Nada é nosso!

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Eu não sei quando entendi isto, mas há algum tempo compreendi que esta é uma das poucas verdades absolutas: nada é nosso! Tudo que supostamente possuo hoje, não é meu. Na verdade, tenho a ilusão de que é meu. Na prática, sou apenas uma espécie de mordomo. É meu agora. Meus bens, meu dinheiro… tudo pode trocar de mãos em algumas horas. As riquezas são do mundo; nos apropriamos delas por alguns instantes durante uma curta existência.

O único valor das coisas que estão sob meu domínio, o único valor que possuem, é o valor de uso. Nada que tenho e que não uso tem valor. E tudo deixará de estar sob meus domínios assim que deixar esta vida. Ou mesmo, talvez por uma adversidade, também posso perder tudo que hoje parece ser meu.

A compreensão dessa verdade é tão avassaladora que joga em minha cara o quanto a vida é efêmera. Mais que isso, coloca diante de mim o quanto é vazio lutar tanto, esgotar-se na busca por possuir coisas. Também revela a imbecilidade vivida por muitos daqueles que medem o próprio valor pessoal pelo tamanho da conta bancária, pela quantidade de bens.

A real descoberta dessa verdade poderia nos ajudar a dividir mais. Afinal, se compreendo que aquilo que possuo não é efetivamente meu e só tem valor efetivo aquilo que eu posso usar, por que eu deveria reter tudo em meu poder deixando um humano, que é semelhante a mim, passar fome, sem um sapato nos pés ou um casaco para protegê-lo nos dias frios?

Os luxos que o dinheiro nos garante não são eternos. São prazeres imediatos, temporários. Até se justificam se usufruímos, mas fazem pouco sentido se são apenas possibilidades não vividas. Temos apenas um corpo; de que servem centenas de peças de roupas caríssimas? E as dezenas de pares de calçados? E as casas imensas, se ocupamos diariamente alguns metros quadrados e por algumas poucas horas? De que adianta poder pagar por milhares de refeições no melhor restaurante de Paris se só consigo comer uma de cada vez?

Nada é nosso! Quando a vida se esgota ou mesmo a saúde vai embora, nada sobra, tudo que parece ser nosso, troca de mãos ou perde seu valor de uso.

Para que nascemos?

abracar

Acho que uma das grandes inquietações do homem é a razão de sua existência. Por que nascemos? Por que vivemos? Qual o sentido da vida? Por meio da religião, muitos parecem se encontrar e aquietar o coração. Outros tantos simplesmente não pensam; optaram por viver anestesiados. Divertem-se como se a vida se explicasse tão somente pelo prazer que se pode ter.

Eu também não tenho uma resposta. Todas que conheço permitem ser questionadas. Entretanto, gosto da ideia de que nossa existência se justifica coletivamente. Ou seja, pode até não explicar por que nascemos, mas ao menos aponta uma razão para a vida valer a pena. O premiado escritor americano Ernest Hemingway, na obra “Por quem os sinos dobram”, traz na fala de uma de suas personagens um pouco dessa beleza. Após ouvir o relato de um jovenzinho que teria perdido toda a família e seu lamento por expor tanta dor ao grupo de amigos, ela diz:

– Para que nascemos se não para nos ajudarmos uns aos outros?

O jovem estava constrangido por falar de mortes, de perdas para um grupo de amigos que também carregava consigo decepções, frustrações e familiares mortos na guerra. Todos ali tinham uma história de dor. Parecia que ninguém tinha o direito de chorar seus dramas. Afinal, o choro de um parecia não se justificar diante de sofrimentos supostamente ainda maiores vividos por outros. Ainda assim, a personagem de Hemingway sustenta: existimos para nos apoiar, para ajudar uns aos outros.

E, diante da incapacidade que muitas vezes temos de dizer alguma coisa, ela completa:

– E ouvir sem dizer nada é o menos que se pode fazer.

