População global consome tudo que a Terra produz em apenas 7 meses

Desde os anos 1970, uma organização internacional mede qual é o nosso consumo de recursos naturais a cada ano. E faz isso comparando ao que a natureza nos oferece nesse mesmo período. É como se a natureza fosse o agente de crédito e nós fossemos os consumidores desse crédito.

Quando essa medição começou, a humanidade consumiu todos os recursos naturais até o dia 29 de dezembro. Na época, esgotamos os recursos dois dias antes do fim do ano.

Mas o tempo passou, a população mundial cresceu e nosso desejo por consumo disparou. Neste ano de 2018, consumimos até o diaprimeiro de agosto, tudo que o planeta nos oferece para viver em equilíbrio com a natureza. Vamos viver em débito os próximos cinco meses. Isso significa que durante mais de 150 dias estaremos destruindo nossa casa.

É como se estivéssemos entrando no cheque especial, gastando o que não temos… E, detalhe, gastando o que não teremos condições de pagar depois.

Mas, afinal, o que estamos consumindo além dos limites no planeta? Valérie Gramond do Wild World Fund afirma que até amanhã teremos utilizado todas as árvores, toda a água, o solo fértil e os peixes que a Terra pode fornecer em um ano.

Também teremos emitido mais dióxido de carbono do que as florestas podem absorver.

Sim, a humanidade está destruindo sua casa. E como essa destruição é silenciosa, nem sempre observável, a gente segue consumindo muito, desperdiçando muito e preservando pouco.

Ainda usando a metáfora financeira, na prática, a gente não diminui o ritmo de gastos, não economiza.

A ganância por ganhos e, por outro lado, a ilusão da compra de bens e serviços tem levado à humanidade a pensar apenas no aqui e agora. Com isso, as condições de vida na Terra vão se tornando cada vez menos sustentáveis.

Compartilhar o carro: muito mais que uma carona

transito
Amsterdã incentiva o uso de bicicletas. Outras cidades começam educar os motoristas a dividir espaço no carro com outras pessoas

Quando o Protocolo de Kyoto foi assinado em 1997, havia expectativa de que muita coisa mudasse… Que fossem reduzidas as emissões de gases de efeito estufa, que medidas concretas fossem tomadas pelos governos e que afetariam, inclusive, os hábitos de vida da população. Entretanto, desde então, pouca coisa mudou. Na verdade, alguns problemas se acentuaram, principalmente em função do rápido desenvolvimento e industrialização de economias emergentes, como é o caso da China.

Consequência disso? Hoje, precisaríamos de 1,5 planetas para dar conta de cobrir todos recursos naturais que usamos e resíduos que geramos. O dado é da Global Footprint Network.

De forma prática, algumas cidades têm se esforçado para reduzir a poluição ambiental, o tráfego e congestionamento de veículos. Isso, principalmente nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e alguns países da Europa. São casos pontuais, é verdade. Porém, servem de referência por seus projetos de mobilidade mais eficientes.

Amsterdã, na Holanda, talvez seja o exemplo mais conhecido. Por lá, o uso diário de bicicletas é uma realidade para parte significativa da população. Outras cidades também têm feito o mesmo, inclusive com serviços de aluguel de bicicletas. Em Londres, anos atrás foi instituída uma taxa de congestionamento. Uma espécie de pedágio urbano. Em todos esses lugares, o trânsito está fluindo mais e o, que realmente importa, melhorou a qualidade do ar.

Na Europa, há cerca de 20 anos, crescem os investimentos no transporte público. Por lá, há nítida percepção que a população deixa o carro em casa quando tem um serviço de transporte público que respeita o usuário. Isso inclui bons ônibus, também agilidade no atendimento, rapidez nos trajetos e tarifas populares.

Mas uma medida que tem sido bastante incentivada, e que ainda não havia destacado aqui no blog, é o uso compartilhado dos veículos. Deixa eu explicar… Quando o trânsito está lento ou há  congestionamento, observe!!! Olhe para os carros. O que você vê? O tráfego intenso que desgasta, cansa é também lugar do individualismo. A maioria dos carros parados no trânsito tem apenas um passageiro, o condutor.

Por isso mesmo, governos, empresas e instituições têm orientado à população a compartilhar assentos dos automóveis. A ênfase é nas vantagens: economia de combustível, transporte mais eficiente (em função da redução de carros nas ruas) e os benefícios ambientais. Como nem sempre só o discurso educativo é capaz de mudar hábitos, algumas cidades estabeleceram restrições, por outro lado, compensando quem leva pelo menos três passageiros – até com a criação de faixas exclusivas para esses veículos em determinados horários do dia.

