Nossas carências podem nos colocar em risco

É fato que desejamos ser acolhidos, abraçados, amados. Cada um do seu jeito, cada um a sua maneira, quer sentir-se importante na vida de outras pessoas.

Acontece que nem sempre nosso desejo de ser amado é correspondido.

Primeiro, porque temos uma imagem estereotipada do que significa ser querido pelas outras pessoas. Essa imagem tem grande chance de ser exagerada e bastante irreal, causando um descompasso entre a expectativa alimentada em nossa mente e a realidade.

Segundo, porque vivemos um tempo em que cada pessoa está tão envolvida, tão focada em si mesma que mal sobra espaço para reparar nas outras pessoas. Ou seja, estamos cada vez mais individualistas, pouco atentos às pessoas que nos rodeiam. Há pouco espaço para amar, acolher, tocar…

Isso potencializa um forte sentimento de solidão e abandono. Por isso, quem está carente demais vive a busca constante por alguém que lhe diga: “ei, estou aqui, vou te ouvir, vou te amar”.

E qual é o risco? Simples: nem todas as pessoas são confiáveis.

Na corrida por se sentirem amadas, as pessoas expõem facilmente suas vidas, seus segredos, sua intimidade.

Há uma urgência para contar com alguém, para ter um amigo, uma amiga, ou mesmo um amor.

Por conta disso, muita gente abre o coração para a primeira pessoa que aparece. Acontece que nem sempre essa pessoa é digna de confiança. A carência torna-se uma ferramenta de manipulação, abuso psicológico, violência e exploração econômica.

Portanto, a dica de hoje é esta: por mais carente que você esteja, não abra seu coração e sua vida para as pessoas em seus primeiros contatos. Espere, aguarde. Busque conhecer!

Nunca esqueça do conselho bíblico: seja prudente!

Hoje, com a internet, tornou-se fácil demais encontrar alguém on-line aparentemente amável, generoso, carinhoso. Entretanto, só o tempo nos revela quem de fato são as pessoas.

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A caminhada é mais fácil quando nos abrimos para os relacionamentos

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Precisamos de gente em nossa vida. Embora a existência seja, de certo modo, solitária, é fundamental ter com quem somar e dividir.

A caminhada é solitária por que as pessoas entram e saem da nossa vida. Cada uma delas deve construir seus próprios projetos, relacionamentos… Muitas delas se afastam para dar conta das próprias necessidades e, com isso, também se distanciam emocionalmente.

Outras tantas deixam nossa vida porque a morte tiram-nas de nós.

Entretanto, embora sempre existam partidas, precisamos ser receptivos àqueles que chegam. Sei que para muitas pessoas isso é desafiador. Tem gente que já sofreu tanto em relacionamentos que prefere se manter distante. Também há quem é introspectivo e se sente mais confortável sozinho – eu sou uma dessas pessoas. Conviver parece não ser algo agradável.

Entretanto, é preciso romper com as barreiras que nos separam das outras pessoas. Vivemos melhor quando nos relacionamos. Ainda que muita gente nos deixe durante o percurso, é necessário quem encontramos; trazê-las para perto de nós, dividirmos as experiências e as coisas boas que temos, também somar forças para a construção de nossos sonhos e aprendermos aquilo que podem nos ensinar.

Se a gente não se abre para o outro, a vida não se torna apenas solitária, experimentamos a solidão e nos tornamos mais frágeis.

São os relacionamentos que nos fortalecem, que possibilitam as trocas e que possibilitam inclusive as conquistas pessoais e profissionais. Tudo se torna muito mais difícil quando estamos sozinhos. Não se trata apenas de ter alguém com quem você possa conversar, trata-se de contar com gente para agregar, aprender, ensinar, auxiliar na realização de um projeto, facilitar na abertura de uma porta – às vezes até para mediar o contato com alguém que você sonha conhecer.

Por isso, é importante não nos fecharmos em nós mesmos; a caminhada fica mais fácil quando nos abrimos para os relacionamentos.

Conviver com você é uma experiência agradável para as outras pessoas?

Geralmente esperamos muito das pessoas com as quais convivemos. Queremos que sejam gentis, honestas, fieis, amáveis, respeitosas, éticas… Também desejamos ter por perto gente que é capaz de colocar um sorriso em nosso rosto.

Não há nada de mal nisso.

Tenho insistido, inclusive, que devemos preservar e valorizar os relacionamentos que nos alegram. Se a pessoa que está do seu lado é capaz de te fazer sorrir, valorize-a.

Faz um bem enorme ao coração passar alguns minutos com alguém que consegue tornar o ambiente mais leve, gente que faz a gente rir e esquecer dos problemas, não ver o tempo passar.

