O que pensamos pode não ser verdade

Uma das coisas que sempre repito por aqui é: desconfie de suas certezas. As suas verdades podem não ser a verdade; podem ser apenas impressões pessoais, equivocadas.

Ao ler a entrevista do general Santos Cruz, ex-secretário de Governo da Presidência da República, concedida à Época, uma das coisas que chamou a atenção foi justamente sua postura em evitar falar sobre aquilo que não tem convicção:

“Sou um cara muito preto no branco. Aquilo que desconfio pode não ser verdade. Aquilo que imagino pode não ser verdade. A pessoa tem de saber que aquilo que ela pensa pode ser verdade ou não.”

Terminei de ler com a sensação de que precisamos ser menos afoitos, menos ansiosos ao falar. Reter as palavras, não falar tudo que pensamos é atitude sábia. Evita que não sejamos injustos, preserva relações e nos poupa de passarmos vergonha pública.

Anúncios

A inteligência pode ser uma forma de agressão

Nas relações sociais, as pessoas geralmente não se sentem confortáveis diante de gente que pareça superior intelectualmente. Quase sempre, lidamos bem com a hierarquia nas organizações, mas admitir que o colega do lado é mais inteligente que nós não é algo que agrada.

A ideia de inteligência, da capacidade intelectual, é importante para a vaidade da maioria de nós.

Menosprezar a capacidade intelectual de uma pessoa é um poderoso insulto, uma das formas mais dolorosas de agressão.

Ninguém gosta de ser visto como bronco, tolo, idiota, burro.

E quando alguém desfila inteligência, posando de superior intelectualmente, a reação raramente é de reconhecimento de que o outro está acima de nós. Frequentemente, a sensação é quase insuportável e não faltam justificativas para minimizar as vantagens do outro…

É comum dizer: “ele teve mais oportunidade de estudar”; ou, “ele até pode saber muito sobre esse assunto, mas é um tonto quando se trata de tal coisa”… Noutras ocasiões, tenta-se invalidar o conhecimento que apresenta, questioná-lo e bloquear a relação com o outro.

Essas reações são compreensíveis. Afinal, nem todo mundo teve e tem as mesmas oportunidades de estudo; ninguém é especialista em tudo; as condições sociais e econômicas são variáveis importantes para a aquisição e desenvolvimento do conhecimento.

Entretanto, também é fato que existe uma hierarquia nos conhecimentos. Há pessoas mais inteligentes que outras, mais espertas, mais sagazes.

Acontece que a capacidade de pensar, de supostamente ser dono das próprias ideias, é talvez o único patrimônio individual. Por isso, é agressiva a posição daqueles que desfilam superioridade intelectual diante das demais pessoas.

Soa como arrogância, prepotência.

E sabe de uma coisa? Essa é uma das razões dos embates políticos entre as pessoas. As pessoas não querem se sentir tolas por terem escolhido um determinado político.

Quando alguém lhe mostra, racionalmente, que determinada posição é equivocada, os argumentos são ouvidos como uma forma de agressão intelectual. É como se a outra pessoa a estivesse humilhando, rebaixando-a. Deixa de ter a ver com o político; passa a ser pessoal.

Por isso, é estratégico não adotar a postura do “sei mais que você”. Ainda que saiba, mostrar-se superior intelectualmente afasta as pessoas, inibe amizades e gera sentimentos mesquinhos de inveja, rancor, raiva e até vingança.

Aprender com os erros…

Precisamos aprender com os erros… Nossos e dos outros.

Eles nos ensinam.

Como fazem parte da caminhada, podemos viver lamentando nossas quedas ou criticando as falhas alheias… Ou podemos observar o que motivou os erros e desenvolver estratégias para que não aconteçam mais ou não sejam repetidos por nós.

Quase todos os dias, a gente encontra pessoas se lamentando pelas bobagens que fizeram. Sentir tristeza ou arrependimento, é normal. Mas ninguém corrige o passado.

Porém, quando erramos, a vida nos dá oportunidade de refletir sobre o aconteceu e, com isso, aperfeiçoarmos nossas práticas, tornarmos nossa vida melhor.

