A esquerda se julga superior

Um dos momentos que ouvi de outra pessoa aquilo que gostaria de falar durante a campanha presidencial foi quando Mano Brown criticou o PT num comício no Rio de Janeiro. Foi na noite do dia 23, uma terça-feira. O rapper foi preciso quando sustentou que a esquerda deixou de dialogar com as ruas e já não entende o que o povo realmente quer.

É fato que a vitória de Jair Bolsonaro foi capitaneada pela elite econômica do país – principalmente pelos poderosos do agronegócio. Também com apoio de lideranças religiosas conservadoras. Entretanto, ninguém conquista a presidência sem o voto das massas populares. E a desconfiança do povo com o PT não tinha só a ver com o desastre da política econômica de Dilma Rousseff.

O que aconteceu, na prática, é que a esquerda, que comandou o país até 2016, como disse Mano Brown, deixou de entender o que o povo quer.

Mas o quadro é ainda pior quando a gente analisa as reações e movimentos da esquerda. Na prática, a esquerda acredita que sabe o que o povo e o país precisam. Também tem certeza que é a única que representa as classes e causas populares.

Essa presunção pode ser notada em muitos dos comentários que recebo em meus textos de gente ligada à esquerda e nas publicações feitas nos perfis inclusive de intelectuais dessa esquerda.

Ao longo dos anos, a esquerda se tornou agressiva com toda e qualquer pessoa que questione e que critique suas ações. E o que mais me incomoda é que, nitidamente, é possível observar que há um discurso de cima pra baixo – como se o fato de estar ao lado de um projeto progressista colocasse essas pessoas num patamar superior.

O discurso que emerge é este: “a gente sabe das coisas, vocês são burros, ignorantes; são dominados e querem continuar nessa condição”. Desculpa, mas isso é um bocado agressivo.

Uma das dificuldades da esquerda de convencer aqueles eleitores que estavam propensos a votar em Bolsonaro foi justamente esta: as pessoas se sentiram o tempo todo agredidas. Sentiram-se classificadas como fascistas, homofóbicas, preconceituosas… Foram taxadas como idiotas por simpatizarem com Bolsonaro.

Isso fechou as portas para o diálogo.

Esse tipo de atitude presunçosa, superior, não começou na campanha deste ano. Eu já tinha visto aqui em Maringá, em 2004, por ocasião da campanha para prefeito, quando o PT administrava o município.

A esquerda da cidade já se colocava como a única força política capaz de fazer o bem, de atender as pessoas mais pobres, de cuidar de Maringá… Ou seja, o tempo todo esteve em funcionamento o discurso de que a esquerda é superior, quem vota na esquerda é mais inteligente, sabe mais… É mais esperto. É o discurso do “nós e eles”. “Nós somos os bonzinhos; eles são os vilões”.

Entretanto, embora tenha uma história de relação com os movimentos populares e, efetivamente, defenda pautas que representam a grande massa da população, a esquerda parece ter perdido a autocrítica, a disposição para o diálogo e, principalmente, tem enorme dificuldade em dividir o poder.

Se não voltar a ouvir as pessoas, perderá de vez a relação com o povo.

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O povo quis derrotar o PT

A vitória de Jair Bolsonaro não foi a vitória de um projeto político, de um projeto de país. Foi a derrota de um projeto de poder, o do PT de Lula.

A eleição de 2018 é atípica em vários sentidos – e talvez o mais significativo seja justamente este: muita gente escolheu Bolsonaro por entender que ele representava um ponto final na presença do PT no comando do país.

Domingo, nas urnas, a maior derrota foi justamente do PT.

Há bastante tempo, o PT perdeu o contato com as ruas. Deixou de entender a alma do povo brasileiro. Em sua arrogância, o partido achava que sabia tudo que o país precisava. Não notou o descontentamento com várias medidas e, principalmente, apostou na política do medo. Foi essa política que venceu em 2010 e 2014. Porém, em 2014, o partido já havia perdido sua força e, com a crise econômica e o insucesso de Dilma na presidência, veio a derrocada.

Porém, o PT achou que o fracasso do que foi chamado de governo golpista de Michel Temer seria suficiente para levá-lo de volta ao Planalto. Lula e seu grupo não perceberam que o sentimento anti-PT era muito maior que a rejeição a tudo que Bolsonaro representava.

O partido também apostou que, no segundo turno, todas as forças democráticas abraçariam a candidatura de Fernando Haddad para “salvar o país do fascismo”. E que haveria uma grande aliança democrática nacional. Ledo engano.

Qualquer pessoa com o mínimo de percepção a respeito das estratégias do PT sabe que as lideranças da sigla são autoritárias, arrogantes, incapazes da autocrítica e, principalmente, não estão interessadas em abrir mão do poder. Muito menos estão abertas à alternância no poder. Basta notar que Lula, mesmo da prisão, costurou um acordo político que isolou Ciro Gomes no primeiro turno, quando este era o nome mais forte da esquerda na corrida presidencial. Teria sido mais fácil derrotar Bolsonaro apoiando Ciro. Mas o PT preferiu atropelar antigos aliados a abrir mão de uma candidatura própria.

