Ser ético é considerar o efeito de suas ações sobre as outras pessoas

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Uma conduta ética pressupõe agir com responsabilidade, considerando o impacto que nossas atitudes têm sobre a vida das outras pessoas. Muitas de nossas ações afetam as pessoas próximas. Entretanto, por vezes, em nome do nosso bem-estar ou das coisas que acreditamos serem as melhores, atropelamos quem está conosco.

Nos relacionamentos, isso é bastante comum. O marido, sonhando com sua ascensão profissional, assume compromissos sem consultar a esposa; deixa o romance de lado e parece ignorar que a parceira pode estar se sentindo abandonada.

Muitos pais fazem a mesma coisa com os filhos. Na tentativa de alcançarem o sucesso, deixam de investir na educação das crianças e no desenvolvimento emocional dos pequenos – parecem acreditar que a escola fará aquilo que deixaram de fazer. Quando notam o problema já é tarde demais. Os filhos estão distantes, com problemas na escola e, às vezes, até envolvidos com as drogas.

Agir de forma ética implica em lembrar-se do outro em minhas ações. É necessário me questionar: o que eu pretendo fazer pode prejudicar alguém? As minhas escolhas podem injustiçar alguém? Ou fazer uma pessoa infeliz?

A vida não se resume ao eu mundo. Nem mesmo aos meus sonhos, projetos ou incômodos.
Somos os principais interessados em nós mesmos. Em defender nossos planos, em promover nosso desenvolvimento e até em nós defendermos. Mas isso não significa que vivemos sozinhos, isolados, tampouco que não tenhamos responsabilidade pelos efeitos de nossas escolhas sobre as outras pessoas.

Conviver com você é uma experiência agradável para as outras pessoas?

Geralmente esperamos muito das pessoas com as quais convivemos. Queremos que sejam gentis, honestas, fieis, amáveis, respeitosas, éticas… Também desejamos ter por perto gente que é capaz de colocar um sorriso em nosso rosto.

Não há nada de mal nisso.

Tenho insistido, inclusive, que devemos preservar e valorizar os relacionamentos que nos alegram. Se a pessoa que está do seu lado é capaz de te fazer sorrir, valorize-a.

Faz um bem enorme ao coração passar alguns minutos com alguém que consegue tornar o ambiente mais leve, gente que faz a gente rir e esquecer dos problemas, não ver o tempo passar.

Dias atrás, recebi uma pessoa que tornou a única hora que ficou em nossa casa uma das experiências mais agradáveis que tive este ano. Eu nunca o tinha visto. Por causa da amizade que temos com a namorada dele, ele passou em casa e, desde então, sempre que posso, procuro manter contato. Infelizmente, esse jovem mora do outro lado do Brasil. Porém, a impressão que deixou foi a melhor possível e lembro com saudade do tempinho que passou junto com nossa família.

Pessoas assim fazem nosso coração sorrir.

Mas… E nós? Tornamos a convivência com o outro uma experiência alegradora? Será que as pessoas sentem prazer em estar conosco por alguns minutos? Nossa companhia é desejada?

Muitas vezes, lamentamos a ausência da família, a falta de amigos. Queixamo-nos da solidão, do abandono. Porém, uma pergunta que não podemos deixar de fazer a nós mesmos é justamente essa:

Conviver com você é uma experiência agradável para as outras pessoas?

Sabe, por mais doloroso que seja admitir, nem sempre somos boas companhias. Às vezes, nossas reclamações, queixas, pessimismo tornam nossa presença um tanto pesada, desagradável. Isso afasta as pessoas.

Portanto, minha dica é simples: que possamos nos conhecer bem, mudar o que carecemos mudar, tornando-nos pessoas com as quais vale a pena estar junto.

Desconecte-se!

Na sociedade que a gente vive, “desconectar” é uma necessidade. Não se trata apenas de um discurso contra as redes, contra a internet. Trata-se garantir saúde mental e preservar as emoções.

Quem não se desconecta, não se conecta às pessoas que estão próximas. Quem não se desconecta, não se abre para aprender, para conhecer coisas e nem ver a beleza que há em cada dia.

Ou aprendemos a nos desconectar ou nos preparamos para muitas horas de sofrimento inútil, de horas e horas desperdiçadas, roubadas de nós mesmos, nossa família e amigos.

Portanto, invista em você; invista nas pessoas que você ama: desconecte-se! A vida não acontece apenas na tela; está em todos os lugares, está diante de nós.

Nem sempre é por querer; é por valor moral

Nem tudo que a gente faz, a gente faz por que quer fazer; faz, porque DEVE fazer. Este é um dos princípios morais mais importantes na história da ética.

O sentimento de dever é fundamental para o funcionamento da sociedade e para as relações sociais.

