Cuidar bem da escola é uma atitude de respeito aos alunos e professores

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Ao longo dos anos, o Estado brasileiro frequentemente tem negligenciado uma premissa básica para o sucesso do processo de ensino-aprendizagem: o cuidado com as condições ambientais, higiênicas e estéticas da escola.

Gente, é nocivo para o ensino e para a aprendizagem o descuido com a escola. Não basta pagar excelentes salários, oferecer material didático de qualidade e ignorar o cuidado com o local onde se dá todo o processo de ensino-aprendizagem. É fato que, no Brasil, salários e material didático também são um problema. Como também são problemáticas as diferentes propostas pedagógicas em vigor. Entretanto, teríamos um salto de qualidade na eficácia do trabalho do professor e no aprendizado do aluno se a escola estivesse muito bem cuidada. Certamente, seria um primeiro e importante passo na busca por melhorias na educação.

Calor ou frio em sala de aula, espaços mal ventilados, carteiras velhas e quebradas, portas defeituosas, equipamentos que não funcionam, quadros velhos que ninguém consegue apagar adequadamente, ambientes sujos e paredes com rachaduras e pinturas antigas, desbotadas, sanitários que não funcionam, pátios inadequados, quadras esportivas envelhecidas, sem piso adequado para a prática das atividades – algumas inclusive sem cobertura… Essa lista é um pouco do quadro atual que encontramos em muitas das escolas brasileiras – incluindo universidades (temos salas de aulas que precisam ser desocupadas quando chove).

Esse cenário mexe com a motivação do professor e do aluno, prejudicando a aprendizagem.

Eu costumo fazer uma analogia simples: por que nos preocupamos com as cores da nossa casa, com a qualidade do piso, o revestimento do banheiro, os detalhes do acabamento? Não bastariam as paredes, o telhado, sanitários e alguns mobiliários? Investimos tanto no espaço doméstico porque queremos sentir prazer, satisfação quando estamos ali. A gente quer se sentir bem em casa. Um espaço esteticamente adequado, higiênico, produz alegria, bem-estar.

Mas e a escola? Como se sentir bem num ambiente em que reina o abandono?

Paulo Freire tratou disso em suas discussões. Num de seus textos, ele afirma:

“O professor tem o dever de dar suas aulas, de realizar sua tarefa docente. Para isso, precisa de condições favoráveis, higiênicas, espaciais, estéticas, sem as quais se move menos eficazmente no espaço pedagógico. Às vezes, as condições são de tal maneira perversas que nem se move. O desrespeito a este espaço é uma ofensa aos educandos, aos educadores e à prática pedagógica”.

Acho essa última frase extremamente relevante. Quando o espaço escolar não possui boas condições estéticas, estruturais e higiênicas, professores e alunos são desrespeitados e a prática pedagógica fracassa.

O conhecimento é resultado do esforço individual

A gente vive numa sociedade em que o dinheiro pode comprar tudo, exceto o conhecimento. É fato que o dinheiro pode até assegurar o acesso às melhores escolas, universidades e cursos. Porém, o saber adquirido é resultado do esforço individual.

Posso ter os melhores professores do planeta. Contudo, nunca serão capazes de transferir para mim o que eles sabem. Sou eu, e apenas eu, que posso adquirir o conhecimento. Para isso, preciso querer, desejar, me abrir e me empenhar em aprender.

Isso evidencia que o conhecimento é uma riqueza de outra natureza. Não se compra com dinheiro. Adquire-se por meio de uma atitude pessoal, individual! Não dá para transferir essa tarefa para um terceiro.

O conhecimento é fruto exclusivo de um esforço meu e de uma paixão que não se esgota.

E a paixão é necessária para o mover-se em direção ao saber. Porque o processo é desestabilizador, desgastante e requer uma energia que nem mesmo o trabalho demanda.

Só dá conta de acessar o conhecimento quem encontra prazer no mundo do saber. Quem compreende que esta é a maior riqueza humana, aquela que ninguém pode tirar.