A vitória de Bolsonaro no último domingo foi só mais um dos efeitos nocivos das práticas políticas do PT.

PT: de “rainha do baile” a “leproso”?

Estamos a menos de um ano das próximas eleições. Em outubro de 2016, vamos escolher prefeitos e vereadores em todos os municípios do país.

E o ano que vem terá uma dinâmica diferente no que diz respeito as coligações partidárias. Não estou falando de nenhuma mudança nas regras das eleições. Estou falando especificamente de como poderá ser a presença do PT na disputa eleitoral.

Nos últimos anos, o partido reunia em seu entorno uma série de outros partidos em virtude da projeção nacional bastante positiva. Principalmente capitaneada pelo sucesso do então presidente Lula.

Mas os tempos áureos do PT parecem coisa do passado. Dias atrás, em entrevista, o pré-candidato do PT à prefeitura de Maringá, vereador Humberto Henrique, disse que até parece que o partido está com lepra. Não há partido interessado em coligar-se com o PT.

De fato, em Maringá, o partido pode ir para a disputa pela prefeitura em chapa pura. Candidato a prefeito e candidato a vice do mesmo partido.

Em Curitiba, o deputado Tadeu Veneri é apontado como possível candidato petista à prefeitura da capital. E ele também reconhece: o partido vive um momento difícil. Ao falar sobre o assunto, ele disse: “não somos mais a rainha do baile”.

Pois é… Se até dois anos atrás todo mundo queria estar com o PT, hoje, até quem gosta do PT, prefere não se mostrar aliado do partido.

Certamente isso vai trazer um tempero novo para a disputa eleitoral do próximo ano. Não dá para dizer que isso vai ser bom. Não mesmo. Até porque, apesar da crise – inclusive ética – pela qual passa o Partido dos Trabalhadores, ainda tem muita gente boa, bem intencionada e competente que milita na legenda. E que talvez seja prejudicado pela pouca credibilidade do partido nesse momento.

Por que o PT quer a queda do ministro Levy?

Como governar o país quando até mesmo membros do governo não o apoiam e são contrários a quase tudo que está sendo feito?

Este é o cenário enfrentado pela presidente Dilma.

Sem apoio popular, com a base fragmentada no Congresso, um vice que está de olho na presidência e sob risco de impeachment, Dilma também não pode contar com o PT.

Nesta última semana, o presidente do partido, Ruy Falcão, pediu a demissão do ministro da Fazenda. Joaquim Levy é responsável por medidas impopulares. É quem está propondo uma série de cortes nos gastos do governo. E também é o principal articulador da nova CPMF.

O PT acha que o pragmatismo de Levy é um erro. E que o governo Dilma precisa de um novo ministro da Fazenda.

A grande pergunta que se faz é: quer trocar o ministro por quê? Para quê?

Está claro que o país está quebrado. Falta dinheiro para investimentos e até para os programas sociais. Não foi o Levy quem criou o caos. Eu até concordo que Dilma precisava de um ministro medalhão… Daqueles nomes poderosos da economia. Henrique Meirelles talvez seria o nome ideal. Mas, vamos ser claros: o ministro Levy não tem muito o que fazer diante da situação que encontrou. Ele pegou o país falido. Embora os cortes feitos, inclusive em programas sociais, sejam péssimos para o país, de onde mais o ministro poderia tirar dinheiro para fechar as contas do Estado?

O PT defende reduzir os juros. E isso seria ótimo. Mas o que fazer com a inflação que já está na casa dos 10%? Está provado que o modelo de crescimento dos últimos anos, baseado no estímulo ao consumo interno, chegou ao seu limite.

Cá com meus botões, tenho a impressão que o motivo para o PT pedir a queda de Joaquim Lévy é outro: o PT quer se salvar. O partido já entendeu o governo Dilma não tem salvação. Ao tornar públicas determinadas críticas, o PT quer descolar sua imagem da imagem de Dilma.

O problema é que, ao fazer isso, o PT contribui para afundar ainda mais o governo, que precisa de apoio para aprovar projetos que podem não pôr fim à crise, mas que talvez indiquem ao mercado que chegamos ao ponto de começar a sair do fundo do poço.

A disparada do dólar e a incompetência do governo

O dólar bateu a casa dos 4 reais nessa terça-feira. Nesta quarta-feira, 23, já chegou a R$ 4,15. Um recorde histórico. E não há nada pra comemorar nisso.

Pelo menos, no final da tarde, após o Congresso sinalizar que pode votar as medidas de ajuste fiscal, a cotação da moeda americana caiu um pouco.

Eu não sou economista… E não vou falar aqui sobre o que significa essa cotação histórica do dólar para a economia do país. Quero falar um pouco sobre o que isso politicamente…

Nessa terça-feira, pudemos notar que o governo do PT não existe. Quer dizer, até existe. Mas não governo. O governo do PT desgoverna. E está levando o país para o fundo do poço. O problema é que ninguém tem ideia de quão fundo é esse poço.