Na verdade, nesse momento da história em que as tecnologias digitais estão a disposição de todos nós, há possibilidade de se apropriar e até criar ferramentas que viabilizem um sistema mais eficaz de transporte, inclusive com serviços que permitam a criação de comunidades online para o uso compartilhado dos veículos.

Na Europa, por exemplo, já existem plataformas nas quais as pessoas podem se cadastrar e, a partir disso, dividir trajetos com outras pessoas. Ali é possível ofertar assentos vazios, informando a hora da “viagem”, o custo etc. E por meio de pontuações e histórico de comentários, dá para identificar quem é confiável e quem não é. Assim, na hora de ir para o trabalho, para a universidade e até para o médico, a pessoa divide o carro, paga menos e contribui para um trânsito melhor.

Bem, lá fora essas coisas começam a funcionar. E por aqui quando vai acontecer?

Um futuro sem carros?

carros

Como serão nossas cidades daqui dez ou quinze anos? Na Europa, já há quem aposte que a circulação de carros estará proibida nos centros das cidades. Acredita-se que serão permitidos apenas o transporte público, os veículos elétricos, as bicicletas e, claro, andar a pé.

Na verdade, nos centros mais desenvolvidos, já existe o reconhecimento de que o problema não é apenas o tráfego intenso que estressa, irrita e causa tantos transtornos. Entende-se que o problema vai além disso. A questão está no ar que respiramos. A quantidade de carros em circulação tem comprometido a qualidade do ar.

Contribuímos impunemente todos os dias para tornar o ar irrespirável. Alguns estudos já apontam que em países como a Espanha 95% da população respiram ar contaminado. Anualmente, cerca de 20 mil pessoas têm morte prematura em função da contaminação atmosférica.

O que dizer do aquecimento global? O mês de setembro, por exemplo, foi o mais quente desde 1880. O planeta está pedindo socorro. Ah… e o uso de carros contribui para o aumento das temperaturas.

E os avanços são tímidos, porque nem mesmo o pedágio urbano de Londres, as ciclovias ou as ruas exclusivas para pedestres são suficientes para conscientizar-nos das consequências do uso diário do carro. A gente senta atrás do volante e não quer saber de mais nada. Não está interessado em nada além do nosso conforto.

Isso mostra que há necessidade de radicalizar as propostas. Hamburgo é a primeira cidade que está levando o assunto a sério. Por lá, o plano é tirar todos os carros das ruas em 20 anos. Já a cidade de Tallinn, capital da Estônia, oferece transporte público de graça para a população.

Entretanto, pelo menos no Brasil, deve demorar um pouco mais para serem tomadas medidas enérgicas a fim de melhorar o trânsito e, principalmente, a qualidade do ar. Nossos políticos seguem apegados ao atraso. E as motivações políticas ainda falam mais alto. Eles não têm a determinação necessária para enfrentar questões como essas. Quanto a nós, ainda não estamos maduros para reconhecer que o conforto do carro mascara nosso egoísmo. Falta comprometimento com o bem comum.

Sustentabilidade: o Brasil precisa passar do discurso à prática

FOTO: LAURENT REBOURS (AP) - REPRODUÇÃO DE EL PAÍS
FOTO: LAURENT REBOURS (AP) – REPRODUÇÃO DE EL PAÍS

Quando o assunto é mobilidade urbana, o Brasil segue muito atrasado. O incentivo ao uso dos carros passa, inclusive, pelo próprio poder público. As cidades são pensadas para privilegiar os veículos. E, recentemente, durante a política de redução de impostos promovida pelo governo para não permitir o desaquecimento da economia, o setor automobilístico foi um dos mais beneficiados.

Enquanto isso, na Europa, os carros ganham status de vilões do meio ambiente. Todo projeto de sustentabilidade que se discute por lá prevê menos veículos nas ruas (por aqui, o povo briga quando são reduzidas vagas de estacionamento pra carro e ninguém luta por bicicletários). A França, por exemplo, está muito empenhada em fazer uma transição energética. Não se tratam de projetos pontuais, mas sim para toda a nação. O governo de François Hollande está determinado em viabilizar a proposta e já recebeu sinal verde do Legislativo francês para promover uma grande mudança no país.

A lei em discussão prevê medidas de curto, médio e longo prazo. A meta é tornar a França campeã ecológica na Europa até 2050. Entre as principais medidas estão incentivos para as empresas que motivarem os funcionários a usar bicicletas. Cada quilômetro rodado de magrela vira dinheiro no bolso do trabalhador. E a empresa ganha benefícios fiscais.

Além disso, as companhias com mais de 100 funcionários deverão apresentar um plano de transporte para sua equipe envolvendo transporte coletivo, carros compartilhados e uso das bicicletas.

