Morda a língua; ouça teu filho!

Foi mais ou menos esta a frase que ouvi do amigo e doutor em Psicologia, Daniel de Freitas Barbosa. Ao gravar o primeiro Questão de Classe da temporada 2012, falamos sobre a importância do diálogo entre pais e filhos. O assunto parece um tanto batido, mas pouca gente se dá conta de que efetivamente não existe conversa com a molecadinha.

Sou pai. Sei bem do que estou falando. Por mais que estude o tema e tenha formação na área de Psicopedagogia, falo mais que ouço. Não tem jeito. Lá em casa também é assim… Eles abrem a boca e a gente já “metralha” a garotada com dezenas de palavras por segundo. Não sei como não morremos sufocados, sem ar. Não dá tempo nem de respirar. Imaginem como fica a cabecinha deles?

Pois é… Também somos filhos. E tivemos nosso tempo na infância e adolescência. Odiávamos os sermões. Ainda lembro do meu pai falando grosso. Aquele homem de 1m93, um vozeirão… Jesus!!! Era de lascar.

Claro, hoje sinto falta. Ele ainda está lá… Mas não tem a mesma vitalidade, disposição para argumentar. Quando erro, apenas vejo em seus olhos uma lágrima de decepção, tristeza. Os argumentos do passado não existem mais. Entretanto, sei que minha saudade não é dos sermões. É de ver meu pai forte, cheio de vida… É de ouvir sua voz firme.

Diálogo implica em falar e ouvir. Na relação pais e filhos, talvez ouvir mais que falar. Afinal, pelo papel que exercemos como educadores, naturalmente nos colocamos como uma presença ativa na vida deles.

Por isso, a ordem do doutor Daniel é necessária. Morda a língua; ouça teu filho!

Não temos paciência para ouvir nossos filhos. Não queremos saber o que eles têm a dizer. Pensamos que a razão e a verdade estão conosco. Eles, os filhos, são ingênuos, inocentes, inexperientes… nada sabem.

Na verdade, tenho a impressão que nosso problema é outro. No fundo, temos medo das crianças e dos adolescentes. Medo de que descubram que não somos heróis. Medo de que revelem nossas fragilidades, a falta de conhecimento, a vergonha, os pudores, os tabus.

Quantas vezes não temos respostas para os por quês? Os baixinhos nos colocam contra a parede com suas perguntas. É ali que começamos a fechar o canal de diálogo. Quando a adolescência chega, nossos filhos percebem que não somos dotados de um conhecimento supremo. Viram as costas e nos rotulam como ultrapassados, velhos bobões.

Sabe, conversar com os filhos é a única maneira de protegê-los. Mas é preciso entender que nem sempre teremos respostas. Por vezes, seremos questionados e nos sentiremos envergonhados. Ter humildade nessas horas é fundamental. Quando isso acontece, não adianta falar grosso. Respeito se conquista, inclusive dizendo “não sei” ou “me perdoe”.

Por fim, da mesma forma que filhos não nascem prontos, ninguém se torna pai ou mãe pelo simples fato de gerar uma criança. Pais devem aprender a ser pais. Se a gente estuda para ser jornalista, advogado, professor, médico etc, por que achamos que não é necessário preparo para educar os baixinhos?

Anúncios

Tragédia no Rio: crianças mortas por atirador

Absurdo esse fato ocorrido no Rio de Janeiro. O cara entra na escola e sai atirando contra crianças inocentes. Como um ser humano pode fazer isso? Teria deixado de ser humano? É coisa do demônio, como alguns dizem?

Quem comete esse tipo de crime sempre tem, dentro do seu universo pessoal, uma justificativa para tamanha loucura. Entretanto, é impossível compreender tal ato.

Enquanto ouço e leio notícias sobre o fato, recordo que o Questão de Classe (CBN Maringá) desta quinta-feira trata da violência contra o professor. Até chegamos a falar sobre esse tipo de crime – atirador que entra em escola e dispara contra alunos. Entretanto, meu convidado – o doutor em Educação, Raymundo de Lima, – pontuou, fora do ar, que não acreditava que, no Brasil, pudéssemos ver esse tipo de crime.

Isto foi anteontem. Ou seja, terça-feira, enquanto gravávamos o programa. Hoje, a gente vê esse absurdo. Pra mim, fica a impressão que não podemos mais duvidar de nada. Não estamos isentos de nenhuma forma de loucura humana. E pior, ninguém está preparado para situações como essa. Não há investimento em prevenção e a qualquer momento outros fatos como esse podem se repetir.

A banalização da pesquisa científica

Tempos atrás escrevi um texto aqui para o blog discutindo qual a função do conhecimento produzido na academia. O questionamento básico era: dia após dia pesquisadores correm atrás de produzir artigos, capítulos de livros, dissertações, teses etc mas para onde vai esse conhecimento?

