Qual é o nosso desejo?

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Tempos atrás li uma frase que chamou minha atenção.

Um povo se define pela qualidade do seu desejo. E desejo só se qualifica com educação. (Eliane Brum)

Fiquei pensando nos sentidos que se constroem a partir do que disse a Eliane. Qual é o nosso desejo? Qual é a vontade do povo? Responder essas perguntas ajudaria a compreender o que queremos. E isso nos levaria a discutir a qualidade, os fundamentos do que queremos.

Por exemplo, as pessoas se manifestam, reclamam do governo, falam sobre escola, saúde, transporte, questionam os estádios construídos para a Copa… Mas, afinal, o que de fato querem? Sabem qual seu verdadeiro desejo?

Eu tenho dúvidas disso. Até vejo barulho, mas não ouço harmonia. A gente mal sabe em quem votou nas últimas eleições. A gente mal olha para as demandas do nosso bairro. Por exemplo, tenho um apartamento numa região da cidade que há cerca de dois anos sofreu uma mudança significativa pela instalação de um bar muito badalado. O movimento de pessoas, carros e motos é intenso. Incomoda. Inclusive de madrugada. O ruído é insuportável. Quem mora no prédio não tem paz. Entretanto, curiosamente, só tem interesse em questionar o desrespeito que se pratica no local quem é afetado diretamente pelo problema. Gente que mora a 500 metros, no lugar onde estava instalado o bar até então, está feliz da vida. Funciona a lógica “se não me incomoda, não é problema meu”.

E assim é com quase tudo. Olhamos para o próprio umbigo. Questionamos o governo, brigamos com a Dilma, mas não sabemos o que de fato queremos. Qual é nosso desejo para a educação? Uma educação de qualidade, diriam. Ok; então o que é uma educação de qualidade? O que você entende como educação de qualidade? Seria um prédio bonito? Desculpem-me, mas vamos ser sinceros: que educação de qualidade é essa se sequer respeitamos os professores? Basta o docente ser mais severo com um filho e lá vai o pai à escola ameaçando, pedindo a demissão do educador.

O que é mais contraditório é que, conforme resume a frase da jornalista Eliane Brum, o desejo só se qualifica pela educação. E, convenhamos, nossa educação é muito ruim. Não, não estou falando da educação que é dada na escola. Estou falando de formação, de cidadania. A gente joga lixo na rua, a gente não tem disposição para dar passagem ao pedestre, a gente para em fila dupla, a gente briga com o outro motorista que dá sinal de luz ou buzina para sairmos da frente, a gente fura fila no banco, a gente faz “gato” pra não pagar TV a cabo, a gente cola na prova, a gente pede favor a político, a gente liga o som alto e diz um “dane-se” pro sono do vizinho, a gente bebe e dirige, a gente corta a árvore quando atrapalha a fachada da loja, a gente não devolve o troco que é dado a mais pelo caixa do supermercado… E essa lista poderia se estender. E muito.

Nossa postura é tão duvidosa que, num evento como o da Copa, perdemos o foco, protestamos e achamos que as manifestações com “quebra-quebra” nas ruas são o verdadeiro exercício de cidadania. Não estou defendendo a passividade, nem o fim dos protestos; questiono a falta de “time”, questiono a falta de percepção do que é nosso desejo, da qualidade de nosso querer; questiono a ausência de auto-crítica, a ignorância… Será que sabemos o que realmente queremos? Qual o país que desejamos? Eu não acredito que são sábios os desejos de pessoas que desprezam os livros, que classificam as aulas como chatas (mas não se envolvem com a escola), que julgam antes de conhecer, que ouvem, dançam e cantam as músicas que tocam nas rádios (reproduzindo discursos machistas e de mulheres-objeto), que assistem e tornam seu assunto predileto os programas populares da tevê e os atores que estão na capa das revistas. Ou que reproduzem comportamentos como os que citei há pouco.

Não vejo nossa sociedade como madura. Nem disposta a amadurecer. Vejo nossos desejos verbalizados em críticas e manifestações mais como atos adolescentes, inconsequentes, fruto de um povo que ainda não sabe quem é e o que realmente quer ser.

Ativismo vulgar e sem propósito

Acho que sou o sujeito errado, na época errada. Sinceramente, ando sem paciência para algumas coisas. Esses protestos de garotas pelo mundo afora, por exemplo. É muita imbecilidade junta. Já escrevi sobre o assunto por aqui, mas vejo que virou modismo. É um negócio maluco.

