A ausência que mata

Robin Willians se matou em 2014. Ator de sucesso por mais de 30 anos, teve um fim triste. E não apenas pelo suicídio. O suicídio foi apenas consequência de um período de existência vazio, triste, solitário.

O comediante chegou ao ponto de se sentir incapaz de voltar a fazer as pessoas rirem. Mesmo casado (pela terceira vez), vivia distante da esposa. Cada um tinha seu quarto, suas rotinas.

Robin não se perdoava pelo fim do segundo casamento e, em sua cabeça, imaginava ter provocado sofrimento nos filhos. E isso de tal forma que, ao invés de se aproximar deles, mantinha-se acuado, culpado.

Muitos outros aspectos desse drama aparecem na obra biográfica Robin, escrita pelo jornalista Dave Itzkoff, do The New York Times.

O que mais me chamou atenção foi a fala de um dos filhos de Robin Williams: “sinto que deveria ter passado mais tempo com ele. Porque alguém que precisava de apoio não recebeu o que queria”.

Essa conclusão me fez pensar nas inúmeras vezes que, mesmo tendo alguém sofrendo ao nosso lado, não notamos. E, se notamos, entendemos que a pessoa deve ser forte o suficiente para, sozinha, lidar com os problemas; ou pelo menos procurar ajuda profissional. Na prática, a gente não quer se envolver. Já temos nossos problemas, né?

Acontece que ninguém vive bem sentindo-se abandonado. E às vezes um pouco mais de nossa atenção pode trazer o conforto que um coração precisa.

Aceitar todas as emoções

Temos uma tendência em negar a dor. Preferimos o isolamento a dizer “estou mal, preciso de ajuda”. Sentimo-nos pressionados; precisamos estar bem. O discurso dominante é “você pode, você consegue, você controla sua vida”. Isso faz com que nos sintamos frágeis, fracassados. O mundo parece ser dos fortes, das pessoas bem resolvidas. Emoções boas, aceitas, desejadas são a alegria, o entusiasmo, a motivação… Ninguém quer tristeza, desânimo, medo… 

Experimentar essas emoções resulta em sensações de indignidade, inutilidade… A pessoa acha que não será aceita se demonstrar medo, insegurança… E a gente não quer ser tratado como coitadinho, num mundo que pede que você se posicione, que esteja sempre motivado.

Posso assegurar que não gosto desse discurso… As pessoas são o que são. Algumas um pouco mais resistentes à dor, ao sofrimento… Outras, mais sensíveis… E isso não tira o mérito de ninguém. A beleza está justamente na diversidade, na pluralidade de personalidades.

É fundamental nos aceitarmos e aceitarmos as pessoas em sua completude. A negação da dor, silenciar emoções nos empobrece como humanos e contribui para o desenvolvimento de uma série de doenças psíquicas. Não é sem motivo que temos uma sociedade com mais gente sofrendo de ansiedade, estresse, pânico, depressão etc etc. Não é sem motivo que crescem os casos de suicídio… Entre 2011 e 2016, foram mais de 62,8 mil mortes – aumento de 12%.

Sim, precisamos cuidar mais da gente, cuidar mais do coração, cuidar mais das pessoas. Não somos máquinas. Somos pessoas. E pessoas sorriem, mas também choram, querem colo, abraço… Querem perceber que importam, que são relevantes no mundo.

Quando a vida deixa de fazer sentido

tristeza

O que leva alguém a desejar deixar de viver? As mortes por suicídio são sempre intrigantes. Como entender alguém que simplesmente optou por abrir mão da vida? Embora tal escolha não seja justificável – afinal a vida é o bem maior que temos, presente de Deus -, não raras vezes, a vida deixa de fazer sentido e a morte parece ser a única saída.

Pessoas num estado de depressão profundo perdem a alegria de viver. Tudo que dá prazer alguém emocionalmente saudável não é capaz de garantir felicidade a uma pessoa deprimida.

Entretanto, nem sempre é preciso estar doente para perder o sentido da vida. Problemas financeiros, um emprego ruim, perseguição na escola ou no trabalho, uma decepção amorosa ou mesmo um relacionamento ruim podem tirar o desejo de acordar a cada novo dia.

Talvez não seja o seu caso… Mas muitos de nós já despertamos, olhamos para o relógio, lembramos de nossos compromissos, porém a única coisa que desejávamos era continuar ali, debaixo dos lençóis e simplesmente fugir de tudo e todos. O desejo é apenas aquele: “que um buraco se abra e simplesmente sejamos engolidos por ele”.

Nesses dias, colocar os pés no chão é doloroso – é como se pisássemos em espinhos; a luz do sol parece apenas intensificar o sofrimento; e o calor do novo amanhecer é semelhante a uma chama que queima a alma, aumentando a angústia, a ansiedade e o medo.

Quando a alma chora, não há beleza do mundo. Não há cores, não há sons. O cantar dos pássaros soa apenas como mais um ruído ou se perde nas tempestades do coração.

Um pensador certa feita disse:

– Quando a alma chora, olho da janela do meu quarto e do, alto do meu prédio, não vejo a beleza da cidade. Vejo apenas a chance de silenciar meus tristes ais; de calar minhas lágrimas; de penetrar e me perder no esquecimento.

Caro amigo, estar no mundo é estar sujeito aos prazeres e desprazeres da vida. Ainda que se apele para a razão, nossas emoções muitas vezes falam mais alto. E se provocam sorrisos, não raras vezes também nos fazem chorar. Quem deseja viver intensamente, terá dias em que o sorriso vai brotar fácil em seus lábios; mas também deve aceitar que lágrimas não desejadas vão descer pela sua face. Nessas horas, muitas vezes a vida perde o sentido.

Quando isso acontece, resta-nos a fé.

A fé é que nos faz vislumbrar a chance de voltar a sorrir. A fé é que põe esperança no coração e nos faz crer que o cinza que hoje domina a nossa paisagem vai se dissipar e as cores do arco-íris voltarão a brilhar amanhã. A fé é o que supre o vazio da nossa existência e nos faz resistir, esperando que a vida possa ter um novo sentido, capaz de nos fazer prosseguir.