Eu vejo, por exemplo, muitos alunos que, ao final de um ano, ficam de exame, passam sufoco para conseguir a aprovação e, às vezes, até reprovam. No ano seguinte, tudo acontece de novo. E acontece porque as práticas que levaram ao fracasso seguem sendo as mesmas.

Mas existe um quadro ainda mais interessante. Você já deve ter conhecido alguém que apontou o erro alheio e, tempos depois, foi pego fazendo a mesma coisa. Lembrou de alguém?

Talvez você diria “eu mesmo já fiz isso”. Eu já fiz.

Por que isso ocorre com a gente? Porque nem sempre nos dispomos a aprender com o erro do outro. O erro cometido por outra pessoa também pode nos ensinar.

Temos a chance de observar o que motivou o problema, quais as consequências e até o que poderia ser feito para evitá-lo.

Uma vida com sabedoria é uma vida de aprendizagem constante. É isso que permite o nosso desenvolvimento e uma existência mais feliz.

A importância da leitura dos clássicos

Abrir-se para o aprendizado constante é a essência de uma pessoa culta. Aprender sempre e se dispor ao diálogo com saberes construídos ao longo da história da humanidade nos permite ver o mundo para além das obviedades.

Neste sentido, a literatura clássica tem papel fundamental. Quando a gente pega um texto escrito por Platão, Aristóteles, Sêneca… Ou ainda Shakespeare, Victor Hugo, Dostoiesvski, Eça de Queiroz, Machado de Assis… Quando lemos esses autores, mantemos um diálogo intergeracional, aprendemos com essas pessoas, ampliamos nossa visão de mundo.

Por outro lado, quem se fecha para esse aprendizado, torna-se uma pessoa inculta. Ou seja, o que é o inculto? O inculto é aquela pessoa que passa pela vida sem escutar outra voz que não a sua. O culto é aquela pessoa consciente de que está envolto em várias vozes que vêm do passado e que, ao ouvirmos essas vozes, compreendemos outras maneiras de dar significado, sentido aos vários movimentos da vida e da sociedade.

Entendo que não é simples voltar-se para a literatura clássica, para textos escritos em épocas tão distintas da nossa. Porém, o pensamento desses grandes autores ajudam-nos a ampliar a memória. É como se, ao aprendermos com eles, passassem a existir em nós, a conviver conosco. Deixamos de pensar sozinhos; pensamos com eles, dialogando com outras tantas experiências, que são riquíssimas.

Além disso, textos considerados difíceis são um grande desafio intelectual. Desafio este que nos tira da zona de conforto e, semelhante aos exercícios físicos mais complexos, que refinam os nossos movimentos e nos fazem descobrir musculaturas que sequer sabíamos que existiam, os textos tidos como difíceis exercitam nosso cérebro, ampliam nossas habilidades cognitivas, nos fazem descobrir novos mundos.

Os sábios e os que levam pessoas à justiça

Às vezes, a gente lê um texto (ou imagem) e não consegue notar sua incrível beleza ou profundidade. Alguém precisa fazer isso por nós… Precisa chamar nossa atenção.

Foi o que aconteceu comigo ontem. Um historiador mencionou o livro de Daniel, capítulo 12, verso 3, ao falar de uma educadora que morreu na última semana. Abri o texto bíblico, que havia lido algumas vezes, mas nunca tinha me chamado atenção. Agora, as palavras saltavam aos olhos:

“Aqueles que são sábios reluzirão como o fulgor do céu, e aqueles que conduzem muitos à justiça serão como as estrelas, para todo o sempre.”

Uau! Lindo demais!! Que belas palavras… Que bela promessa! Os sábios sempre brilharão. E brilharão intensamente; possuem luz própria, encanto próprio. O que é o céu? O céu é imenso, misterioso e, ao mesmo tempo, revelador. Quanto mais olhamos, mais admiramos, mais descobrimos. Se observamos mais de perto (telescópios nos ajudam bastante), imagens ainda mais incríveis surgem diante de nossos olhos.

aqueles que levam as pessoas à justiça, serão lembrados… Serão as verdadeiras estrelas. Não uma estrela efêmera, dessas que conquistam “sucesso” com seus corpos, com as banalidades que falam, com o dinheiro que ganham… Não serão as estrelas cultuadas por valores transitórios. Serão estrelas, possuirão brilho eterno, porque terão feito a diferença na vida de outras pessoas. E isso é o que realmente vale a pena.