Paris é a cidade mais empenhada no projeto. A capital ganha cada vez mais espaços para os veículos de duas rodas. Também estão sendo instaladas milhares de “tomadas” para atender veículos elétricos.

O francês que for trocar o carro a diesel por um elétrico também ganha uma espécie de prêmio – bônus. E o poder público também faz sua parte. Na renovação da frota, para cada dois veículos comprados, um deve ser elétrico.

Entretanto, o “pacote ecológico” não tem apenas medidas visando reduzir a poluição e melhorar o trânsito. Também saem de cena as sacolas plásticas descartáveis, os pratos e talheres do mesmo material. E como o objetivo é promover uma transição na matriz energética, edifícios devem ser reformados visando reduzir o consumo de energia de lâmpadas e equipamentos de ar condicionado. Quem for fazer a reforma, recebe incentivos fiscais e pode fazer empréstimos com juros subsidiados.

Coisa boa, né? Pois bem… É desse tipo de avanço que a gente precisa. No Brasil, um debate político sério também deveria contemplar projetos ambiciosos dessa natureza. Entretanto, por aqui, nossos supostos representantes ainda carecem de maturidade para fazer o enfrentamento de temas mais complexos. E a sociedade, por sua vez, está acomodada e é só quer saber de mudanças que, na verdade, não mudam nada.

Cidades sustentáveis

As ruas do centro de Estrasburgo (França) funcionam como um calçadão; não há espaço para carros
As ruas centrais de Estrasburgo funcionam como calçadões. Não há lugar para os carros

Imagine o seguinte quadro… Você sai de casa de bicicleta. Percorre algumas quadras. Não precisa disputar espaço com carros, caminhões ou motocicletas. Chega num bicicletário, guarda a magrela. Logo ali tem um ponto de ônibus. O ônibus tem ar condicionado, é confortável e, o melhor de tudo, é rápido. Deixa você a três quadras do trabalho em dez minutos. Você desce, caminha por uma calçada ampla. Não há carros por ali. Apenas pedestres. Embora more a cerca de dez quilômetros do emprego, você usou três sistemas de transporte, mas não demorou mais que 30 minutos.

O quadro acima não é utopia. Já é uma realidade em várias cidades do mundo. Por exemplo, nesta semana (dia 28/3), em Bruxelas, três cidades europeias – Vitoria e Rivas-Vaciamadrid (Espanha), e Estrasburgo (França) – disputam o prêmio de melhor plano de intermobilidade. Elas possuem modelos que integram diferentes sistemas de transporte. E o foco é um só: sustentabilidade. (Veja o vídeo abaixo).

A palavra que está na moda, inclusive aqui no Brasil, por lá representa uma prática. As pessoas são desestimuladas a usar o carro. Não vale a pena. Os governos apertam o cerco contra quem quer circular de carro, mas oferecem contrapartida (não apenas eliminam estacionamentos e saem alardeando a necessidade de se usar ônibus sem oferecer nenhuma melhora no sistema).

Em Rivas (Espanha), a prefeitura acertou com o consórcio regional de transportes uma mudança significativa no sistema. Hoje, existem menos pontos de ônibus. As pessoas precisam andar mais, é verdade. Entretanto, com menos paradas, o transporte ganhou agilidade. Para garantir que os usuários não tivessem que andar tanto a pé, foi criado um sistema público de aluguel de bicicletas. Há vários pontos para locação. E a cidade apostou numa rede de vias para pedestres. O veículo é desestimulado. A lógica que norteia as ações do município é uma só: gastar com ruas e avenidas para circulação de carros é insustentável; beneficia poucos e custa caro. Ou seja, não vale a pena.

Em Vitória (Espanha), a administração municipal tem uma meta: garantir que o espaço público seja ocupado pelos pedestres, não por carros. O plano é ousado. Muito. Permitir que as vias públicas sejam ocupadas, no máximo, em 20% por carros (até 2050, esse índice é de 10%). Para isso, os estacionamentos ficaram muito mais caros. A velocidade máxima permitida é de 30km/h. Como contrapartida, o poder público já construiu 120 quilômetros de ciclovias (a proposta é chegar aos 150). O sistema de transporte coletivo também foi otimizado. Há menos linhas, mas ganhou em agilidade. Em cerca de 10 minutos é possível atravessar a cidade. Curiosamente, até a bicicleta sofre restrições. Certos pontos permitem apenas a circulação de pedestres.

No transporte coletivo de Estrasburgo, há lugar para bicicletas. É a integração plena

Sobre Estrasburgo, outra finalista do prêmio de mobilidade, nem é preciso falar. Há anos é uma referência mundial. Os espaços são muito bem definidos para pedestres (ruas e avenidas que servem apenas como passeio público), bicicletas, carros e tram (um veículo leve que funciona sobre trilhos – uma espécie de substituto do bonde). Para se ter uma ideia, o incentivo aos modelos alternativos é tanto que são quatro vagas de estacionamento para bicicleta para cada vaga de estacionamento para carro.