Sabe o que é mais incrível? O conhecimento é o único patrimônio que, quanto mais é dividido, mais cresce. Eu não empobreço quando ensino. Eu enriqueço junto com quem aprende comigo. E o mundo se torna um lugar melhor para viver.

As exigências sobre a escola

Por muitos anos, a escola tem sido vista como um espaço para discussão de tudo que precisamos aperfeiçoar na sociedade.

As cidades precisam civilizar o trânsito? Vamos discutir isso na escola.
As crianças estão se alimentando mal? Vamos tratar disso na escola.
O planeta precisa ser melhor cuidado? Vamos tratar de meio ambiente e sustentabilidade na escola.
As pessoas não estão sabendo lidar com a internet? Vamos pautar esse tema na escola.
E por aí vai…

Ninguém diz efetivamente o que precisa ser feito, muito menos como ser feito. O negócio é empurrar pra escola.

De fato, a sala de aula é um ambiente privilegiado; o melhor espaço para promoção do saber. Na escola, o ensino é sistematizado, o processo de aprendizagem envolve disciplina, organização… Além disso, o saber é pautado pelo conhecimento científico.

Ou seja, justifica-se apostar na escola como o melhor lugar para promover o debate de assuntos que têm a ver com a vida das pessoas, com nossa relação com o mundo.

Entretanto, existe um problema: exige-se que o professor promova uma série de reflexões, mas a escola não ganhou estrutura adequada para isso. Muito menos houve mudanças na grade curricular. Na prática, não há tempo para tantas demandas e nem profissionais especializados.

Junto com tudo isso, a escola é pressionada pela sociedade, que, como regra, nada entende da dinâmica educacional; sobram conteúdos que não se justificam na escola – e isso nas mais diversas áreas (Física, Química, Matemática, Biologia etc.) – há um processo de desrespeito ao professor, por parte das pessoas e da classe política; os debates sobre os modelos de ensino são politizados e as reformas propostas quase sempre não possuem sintonia com a realidade da própria escola…

Como então esperar que a escola cumpra, de fato, seu papel social? Tenho comigo que, pelo contexto em que vivemos, inclusive no que diz respeito aos investimentos recebidos, a escola e professores têm sido verdadeiros heróis.

Filhos frágeis

Ao observar o comportamento de muitos adolescentes, fico bastante indignado com os pais. É impressionante o que muitos deles têm feito na educação da garotada. Nossos jovenzinhos são frágeis… Não sabem enfrentar os problemas. Não sabem lidar com a vida.

E de quem a responsabilidade? Dos pais! Sim, os pais estão formando uma geração mole. Uma geração de filhos bundões – desculpa o termo.

Essa molecadinha não pode ouvir um não do colega, do professor… e já chega em casa chorando. Aí os pais correm pra comprar a briga dos filhos.

O menino foi alvo de uma brincadeira de mau gosto na escola? Tá lá, no mesmo dia, os pais ameaçando tirar o garoto da escola.

A menina foi excluída do grupinho? Lá estão os pais, nervosos, irritados, tomando as dores da filha.

Chega a ser assustador!

São meninos e meninas que não sabem se defender. Não sabem se impor. E quando tentam fazer isso, a defesa é quase sempre um ato de violência – ainda que verbal.

Tenho repetido que não sou um pai exemplar, mas me orgulho de saber que orientei meus filhos a resolverem seus próprios problemas. Sempre estive pronto pra abraçar, apoiar, aconselhar. Mas a encrenca na qual se meteram era um problema deles. Nunca fui à escola defender meus filhos, nunca tive que conversar com outros pais por conta de problemas deles.

Penso que é dever dos pais permitir que os filhos amadureceram. Isso significa expô-los às dificuldades. A gente tem que aprender a dizer para as crianças:

– Querido, se você se envolver num problema na escola, tente resolver. Fale com o colega, converse com a professora, procure a coordenação. Se alguém te tratar mal, afaste-se. Encontre um jeito de resolver. Eu não vou resolver pra você!

Esse tipo de atitude ajuda no desenvolvimento da autonomia, da confiança.

