O maior desafio da vida é viver

O maior desafio da vida não é outro senão viver. Vejo isso por mim mesmo e por outras pessoas próximas. E quando falo em viver, falo em algo que seja significativo de fato.

Viver cada dia atolado em preocupações não é viver. E não estou aqui dizendo que as preocupações não existem. Digo de quando deita-se e acorda-se sobrecarregado e sem ter tempo para sorrir.

Duas coisas que adoro são as reflexões sobre a arte e a filosofia. E em ambas encontro argumentos convergentes: vive-se quando voltamos o olhar para nossa alma (eu diria, para nossos corações); vive-se quando investimos tempo em apreciar o que há de belo no mundo.

E sabe de uma coisa? Isso não dá pra fazer “agendando”duas horinhas por semana. Que vida é essa que se precisa agendar um tempo para gastar consigo mesmo? 

Anos atrás escrevi sobre contemplar as estrelas. Eu estava num hotel fazenda, na época. Fazia tanto tempo que não via as estrelas que me surpreendi com o que vi no céu.

Acontece que esse tempo para apreciar as coisas boas da vida parece não existir mais. A gente até sonha estar com amigos, com a família, fazer coisas agradáveis… Mas isso tudo tem que estar na agenda. A situação é tão complicada que, não raras vezes, a ligação de um amigo querido parece nos atrapalhar.

Não vou mentir… Não foram poucas vezes que vi o celular tocar e pensei: “poxa, minha mãe tinha que ligar justo agora?”.

Olha a loucura que é isso!!! É minha mãe… Não vou tê-la pra vida toda. E ainda assim o preenchimento de um relatório é mais importante que falar com ela?

É por isso que, cada um ao seu modo, deve encontrar o seu jeito de viver. Viver de fato. Não apenas como engrenagem de uma máquina que apenas suga nossas energias e o melhor de nós. A vida é curta demais para perdermos a oportunidade de ter o melhor dela.

 

 

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Cadê o tempo para responder um amigo?

tempo

Eu ainda me surpreendo com o jeito em que estamos vivendo. Quer dizer, não sei se estamos realmente vivendo. Tenho a impressão que apenas estamos passando os dias, sem dar conta de que a vida vai se esvaindo, escapando por entre os dedos. 

Ainda hoje, enquanto organizava algumas coisas no computador, esbarrei em mensagens de pessoas com as quais me importo. Mensagens que recebi há mais de um ano. Não tinham sido lidas. Obviamente, também não tinham sido respondidas.

Será que tudo está tão corrido a ponto de faltar tempo para responder um amigo? 

Confesso que isso me incomoda. Evidente que considero as coisas que faço bastante importantes, mas é impossível não se questionar: são mais importantes que as pessoas?

Semanas atrás, refletia sobre qual é nosso maior patrimônio nesta vida. Na verdade, esta é uma resposta bem complicada. Depende de cada pessoa. Pelo menos pra mim, certamente não são os bens materiais. Na verdade, não me importo com o modelo de carro, com a TV da sala, com o sofá… Essas coisas não me fazem mais ou menos feliz.

Mas, então, qual é nosso maior patrimônio?

Afinal, quase todo o tempo que temos esgotamos, direta ou indiretamente, na busca de bens materiais. Podemos até achar que não é a nossa prioridade, porém, se trabalhamos demais, trabalhamos por quê? Qual a finalidade? Talvez falte tempo porque estudamos demais. Mas, se estudamos demais, por que fazemos isso?

Tem gente, hoje, que parece ter o prazer como maior patrimônio. Dependendo do que se define por prazer, será que o prazer justifica a existência?

Sabe, eu não tenho respostas. Nem escrevi para dar respostas. Penso, porém, que o momento é oportuno para refletirmos. A cada tic-tac do relógio (que nem usamos mais), o tempo de vida que nos resta se torna menor. O que estamos fazendo dela? Quais são nossas prioridades? Que espaço tem ocupado as pessoas que amamos em nossos dias?

Quanto tempo você fica no trânsito?

Você já fez as contas de quanto tempo passa no trânsito? Eu fico mais de uma hora por dia no trânsito… Fiz a soma ontem à noite. E fiquei bem aborrecido. É tempo demais jogado fora. Dava para ler quase um livro inteiro. Assistir pelo menos metade de um filme. Ver pelo menos um episódio inteiro de uma série… Dava para ter uma hora a mais de sono.

Sabe, eu não sou o único que fica tanto tempo no trânsito. Uma pesquisa feita pelo Ibope revelou que 3 de cada 10 brasileiros passam pelo menos uma hora no trânsito por dia. E em cidades com mais de 100 mil habitantes, o percentual aumenta… São cerca de 4 para 10 moradores que ficam trânsito esse tempo todo.

A pesquisa também revelou que as pessoas que usam o transporte coletivo são aquelas que mais perdem tempo no trânsito. Muitas delas chegam a ficar cerca de duas horas dentro de um ônibus.