A compreensão do dever é que nos motiva a contrariar os desejos, pulsões e manter uma postura correta diante do outro e da sociedade.

A fidelidade numa relação amorosa, por exemplo, é resultado de um ato moral. Por vezes, o desejo é por alguém fora do relacionamento. Por que se preserva a fidelidade? Por moral. O corpo pode reclamar novas experiências. Mas a fidelidade é um compromisso moral assumido com a pessoa com quem se escolheu viver.

Vale o mesmo para inúmeras outras situações. Na empresa, mesmo passando por dificuldades financeiras e sendo mal remunerado, o profissional que trabalha no departamento financeiro talvez tenha a oportunidade de desviar algum dinheiro. Por que não faz? Pelo dever. Não mexer no dinheiro que não lhe pertence é a atitude correta.

Um parente doente, que precisa de cuidados, que nos obriga a perder dias de trabalho, alterar nossa rotina, gastar nossas reservas financeiras… Uma situação como essa não é desejada. Não cuidamos dessa pessoa por prazer; cuidamos por dever. É o certo a fazer.

Por que trato desse assunto hoje? Simples, porque vivemos um momento em que as escolhas são movidas pelas paixões, pelo que alegra. Muita gente opta pelo whatsapp até para colocar fim num relacionamento – tudo para evitar o desprazer do olho no olho.

Entretanto, viver não é apenas fazer o que se gosta. A moral nos orienta a fazer o que devemos fazer. Algumas práticas são necessárias, não por serem alegradoras individualmente, mas pela necessidade de preservar a boa convivência, o bom funcionamento das relações sociais.

Gente implicante…

Conhece gente assim? O implicante incomoda. Não porque necessariamente brigue com as pessoas, mas por se incomodar com detalhes do cotidiano e reclamar deles.

O implicante se incomoda com o lado em que o papel higiênico foi colocado no banheiro. Reclama da temperatura da água do chuveiro. Não fica satisfeito com o fato de o copinho de café ter sido jogado no lixo; tem um jeito certo de jogar… Ganha presente, observa que o papel do embrulho estava amassado e já pergunta: “quem amassou o papel?”.

Alguém usou sua caneta, devolveu no porta-objetos, mas guardou com a ponta pra baixo e deveria ser ao contrário… O implicante chega e já pergunta: “quem usou minha caneta e não colocou no lugar?”.

Alguém esqueceu a garrafinha de água sobre o balcão e não importa que a única pessoa que está ao seu lado seja sabidamente inocente do “crime”. O implicante logo pergunta: “quem deixou isso aqui?”.

O implicante está sempre incomodado com coisas pequenas. As grandes, por vezes, nem são notadas. O olhar do implicante parece selecionar o que não faz grande diferença, não afeta a vida de ninguém e nem altera a rotina da casa ou da empresa. Mas ainda assim será alvo de suas reclamações.

Justamente por implicar com tudo, esse tipo de pessoa deixa o ambiente mais tenso. Afinal, sabe-se que a pessoa poderá reclamar de alguma coisa e, justamente por fazer isso com certa frequência, gera desgastes, pequenos estresses nos relacionamentos.

A pessoa dá valor demais ao fato do copo ter sido colocado num lado da pia e não no outro. A pessoa parece não notar que não tira pedaço se ela mesma trocar o copo de lugar.

O que é pior no implicante é que se trata de um traço de personalidade. Então não é simples a pessoa mudar. Muito menos reconhecer que suas atitudes aborrecem e irritam. Em defesa de seu comportamento, o implicante entende que é organizado, que existe um jeito certo de fazer as coisas e que o problema são os outros.

Então… o que fazer? Tem um jeito de lidar com o implicante? Penso que a melhor estratégia é não dar tanta importância às reclamações da pessoa. Tentar ver o que a pessoa tem de bom e rir das situações.

É fácil fazer o que se gosta

A gente se empolga em fazer coisas que gosta. Você adora jogar futebol e aí alguém te convida pra uma partida com uma galera bacana… É fácil dizer “tô dentro!!”.

Você curte festas e sua melhor amiga te chama para a festa do ano… Impossível dizer “não”. O coração acelera diante do convite e você já pensa até na roupa que vai usar.

Mas nossas emoções são bem diferentes diante de obrigações, de tarefas que precisamos desenvolver em nossas rotinas.

E eu tenho a impressão que aquilo que precisamos fazer, geralmente, está bem longe da lista das coisas que nos agradam.

Por que o trabalho se torna uma batalha diária? Por que os estudos são sempre desgastantes? Por que atender um pedido de favor de amigo ou mesmo do marido, da esposa, pode ser tão custoso?

Simples, porque provavelmente é algo que não nos agrada.

E como a gente lida com essas coisas chatas?

