Por um mundo mais simples

Embora entenda que tudo precisa de organização, tenho pavor de burocracia. O que pode ser simples fica difícil. Tudo por causa de uma rotina muitos vezes mal explicada e até desnecessária.

Ontem, por exemplo, enquanto acertava a rematrícula de meus filhos na escola que estudam, a diretora solicitou que providenciasse uma série de documentos – inclusive o básico, RG e CPF. Não resisti e questionei:

– Mas por que preciso trazer esses documentos, se entreguei todos eles no ano passado?

Na verdade, não foi apenas no ano passado. Meus filhos estão na mesma escola desde a pré-escola. Como o mais velho vai cursar o primeiro ano do Ensino Médio, dá pra ter uma ideia de quantas vezes já providenciei a papelada. Afinal, todo ano é a mesma coisa.

Não responsabilizo a diretora. Por sinal, é uma pessoa maravilhosa, que admiro e respeito. Porém, não consigo entender essas coisas. Na faculdade em que leciono também dessas coisas. Papéis que a gente entrega todos os anos e precisa apresentar de novo e de novo… Faz parte da burocracia.

Eu não faço parte do grupo de pessoas que consegue simplificar tudo. Até sou bem complicadinho. Ainda assim tenho tentado aprender a fazer da maneira mais fácil. E sonhado com um mundo menos complicado… Pra facilitar a vida da gente, pra sobrar mais tempo e pra garantir uma vida menos estressada.

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As revistas da semana

VEJA: Casar faz bem. A reportagem mostra que em tempos modernos, em que a preocupação com a carreira ocupa tanto tempo, casar ainda está na moda. Ainda na edição, a Veja procura discutir a viabilidade de algumas promessas dos candidatos à presidência da República; a tatuagem: de moda a obsessão; e ascensão social do negro no Brasil.

ÉPOCA: – As 100 melhores empresas para trabalhar e as lições da campeã Google. Na empresa símbolo do trabalho no século XXI, um ambiente criativo e inspirador com tempo livre, mesa de bilhar, massagem – e até almoço grátis. Eles querem ser perfeitos: uma nova geração de narcisistas exige de si e dos outros nada menos que a beleza absoluta. Até onde isso pode levar? Segundo as pesquisas, a aposta do presidente Lula em derrotar senadores adversários e eleger no lugar uma bancada de amigos pode dar certo. E ainda tratando de política, Tiririca: Pior que está não fica? O início do horário eleitoral traz uma nova legião de candidatos cômicos.

ISTO É: – Nunca fomos tão felizes. Com a economia a todo vapor e os avanços sociais no país, brasileiros descobrem que nunca foram tão felizes. Eles compram carro próprio, viajam mais, adquirem casa própria e realizam seus sonhos. Celebridades e quase celebridades invadem o horário eleitoral apostando que o eleitor já não suporta os políticos tradicionais. Ossos de São João Batista, agora na Bulgária. A descoberta da suposta ossada do santo expõe a pressa de quem quer explorar a fé para ganhar dinheiro com o turismo religioso.

CARTA CAPITAL: – A Petrobras na mira. A estatal, entre os jogos do mercado, financeiro e a sucessão presidencial. Ministério da Defesa vai retomar buscas por desaparecidos na Guerrilha do Araguaia. Os materiais encontrados serão enviados para o Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília. PT decide processar Serra por usar Lula em propaganda na TV. A exploração da popularidade do presidente por um nome da oposição reforça a tese de que é personagem central de sua própria sucessão.

Palavras traduzem nossas emoções?

Palavras. Elas são poderosas. Permitem que alteremos o meio em que estamos, exteriorizando o que é do mundo interior. Expressam nossas vontades, desejos, angústias, anseios. Refletem nossa alma. São mais que instrumentos para nos comunicarmos. Afinal, pensamos por meio de palavras. Mas teriam a capacidade de traduzir todas as nossas sensações, nossos sentimentos?

Um pensador russo, M. Bakhtin, apontou que a palavra é o modo mais puro e sensível da relação social. Também disse que preenche qualquer espécie de função ideológica: estética, científica, moral, religiosa. Entretanto, ressaltou que nem todos os fenômenos podem ser inteiramente substituídos por palavras.

Amo as palavras. Não tenho o talento de um João Ubaldo Ribeiro, com todo seu cuidado e esmero na escolha de cada uma delas para compor seus textos. Estou longe, muito longe dele. Porém, sinto-me encantado com seu poder mágico de sugerir o que vai no coração. Quando bem escolhidas, comovem, tocam. Também são capazes de polemizar, convencer, calar. É por isso que Bakhtin ressalta: a palavra é um signo neutro. Em qualquer contexto, servimo-nos delas para nos expressarmos.