Oposição e Congresso também são responsáveis pela total instabilidade econômica. A lógica do quanto pior melhor usada pela oposição tem dado certo. A economia está se esfacelando. E se o governo Dilma é incompetente, oposição e Congresso tornam a incompetência ainda mais evidente. Dilma não sabe negociar. E o PT não tem humildade pra reconhecer seus erros, muito menos para achar que podem existir ideias melhores, soluções melhores fora do PT.

Acontece que Dilma e seu time não são capazes de salvar o país. Estamos num estado que só um milagre parece colocar o país no rumo.

O governo é incompetente, a economia está com sérios problemas, o Congresso não age com responsabilidade e os brasileiros não toleram mais os erros de Dilma. É uma combinação bomba de fatores.

A saída para o Brasil passa hoje por dois caminhos: a queda de Dilma e seu time ou a disposição de lideranças políticas e empresariais de salvar o governo.

Erundina faz-nos acreditar que ainda existe gente de respeito na política

Reconheço que alianças políticas nem sempre são feitas com base em ideologias. Na verdade, quase sempre se baseiam num projeto de poder. Entretanto, é lamentável quando observamos que, por uma vitória, entra-se num verdadeiro “vale-tudo”.

É assim que tem agido o PT de São Paulo. Talvez não necessariamente o partido, mas especialmente o ex-presidente Lula. Aliar-se com Paulo Maluf é uma das coisas que incomodam até mesmo que nunca foi simpático ao Partido dos Trabalhadores.

Por isso mesmo, o gesto de Luiza Erundina é uma das coisas que faz a gente acreditar que, na política, ainda existem pessoas sérias. A ex-prefeita e deputada do PSB seria vice de Fernando Haddad. Entretanto, recusou a aliança e fez isso por causa da aliança com Maluf.

A atitude de Erundida é digna. É de encher de orgulho seus eleitores. É para fazer-nos acreditar que não é verdadeira a máxima de que “político é tudo igual” ou de que “político é tudo safado”. Não é. Podem ser poucas as exceções, mas elas existem.

As revistas da semana

VEJA: – O partido do polvo. A reportagem principal desta semana fala do PT e de como o partido tem estendido seus tentáculos na máquina pública. Desde 2003, quando Lula chegou ao poder, seus seguidores aceleraram uma operação de conquista de postos-chave do estado. Dos quarenta cargos mais cobiçados do governo, os partidários de Lula e filiados ao PT ocupam 22. Nesses postos eles controlam orçamentos anuais que, somados, chegam a 870 bilhões de reais. Isso representa um quarto do produto interno bruto brasileiro. Ou seja, que 25% da riqueza nacional está sob administração direta de quadros partidários e ligados a sindicatos e centrais sindicais, todos comprometidos com um programa duradouro de poder. Ainda na edição, o fim da versão impressa do Jornal do Brasil; e os efeitos das múltiplas atividades simultâneas no cérebro.

ÉPOCA: – A cartada de Serra. Em queda nas pesquisas, o tucano vai ao ataque e explora o crime cometido contra sua filha para tentar chegar ao segundo turno. Mulheres de 20, Quem são e o que querem as mulheres de 20. Uma pesquisa exclusiva revela a rotina, as aspirações e os dilemas de uma geração de brasileiras que está adiando a entrada na vida adulta. Elas têm tudo o que suas mães e avós não tiveram – liberdade, dinheiro e carreira –, mas ainda sonham com filhos. A vitória dos medíocres, como “Glee” abriu caminho para as séries que exaltam tipos fracassados.

ISTO É: – Sonhos, como usá-los na vida real. A ciência revela que sonhar deixa a memória afiada, ajuda a lidar com as emoções e nos treina para os obstáculos da vida real. FHC: um pote até aqui de mágoas. Alijado da campanha tucana, que prefere usar a imagem de Lula à dele, o ex-presidente deixa claro ao partido que está insatisfeito e ataca os marqueteiros de José Serra. Dois meninos, muitos sonhos e uma tragédia. Como era a vida dos mineiros que tentaram emigrar para os EUA, mas acabaram nas mãos de narcotraficantes mexicanos.

CARTA CAPITAL: O império vacila. The Economist: Como os EUA vão exercer o poder bélico após a retirada do Iraque? Perguntas sem respostas: a respeito das violações de dados secretos, pairam diversas dúvidas. Uma delas: como ligar as criminosas quebras de sigilo à sucessão presidencial?

Controle da imprensa

Do blog de Lauro Jardim:

Tem gente no governo cronometrando os minutos que o Jornal Nacional tem dedicado ao escândalo dos Aloprados 2. Quer fazer disso um motivo para fustigar a Globo. Definitivamente, parte do PT só se sente confortável com jornalismo chapa-branca.

Cá com meus botões, não creio que seja um problema só do PT. Historicamente, todos os governantes se incomodam com críticas, denúncias. Talvez o diferencial do PT seja uma certa queda que membros do partido e do governo tenham pelo controle da imprensa.