Frequentemente, leio ou vejo pessoas dizendo: “Se você não gosta do que faz, caia fora; encontre outra coisa pra fazer”.

Num mundo movido por uma ideia distorcida de felicidade, esse tipo de argumento parece fazer todo sentido.

Porém, as coisas não funcionam assim. Nem sempre fazemos todas as coisas que gostamos e, com muita frequência, não podemos simplesmente abrir mão delas.

Alguns trabalhos são muito chatos – ou se tornam irritantes. Mas não dá pra virar as costas e procurar outra coisa quando você tem contas pra pagar ou o mercado está difícil, sem ofertas disponíveis.

E essa é só uma das barreiras que a gente enfrenta.

Na vida privada, você não abandona o parceiro por que ele começou a perder cabelos ou ela ganhou uma barriguinha depois que teve filho.

Na prática, o que a gente precisa compreender é que nunca faremos apenas coisas que gostamos e nem teremos o mundo sorrindo pra nós o tempo todo.

Seremos responsáveis por tarefas desagradáveis. Outras tantas vezes vamos encarar gente que não merece nossa atenção e ainda assim teremos que sorrir para elas. Também faremos favores que não nos alegram e estaremos ao lado de pessoas em situações que aborrecem.

O verdadeiro caráter se revela quando a pessoa tem poder

Dizem por aí que a melhor maneira de conhecer uma pessoa é dar poder a ela. O verdadeiro caráter se revela quando a pessoa está no topo, quando faz sucesso.

Eu acredito nisso!

Quando ocupa uma posição importante, a pessoa ganha mais visibilidade. Isso a obriga a se posicionar, a agir. E quanto mais se expõe falando, resolvendo problemas, fazendo negócios, estabelecendo relacionamentos… Quanto mais expõe, mais mostra quem de fato é.

Isso acontece nas empresas, na família da gente, entre os amigos… E até na política.

Entretanto, nem todo mundo tem, como acontece na política, uma rede de apoio – e até de marketing – que oriente sobre o momento de se calar, de cancelar compromissos, de evitar entrevistas.

Pessoas reais, como nós, nem sempre notam a repercussão de seus atos. Por isso, não estabelecem filtros em suas práticas. Com isso, o pior de nós é demonstrado quando temos algum tipo de influência, algum cargo importante ou mesmo certo poder.

Nessas ocasiões, revela-se a dificuldade em receber críticas, a resistência às mudanças, o temperamento, arrogância, o isolamento… Também os desvios éticos e morais, as alianças com pessoas ruins.

Por outro lado, também são nessas oportunidades, que descobrimos pessoas que não se deixam corromper pelo poder, que seguem dignas, verdadeiras, humildes e comprometidas em fazer o bem.

A gentileza faz bem

Eu valorizo gestos gentis. Compreendo os motivos da irritação, da raiva. Mas defendo que, mesmo nos momentos de “nervos à flor da pele”, sejamos gentis.

Dias atrás, eu estava no supermercado, com muita pressa. O dia tinha sido intenso, desgastante. Meu nível de paciência estava no negativo. E, no caixa, tudo dava errado. A vontade era brigar com o garoto do atendimento ou, pelo menos, abandonar tudo no carrinho. Esperei, porque tinha que esperar.

Quando chegou minha vez, o garoto tentou se justificar pela demora. Eu sabia que ele não merecia ser ofendido, ainda que pudesse ter sido parcialmente responsável pela demora. Então falei com calma, mas fui direto:

– Olha, está tudo bem. Estou com muita pressa e bastante irritado. Vamos em frente!

Fiz isso, porque estava realmente irritado. Porém, tinha consciência que nada mudaria se tratasse mal aquele rapaz. Apenas causaria desconforto e ainda passaria por mal educado.

Passei os produtos, paguei e fui embora.

Na semana seguinte, lá estava eu no mesmo mercado, agora com mais tempo e bom humor. Dali a pouco, no caixa, o garoto apareceu, me cumprimentou, brincou comigo e ainda falou pra garota que me atendia:

– Esse senhor é muito legal!

Falou isso, ajudou no atendimento, trocamos palavras amistosas e fui embora.

Já nos “trombamos” outras tantas vezes no supermercado. E sempre mantemos um contato amistoso. Mas tudo podia ser diferente se naquela primeira ocasião eu tivesse reclamado, sido hostil, feito cara feia…

Ser gentil não é ser falso. Muito menos hipócrita. Ser gentil é tratar com respeito, evitar ofender, mesmo quando discorda da pessoa ou está com raiva dela ou da situação.

Precisamos lembrar, porém, que aquilo que a gente fala ou faz com os outros não volta atrás. Podemos nos desculpar, mas o ato hostil permanece na memória. Torna-se parte do histórico da relação e pode servir como referência negativa a nosso respeito numa ocasião futura.