o professor, ao demonstrar claro interesse em promover o conhecimento ao aluno, consegue aquilo que o docente preso aos esquematismos não consegue: salas cheias e alunos envolvidos.

O prazer maior diante de uma sala interessada, que não dorme durante a aula, é do próprio educador. Ganha o professor, ganham os alunos, já que estes descobrem que a aquisição do saber – ainda que seja um processo desgastante, cansativo – não deve ser por obrigação, mas por uma escolha consciente.

As emoções afetam o aprendizado

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Não tem jeito… Se não estamos bem emocionalmente, tudo parece não fazer sentido. Já percebeu que, quando estamos com um problema, ficamos menos atentos, perdemos a concentração, tornamo-nos menos produtivos?

Pois é. Isso também acontece com a molecadinha na escola. Crianças também têm problemas emocionais. Às vezes, esquecemos isso. O sistema educacional também parece ignorar que um aluno pode estar desanimado, triste, frustrado… E que, por isso, aprende menos.

As emoções afetam o aprendizado. As emoções impactam a memória, nossa capacidade de retenção, de tomada de decisões, a qualidade das relações, a saúde, o bem estar físico. As emoções podem mudar os pensamentos, mudar nossos comportamentos.

Entender isso ajuda a ampliar a noção sobre como aprendemos, como a criança aprende.

A gente precisa reconhecer que, mesmo pessoas inteligentes (também crianças, claro), podem não ter êxito aprendizado pleno em função de problemas emocionais. Na verdade, segundo o pesquisador Antonio Casimiro, da Universidade Almería, o sucesso das pessoas se deve 23% à capacidade intelectual e 77% às atitudes emocionais.

Isso também explica por que conhecemos adultos que, na infância, tiravam boas notas na escola, mas não conseguiram sucesso profissional. E também por que muitos que tiravam notas ruins, hoje têm uma carreira bem-sucedida. O emocional é o diferencial. Gente que se cobra demais, que é insegura, que não lida bem com as perdas… Gente assim tem mais dificuldade para administrar as diferentes demandas da vida.

E na infância não é diferente. Crianças e adolescentes com problemas emocionais se tornam alunos limitados. Jovens emocionalmente desequilibrados não dão conta de produzirem, de serem criativos.

Por isso, desde a infância, é fundamental entender o papel das emoções. Os professores precisam identificar as dificuldades dos alunos e, na medida do possível, atuar para auxiliá-los. Muitas vezes, encaminhando até mesmo para atendimento terapêutico. Por outro lado, em sala, devem motivar, mostrar aos alunos que são capazes, que devem sonhar, que tudo que hoje temos como realidade um dia foi um sonho, um sonho que talvez parecesse impossível – mas alguém se atreveu em tentar fazer.

Quanto aos pais, devem reconhecer que as emoções afetam os filhos. Para o bem e para o mal. Por isso, oferecer um ambiente familiar equilibrado é fundamental. Mas podem ir além. O estímulo à prática esportiva é uma estratégia inteligente, pois desenvolve habilidades importantes no equilíbrio emocional. Entre elas a tolerância, o sacrifício, o esforço, o espírito de equipe, o jogo limpo, o compromisso e a administração do fracasso, já que o fracasso é uma forma de aprender.

Por que o professor precisa ganhar bem?

Mais que servir de reconhecimento ao trabalho do educador, pagar bem significa garantir mais qualidade de ensino. Neste vídeo, explico que a questão do salário vai muito além do reconhecimento. Não dá para acreditar numa boa educação sem que a profissão atraia os melhores alunos do ensino médio.

Aprendendo com as críticas

Quando a gente reconhece os próprios limites, abre-se para o tesouro mais preciso: o conhecimento
Quando reconhecemos nossos limites, nos abrimos para o tesouro mais preciso: o conhecimento

Minha orientadora no mestrado talvez seja a pessoa mais exigente que conheço. Todas as vezes que conversamos, sinto-me um nada. O processo é dolorido. Geralmente brinco um pouco pra aliviar a tensão. Mas, ao final das nossas conversas, estou tão desgastado que mal tenho forças pra interagir.