Dias atrás, recebi uma pessoa que tornou a única hora que ficou em nossa casa uma das experiências mais agradáveis que tive este ano. Eu nunca o tinha visto. Por causa da amizade que temos com a namorada dele, ele passou em casa e, desde então, sempre que posso, procuro manter contato. Infelizmente, esse jovem mora do outro lado do Brasil. Porém, a impressão que deixou foi a melhor possível e lembro com saudade do tempinho que passou junto com nossa família.

Pessoas assim fazem nosso coração sorrir.

Mas… E nós? Tornamos a convivência com o outro uma experiência alegradora? Será que as pessoas sentem prazer em estar conosco por alguns minutos? Nossa companhia é desejada?

Muitas vezes, lamentamos a ausência da família, a falta de amigos. Queixamo-nos da solidão, do abandono. Porém, uma pergunta que não podemos deixar de fazer a nós mesmos é justamente essa:

Conviver com você é uma experiência agradável para as outras pessoas?

Sabe, por mais doloroso que seja admitir, nem sempre somos boas companhias. Às vezes, nossas reclamações, queixas, pessimismo tornam nossa presença um tanto pesada, desagradável. Isso afasta as pessoas.

Portanto, minha dica é simples: que possamos nos conhecer bem, mudar o que carecemos mudar, tornando-nos pessoas com as quais vale a pena estar junto.

A ausência que mata

Robin Willians se matou em 2014. Ator de sucesso por mais de 30 anos, teve um fim triste. E não apenas pelo suicídio. O suicídio foi apenas consequência de um período de existência vazio, triste, solitário.

O comediante chegou ao ponto de se sentir incapaz de voltar a fazer as pessoas rirem. Mesmo casado (pela terceira vez), vivia distante da esposa. Cada um tinha seu quarto, suas rotinas.

Robin não se perdoava pelo fim do segundo casamento e, em sua cabeça, imaginava ter provocado sofrimento nos filhos. E isso de tal forma que, ao invés de se aproximar deles, mantinha-se acuado, culpado.

Muitos outros aspectos desse drama aparecem na obra biográfica Robin, escrita pelo jornalista Dave Itzkoff, do The New York Times.

O que mais me chamou atenção foi a fala de um dos filhos de Robin Williams: “sinto que deveria ter passado mais tempo com ele. Porque alguém que precisava de apoio não recebeu o que queria”.

Essa conclusão me fez pensar nas inúmeras vezes que, mesmo tendo alguém sofrendo ao nosso lado, não notamos. E, se notamos, entendemos que a pessoa deve ser forte o suficiente para, sozinha, lidar com os problemas; ou pelo menos procurar ajuda profissional. Na prática, a gente não quer se envolver. Já temos nossos problemas, né?

Acontece que ninguém vive bem sentindo-se abandonado. E às vezes um pouco mais de nossa atenção pode trazer o conforto que um coração precisa.

O mito da liberdade de escolha

A modernidade parece oferecer inúmeras possibilidades de escolha. Se quero uma camisa nova, a quantidade de opções é tão grande que, por vezes, não sei o que levar para casa. Vale o mesmo na hora de comprar um esmalte, um smartphone ou até mesmo um carro.

Entretanto, é ilusória a sensação de que temos a chance de escolher o que queremos.

Podemos sim escolher, desde que esteja no “cardápio” das coisas socialmente aceitas. E vai para além disso. Podemos escolher, desde que as coisas a serem escolhidas devam ser escolhidas.

Deixa eu explicar de outra forma. Você pode sim escolher qual imagem postar no seu perfil do Facebook e até sobre o que vai escrever em sua rede pessoal. Porém, você pode optar por não ter uma conta no Facebook? Talvez você responda que sim. Mas qual será a reação do mundo ao seu redor? Será que não haverá reação alguma?

Você pode escolher entre inúmeros modelos de smartphone. Mas é preciso ter um aparelho. Atualizado, moderno. Do contrário, sequer roda boa parte dos aplicativos “necessários”.

E o que dizer dos corpos? Uma pesquisa divulgada em 2016 revelou que 9 em cada 10 mulheres não se sentem plenamente satisfeitas com seus corpos. Motivo? Não possuem os corpos que gostariam (vale dizer que parte dessa insatisfação deve-se aos modelos estéticos impostos pela sociedade). Então onde está a tal liberdade? Se não dou conta sequer de ter o corpo que gostaria de ter, que liberdade possuo?

A ideia de que podemos escolher também se aplica ao sucesso educacional e profissional. E essa é outra grande mentira.

Pobre tem escolha? Escolhe emprego? Pode efetivamente decidir qual e como será sua moradia? A escola do filho?

A sociedade impõe modelos. Cria condições restritivas que impedem as pessoas de viverem plenamente.