Nesta sexta-feira, gravei para o Questão de Classe com um pesquisador aposentado. Ele é doutor em Educação. Em visita a Maringá, o professor Valdemar Sguissardi falou comigo no Questão de Classe. Ele defende a tese de que hoje existe o que chama de “produtivismo acadêmico”. Ou seja, hoje não se pesquisa em função da busca de respostas a um problema social; se faz pesquisa no Brasil por causa da pressão por publicações.

Na prática, os professores da pós-graduação são pressionados a produzir. Precisam pesquisar, escrever, publicar. Se não fazem isso, deixam de ser relevantes para a academia. Afinal, só a quantidade de publicações garante status ao pesquisador e dinheiro para o programa de pós-graduação.

O que estaria acontecendo hoje é uma espécie de mercantilização da pesquisa – ou do próprio ensino. Pesquisa virou produto. Foi banalizada. A premissa básica é que o professor universitário deve ser produtivo. E ser produtivo não é dar uma boa aula, prestar uma orientação adequada.Ser produtivo é publicar. Não importa o quê.

Em função disso, a qualidade deixou de ser fundamental. O papel social da pesquisa foi esquecido. A saúde e a qualidade de vida do pesquisador e sua família estão sendo ignorados.

Em resumo, de ponta a ponta (da educação básica ao ensino superior) a educação no país é tratada com desrespeito e por gente que ainda entende quantidade como mais importante que qualidade.

Mundo virtual na sala de aula: um desafio

O Questão de Classe de hoje vai abordar um assunto pelo qual sou apaixonado: o mundo virtual. Vamos conversar com a doutoranda em Educação e Tecnologia pela PUC-SP, Ludhiana Bertoncello.

O foco da entrevista é tratar do mundo virtual aplicado à sala de aula. Seria essa uma realidade possível ou uma ilusão?

Nossas crianças, jovens e adolescentes vivenciam esse universo de maneira natural. Para eles não há dificuldade alguma. Dominam plenamente as tecnologias, se relacionam virtualmente e se apropriam com facilidade cada novidade que surge dia após dia.

Entretanto, será que as tecnologias estão entrando na sala de aula? Será que os professores têm recebido as novidades? Como lidam com as redes sociais, por exemplo?

Bem, na entrevista com a pesquisadora, concluímos que estamos dando apenas os primeiros passos. Os educadores ainda esbarram nos preconceitos, dúvidas, medos e até na própria ignorância.

Lamentavelmente, o mundo virtual ainda está longe de ser uma realidade na sala de aula. Claro, o fator econômico interfere – pelos recursos ($$$) limitados dos educadores e de muitas escolas, colégios e até faculdades. Porém, um dos principais fatores ainda é a pouca disponibilidade do professor de se reciclar, ousar e aceitar naturalmente as mudanças.

Uma análise dos números do Ideb

A CBN Maringá apresenta hoje mais uma edição do Questão de Classe. O programa analisa os últimos números do Ideb. Porém, mas que falar de indicadores, nosso objetivo foi discutir o que o índice representa e o que significam os resultados obtidos pelas escolas brasileiras. Nossa convidada, a professora Janira Siqueira Camargo, foi bastante categórica ao ressaltar: avançamos, mas estamos muito longe do ideal. A educação não avançou na mesma medida que cresceu a economia brasileira.

Outro detalhe apontado pela professora, o problema da educação não é só dinheiro. Muito pelo contrário. Investimentos têm sido feitos. Falta gestão dos recursos e disposição para se inspirar nos bons exemplos de sucesso de alguns municípios brasileiros.

A publicidade infantil é ética?

Este é o assunto do Questão de Classe desta quinta-feira. O programa está nos minutos finais, mas daqui a pouco vai estar no site da CBN Maringá. O doutor em Educação, Raymundo de Lima, professor da Universidade Estadual de Maringá, é o nosso convidado.

Semelhante a outras boas conversas que já tive com ele, o papo de hoje foi sensacional. O tempo verbal é por que o programa foi gravado ontem, quarta-feira.

O assunto preocupa educadores. Alguns pais também. E o principal motivo é que a publicidade tem formado uma nova geração de consumistas. Mais que isso, essa galerinha está crescendo com a ideia de que o consumo traz felicidade. Afinal, a propaganda quase sempre associa a imagem dos produtos a ideia de felicidade, bem-estar, status, superioridade etc etc.

O programa de hoje é uma abordagem mais ampla e atualizada de um artigo publicado tempos atrás pelo professor Raymundo de Lima no Espaço Acadêmico.

Ensino e a aprendizagem da Matemática

Este foi o tema do Questão de Classe desta quinta-feira. Conversamos com a professora Clélia Maria Ignatius Nogueira. Ela é aposentada pela UEM, mas segue no programa de Mestrado da instituição. Doutora em Educação, a professora Clélia trouxe argumentos bastante enriquecedores para nosso programa. Entre eles, a convicção de que o professor é fator determinante para o ensino da disciplina. Mais que isso, para promover o gosto pela Matemática.

Na verdade, ninguém nasce gostando ou desgostando de Matemática. Como ninguém tem aptidão natural para esse ou aquele conhecimento. O desejo é despertado pelo outro, na relação com o outro. É assim com a Matemática. Geralmente, nos apaixonamos por ela ou a rejeitamos em função dos professores que tivemos.