Bem, não quero aqui desfilar argumentos da lingüística, da semiologia. Não é esta a intenção. Meu texto é apenas a expressão de uma vontade de pensar a palavra como esse instrumento que nos faz compreendidos pelo outro. Mas, mesmo combinadas e recombinadas, nem sempre traduzem o que sentimos.

Por exemplo, como tratar do amor que uma mãe tem por seu filho? Teriam o poder de revelar tamanho sentimento? Como alguém apaixonado expressa a emoção de estar ao lado da pessoa amada? Como falar da saudade que aperta, que machuca e faz chorar? Como expressar a sensação de um abraço, que acalma, conforta e nos faz perder a noção de tempo e lugar? Como, depois de seis meses repetindo todos os dias “eu te amo”, garantir que a frase expresse com a mesma força tamanho sentimento?

Nossas emoções são maiores que as palavras. Elas sugerem, mas não refletem. Falar das coisas do coração não é o mesmo que pedir: “tire o copo da mesa, por favor” ou “você poderia me dizer quanto está custando essa televisão?”. Não é simples assim. Por isso, quando tratamos de coisas abstratas o universo da linguagem pode conspirar contra ou a nosso favor.

As palavras, depois de ditas ou escritas, passam a ter vida própria. Já não nos pertencem. São do mundo do exterior, pertencem ao outro – ao leitor ou ao ouvinte. Por isso, ganham novos sentidos. Muitas vezes, diferentes demais daquilo que desejávamos. Não dá para controlar.

Esta é uma das riquezas desse signo. Elas são experimentadas de acordo com nossas vivências. Sentimos cada uma delas de uma forma. Isto é mágico. Por um lado, podemos concentrar todos os nossos desejos na composição das frases mais lindas e tocarmos alguém; por outro, nossa poesia pode simplesmente ser ignorada.

Porém, essa magia também guarda perigos. Mais que deixar de alcançar nossos objetivos, um enunciado é passível de ser compreendido de maneira distorcida. Não raras vezes, alguém se chateia com algo que falamos. Muitas vezes, a intenção era dizer uma coisa, mas o outro entendeu diferente. Brigas acontecem, mágoas ficam guardadas no peito. Pior é que, em algumas situações, somos incapazes de reconhecer que não somos donos do discurso. E que a fala ganha sentidos no outro. É o ouvinte, leitor que dá o significado.

A compreensão do encanto das palavras, sua incompletude na tradução de nossas emoções, a autonomia dos sentidos são aspectos fundamentais e transformadores, inclusive nas relações humanas. Tornar-nos-íamos mais compreensivos com o outro se pudéssemos perceber que a vida que se expressa em palavras não é a mesma que se passa no coração.

Breves lembranças… E nossa percepção

Nossa percepção das coisas se dá do local onde estamos. Não tem jeito. É assim, por exemplo, com a ideia que temos do “tempo”. Quando crianças, o ano demora demais pra passar. Tornamo-nos adultos, as horas, dias, semanas, meses e anos passam acelerados. Tudo num ritmo alucinante.

Também é assim com a Copa do Mundo. Hoje conversava com alguém que falava sobre o clima do mundial. Lembrava com saudade dos tempos em que as comemorações eram mais gostosas… Os encontros com amigos para acompanhar os jogos eram mais divertidos… Enfim. Tudo melhor. E sem dúvida, era melhor mesmo. Afinal, não é a Copa que mudou. Nós é que mudamos. Essa pessoa mudou. E seu olhar, a maneira como experimenta as sensações do torneio, também mudou.

Em todas as situações da vida esse é um sentimento recorrente. Deixamos de experimentar as coisas da mesma maneira e, com isso, elas vão perdendo o sabor. Sobram as lembranças, a saudade.

Lá em casa, quando conversamos a respeito de alguma coisa já vivida no passado – aquelas do tipo “ah… mas era tão bom” – costumo repetir que tem “gosto de saudade”. Se voltássemos no tempo, com a bagagem de vida que temos hoje, essas coisas certamente não teriam a mesma graça, perderiam o encantamento. Esse “brilho” está nas nossas recordações, não necessariamente no fato, nas experiências que tivemos. É justamente por isso que são tão significativas para nós.