A solidão, o abandono, a falta de moradia, a hostilidade dos vizinhos, o desaparecimento dos amigos… Nada disso ocorre por escolha. Talvez para alguns até seja efeito de erros cometidos ao longo da vida. Porém, na maioria dos casos, são condições impostas pelo modelo que temos de sociedade.

A tese da possibilidade de termos qualidade de vida (nos parâmetros dados pela sociedade capitalista) também é falsa. John Reader, num estudo, provou que, se vivêssemos com todo conforto que supostamente merecemos (semelhante a parte das famílias norte-americanas, por exemplo), precisaríamos de três planetas semelhantes ao nosso para suprir as necessidades de todas as pessoas.

Ter liberdade de escolha é um privilégio de poucos, muito poucos.

Para muitos, a liberdade de escolha, como ressalta Zigmunt Bauman, é semelhante a do ciclista que está em movimento: se parar de pedalar, para, cai. A vida acaba sendo um destino sem escolha.

A solidão e sofrimento dos pesquisadores

Enquanto observava alguns dados sobre a distribuição de doutores nas diferentes regiões do país, fiquei pensando sobre o quanto é desgastante dedicar-se à ciência. Quem está de fora, quase sempre não consegue ter ideia do que significa o percurso até a conquista do título de mestre e/ou doutor. Talvez por isso haja certa desvalorização do trabalho realizado.

Além das horas dedicadas à produção de um estudo com profundidade, são meses e meses dedicados às leituras, à escrita de pesquisas menores (comunicações, artigos, resenhas etc). Ainda têm as disciplinas, os grupos de estudos, os eventos, viagens… E tudo isso sob muita pressão. Os programas de mestrado e doutorado são avaliados pelo volume de produção. Não basta, portanto, entregar uma dissertação, uma tese ao final de dois, três ou quatro anos.

E esse percurso é muito solitário. No período de faculdade, você convive por alguns anos com a mesma turma. Existem conflitos, brigas, mas também empatia, cumplicidade… Pessoas se tornam amigas, frequentam sua casa, dividem tarefas… Na pós, os encontros são pontuais. Ainda que possamos desenvolver amizades, há pouco espaço para colaboração. Quase sempre a caminhada é sozinha – você, seus livros, seu computador. Os colegas também estão imersos em suas pesquisas. Cada um tem seu orientador, tem sua própria pesquisa, seus próprios prazos. Vivem angústias semelhantes. Porém, com tempo escasso e até pelo ambiente competitivo, ninguém tem condição de dizer “calma aí, vou fazer essa parte para você!”.

A família e os amigos, que não conhecem esse universo, geralmente pouco ajudam. E nem reúnem condições para isso. Frequentemente, não conseguem entender sua irritação, cansaço, estresse e muito menos por que você passa tantas horas lendo, consultando textos ou em frente ao computador. Falta tempo e disposição para um cineminha, barzinho… Lidar com o sono atrasado é parte da rotina.

É nesse ambiente que, silenciosamente, sofrem.  Uma pesquisa divulgada recentemente mostrou que 89% dos estudantes apresentavam sintomas de ansiedade, 64% de angústia, 63% de desânimo e 61% estavam com dificuldades de concentração. Há relatos de mudanças no apetite (muita gente engorda, outras emagrecem), vários casos de depressão… Adoecer durante os anos da pós é bastante comum – embora o assunto seja tabu nos programas de mestrado e doutorado.

Particularmente, não lido com isso de maneira muito diferente dos colegas. Por ter que conciliar trabalho, família e doutorado, por vezes, sinto o desgaste. Gosto, porém, dos eventos científicos justamente por trazerem certo fôlego nesse percurso tão complexo. Neles, a gente encontra outras pessoas que estão em condições muito semelhantes e ainda assim seguem produzindo. Ver todo mundo tentando fazer ciência, de maneira séria, renova os ânimos, faz com que voltemos para casa com vontade de estudar um pouco mais, discutir outros assuntos, propor outras reflexões… E faz até acreditar que isso tudo tem alguma coisa de divertido.

Sozinha e feliz

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Embora o mundo esteja mudando, ainda existe certa pressão para que as pessoas tenham um relacionamento. Quem mais sofre a pressão social são as mulheres. Principalmente depois de uma determinada idade. Não raras vezes, são vistas como solteironas. E, com o aumento dos divórcios, também cresceu o número de pessoas “livres”.

Estar sozinho parece ser indicação de fracasso no amor. É como se a pessoa fosse incapaz de manter um romance. E quando a pressão não é externa, muitas vezes a própria pessoa se cobra por estar sozinha.

Talvez a grande questão seja justamente a maneira como a pessoa se vê quando não tem um romance. Afinal, o olhar do outro só nos afeta quando não estamos de bem com a vida, quando não estamos totalmente seguros.

