Por que você guarda coisas de relacionamentos passados?

– Por que fazem parte da minha história.

– Sim, mas acha justo com a pessoa com quem você está agora manter cartas, recadinhos, coisas que fizeram parte de outros namoros?

Silêncio.

– Por que essas coisas são importantes pra você? Que tipo de apego você tem a esses objetos?

– Eles fazem parte da minha história, já disse.

– Ok. Mas o fato de não conseguir se livrar dessas coisas não sugere um certo saudosismo? Uma vontade de manter algo que você já não tem? O que te prende a eles?

Silêncio.

Lembrei desse diálogo dias atrás.

Tem muita gente que guarda coisas que fizeram parte de relacionamentos passados. No email, ficam mensagens; em gavetas, bilhetes, cartas… Alguns têm até locais específicos para manter um arquivo do passado.

Particularmente, não gosto disso. Já carregamos no coração e no corpo marcas do passado. Uma garota não vai esquecer com quem se relacionou pela primeira vez. Talvez até lembre da data em que perdeu a virgindade. Certamente, vai recordar detalhes daquele dia. E por toda vida.

Encontros, passeios, viagens… presentes especiais. Tudo isso faz parte da nossa memória. Não dá para apagar. Entretanto, por que manter objetos desses relacionamentos?

O que a gente carrega na memória faz parte de nós. Não precisamos de outros elementos para nos fazer viajar por relacionamentos passados. Guardar coisas do passado sugere que o passado não está resolvido. É uma espécie de apego a algo que já se perdeu, que ficou lá trás. E não é justo, inclusive, com o presente.

É natural do ser humano prender-se a coisas. Mas relacionamentos só prosperam quando estão livres do passado. E os objetos evidenciam o óbvio: as feridas não estão curadas.

Qual a razão para ter uma cartinha do ex? Qual o motivo para ter tanto carinho pelo papel de presente que serviu para embalar aquele anel que você não deixa ninguém tocar?

Sabe, não acho que seja necessário, ao fim de um relacionamento, jogar presentes fora, descartar ou devolver tudo que tenha ganhado ao longo de meses ou anos. Mas, quando um novo amor acontece, esses objetos não devem fazer mais sentido. Resistir livrar-se de um bilhetinho, de uma fotografia é sintoma do desejo de manter alguma coisa do que já foi vivido. E, isso não é justo com a pessoa com quem se está agora.

Convenhamos, quem fica feliz de saber que o namorado – ou a namorada – se debruça sobre a carta de um ex e fica recordando coisas que viveram?

E tem mais um detalhe, objetos nos remetem às lembranças. Ajuda a reavivá-las. Ou mantê-las. Quando deixamos apenas por conta do nosso cérebro, muita coisa se apaga – vai pro inconsciente e fica guardado ali. Mas os objetos materiais servem de estímulo à memória.

Quem já não lembrou de algum fato passado por sentir um cheiro, ouvir uma música, encontrar um presente que ganhou há muitos anos?

Por isso, mais que limpar as gavetas da alma, de vez em quando também é necessário ter ações práticas: deixar os armários, gavetas, caixinhas livres para receber apenas as expressões de carinhos de um novo amor. Faz bem ao coração. Liberta. E abre as portas para o futuro.

Breves lembranças… E nossa percepção

Nossa percepção das coisas se dá do local onde estamos. Não tem jeito. É assim, por exemplo, com a ideia que temos do “tempo”. Quando crianças, o ano demora demais pra passar. Tornamo-nos adultos, as horas, dias, semanas, meses e anos passam acelerados. Tudo num ritmo alucinante.

Também é assim com a Copa do Mundo. Hoje conversava com alguém que falava sobre o clima do mundial. Lembrava com saudade dos tempos em que as comemorações eram mais gostosas… Os encontros com amigos para acompanhar os jogos eram mais divertidos… Enfim. Tudo melhor. E sem dúvida, era melhor mesmo. Afinal, não é a Copa que mudou. Nós é que mudamos. Essa pessoa mudou. E seu olhar, a maneira como experimenta as sensações do torneio, também mudou.

Em todas as situações da vida esse é um sentimento recorrente. Deixamos de experimentar as coisas da mesma maneira e, com isso, elas vão perdendo o sabor. Sobram as lembranças, a saudade.

Lá em casa, quando conversamos a respeito de alguma coisa já vivida no passado – aquelas do tipo “ah… mas era tão bom” – costumo repetir que tem “gosto de saudade”. Se voltássemos no tempo, com a bagagem de vida que temos hoje, essas coisas certamente não teriam a mesma graça, perderiam o encantamento. Esse “brilho” está nas nossas recordações, não necessariamente no fato, nas experiências que tivemos. É justamente por isso que são tão significativas para nós.