Escravos da imagem

Para a convivência social, temos que ter certo cuidado com o que falamos, com a maneira como nos portamos; nossos gestos e ações falam sobre nós. Tempos atrás, fiz um programa exatamente sobre este assunto. Na ocasião, conversei com a psicóloga Isla Gonçalves, uma especialista no tema. Recordo que apresentamos várias dicas sobre como devemos nos portar para nos relacionarmos bem, sermos bem vistos por familiares, amigos e, obviamente, no mundo dos negócios.

Hoje, há cursos específicos que ensinam a ter postura. Não se trata simplesmente de etiqueta. A ideia é treinar as pessoas a fim de se tornarem seres relacionais, capazes de se adequarem aos diferentes ambientes. Se o problema está na incapacidade de convivência com a mulher, namorada etc, manda o sujeito para a terapia ou para um curso de noivos/casais. Não sabe trabalhar em equipe? Capacitação nele! Passa imagem de arrogante, prepotente ou egoísta? Treinamento resolve. Na verdade, com a orientação adequada, qualquer pessoa consegue melhorar bastante sua imagem e garantir o sucesso desejado – seja na vida pessoal, amorosa ou profissional.

Todos nós carecemos de máscaras. Elas escondem nossas fragilidades, silencia nossos impulsos irracionais. Não há quem as dispense completamente. São fundamentais. Precisamos para “engolir alguns sapos”, preservar amizades, não agredir aqueles que amamos, evitar mágoas… Sem maquiarmos nossa verdadeira face, a convivência social se tornaria impossível. Afinal, as pessoas que mais rejeitamos são justamente aquelas que se dizem as mais “verdadeiras”.

Quem costuma dizer “eu não levo desaforo pra casa”, geralmente se torna irritante e a evitamos. Ninguém gosta de ser agredido. Ninguém se sente bem ao lado de quem fala demais e não mede as palavras. O trato com o que vamos dizer e com a maneira com que falamos é um princípio fundamental para o estabelecimento e manutenção dos relacionamentos. Trata-se, portanto, de uma máscara que usamos. Se não nos preocupássemos com o outro ou com o que vão pensar de nós, agiríamos da mesma forma? Talvez não.

Queremos causar uma boa impressão. É natural. Afinal, buscamos no outro nossa afirmação e identidade. Muito daquilo que acreditamos que somos é referenciado pelo que falam de nós. Poucos podem dizer “não ligo para o que pensam de mim”. Talvez até relevamos a opinião que alguns têm a nosso respeito, mas, por outro lado, não dá para negar que vamos considerar a imagem que construímos – ainda que em apenas certos meios ou diante de algumas pessoas.

Nada disso é ruim. Faz parte de nossa vida. É necessário. Somos frutos do meio. Não estamos sozinhos no mundo. Entretanto, muitas vezes nos tornamos reféns de nossa imagem. Quando isso acontece, temos um problema. Perdemos a identidade. Deixamos de ser o que somos para viver como querem que vivamos. Pode até parecer interessante durante algum tempo, pois é desejável a aprovação do outro. Mas aos poucos a infelicidade bate à porta e o que era bonito se torna feio, o que era claro fica escuro, a vida fica amarga e os dias passam a ser uma grande mentira.

Não há uma receita para escapar do risco de se tornar escravo de sua própria imagem. Contudo, uma dica pode ajudar: conhecer-se. Quem se conhece, percebe o que dá prazer, o que causa satisfação e é capaz de avaliar até que ponto as máscaras são necessárias. Elas podem até nos ajudar a viver melhor, mas não podemos permitir que ocultem quem verdadeiramente somos, silenciando nossos sonhos, desejos, escondendo nosso caráter e personalidade.

As revistas da semana

VEJA: – Uma copa para você jogar. A capa da revista desta semana é uma autopropaganda sobre o guia interativo da Copa do Mundo produzido pela revista. Mas a edição desta semana também traz: Eleições 2010, Marina Silva cai no gosto dos jovens e modernos; a carga tributária no Brasil, os tributos são europeus, mas os serviços prestados pelo Estado têm a qualidade dos africanos; tecnologia, por que a Apple superou a Microsoft.

ÉPOCA: – Facebook, Twitter, Orkut… É hora de entrar ou cair fora? O risco de revelar sua vida privada; os amigos digitais ajudam ou atrapalham a carreira?; quando a internet se transforma em vício; e 27 personalidades da rede que você precisa conhecer. A edição dupla de aniversário da Época ainda tem: a temperatura subiu para José Serra. A alta de Dilma Rousseff nas pesquisas pressiona o tucano, que se vê agora obrigado a subir o tom das críticas à adversária e a resolver logo a questão do vice. O novo rosto das comédias românticas. Katherine Heigl é a garota que faz todo mundo suspirar e morrer de rir.

