A gentileza faz bem

Eu valorizo gestos gentis. Compreendo os motivos da irritação, da raiva. Mas defendo que, mesmo nos momentos de “nervos à flor da pele”, sejamos gentis.

Dias atrás, eu estava no supermercado, com muita pressa. O dia tinha sido intenso, desgastante. Meu nível de paciência estava no negativo. E, no caixa, tudo dava errado. A vontade era brigar com o garoto do atendimento ou, pelo menos, abandonar tudo no carrinho. Esperei, porque tinha que esperar.

Quando chegou minha vez, o garoto tentou se justificar pela demora. Eu sabia que ele não merecia ser ofendido, ainda que pudesse ter sido parcialmente responsável pela demora. Então falei com calma, mas fui direto:

– Olha, está tudo bem. Estou com muita pressa e bastante irritado. Vamos em frente!

Fiz isso, porque estava realmente irritado. Porém, tinha consciência que nada mudaria se tratasse mal aquele rapaz. Apenas causaria desconforto e ainda passaria por mal educado.

Passei os produtos, paguei e fui embora.

Na semana seguinte, lá estava eu no mesmo mercado, agora com mais tempo e bom humor. Dali a pouco, no caixa, o garoto apareceu, me cumprimentou, brincou comigo e ainda falou pra garota que me atendia:

– Esse senhor é muito legal!

Falou isso, ajudou no atendimento, trocamos palavras amistosas e fui embora.

Já nos “trombamos” outras tantas vezes no supermercado. E sempre mantemos um contato amistoso. Mas tudo podia ser diferente se naquela primeira ocasião eu tivesse reclamado, sido hostil, feito cara feia…

Ser gentil não é ser falso. Muito menos hipócrita. Ser gentil é tratar com respeito, evitar ofender, mesmo quando discorda da pessoa ou está com raiva dela ou da situação.

Precisamos lembrar, porém, que aquilo que a gente fala ou faz com os outros não volta atrás. Podemos nos desculpar, mas o ato hostil permanece na memória. Torna-se parte do histórico da relação e pode servir como referência negativa a nosso respeito numa ocasião futura.

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Limites no relacionamento

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Relacionamento é entrega, relacionamento se constrói num constante doar-se. Porém, relacionamento também se faz com limites. Ninguém vive bem sentindo-se atropelado, desrespeitado pelo outro. E nem estou falando de agressão física ou verbal. Falo mesmo de sentir que o parceiro se entrega na mesma medida, se doa da mesma maneira.

Para preservar o romance, as duas pessoas devem investir reciprocamente. É necessário sentir que há um equilíbrio tanto no dar quanto no receber. O casal deve perceber que ambos participam igualmente do desejo (e compromisso) de fazer dar certo.

É fato que quem está num relacionamento deve aprender a ceder em algumas questões. Mas isso não significa ceder sempre. Ou só você ceder. Há necessidade de critérios, coerência… Algo do tipo “até aqui eu vou” ou “isso eu não faço”. E quando eu falo em coerência, falo também de manter uma lógica. Se ontem podia tal coisa, por que hoje não pode?

Outro aspecto fundamental é o respeito a parceiro na frente dos outros. Dias atrás, estava na rua e vi uma mulher gritando com o marido. Ele pedia que ela falasse mais baixo, tentava andar ao lado dela. Porém, ela não cedia. Falava mais alto e o obrigava a seguir à frente dela como um “animal que puxa uma carroça”. A situação era humilhante. Claro, esse é um quadro extremo. Mas muita gente tira sarro no parceiro quando está com amigos ou com a família, faz comentários depreciativos… Comportamentos assim representam atos de desrespeito. Desvalorizam o parceiro e minam o romance.

Respeitar-se mutuamente também significa impor limites adequados e chegar a um acordo sobre a maneira como o casal vai conviver com sogros, sogras, cunhados, irmãos, tios etc etc. Tem gente que não se importa com a mãe batendo à porta às 7h da manhã. Mas tem gente que se incomoda. Tem homem que não liga que a mulher fale com a mãe dela 25 vezes ao dia. Mas tem aquele que acha abusivo… Quando o casal tem filhos, o quadro se torna ainda mais complexo. Por isso, tudo precisa estar bem conversado – e com todas as partes envolvidas. E o mais importante, ter limites na relação com as famílias é também evitar abrir a intimidade para pai, mãe… A gente fala de problemas no relacionamento para a família apenas quando realmente precisa de socorro. Diferente disso, é fofoca. E fofoca prejudica o romance.

Como saber se o parceiro te maltrata psicologicamente

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Muitas vezes, a dependência do outro é antessala dos maltratos psíquicos e até físicos. A dependência total do outro nunca faz bem. Porém, há situações ainda piores. E, na verdade, é fundamental ter a capacidade de olhar para o relacionamento a fim de saber se trata-se apenas de um momento ruim ou de uma situação doentia que está destruindo sua saúde emocional.

Qualquer pessoa, seja homem ou mulher, que está numa relação e que aceita que seu parceiro (ou parceira) lhe insulte, falte com respeito, denigra ou humilhe é alguém que está sendo maltratado psicologicamente.