De acordo com o Ibope, quando questionado sobre a qualidade do transporte público, 36% dos entrevistados disseram ser ruim ou péssimo. Apenas 24% avaliaram como ótimo ou bom. E sabe o que é mais interessante? Quatro anos atrás, 39% das pessoas haviam avaliado positivamente o transporte público. Ou seja, se o índice positivo já não era tão expressivo há quatro anos, a situação se agravou ainda mais nos últimos anos.

Dois últimos dados… Nas cidades com mais de 100 mil habitantes, pelo menos metade da população precisa de transporte público. E nas cidades com menos 20 mil moradores, só 16% da pessoas passam mais de uma hora no trânsito. Provavelmente, por trabalharem ou estudarem fora de seus municípios.

É difícil analisar em tão pouco tempo tantos dados. Porém, uma coisa é clara: as coisas não estão funcionando. Gente que passa muito tempo no trânsito é gente que se estressa mais, que cansa mais, que produz menos, que vive menos.

Portanto, é fundamental repensar a organização das cidades. O transporte público precisa ser mais eficaz, as pessoas precisam morar mais próximas do trabalho… E as atividades que as pessoas desenvolvem ao longo do dia não podem ser em lugares muito diferentes. Quanto mais você precisa ir de um lugar para outro, mais você fica em trânsito, mais tempo você perde no seu dia.

Faça as contas… Veja se não é o caso de, como sociedade, discutirmos mais seriamente alternativas para gastarmos menos tempo em carros, ônibus, motos… E sobrar mais tempo para efetivamente vivermos.

Na segunda, uma música

A administração do tempo talvez seja um dos temas que mais me incomodam. Afinal, sou uma dessas pessoas que brigam com o relógio… E ainda assim, parece que sempre fica alguma coisa para o dia seguinte.

Eu busco tempo para tantas coisas
São tantos planos para pouco tempo

Um dos grandes dilemas é que, sem tempo pra gente, falta tempo pra viver. Viver a família, viver os amigos… E fazer coisas que estimulam a criatividade, que desenvolvam a espiritualidade.

Não tenho tempo para descansar
Rever amigos e conversar
Já não consigo me assentar a mesa
E alimentar o que a alma almeja

Se falta tempo, de que vale a vida? Qual o sentido em fazer tanto, se nada do que se faz preenche o vazio do coração?

De que vale a um homem
A qualquer homem
Ganhar o mundo inteiro
E por inteiro se perder

Ainda hoje conversava com uma nutricionista. Ela fez essa reflexão e, pra ter tempo para a família, abriu mão de um emprego estável num grande hospital da cidade. Está ganhando menos, mas é dona do seu tempo.

A música desta segunda-feira propõe essa reflexão. Paulo César Baruk é um dos grandes talentos da música gospel nacional. Dono de uma voz agradável, o cantor e compositor transita bem por diferentes gêneros. E com a canção “Senhor do tempo” dá um recado especial a todos nós. E nem precisa ser cristão para pensar no quanto abrimos mão do essencial da vida por coisas que nem sempre deveriam fazer parte de nossa agenda.

E então, vamos ouvi-lo?

A arte de simplificar a vida

tempo

Em setembro deste ano, Jack Ma, o homem mais rico da China fez uma declaração que, de certa forma, resume o pensamento do tempo em que vivemos:

– Se você ainda é pobre aos 35 anos, a culpa é sua.

Ser bem-sucedido é imperativo na sociedade atual. E ter dinheiro é sinônimo de sucesso. Ser pobre é ser visto como fracassado. Por isso, todo mundo vive correndo atrás do danado do dinheiro. Ainda que quase todo mundo entenda que é preciso se mexer pra conquistar coisas, esse jeito maluco de viver tem roubado a chance de sermos felizes.

O próprio Jack Ma disse recentemente à CNN que não é feliz. E disse os motivos: as pressões que sofre do mercado financeiro, a carga de expectativas que recai sobre ele, o desejo de não decepcionar os outros e, o mais importante, a dificuldade de ser autêntico. Gente como Jack Ma precisa agir de acordo com a imagem que construiu.

E sabe o que é curioso? Muitos de nós somos iguais Jack Ma. Não temos os bilhões de dólares que ele tem, mas somos reféns do mundo que nos cerca.

Entretanto, existe outro fator que nos impede de viver feliz: a complexidade da nossa agenda. Dias atrás ainda escrevi aqui sobre a importância de ter um tempo pra não fazer nada. Mas a questão vai além da criatividade. Quanto mais a agenda está cheia, menos a gente vive.

A impressão que dá é que, se não estivermos muito ocupados, não somos importantes. Os outros precisam achar que trabalhamos demais. Quem tem tempo livre chega ser visto como vagabundo, folgado, preguiçoso.

O problema é que estar ocupado é trair a nossa própria humanidade. Nosso corpo não foi feito para dar conta de um ritmo tão intenso. Carecemos de tempo para desfrutar nossa família, para caminharmos à toa pela rua, sem nos preocupar que será um problema sair um pouco da rota para tomar um sorvete.

Quem corre demais está, na verdade, fugindo de si mesmo. São pessoas que precisam fazer mil coisas para se sentirem vivas. No entanto, ao terem rotinas tão intensas, não conseguem tempo para si mesmas. E isso resulta em infelicidade.