ISTO É: Comida, sexo e amizade. Pesquisas comprovam que esses são os prazeres essenciais para o ser humano. Saiba como incrementá-los no dia a dia e ampliar a sensação de bem-estar em outras áreas da vida. Aécio diz não. Agora o candidato Serra e seus aliados se debatem com o desafio de como resolver o imbróglio da chapa tucana. O parque de Harry Potter em Orlando. Como é o mundo do bruxinho, a atração mais aguardada dos últimos anos, que será inaugurada no dia 18 de junho.

CARTA CAPITAL: – Antes famintos, hoje gordos: com a desnutrição controlada, o Brasil assiste ao vertiginoso crescimento da obesidade. Mais: especial The Economist. Os bancos dos BRIC vão dominar o mundo? Candidata da continuidade. Por que Dilma cresce nas pesquisas? O êxito do governo Lula explica.

O novo mundo; agora digital

Somos resultado do meio em que vivemos. Você já deve ter ouvido essa frase por aí. Ela também pode ser aplicada noutro contexto. Algo do tipo: “você é o que você come!”. Não tenho aqui a proposta de falar de comida. Muito menos fazer uma reflexão ampla, sociológica ou filosófica sobre como somos afetados pelo ambiente em que estamos inseridos. Entretanto, reconhecendo isso, entendo ser importante considerar que as novas ferramentas tecnológicas têm nos mudado como pessoas.

Somos os mesmos de décadas passadas? Claro que não. É verdade que muito do que experimentamos hoje sequer damos conta. Tudo corre tão rápido que, conscientemente, não vemos as mudanças. Até ignoramos que não somos os mesmos seres humanos de anos atrás.

Por exemplo, como seria nossa vida hoje sem celular? É verdade que muita gente ainda é resistente ao aparelho. E vive bem sem ele. Porém, quem aderiu ao telefone móvel, tornou-se refém dele. Carrega para todo lado; quando o sinal cai, fica desesperado, sentindo-se ilhado; e se alguém do outro lado não atende sua ligação, bate aquela ansiedade.

Costumo brincar com meus alunos: o celular trouxe problemas que antes desconhecíamos. Imagine a situação: quando a garota liga para o namorado e ele não atende… Ela liga uma vez, nada. Liga duas, nada. Na terceira, deixa recado na caixa de mensagem. Também nada. Pronto, ela enlouquece. Bate uma insegurança danada, ciúme e, só com muita sorte, não vai haver briga. De uma pergunta ele não vai escapar:

– Por que seu celular estava desligado? Onde você estava?

A situação é semelhante com os pais. Antes, eles estabeleciam um horário para os filhos chegarem. A moçada saia, fazia seu programa e, atrasada ou não, voltava para casa. Não dá para dizer que os pais ficavam tranquilos. Contudo, agora é muito pior. O mesmo celular que acalma – por garantir contato com o filhinho amado a qualquer hora – é aquele que não responde as chamadas e deixa qualquer mãe desesperada.

Também nos tornamos dependentes da internet. Dia desses, ao chegar ao trabalho, a rede não estava funcionando. Fiquei perdido. Por onde começar? Curioso é constatar que não faz tanto tempo que colocávamos um jornal no ar sem visitar um único site. Na verdade, mal sabíamos que a internet seria parte de nossa vida.

Reconheço que ainda hoje muitas pessoas estão excluídas do mundo digital. A maioria não é por opção; e sim por fatores sociais e econômicos. Mas ainda assim a tendência é que cada vez mais a rede esteja presente em nosso dia a dia e nós estejamos presentes na rede. Não dá para fugir.

Para muitos de nós é impossível pensar o dia sem a internet. E não usamos apenas para o trabalho. É muito mais que isso. Evitamos as filas dos bancos pagando contas, tirando extratos etc etc; conversamos com amigos, familiares pelo messenger, twitter, facebook; expressamos nossas ideias pelos blogs e demais redes sociais; interagimos com os veículos de comunicação; ouvimos música, baixamos música e filmes pela net… Enfim, estamos até diminuindo o tempo que passamos em frente à televisão por causa das possibilidades que essa nova mídia nos proporciona.

Obviamente, esse novo cenário não é perfeito. Há problemas no consumo e na produção de conteúdo para a internet. Ninguém pode negar. Mas é inegável que nossa vida, nossos hábitos e costumes têm sido influenciados por esse universo digital. O que é melhor: ele pode nos servir coisas positivas. Basta saber se apropriar desse mundo novo. Ignorar ou rejeitar essas mudanças é, por opção, se excluir.