Sabe, relacionar-se não é fácil. Entretanto, é isso que nos faz humanos. Eu costumo dizer que não somos dependentes de um amor (ter alguém com quem dividir a cama) pra vivermos felizes. Mas precisamos de gente. Não é bom viver sozinho. E não se trata de ter alguém com quem dividir uma festa ou uma bebida. Trata-se de ser capaz de ajudar e ser ajudado, abraçar e ser abraçado… em todos os momentos. Algo dentro de nós reclama a presença do outro. A gente é mais feliz quando faz alguém feliz – ou está ali para enxugar uma lágrima, provocar um sorriso… 

Quando a gente vai no velório de alguém, dá pra perceber se a existência daquela pessoa valeu ou não a pena pelos depoimentos que se ouve. Não se trata de apenas escutar coisas do tipo “ele era tão bom”. Trata-se de perceber o quanto aquela pessoa se doou pelos outros. Familiares, filhos, amigos, colegas de trabalho, conhecidos e até desconhecidos circulam por ali com lágrimas nos olhos e lamento real pela perda de alguém que fez a diferença. Pessoas assim, quando se despedem da vida, parecem ter deixado marcas; marcas na vida de outras pessoas. Escrevem uma história que se estende para além delas. Não vivem isoladas do mundo; elas são o próprio mundo.

Acredito que gente assim pode até não ter entendido por que nasceu, mas certamente soube como e por que viver.

Na segunda, uma música

Não sei se você já teve essa sensação… O desejo de tornar relevante sua passagem por aqui. De alguma forma, escrever sua história. Não estou dizendo de se tornar um personagem histórico. Uma Madre Tereza, um Da Vinci, um Shakespeare… Estou falando da vontade de fazer a diferença, dar sentido à própria existência.

Sabe, muita vezes a gente nem se dá conta do que está fazendo. Simplesmente vai vivendo. Norteados pela busca do prazer, ignoramos que estamos vazios de tudo. Entretanto, alguns mais tarde outros mais cedo, todos percebemos em algum momento que precisamos fazer algo, dar um sentido à vida.

A música de hoje fala disso. Beyoncé interpreta a nossa busca por preencher cada dia com algo bom, que faça a diferença. Ela diz:

Quando eu deixar este mundo, não deixarei arrependimentos
Deixarei algo para ser lembrado, e eles não se esquecerão

Beyoncé canta aquela que deveria ser a nossa vontade… Eu estive aqui, eu amei, eu chorei, um sorri. Eu vivi.

Os corações que toquei serão as provas que deixarei
Que eu fiz a diferença, esse mundo verá que
Eu estive aqui

Enquanto ouço, fico pensando: quantos, no fim da existência, poderão repetir as palavras desta canção? Quantos terão certeza que fizeram sua parte para deixar este mundo um pouco melhor? Quantos não se sentirão arrependidos pelo que deixaram de fazer?

I Was Here é a música desta segunda. Vamos ouvir?

Relacionamentos não garantem sentido à vida

Ter alguém pra amar é uma das coisas boas da vida. Amar e ser amado faz um bem enorme ao coração. Entretanto, não acredito que um relacionamento dê sentido à vida. A vida pode ficar melhor quando se tem alguém… Parece nos tornar mais completos. Mas viver um romance não garante felicidade.

Acho que nunca fomos tão egoístas, tão individualistas. Mas, no mesmo compasso que nos achamos tão autossuficientes, por outro lado, nunca antes idealizamos tanto os relacionamentos – e a própria existência. Tem gente que reclama, sofre, sente-se a pior pessoa do mundo quando está sozinha. Reclama um amor pra dar sentido à vida. Quando está sem ninguém, está infeliz.

Gente assim fica infeliz ainda que esteja amando. É carente demais. Só é feliz quem sabe ser feliz sozinho.

Entendo, como disse no texto “Gente assim pode casar”, que só deve embarcar num relacionamento quem está feliz, quem está bem.

Lembro, inclusive, de um palestrante que, numa perspectiva bíblica, costuma brincar com a criação da mulher. Diz ele que Adão estava no Jardim do Éden feliz da vida, achando tudo o máximo… Aí Deus deu uma olhada na situação e falou:

– Adão, tua felicidade me incomoda. Vou dar um jeitinho nessa situação.

Assim, Deus teria criado a mulher.

