Gente implicante…

Conhece gente assim? O implicante incomoda. Não porque necessariamente brigue com as pessoas, mas por se incomodar com detalhes do cotidiano e reclamar deles.

O implicante se incomoda com o lado em que o papel higiênico foi colocado no banheiro. Reclama da temperatura da água do chuveiro. Não fica satisfeito com o fato de o copinho de café ter sido jogado no lixo; tem um jeito certo de jogar… Ganha presente, observa que o papel do embrulho estava amassado e já pergunta: “quem amassou o papel?”.

Alguém usou sua caneta, devolveu no porta-objetos, mas guardou com a ponta pra baixo e deveria ser ao contrário… O implicante chega e já pergunta: “quem usou minha caneta e não colocou no lugar?”.

Alguém esqueceu a garrafinha de água sobre o balcão e não importa que a única pessoa que está ao seu lado seja sabidamente inocente do “crime”. O implicante logo pergunta: “quem deixou isso aqui?”.

O implicante está sempre incomodado com coisas pequenas. As grandes, por vezes, nem são notadas. O olhar do implicante parece selecionar o que não faz grande diferença, não afeta a vida de ninguém e nem altera a rotina da casa ou da empresa. Mas ainda assim será alvo de suas reclamações.

Justamente por implicar com tudo, esse tipo de pessoa deixa o ambiente mais tenso. Afinal, sabe-se que a pessoa poderá reclamar de alguma coisa e, justamente por fazer isso com certa frequência, gera desgastes, pequenos estresses nos relacionamentos.

A pessoa dá valor demais ao fato do copo ter sido colocado num lado da pia e não no outro. A pessoa parece não notar que não tira pedaço se ela mesma trocar o copo de lugar.

O que é pior no implicante é que se trata de um traço de personalidade. Então não é simples a pessoa mudar. Muito menos reconhecer que suas atitudes aborrecem e irritam. Em defesa de seu comportamento, o implicante entende que é organizado, que existe um jeito certo de fazer as coisas e que o problema são os outros.

Então… o que fazer? Tem um jeito de lidar com o implicante? Penso que a melhor estratégia é não dar tanta importância às reclamações da pessoa. Tentar ver o que a pessoa tem de bom e rir das situações.

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É fácil fazer o que se gosta

A gente se empolga em fazer coisas que gosta. Você adora jogar futebol e aí alguém te convida pra uma partida com uma galera bacana… É fácil dizer “tô dentro!!”.

Você curte festas e sua melhor amiga te chama para a festa do ano… Impossível dizer “não”. O coração acelera diante do convite e você já pensa até na roupa que vai usar.

Mas nossas emoções são bem diferentes diante de obrigações, de tarefas que precisamos desenvolver em nossas rotinas.

E eu tenho a impressão que aquilo que precisamos fazer, geralmente, está bem longe da lista das coisas que nos agradam.

Por que o trabalho se torna uma batalha diária? Por que os estudos são sempre desgastantes? Por que atender um pedido de favor de amigo ou mesmo do marido, da esposa, pode ser tão custoso?

Simples, porque provavelmente é algo que não nos agrada.

E como a gente lida com essas coisas chatas?

Frequentemente, leio ou vejo pessoas dizendo: “Se você não gosta do que faz, caia fora; encontre outra coisa pra fazer”.

Num mundo movido por uma ideia distorcida de felicidade, esse tipo de argumento parece fazer todo sentido.

Porém, as coisas não funcionam assim. Nem sempre fazemos todas as coisas que gostamos e, com muita frequência, não podemos simplesmente abrir mão delas.

Alguns trabalhos são muito chatos – ou se tornam irritantes. Mas não dá pra virar as costas e procurar outra coisa quando você tem contas pra pagar ou o mercado está difícil, sem ofertas disponíveis.

E essa é só uma das barreiras que a gente enfrenta.

Na vida privada, você não abandona o parceiro por que ele começou a perder cabelos ou ela ganhou uma barriguinha depois que teve filho.

Na prática, o que a gente precisa compreender é que nunca faremos apenas coisas que gostamos e nem teremos o mundo sorrindo pra nós o tempo todo.

Seremos responsáveis por tarefas desagradáveis. Outras tantas vezes vamos encarar gente que não merece nossa atenção e ainda assim teremos que sorrir para elas. Também faremos favores que não nos alegram e estaremos ao lado de pessoas em situações que aborrecem.

O verdadeiro caráter se revela quando a pessoa tem poder

Dizem por aí que a melhor maneira de conhecer uma pessoa é dar poder a ela. O verdadeiro caráter se revela quando a pessoa está no topo, quando faz sucesso.

Eu acredito nisso!

Quando ocupa uma posição importante, a pessoa ganha mais visibilidade. Isso a obriga a se posicionar, a agir. E quanto mais se expõe falando, resolvendo problemas, fazendo negócios, estabelecendo relacionamentos… Quanto mais expõe, mais mostra quem de fato é.

Isso acontece nas empresas, na família da gente, entre os amigos… E até na política.