Sabe, cada pessoa tem suas razões para estar solteira. E uma vida sem um relacionamento não deve ser considerada menos válida, ainda que exista um discurso de que a felicidade só existe quando se tem alguém do lado.

Na verdade, a única coisa certa é que você é a única pessoa que vai te acompanhar até o fim dos seus dias. Por isso, é fundamental aprender a ser feliz consigo mesma. Além disso, quanto mais feliz você é em sua própria companhia, maior é a chance de atrair gente com a qual vale a pena conviver. Uma pessoa bem resolvida atrai os olhares e desperta o desejo, pois é bom estar ao lado de gente segura de si, que sabe o que quer, que é feliz com o que tem.

Por isso, se você está sozinho ou sozinha, e não se sente muito confortável com essa situação, eu diria que é importante rever seus conceitos. Não vale a pena deixar de viver, colocar a vida entre parênteses, até que encontre a pessoa certa. A vida é curta demais para desperdiçarmos cada dia, cada instante que o universo nos oferece.

Não ter um amor, também não significa isolar-se, deixar de ter amigos. Não significa abrir mão de fazer coisas que gosta.

Sabe, não há razão para ter vergonha de estar sozinho. E se deseja muito encontrar alguém, é fundamental manter o equilíbrio. Tão nocivo quanto lançar-se numa busca desesperada por um amor é renunciar a vida, focar apenas no trabalho ou mesmo tentar compensar as frustrações gastando com o cartão de crédito.

Os pais fazem os filhos infelizes

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Os pais querem ver os filhos felizes. Este é o propósito maior. Dedicam-se, cada um do seu jeito, para fazê-los pessoas felizes. Porém, alguma coisa está dando errado. A moçada está cada vez mais desiludida, angustiada, amargurada. Não são raros os casos de adolescentes e jovens que não encontram sentido na vida, sentem-se infelizes. Muitos deles ainda culpam os pais pelo vazio existencial e até se sentem rejeitados.

Por que isso acontece?

A resposta, por mais dolorosa que possa ser, reflete um fato: os pais se dedicam tanto em fazer os filhos felizes que os tornam infelizes. Sim, porque, para fazer a molecadinha feliz, quase sempre se cai numa prática perigosa: a superproteção. Filhos superprotegidos são candidatos a se tornarem pessoas infelizes.

Mas por que os pais protegem demais os filhos? Segundo a psicóloga e pesquisadora María Jesús Álava Reyes, os pais estão muito ocupados com outras tarefas, principalmente com o trabalho, e se sentem culpados. Na verdade, embora muitas vezes tenham compromissos demais, os pais devem aproveitar o tempinho que têm em casa para sentar com as crianças, brincar com elas e, principalmente, criar um ambiente favorável para que haja um bom canal de comunicação. Ouvir a garotada é um processo fundamental para conhecer os filhos e saber o que realmente desejam e pensam.

Nessa prática de superproteção, outro problema é impedir que a molecadinha faça tarefas para as quais já estão preparados. Os pais satisfazem as necessidades deles em excesso com o pretexto de não permitir que se frustrem ou sofram. Como consequência, as crianças não desenvolvem habilidades importantes para saber enfrentar situações difíceis da vida, tornam-se mais vulneráveis, frágeis, inseguros, não sabem dizer não…

Muitos pais não percebem o estrago que estão cometendo – ou já cometeram. Muitos pais não notam o tamanho da infelicidade dos filhos. Ou apenas consideram as atitudes da adolescência e juventude como revolta desmedida e sem razão – porque acreditam que sempre fizeram o melhor pelos filhos. Até consideram que não passam (os filhos) de uns ingratos, incapazes de reconhecer todo investimento que fizeram para que fossem felizes.

No caso de filhos crescidos, não há muito o que fazer. Os pais devem reconhecer os erros, mas não se culparem. Afinal, fizeram o que entendiam ser o melhor. Já para aqueles que ainda vão ter filhos ou têm crianças pequenas, reservei algumas dicas:

  • Ensiná-los a pensar por si mesmos;
  • Deixar que enfrentem as dificuldades, começando por pequenas coisas;
  • Permitir que façam pequenas atividades, e sem ficar “em cima deles” vigiando;
  • Criar um ambiente que permita a autonomia não fazendo coisas por eles, ainda que demorem mais tempo para terminar;
  • Valorizar o esforço, a constância, a persistência. As pessoas se sentem mais felizes após a realização de algo que implique empenho, esforço. É assim que valorizam as coisas;
  • Propor pequenos desafios. Desde muito cedo é fundamental que sejam estimulados a pensar por si mesmos como resolver certos problemas. E isso funciona bem se forem propostos como alguns jogos que podem solucionar sozinhos.