Apesar de ser só uma brincadeira, a piadinha desse palestrante guarda uma verdade: não podemos transferir para o outro a responsabilidade de nos fazer feliz. O outro não pode ser a razão da nossa vida. E sabe por quê? Porque pessoas passam pela nossa vida. Um e outro até tem a sorte grande de ter alguém todos os dias, num relacionamento sem prazo de validade. Porém, quem busca no outro o sentido pra vida apenas se engana, pega de empréstimo a felicidade de outro.

Temos que encontrar sentido pra vida na nossa própria existência. O foco é estar de bem a gente mesmo. Não adianta achar que a vida vai ficar melhor só quando tivermos alguém com quem dividir nossa cama. E sabe o que é pior? Esse tipo de idealização não acontece apenas com a busca de um amor. Tem gente que acha que sua vida só vai ter sentido quando tiver um filho, quando conseguir uma promoção, quando tiver a casa própria, quando completar os estudos, quando estiver na faculdade, quando for rica… Isso é idealizar a felicidade. Não funciona. A vida tem de ter sentido na gente mesmo, no próprio ato de viver. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos. Nossa passagem por aqui também é uma experiência individual. O que se ganha “de brinde” é a oportunidade de nos socializarmos e comemorar o presente da vida convivendo com outras pessoas.

Quando a vida deixa de fazer sentido

tristeza

O que leva alguém a desejar deixar de viver? As mortes por suicídio são sempre intrigantes. Como entender alguém que simplesmente optou por abrir mão da vida? Embora tal escolha não seja justificável – afinal a vida é o bem maior que temos, presente de Deus -, não raras vezes, a vida deixa de fazer sentido e a morte parece ser a única saída.

Pessoas num estado de depressão profundo perdem a alegria de viver. Tudo que dá prazer alguém emocionalmente saudável não é capaz de garantir felicidade a uma pessoa deprimida.

Entretanto, nem sempre é preciso estar doente para perder o sentido da vida. Problemas financeiros, um emprego ruim, perseguição na escola ou no trabalho, uma decepção amorosa ou mesmo um relacionamento ruim podem tirar o desejo de acordar a cada novo dia.

Talvez não seja o seu caso… Mas muitos de nós já despertamos, olhamos para o relógio, lembramos de nossos compromissos, porém a única coisa que desejávamos era continuar ali, debaixo dos lençóis e simplesmente fugir de tudo e todos. O desejo é apenas aquele: “que um buraco se abra e simplesmente sejamos engolidos por ele”.

Nesses dias, colocar os pés no chão é doloroso – é como se pisássemos em espinhos; a luz do sol parece apenas intensificar o sofrimento; e o calor do novo amanhecer é semelhante a uma chama que queima a alma, aumentando a angústia, a ansiedade e o medo.

Quando a alma chora, não há beleza do mundo. Não há cores, não há sons. O cantar dos pássaros soa apenas como mais um ruído ou se perde nas tempestades do coração.

Um pensador certa feita disse:

– Quando a alma chora, olho da janela do meu quarto e do, alto do meu prédio, não vejo a beleza da cidade. Vejo apenas a chance de silenciar meus tristes ais; de calar minhas lágrimas; de penetrar e me perder no esquecimento.

Caro amigo, estar no mundo é estar sujeito aos prazeres e desprazeres da vida. Ainda que se apele para a razão, nossas emoções muitas vezes falam mais alto. E se provocam sorrisos, não raras vezes também nos fazem chorar. Quem deseja viver intensamente, terá dias em que o sorriso vai brotar fácil em seus lábios; mas também deve aceitar que lágrimas não desejadas vão descer pela sua face. Nessas horas, muitas vezes a vida perde o sentido.

Quando isso acontece, resta-nos a fé.

A fé é que nos faz vislumbrar a chance de voltar a sorrir. A fé é que põe esperança no coração e nos faz crer que o cinza que hoje domina a nossa paisagem vai se dissipar e as cores do arco-íris voltarão a brilhar amanhã. A fé é o que supre o vazio da nossa existência e nos faz resistir, esperando que a vida possa ter um novo sentido, capaz de nos fazer prosseguir.