Quem fala demais se condena

Uma das frases que eu disse num dos meus textos mais recentes, chamou a atenção de um amigo… Ao comentar sobre a necessidade que temos de falar menos, eu disse:

“Quando a gente fala demais a gente se condena”.

A pergunta que parece surgir após essa afirmação é bem essa: “por que, quando a gente fala demais, a gente se condena?”. É simples. A gente se condena porque o que há de pior em nós é verbalizado. Aquilo que por vezes está silenciado ganha forma, ganha materialidade por meio da palavra. E mesmo coisas que não gostaríamos de dizer, acabamos dizendo.

Sabe, em todos nós existe uma luta constante entre coisas que queremos fazer e não podemos e coisas que não queremos fazer, mas acabamos fazendo. O apóstolo Paulo uma vez disse: aquilo que quero, não faço; aquilo que não quero, isso faço.

Um filósofo famoso do século 19, o alemão Nietzche, ressaltava que todos nós usamos máscaras. E em todas ocasiões. Para Nietzche, essas máscaras não significam que mentimos o tempo todo. Pelo contrário, essas máscaras são nossas diferentes faces, nossos diferentes rostos. São verdades a respeito de nós. Vontades antagônicas estão num mesmo corpo.

E por que quando a gente fala a gente se condena? Porque algumas das coisas que ainda estamos combatendo para silenciar, até para tirar de nós, acabam escapando. Essas coisas fogem da máscara que estamos usando naquele momento. Às vezes, você não quer ofender, mas ofende; não quer discriminar, mas discrimina; não quer falar mal, mas fala…

E faz isso porque essa face negativa, ruim, também é você. Essa face negativa convive com a face boa, disputa espaço com o seu desejo de acertar. Mas aí, quando falamos demais, não racionalizamos direito. As emoções assumem o comando e o que precisa ser calado, emerge e mostra o que há de pior em nós.

Como quase sempre nossos julgamentos são feitos com base em fragmentos e não pela totalidade, podemos ser condenados pelas outras pessoas por esses lapsos, por essas falhas que deixamos escapar por meio de nossos lábios, daquilo que falamos.

Devemos ter cuidado com o que falamos

Tem um provérbio que diz:

No muito falar não falta transgressão, mas o que modera os lábios é prudente.

Meu avô já dizia que “quem fala demais dá bom dia a cavalo”. Esse é um ditado antigo e que está em plena sintonia com o provérbio de Salomão… Meu avô seguia à risca a verdade contida nesse ditado. Ele falava muito pouco. Talvez por isso nunca vi meu avô se metendo em confusão, nem o vi falando mal de outras pessoas. Acho que esse modo de vida inspirou meu pai e, de algum modo, também me deixou ensinamentos importantes sobre o cuidado com o que falamos.

No provérbio que citei, o sábio Salomão ressalta que quando a gente fala demais, a gente acaba falando o que não deve. Quando falamos demais, com frequência, nos condenamos. Nossos preconceitos são verbalizados, nossas inseguranças, nossas falhas de caráter são reveladas. E como todos nós temos defeitos, esses defeitos se tornam ainda mais evidentes.

Por isso, Salomão recomenda que moderemos nossos lábios. Em outras palavras, Salomão está dizendo: “filho, fale menos”. Falar menos é sinal de prudência. Falar menos é sinal de sabedoria. Quando falamos menos, temos mais tempo para refletir sobre o que vem a nossa mente. Os pensamentos amadurecem e temos oportunidade de avaliar se é necessário verbalizar, se não é o caso de guardar o que falaríamos apenas pra nós mesmos.

Tenho dito que as redes sociais são um espaço importante para o debate dos mais diferentes assuntos. Porém, a facilidade com que temos acesso à internet, tem motivado muita gente a falar sem pensar nas consequências de sua fala. A pessoa fala/escreve, publica no calor da emoção. E aí o que diz acaba, muitas vezes, trazendo problemas que seriam evitados se tivesse permanecido em silêncio.

Portanto, em qualquer situação, cuidar do que falamos, moderar nossas palavras, silenciar muitas de nossas palavras são atitudes prudentes e que certamente ajudam a preservar nossa imagem e, principalmente, o relacionamento com outras pessoas.