O que acontece, e é lamentável, é que esse conhecimento é apresentado quase sempre por gente que nunca gostou de Matemática. Afinal, os professores das primeiras séries são formados em Pedagogia. E quase sempre escolheram essa área por não apreciarem Matemática. Logo, trata-se de um conteúdo que pouco dominam. Por isso, ensiná-la é uma obrigação.

Como alguém que não gosta de Matemática pode ensiná-la? Não funciona. Cada problema colocado em sala de aula se tornará um fardo para as crianças. Além disso, esses professores sequer possuem formação suficiente para fazer esses conhecimentos ganharem lógica na cabeça dos baixinhos.

Por isso, Matemática se tornou um desafio na escola e é rejeitada por um número muito grande de pessoas.

Mas há uma saída? Hoje, não. Professores especialistas na disciplina não possuem habilidade para lidarem com as primeiras séries. Fazer gente grande se apaixonar, na Pedagogia, por Matemática, também não é tarefa fácil.

Isto sugere que o tema deveria ser pensado numa perspectiva mais ampla. Entretanto, infelizmente o assunto não tem encontrado eco nas autoridades competentes. Na prática, pelo menos por enquanto, pouca coisa vai mudar.

Educação sexual, religião, fé

O texto abaixo foi escrito sexta-feira. Mas, construído de um só “fôlego”, não foi conclusivo. Na verdade, todo texto é um “gesto inacabado“. Ainda assim, mudei algumas coisas e volto a publicá-lo.

Talvez o título não seja o mais apropriado. Poderia inclusive ser muito mais instigante, polêmico. Afinal, o que não falta é confusão quando se mistura sexo e religião; sexo e fé. Sim, vira uma confusão mesmo.

Mas vamos em frente… No Questão de Classe da última quinta-feira falamos sobre educação sexual. Já tratei disso num post anterior. Mas não refleti sobre alguns aspectos que foram tratados ao longo do programa.

Nosso convidado, o doutor em Psicologia Daniel de Freitas Barbosa, contou uma história lamentável. Em recente palestra numa escola, foi interrompido por um pai. Não era um pai curioso. Ele não tinha uma pergunta a fazer. Aquele homem levantou, pegou a Bíblia, apontou o livro sagrado e resumiu:

– Meus filhos não precisam de educação sexual. Eles encontram na Bíblia tudo que precisam saber.

Eu concordo que a Bíblia é o mais importante livro da história da humanidade. Creio em sua inspiração divina. Contudo, não posso admitir que ainda existam pessoas com tamanha pobreza de espírito.

A Bíblia fala sobre sexo? Sim. Mas naquela época existiam pulseiras de silicone sendo usadas por crianças e adolescentes numa “brincadeira” sexual? É obvio que não. O mundo é outro. As atitudes, os comportamentos são outros.

A sociedade daquela época tratava o sexo na perspectiva reprodutora. Pouco se falava ou pensava em prazer. Embora a Bíblia em nenhum momento condene o prazer sexual, o comportamento do povo antigo não privilegiava a satisfação na intimidade do casal. O prazer feminino, por exemplo, era simplesmente ignorado. Na verdade, a mulher era pouco respeitada. Ela era objeto reprodutor, objeto de prazer do homem. Estava ali para servir ao homem.

Com o desenvolvimento humano, hoje se estudam os mecanismos do prazer – masculino e feminino. Ambos, homem e mulher, têm direito de viverem intensamente a satisfação do sexo. E elas esperam isto. Querem o mesmo direito que durante anos a sociedade, a família, os maridos e também a religião lhes roubou.

Agora, como alguém pode achar que, por crer na Bíblia, não precisa aprender mais nada? Será que o fato de ter uma religião, uma fé me tira a responsabilidade, o dever de me preocupar com o prazer da parceira(o)?

E mais, será que apenas por haver uma doutrina que prega a castidade, nossos adolescentes e jovens não devem ser orientados sobre a sexualidade, sobre sexo? Será que tudo se resume em dizer: “não pode antes do casamento”?

Ainda que se preserve a castidade por princípio, nossos adolescentes e jovens devem aprender sobre o assunto. Os locais mais apropriados são o lar e a escola. Esses ambientes devem favorecer o diálogo amplo, sem preconceitos, livre de tabus. A religião não pode servir de desculpa para não falar sobre o assunto. Pais e educadores que não estão abertos para tratar de sexo com as crianças, adolescentes e jovens provavelmente são pessoas mal resolvidas e que sequer dão conta da própria sexualidade. E isso pode até ter origem na religião, mas nunca em Deus. O divino não é responsável pela ignorância humana.

Ignorar os desejos é silenciar a própria natureza. E proibir sem esclarecer, ou simplesmente se calar, é se omitir diante da realidade. É permitir que a rua eduque. E na rua ninguém aprende a ter uma vida sexual saudável e feliz.