Num dos meus textos anteriores, ao falar sobre nossa mentalidade provinciana, ressaltei que antes do desenvolvimento econômico, a mudança começa pelo nosso jeito de ser e pensar. Nós, brasileiros, queremos carro, andar de carro. O carro é quase uma extensão nossa. Brigamos por mais investimentos nas vias públicas a fim de contemplar a fluidez e vagas de estacionamento para carros. Em Maringá, por exemplo, os comerciantes criaram uma celeuma em função de uma pobre ciclovia que seria construída no canteiro da principal avenida da cidade. A prefeitura fez um projeto porco, questionável… tudo às pressas (neste momento, tudo empacado).

Nas cidades-modelo em sistemas sustentáveis de transportes, planejamento é palavra de ordem (mas não demora décadas para sair). Nada é feito por acaso. E na medida que se restringe o carro, outros serviços são implantados, melhorados. Claro, quem promove mudanças, enfrenta resistências iniciais. Existem hábitos, costumes arraigados. Por isso, há necessidade de um amplo programa educativo. É preciso mudar a cultura. Pode parecer utópico, mas quando os objetivos são claros (e nobres), as ações transparentes, é possível construir uma nova realidade.

Pode ser de bicicleta?

bicicletas

Dirigir tem se tornado uma das atividades menos prazerosas do dia. E olha que sempre gostei disso. Mas ultimamente deixou de ser uma experiência agradável. Na cidade ou nas estradas, a coisa anda complicada. É quase impossível não se estressar. Tem carro demais. E gente pouco habilitada no volante.

O que me incomoda é a falta de políticas públicas para melhorar o fluxo de veículos e tornar mais fácil a vida dos cidadãos. E, claro, isso não significa investir apenas em estratégias para garantir o tráfego dos carros. Estou falando de todo um sistema de transporte que atenda plenamente a população.

A falta de iniciativas incomoda. Poucas são as cidades brasileiras (veja o belo exemplo de Sorocaba) que procuram alternativas sérias para mudar essa realidade. Infelizmente, não dá para resolver os problemas do trânsito mantendo vagas de estacionamento. Não dá para sair abrindo ou alargando ruas e avenidas. Tem que se trabalhar com base na realidade. E esta exige medidas duras em alguns casos. Garantindo, é claro, a contrapartida para que o cidadão não seja prejudicado.

Estacionamentos em vias públicas tornam o trânsito mais lento. Por mais antipática que seja a medida, reduzi-los é uma necessidade. Ampliar o transporte coletivo é urgente. Investir em ciclovias (mais espaços para guardar as bicicletas, sistema de aluguel etc), idem. Além disso, é fundamental respeitar o pedestre.

O jornalista André Forastieri relatou dias atrás a experiência de Nova Iorque. Por lá, as políticas públicas foram nesta direção. E isso há apenas cinco anos. Os resultados são muito satisfatórios.

A secretária de transportes da cidade, Jenette Sadik-Khan, causa polêmica, pisando em calos diversos e rodando de bike pela cidade. Instalou 400 quilômetros de faixas para bicicletas. Fez muitos calçadões e calçadões temporários (só no final de semana, ou só no verão). Bancou um sistema de ônibus expressos, em que o usuário compra o ticket antes de entrar, mais ou menos no modelo de Curitiba. Instalou um sistema de compartilhamento gratuito de bicicletas. Botou um monte de bancos bem confortáveis nas ruas, para estimular as pessoas a caminhar mais, dando a elas um lugar para descansar. Está trocando a sinalização da cidade inteira, e incluindo mapas para pedestres. Também desviou tráfego pesado das zonas residenciais e construiu dezenas de novas praças.

Hoje, apenas 1/3 da população da maior cidade do planeta usa carros para ir ao trabalho; os outros 2/3 vão a pé ou, transporte coletivo.

Ou seja, dá para fazer. É preciso querer. O que não pode é o poder público ser refém do empresariado, como acontece em Maringá (lojista não abre mão de vaga na frente na loja; só não sei pra quem é o estacionamento, já que está sempre ocupado). Não dá para ser conivente com as estratégias da única empresa de transporte coletivo. Muito menos seguir ignorando a tendência global de incentivar as bicicletas ou ir a pé para o trabalho. Uma cidade não se revela rica pela quantidade de carros nas ruas, mas sim pelo respeito que tem por sua gente (mesmo que seja preciso contrariá-la) preservando o meio ambiente e promovendo a saúde (ou alguém aí acha que estresse no trânsito não causa doenças?).