A psicóloga e autora do livro “Cuando amar demasiado es depender”, Silvia Congost afirma que essas coisas não acontecem de uma hora para outra. Muitas vezes a dependência emocional precede o maltrato psicológico e até mesmo a agressão física. Nesses casos, a pessoa afetada costuma ser a última a se dar conta do que está acontecendo. E geralmente só nota isso quando recebe ajuda profissional ou de alguém mais experiente (e em quem confia). Ainda assim, não é fácil admitir o resultado da análise da relação.

O mais grave, segundo a psicóloga, é que o dependente geralmente se torna cada vez mais dependente. A pessoa passa a aceitar a agressão como algo natural, habitual, acostumando-se a isso a tal ponto que lhe custa muitíssimo abrir mão do relacionamento. A dependência do outro geralmente é tão grande que frequentemente a pessoa acha que o agressor pode estar certo. A vítima até quer sair do problema, mas a autoestima a confunde e não deixa.

Bom, mas vamos tentar identificar as características de um relacionamento em que há maltrato psicológico.

  • Anula a autoestima – quem maltrata geralmente diz coisas ou faz a vítima sentir que não serve para nada, que é um inútil, deprecia o parceiro. A situação chega ao ponto em que a pessoa não acredita em si mesma e pensa que, se abrir mão do relacionamento, não terá para onde ir, será incapaz de viver por conta própria.
  • Recebe ordens – o agressor geralmente dá ordens. Manda comprar pão, fazer a mesa, cuidar dos filhos… Reclama da limpeza da casa, da camisa “mal passada”, do presente que ganhou… E a vítima acha que não tem o que fazer. Pensa que deve aceitar as condições impostas pelo parceiro, porque, do contrário, a situação vai se tornar ainda pior. Há certo medo na dinâmica do relacionamento.
  • Não tem liberdade – a vítima não tem permissão para frequentar lugares que gosta, falar com pessoas que ama, que admira.
  • Distancia das pessoas que gosta – o agressor fala mal da família do outro, dos amigos e de todos que são contrários ao relacionamento.
  • Julga o que você faz, como faz, o que fala, como fala... Esse tipo de parceiro te obriga a mudar.
  • Quem maltrata culpa o outro pelas coisas ruins que acontecem (até naquelas questões totalmente irracionais). Frequentemente transfere para o parceiro as coisas negativas. Transforma o outro em responsável pelos acidentes cotidianos, mesmo quando não participou dos acontecimentos. Tipo… Ele bateu o carro. Ela nem estava junto. Mas o fato de terem brigado pela manhã faz com que o sujeito transfira para a mulher a culpa pelo que aconteceu.

Na dinâmica do relacionamento, as pessoas precisam ficar atentas. Todas as vezes que, em nome de um grande amor, toleram mais coisas do que deveriam tolerar, aceitam situações que não seriam aceitáveis – e isso por muito tempo -, tem algo errado acontecendo.

Como tratar as pessoas

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Muito antes de serem publicados livros e mais livros de autoajuda, um escritor e pensador alemão chamado Johann Wolfgang von Goethe escreveu algo fascinante sobre as relações humanas.

Se tomarmos as pessoas tais quais elas são, nós as tornamos piores; mas se as tratarmos como deveriam ser, nós as levaremos para onde devem ser levadas.

Sei que tem gente que pode não acreditar nisso. Porém, entendo que a tese de Goethe reflete uma grande verdade: as pessoas são aquilo que dizemos que são.

Na verdade, isso se dá porque todos nós carecemos do outro para que digam quem somos. Muito da imagem que temos de nós é dada pelo outro, na relação com o outro. Nos vemos pelos olhos do outro.

Por que as bobagens ditas pelos pais afetam a criança a ponto de, quando cresce, necessitar de terapia? Porque a imagem que possui de si foi construída pelos discursos que circulavam sobre ela durante a infância.

A coisa é simples… O sujeito que é tratado como coitadinho, age como coitadinho. Quem é tratado como vitorioso, age como vitorioso.

E isso vale para quase tudo. Quando a gente fica reforçando as características negativas de uma pessoa (e todo mundo tem defeitos, é claro), ela passa a viver isso como uma verdade. Afinal, “se todo mundo diz que sou burro, é porque sou burro”.

A tese de Goethe diz muito sobre como devemos tratar as pessoas. Às vezes cobramos que o filho aja com respeito, mas sempre o rotulamos como mal educado. Por que ele agiria de outra forma? Afinal, já o colocamos nesse “lugar” de pessoa grosseira. Às vezes queremos que o parceiro seja gentil, mas geralmente o tratamos como ignorante, bruto… Por que ele passaria a agir de outra forma?

Na verdade, um dos nossos grandes erros é apontar os defeitos das pessoas como se fossem as próprias pessoas, e não apenas reflexo de algumas de suas ações. Quase sempre fazemos isso, porque acreditamos, erroneamente, que, ao falar o defeito, ela tentará mudar. Porém, isso dificilmente acontece. Na verdade, frequentemente esses comentários são entendidos como agressões e só funcionam para potencializar os comportamentos negativos.

Portanto, seguindo o conselho de Goethe, se queremos mudar as pessoas, devemos tratá-las como sendo melhores do que realmente são. Assim, “nós as levaremos para onde devem ser levadas”.