A vida é dura. E justamente por isso temos que incentivar nossos filhos a se tornarem pessoas fortes. Sensíveis sim aos problemas alheios, mas capazes de lidar com as frustrações, com as decepções, traições… Fortes para assimilarem as pancadas da vida.

Cinco meses depois, ainda não foram punidos responsáveis por massacre de professores

No dia 29 de abril deste ano, assistimos cenas que achávamos impossíveis de acontecer. Professores paranaenses foram massacrados em Curitiba. Pelo menos duas centenas de pessoas saíram feridas da chamada “Batalha do Centro Cívico”.

Na ocasião, os professores protestavam contra medidas propostas pelo governador Beto Richa e que seriam votadas na Assembleia Legislativa. Para garantir que os deputados votassem, sem sofrer a pressão dos professores, uma grande operação policial foi montada. O governo do Paraná convocou policiais de várias cidades. E reforçada, a PM recebeu os professores em Curitiba como se educadores fossem terroristas. Sim, profissionais da Educação foram tratados como ameaças.

Além dos professores apanharem da polícia, os projetos do governador foram aprovados e, pior, a administração Beto Richa lavou as mãos… Apenas responsabilizou a Polícia Militar pelo que foi considerado um abuso.

Dentro da polícia, foi aberto um inquérito para apurar os tais abusos. Hoje, cinco meses depois do massacre, sabemos que ainda nada aconteceu. O governo segue seu rumo, não reconheceu que errou e nem assumiu suas responsabilidades… Já os policiais que estavam no comando da operação, e que foram tidos pelo Ministério Público como responsáveis por aquela operação e pela execução da ação policial, esses servidores estão em plena atividade na PM.

Uma reportagem publicada hoje pela Gazeta do Povo mostra, inclusive, que o comandante daquela Operação está numa posição ainda melhor dentro da polícia. “Hoje, ele ocupa o terceiro cargo mais importante da corporação, a chefia do Estado Maior.”

Para se ter uma ideia, quem organizou a repressão aos professores hoje dá aulas no Curso de Formação de Oficiais. E o que ele ensina? Segundo a Gazeta do Povo, ensina, inclusive, técnicas de repressão.

Pois é… Hoje eu não tenho uma conclusão a apresentar neste meu comentário. Apenas quero lamentar. Afinal, num país que se diz democrático, ainda vemos que existem opressores e oprimidos.

Regurgitadores do saber

Vez ou outra escuto alunos reclamando da sobrecarga de atividades. Lamentam que não possuem fins de semana, precisam estudar de madrugada, são obrigados a se debruçar sobre textos chatos, teorias aparentemente sem sentido. Olham para a rotina dos estudos como um peso, um fardo difícil de suportar. Por isso, contam as horas para as férias e, principalmente, para a tão aguardada entrega do diploma.

– Só quero acabar essa faculdade logo.

Este é o tom do discurso de muitos acadêmicos no ensino superior. Não é diferente nas séries iniciais.

Hoje, enquanto lia um texto do professor Rodrigo Zeviani a respeito de Da Vinci, voltei a pensar nessa ausência pelo desejo de aprender. Leonardo era gênio, é verdade. Porém, queria conhecer. Nada e nem ninguém o impediu de ter acesso ao conhecimento. E olha que as circunstâncias não eram favoráveis.

Por isso, me incomoda ver o discurso de nossos estudantes. Por isso, me entristece observar que, para muitos, estudar é um peso.

Ao que tudo indica, todos buscam sua “zona de conforto”. Os desafios deveriam ser a alternativa para a superação. A preguiça deveria ser combatida com todas as forças. Somos uma geração fadada às repetições. Os pensadores estão em falta.

Sim. E o que é pior, na mesma medida que alguns professores transferem a responsabilidade pelo não aprender para os alunos; muitos alunos transferem para seus professores a culpa pelo não desejo de conhecer. Por vezes, chegam a ridicularizá-los, inclusive.