Entretanto, nem todo mundo tem, como acontece na política, uma rede de apoio – e até de marketing – que oriente sobre o momento de se calar, de cancelar compromissos, de evitar entrevistas.

Pessoas reais, como nós, nem sempre notam a repercussão de seus atos. Por isso, não estabelecem filtros em suas práticas. Com isso, o pior de nós é demonstrado quando temos algum tipo de influência, algum cargo importante ou mesmo certo poder.

Nessas ocasiões, revela-se a dificuldade em receber críticas, a resistência às mudanças, o temperamento, arrogância, o isolamento… Também os desvios éticos e morais, as alianças com pessoas ruins.

Por outro lado, também são nessas oportunidades, que descobrimos pessoas que não se deixam corromper pelo poder, que seguem dignas, verdadeiras, humildes e comprometidas em fazer o bem.

A gentileza faz bem

Eu valorizo gestos gentis. Compreendo os motivos da irritação, da raiva. Mas defendo que, mesmo nos momentos de “nervos à flor da pele”, sejamos gentis.

Dias atrás, eu estava no supermercado, com muita pressa. O dia tinha sido intenso, desgastante. Meu nível de paciência estava no negativo. E, no caixa, tudo dava errado. A vontade era brigar com o garoto do atendimento ou, pelo menos, abandonar tudo no carrinho. Esperei, porque tinha que esperar.

Quando chegou minha vez, o garoto tentou se justificar pela demora. Eu sabia que ele não merecia ser ofendido, ainda que pudesse ter sido parcialmente responsável pela demora. Então falei com calma, mas fui direto:

– Olha, está tudo bem. Estou com muita pressa e bastante irritado. Vamos em frente!

Fiz isso, porque estava realmente irritado. Porém, tinha consciência que nada mudaria se tratasse mal aquele rapaz. Apenas causaria desconforto e ainda passaria por mal educado.

Passei os produtos, paguei e fui embora.

Na semana seguinte, lá estava eu no mesmo mercado, agora com mais tempo e bom humor. Dali a pouco, no caixa, o garoto apareceu, me cumprimentou, brincou comigo e ainda falou pra garota que me atendia:

– Esse senhor é muito legal!

Falou isso, ajudou no atendimento, trocamos palavras amistosas e fui embora.

Já nos “trombamos” outras tantas vezes no supermercado. E sempre mantemos um contato amistoso. Mas tudo podia ser diferente se naquela primeira ocasião eu tivesse reclamado, sido hostil, feito cara feia…

Ser gentil não é ser falso. Muito menos hipócrita. Ser gentil é tratar com respeito, evitar ofender, mesmo quando discorda da pessoa ou está com raiva dela ou da situação.

Precisamos lembrar, porém, que aquilo que a gente fala ou faz com os outros não volta atrás. Podemos nos desculpar, mas o ato hostil permanece na memória. Torna-se parte do histórico da relação e pode servir como referência negativa a nosso respeito numa ocasião futura.

Nossas escolhas afetam outras pessoas

Nem sempre a gente se dá conta do quanto nossas escolhas afetam outras pessoas. Às vezes, em nome dos nossos gostos, dos nossos sonhos, fazemos o que entendemos ser o melhor para nós e ignoramos o efeito de nossas escolhas na vida de gente que amamos.

Não há nada de errado em lutar pelo que queremos. Porém, tenho aprendido que não estamos isolados do mundo. O que fazemos mexe com a vida dos outros.

Significa que, pelos outros, devemos deixar de buscar nossos objetivos? Não. Mas significa sim avaliar, primeiro, quais serão os impactos de nossas escolhas na vida de quem está por perto. Segundo, é preciso analisar se queremos que sofram os efeitos dessas decisões.

Em algumas situações, vale conversar com os possíveis afetados. Falar sobre seus sonhos, a importância deles e pedir o apoio. Noutros casos, talvez não seja possível antecipar, prever. Talvez seja necessário tomar a decisão sozinho/a. Mas ainda assim defendo que haja a consciência dos efeitos e de como é possível amenizá-los para que interfira menos, prejudique menos ou haja algum tipo de compensação. Isso é agir de maneira ética.

Atitudes assim mostram maturidade, amor ao próximo e, principalmente, compreensão de que não estamos sozinhos no mundo. E nossa felicidade não pode ser construída às custas das outras pessoas.

Só nos decepcionamos com as pessoas que amamos

Gente que não faz diferença em nossa vida pode até irritar, agredir, ferir… Nunca decepcionar. Quem não mora no coração pode incomodar, nos fazer sentir raiva, muita raiva… Mas, na primeira oportunidade, nos afastamos.

A decepção, portanto, machuca mais porque vem de pessoas que queremos bem e das quais esperamos sentimentos recíprocos. E é justamente por amarmos que dói mais. A gente quer o melhor dela, tem as melhores expectativas… Por isso, quando essa pessoa faz algo que nos surpreende negativamente, sentimos como uma traição. É inesperado. Por isso, decepcionante.

Porém, como pessoas são imperfeitas, só não sofreremos decepções, se nunca amarmos. 