E aqui não estou reclamando das atitudes dela. Muito pelo contrário. Jovem doutora, bastante experiente na vida acadêmica, parecerista de revistas científicas, mais que educadora, ela é um ser humano “do bem”. É dura, criteriosa e grande conhecedora. Tem formação sólida. É muito capaz. Mas nunca vi uma única atitude dela de arrogância ou prepotência. Sabe muito, mas é humilde. Por isso, apesar de me fazer sentir tão pequeno, saio de cada orientação com espírito agradecido. Sei que, embora seja sofrido, estou tendo a chance de aprender. E aprender é crescer. Sempre.

Dias atrás, após um desses encontros “arrasadores”, desabafava com uma pessoa sobre me sentir incapaz, ignorante; alguém que mal sabe escrever. A conversa acabou indo para outro terreno: o processo de aprendizagem. Fazíamos uma avaliação sobre o comportamento humano. E, lembrávamos da dinâmica das escolas, colégios e universidades. Quem quer de fato aprender tem que estar aberto às críticas. A gente só cresce quando alguém aponta os nossos erros. Não dá pra ser diferente. E, infelizmente, vivemos um momento de intolerância aos questionamentos.

Queremos ser paparicados, dengados. O professor crítico é o professor chato. Muitos alunos gostam de professor que dá nota alta, que faz festinha na escola, que transforma a aula num show. Esse é o professor legal. Pouca gente quer em sala o educador que aponta os erros, que cobra leituras, que elabora provas difíceis, que desconstrói a produção do aluno. Ao final de um seminário, o aluno quer o elogio. Espera que alguém diga que ele é o máximo. Quando entrega um trabalho, espera boa nota – afinal, fez “até demais”. Em certas ocasiões, tenho a impressão que acreditam mesmo que já sabem tudo e não precisam melhorar em nada. A escola é só uma formalidade para, em algum momento, receberem o diploma.

Sabe, não dá pra aprender sem querer aprender. E esse processo passa pela aceitação da crítica alheia. Se alguém não aponta nossos erros, não crescemos. Não é bom ouvir que o que você faz é ruim. Não é divertido ser avaliado. Não é agradável ter expostas, apontadas as suas fragilidades.

Quando minha orientadora relaciona as limitações do meu texto científico, tenho duas escolhas: ignorá-la ou refletir a respeito das minhas limitações e tentar melhorar. Se eu melhoro, não é minha orientadora quem sai ganhando, sou eu. É isso que deveríamos entender. Quando o professor, um amigo, um colega de trabalho, um chefe… Quando alguém aponta nossas falhas, podemos nos ofender e ficar com raiva da pessoa, classificá-la como imbecil, arrogante etc ou podemos ser agradecidos, avaliar as atitudes, reconhecer as fragilidades e aprendermos.

O professor e as tecnologias

O domínio do saber deixou de ser da escola, do professor
O domínio do saber deixou de ser da escola, do professor

Alguns críticos da educação apontam que, se um professor de história medieval do Século XVIII, deixasse o túmulo e aparecesse numa de nossas escolas, não teria nenhuma dificuldade em dar aulas sobre esse tema. Ele dominaria o conteúdo. E a dinâmica de uma sala de aula não é muito diferente do que se fazia 200 ou 300 anos atrás.

Como educador que sou, entendo que o processo de aprendizagem está longe de ser um ato prazeroso. Aprender dá trabalho. Entretanto, embora também reproduza parcialmente em minhas aulas esse modelo histórico de ensinar, entendo que o mundo mudou. E algumas coisas a gente precisaria repensar.

Não dá para achar que o aluno de hoje é igual ao do passado. Nem precisa ir tão longe. Há 30 anos, a gente não apenas ouvia silenciosamente o professor como também levantava quando ele entrava em sala. Era um ato de respeito. Os livros e enciclopédias eram tudo que tínhamos como fontes de pesquisa. E quase sempre estavam restritos às bibliotecas. E hoje? Hoje, todo conhecimento está a um clique. Com um pouco de habilidade, a gente usa o Google e o mundo se abre diante de nós.