Volto a me inspirar no texto do professor Rodrigo… Imaginem o que seria de Da Vinci se achasse seu mestre na pintura um “pobre coitado”? O que seria de Leonardo? Ele superou o próprio mestre. E mostrou isso na primeira oportunidade que teve. Isso, porém, não o impediu de seguir trabalhando com Verrocchio.

Lembro dos esportes… Por que um Roger Federer respeita seu técnico? Ele poderia pensar: se seu técnico fosse tão bom assim não deveria ele, o técnico, estar na quadra? Mas é assim que funciona: ao professor cabe estimular; ao aluno, cabe ir além… Conhecer mais. Fazer mais.

Mesmo atividades aparentemente sem sentido podem se transformar em oportunidades raras de aprendizagem. Quando há prazer em aprender, busca-se o saber. Recordo que um dos trabalhos mais “imbecis”(?) que tive durante a faculdade, tornou-se talvez no melhor momento do nosso grupo durante aqueles anos de academia. Achamos tudo tão sem sentido que resolvemos pesquisar por nossa conta, criar nossa própria proposta… Por fim, nos divertimos e… aprendemos. Para mim, foi a maior lição que aprendi na faculdade: o estímulo é dado em sala de aula, o conhecimento obtenho fora dela – por minha própria conta.

Quando a gente se põe a lamentar da rotina, a gente trava. Não aprende. O texto fica chato, a atividade sem sentido, o estudo… sem graça.

Um ano de muitas leituras pode ser difícil sim. Um bimestre com muitos trabalhos pode nos roubar noites de sono sim. Uma semana de provas, seminários etc pode estressar sim. Entretanto, se isso vai nos dar prazer ou não quem define somos nós mesmos. Não é a escola, a faculdade. Nossa atitude é determinante.

Para os “meros regurgitadores do saber”, talvez esses períodos sejam apenas isso: um fardo. Para os que encontram satisfação no conhecimento, nenhum minuto de estudo será tempo perdido.

Beto Richa, as ameaças de greves e o marketing político

Ninguém pode negar a habilidade de marketing do governador Beto Richa. Não foi por acaso que ele foi avaliado por várias vezes o melhor prefeito do Brasil. O sistema interno de pesquisas da prefeitura conseguia garantir um bom termômetro das insatisfações da população e as respostas do poder público contemplavam essas demandas. Com isso, o povo ficava agradecido e respondia com boa aprovação do governo dele.

No Palácio Iguaçu, Beto Richa parece disposto a repetir o sucesso que teve na prefeitura. Deixa isso claro quando, frequentemente, cita o tempo em que comandou o Executivo da capital. E as reações do governador diante das crises demonstra que age movido pelo que pode acontecer com a opinião pública.

Foi assim com a ameaça de greve dos policiais. Rapidamente, Beto tentou conter a categoria espalhando notícias na imprensa sobre investimentos que estariam sendo feitos na segurança pública – incluindo a contratação de servidores. Ou seja, mesmo sem uma proposta satisfatória para a categoria, o governador tenta manter a população ao seu lado, já que aparece na mídia mostrando as “conquistas” e os “investimentos” no setor.

A lógica é a mesma no caso dos professores e trabalhadores das universidades públicas do Estado. A ameaça de greve existe. A insatisfação é grande. Entretanto, os servidores da educação sabem que podem não ter o respaldo da população. Afinal, o governo mostra números, contratações, apresenta dados que sustentam o discurso:

– “Gente, acabei de chegar ao governo. Já fiz isso, mais isso e aquilo. Preciso que tenham um pouquinho de paciência. E já propus reajuste. Só não posso pagar tudo agora”.

E até deu data: dia 20 próximo promete apresentar uma nova proposta salarial e até rever o corte de orçamento das universidades.

Além disso, o governo conta com um argumento bastante razoável: trata-se de um ano eleitoral. Logo, a ameaça de greve é política de opositores. Esta é sempre uma boa tese. E quase sempre representa uma verdade – ainda que parcial.

Portanto, sustentando-se sob um bom marketing político, cá com meus botões, penso que Beto Richa não deverá ter sua imagem afetada junto ao eleitorado. Não creio que terá problemas para reeleger-se em 2014.