O desejo de vingança

Viver é perigoso, dizia Guimarães Rosa. Embora experimentemos muitas coisas boas, emoções indescritíveis, a vida também nos machuca. Machuca pelas perdas… Machuca pelos danos sofridos nas relações.

Não são raras as vezes que somos profundamente magoados por pessoas próximas. Parentes ou não. Amigas e não amigas.

Talvez pela minha personalidade, por não me expor tanto, vivi poucas situações em que fui humilhado, agredido verbalmente… Mas ainda assim esses episódios me deixaram triste, com raiva, ódio. Quando recordo, ainda dói. E já desejei muita coisa ruim para essas pessoas.

A ofensa é tão danosa que, dependendo do impacto causado, gera tantos sentimentos que fica difícil controlá-los. A vontade de vingança é talvez o maior deles.

A pessoa que humilha, agride, ofende, geralmente esquece. Com o tempo, até acha que tudo não passou de uma bobagem. A vítima, não. A vítima sofre com as lembranças. E a vontade de ver o agressor punido é enorme.

Sim, a gente quer que o outro sofra também. Sofra como a gente sofreu. Quem sabe, sofra até mais.

De alguma maneira, queremos que a pessoa talvez possa aprender que não pode fazer o que fez.

E não estamos errados em sentir o que sentimos. O desejo de vingança é legítimo. É humano. A raiva, o ódio… A vontade de ver o outro ferido, chorando como choramos… Esses desejos são naturais.

Mas sabe de uma coisa? Raramente podemos efetivamente nos vingar. E, mesmo quando isso é possível, podemos até nos alegrar em ver a perda do outro, mas ela não repara o dano primeiro que foi causado. A ferida ficará para sempre em nós. Talvez sintamos prazer de saber que o agressor foi “punido”. Porém, as marcas deixadas pela humilhação sofrida sempre estarão conosco. O medo, a insegurança, a desconfiança… O receio de que volte a acontecer.

Então qual o melhor caminho? Perdoar. Perdoar não por causa da outra pessoa; perdoar por nós mesmos. Perdoar para não carregarmos o peso da mágoa, do desejo de vingança e até da culpa por nos apequenarmos em tentar retribuir na mesma medida a agressão sofrida.

O que pensam homens e mulheres sobre suas carreiras e as tarefas domésticas?

O The Economist e o YouGov, uma empresa de pesquisa de mercado que atua em todo mundo, realizaram um estudo interessante no início deste ano. O objetivo era observar como homens e mulheres conseguem equilibrar carreira e família.

Que elas ganham menos, a gente já sabe. Também sabe que ocupam postos de trabalho considerados de menor importância. É fato que parte disso se deve a história: as mulheres chegaram ao mercado de trabalho formal no final do século XIX. Os aspectos culturais também influenciam muito. Porém, o fato de ficarem grávidas acaba penalizando-as. É uma espécie de “custo da maternidade”. Ou como classificou o The Economist, “pena da maternidade”. Afinal, as mulheres têm mais dificuldade para decolar na carreira após a terem filhos.

A pesquisa ainda procurou ouvir homens e mulheres sobre o que acontece depois da chegada dos filhos. E constatou-se que, na maioria dos países, elas fazem adequações no horário de trabalho, reduzem carga horária por causa das crianças – por outro lado, assumem mais tarefas domésticas e quase sempre são as principais cuidadoras dos filhos. Já os homens praticamente não têm suas rotinas profissionais alteradas.

Quando questionados sobre as tarefas domésticas e a chegada dos filhos, os homens quase sempre não notam que as responsabilidades delas aumentam. Detalhe, muitos deles ainda acham que dividem igualmente as tarefas. As respostas delas demostra claramente que há um descompasso na percepção da realidade do lar: as mulheres sustentam que são elas que precisam se adequar no emprego para dar conta das crianças e que seus parceiros não assumem igualmente o trabalho de casa.

Conforme as observações feitas durante a pesquisa, a Dinamarca é um dos poucos países no mundo que não penaliza as mulheres que têm filhos. Em virtude de suas políticas públicas, o sistema de atenção e cuidado às crianças é um dos melhores do planeta. Isso permite que pais e mães sigam com suas vidas profissionais normalmente.

Fica claro que é preciso avançar muito para equilibrar a relação entre homens e mulheres quando o assunto é mercado de trabalho. Entretanto, a desigualdade começa em casa. Poucos maridos parecem dispostos a mudar suas rotinas para também dar atenção às tarefas domésticas, aos filhos, permitindo que suas esposas tenham uma carreira profissional exitosa. Outros até percebem as injustiças que as afetam profissionalmente, mas preferem não se envolver. Afinal, eles não estão sendo prejudicados. Mudar esse cenário começa com muito diálogo, com conversas francas – preferencialmente, antes que o casal assuma o compromisso de morar junto. Os dois precisam estar comprometidos, serem efetivamente parceiros para lidarem com essa realidade dentro e fora de casa.

Ps. A fotografia apenas projeta uma cena pouco comum.