O aluno sabe disso. Ele pode não pesquisar, não ter interesse por descobrir. Porém, sabe que na rede existe mais informação do que em sala de aula. E, ao mesmo tempo que isso o acomoda diante do saber (ele acha que, no momento que precisar da informação, pode buscá-la no Google), também motiva o desrespeito pelo professor, pela escola. O aluno olha a estrutura educacional como arcaica, o professor como um bobo. Nada ali o estimula.

Para mim, esse é um dos principais desafios da educação: reconhecer que o modelo está ultrapassado. E que o público da escola é formado por alunos nascidos num meio tecnológico que produziu um outro tipo de ser humano. Esses meninos e meninas necessitam de outros estímulos para aprender. O professor não perdeu o seu papel. Porém, é necessário repensar o jeito de ensinar. Como diz um autor que li recentemente:

O professor se torna essencial como facilitador, animador ou mediador de processos. Seu papel de provedor unilateral de informação vai perdendo espaço.

Ou seja, é ilusão achar que, em sala, o professor segue tendo o mesmo papel histórico de detentor do saber. Hoje, cabe a ele novos papeis. Ainda tem importância. Porém, muito mais como um mediador, um estimulador da busca pelo saber. E contar com as tecnologias da informação e comunicação pode ser uma boa estratégia para levar conhecimento ao público estudantil.

Conheça seu professor

teacherTudo bem… Sou professor e o texto pode parecer suspeito demais. Entretanto, toda vez que penso na relação do aluno com o professor, lembro de uma afirmação do Max Gehringer quando o entrevistei no estúdio da CBN Maringá. Na ocasião ele deu uma dica importante aos jovens universitários. Em outras palavras, sugeriu que procurassem ser os melhores alunos possíveis para com os professores. Respeitosos, cooperativos, atentos, dedicados. E tudo isso por um motivo: o professor pode abrir portas de trabalho para você.

Ainda neste contexto, ao ler um texto publicado no jornal El Pais, encontrei algumas orientações que reforçam a tese. O colunista Carlos Arroyo ressalta que o aluno só tem a perder se tiver uma atitude hostil ou de indiferença frente ao professor. Embora sempre tenha defendido essa tese na relação com meus filhos, nunca ousei discutir o assunto. Entretanto, concluí que é algo para se pensar.

A primeira coisa que deve saber é que, embora a educação tenha vários protagonistas, o acadêmico é o principal deles. É quem de fato gerencia o desempenho e pode fazer a diferença.

Ao longo do curso, mais que teorias, os professores dão dezenas de pistas e orientações que podem auxiliar o aluno a obter bons resultados na profissão. Quem tem a mente desperta, é capaz de notar dicas preciosas, mesmo na boca de um sujeito marrento, chato ou grosseirão.

É natural que não se goste desse ou daquele professor. Porém, quando se rejeita um deles, o interesse pelo conteúdo sofre um bloqueio. E só quem perde é o aluno. No ensino superior, mais fácil que o professor adaptar-se ao aluno é o aluno se adaptar ao professor. Mais fácil que mudar o professor é mudar você.

Arroyo ressalta que não é difícil identificar a personalidade, não é impossível conhecê-lo. Seu professor é exigente demais? Falante? Amigo? É inflexível? Criativo? Seguro ou inseguro? Inacessível? O professor é um ser humano como outro qualquer. Tem personalidade. E isso afeta a forma dele trabalhar, as relações em sala de aula. Ainda que o papel do educador seja ensinar e até mesmo motivar, o aprendizado se dá entre aqueles que estão com a mente aberta.

Somente quem está atento, consegue aproveitar o conteúdo. Compreender quem é de fato o outro, suas singularidades, ajuda na adaptação, permite romper bloqueios que surgem naturalmente quando a gente não gosta de determinadas características de alguém. Isso nos torna mais tolerantes e receptivos. E no caso do aluno, ajuda a obter melhores resultados.