A mulherada tira a roupa e vai pras ruas. Até entendo que um ou outro protesto do tipo pode se justificar. Mas elas saem de seios nus – às vezes, corpo inteiro – por qualquer motivo.

Chamam a atenção? Claro que sim. Mas… e as bandeiras que defendem? Já avançaram em algumas delas? Conquistaram alguma coisa?

É óbvio que não. Tudo que é feito fora de hora, fora de propósito, fica banal. O que essas garotas fazem é ativismo vulgar.

A maioria das integrantes desses movimentos apenas repete discursos clichês. Sequer sabem direito do que falam. Elas entram na onda. Nada mais. O treinamento que recebem é mais focado em orientações de como agir – tirar a roupa, pintar o corpo, repetir frases, confrontar a polícia, fazerem cena diante das câmeras – que na politização de fato. Não tenho dúvida que poucas conseguiriam sustentar um diálogo profundo sobre qualquer um dos temas que, teoricamente, defendem por mais de 10 minutos. Certamente, cairiam no lugar comum.

E, desculpe-me, se o papo aqui parece preconceituoso. Tenho dito que cada um faz o que quer do corpo. Porém, entendo que longe de obterem resultados com seus protestos, essas moças apenas ganham holofotes por exibirem parte de seus corpos. Seus corpos não são ferramentas de protesto. São produtos de um mercado novo: o do ativismo vulgar.

Essas jovens viram notícias, mas não produzem resultados – não mudam a sociedade. Não conscientizam ninguém. Ao se despirem, perdem autoridade. Os mais tradicionalistas sentem-se agredidos. Acabam vendo-as como vagabundas sem causa. São protestos de apelo midiático. Atuam apenas para o show, para a sociedade do espetáculo.

PS – Mais fotos podem ser vistas aqui.

Os seios são armas de protesto?


Enquanto navegava por sites de notícias, encontrei um título que me chamou a atenção:

O seio não é um objeto sexual. É uma arma de protesto

A frase é de uma brasileira. Ela tem 19 anos. Sara Winter, sobrenome fictício, é a autora. Ela falou à Revista Veja sobre os protestos de topless que reúnem mulheres em várias partes do mundo. A jovem pertence ao Femen, grupo da Ucrânia que se caracteriza por esse tipo de manifestos.

Acho que não consigo acompanhar a lógica de Sara. Não vou resumir como “pouca vergonha”. Não, não penso assim. Mas não me parece que os seios são armas de protestos. Na verdade, tirando o efeito de marketing, não creio que sobra muita coisa desse tipo de atitude.

Dias atrás, publiquei aqui um texto sobre o fato de julgarmos as pessoas pelas (poucas) roupas que vestem. Portanto, acho desnecessário qualquer tipo de discussão moralista sobre o assunto. Minha proposta é apenas refletir sobre o efeito de se mostrar os seios em protestos que visam discutir abuso contra mulheres, casos de agressão, machismo, turismo sexual até temas como meio ambiente ou corrupção na política.

É verdade que os seios atraem o olhar. Fazem a sociedade parar pra ver. E a mídia, obcecada por sexo, adora. No entanto, não percebo que as pessoas param para ouvir. Nem a mídia dá atenção ao discurso, apenas à forma. Alguns poucos do público são seduzidos e, por vezes, até aderem esses movimentos – como é o caso de Sara, que sequer sentiu-se confortável para contar aos pais que integra ao Femen. Outras pessoas, porém, apenas têm suas convicções preconceituosas alimentadas por tais atitudes e deixam, inclusive, de notar a seriedade e gravidade de muitas das bandeiras defendidas por esses grupos. Infelizmente, muito por conta de seios e corpos nus.

Não sei o que elas poderiam fazer. Não tenho uma receita, um formato, uma sugestão para os protestos. Esses grupos e manifestos possuem, inclusive, intelectuais entre seus membros. Talvez saibam bem o que estão fazendo e onde pretendem chegar. Mas, cá com meus botões, ainda não vi muitos efeitos. Tirando o olhar erótico lançado para esses protestos, ignoro os resultados práticos. Reconheço as lutas como fundamentais para a ruptura com problemas históricos que incomodam a sociedade. No entanto, seios e corpos exibidos em público ainda não me convenceram como arma ideológica. Fico com a impressão, mais uma vez, que apenas sustentam o discurso machista, de que mulheres se resumem a um corpo e usam-no como instrumento de sedução – mesmo quando brigam por direitos que nada tem a ver com cama e sexo.