Sabe, não tem jeito… Se queremos viver melhor, temos que simplificar a agenda, tornar a vida mais simples. E aqui tenho algumas dicas:

Identificar nossas dificuldades – não adianta acordar decidido em mudar as rotinas. Embora seja necessário ter atitude para mudar comportamentos, é fundamental identificar o que nos levou a ter uma agenda tão complexa. Talvez as coisas foram acontecendo e você nem se deu conta de como estava afundando em tantos compromissos. Mas também pode ter ocorrido porque foi necessário se ocupar para evitar os confrontos com a esposa, com os filhos… Ou até pela necessidade de manter o emprego. Então, é preciso identificar quais as dificuldades que temos para simplificar a vida antes de tentar mudar qualquer coisa.

Focarmos no que é essencial e ter prioridades – simplificar a vida significa também descobrir o que pode ser abandonado. Ninguém muda sem abrir mão de hábitos, costumes ou até certos confortos. Talvez pra ter uma vida mais tranquila seja necessário trabalhar menos, reduzir despesas… É impossível conseguir mais tempo sem abrir mão de parte do que fazemos.

Esquecer a perfeição – ninguém dá conta de ser perfeito. É necessário admitir que vamos errar muitas vezes. Além disso, quem foca demais na perfeição, gasta tempo com detalhes que, na maioria dos casos, são irrelevantes, não fazem diferença. Isaac Newton certa feita disse:

A verdade sempre se encontra na simplicidade e não na multiplicidade e confusão das coisas.

Criar brechas de tempo em nossa agenda – já disse isso aqui, mas volto a repetir: sem tempo pra nos desligarmos de tudo, não dá para olharmos para nós mesmos, para apreciarmos o que está a nossa volta, as pessoas que amamos… Ninguém consegue ser feliz sem tempo pra si mesmo.

Quando é preciso não fazer nada

descansar

Não fazer nada. Pelo menos por algumas horas. Ou minutos. Importa ficar desocupado, ocioso. Pois é… Confesso que esse é meu sonho de consumo. No entanto, mais que um desejo, desligar-se é uma necessidade. O cérebro precisa. E não apenas para evitar um colapso, mas para potencializar nossa criatividade.

Admito que nunca dei muita atenção a isso. Sou daquelas pessoas que trabalham 12, 13 horas por dia. Além disso, quando não trabalho, estudo. Entretanto, como monitoro minhas rotinas, com o tempo fui notando que tenho alguns rituais. Para começar escrever, por exemplo, preciso sair da mesa, dar uma volta, pegar um café, uma água, às vezes passar no banheiro… Parece que isso desliga uma parte de mim e conecta outra. As ideias aparecem, consigo organizá-las e fica mais fácil colocar no papel.

Também já notei que as melhores “sacadas” para meus textos aparecem após períodos de leitura e de “desligamento”. Ou seja, quando estou caminhando, fazendo exercícios… Quando estou em atividades que não exigem concentração mental, o cérebro viaja e a criatividade entra em ação. Porém, se fico diante da tela, me esforçando para ter uma ideia, não sai nada.

O cientista e sociólogo italiano Domenico de Masi publicou uma obra brilhante no início do século. “O ócio criativo” questionava por que estamos tão ocupados se houve tantos investimentos para tornar a vida mais fácil. E sustentava que ter períodos em que não fazemos nada é a melhor maneira de ser criativo.

Agora é a vez da pedagoga, psicoterapeuta e neurocientista espanhola Marta Romo sustentar tese semelhante no livro “Entretena tu cerebro”. Ela lembra que os maiores gênios da humanidade também eram pessoas que sabiam relaxar, que se desligavam de suas atividades.

E não é difícil entender por que isso acontece. Durante nossas mil e uma atividades diárias, acumulamos muitas informações. Enquanto permanecemos concentrados no desenvolvimento de nossas tarefas, o cérebro está bloqueado para os insights. Nosso cérebro possui circuitos diferentes: um encarregado da atenção e outro voltado para a introspecção. Esses circuitos são incompatíveis. Se estamos ocupados demais, não há espaço para que os conhecimentos adquiridos sejam devolvidos em ideias criativas, criadoras.

Pode observar… Quando surgiram suas melhores ideias? Talvez tenha sido numa caminhada no parque ou enquanto estava espichado no sofá de casa, em silêncio…

O problema é que existe um imperativo para que trabalhemos, trabalhemos, trabalhemos. Não fazer nada parece comportamento de gente preguiçosa. Além do mais, sentimos necessidade de nos ocuparmos com coisas divertidas naqueles momentos em que não há nada pra fazer. Por isso, nos colocamos diante da televisão, ficamos navegando na internet… E olhos que estão ocupados não liberam a mente para que faça suas próprias viagens.

Por isso, quem quer ser criativo, ter ideias novas ou simplesmente achar solução para problemas cotidianos, deve seguir alguns conselhos bem básicos.

a) Tire pelo menos 10 minutos do seu dia para não fazer nada. Nada mesmo. É para deixar a mente divagar.

b) Desligue o celular, o tablet e o computador por algumas horas. Ou pelo menos, um dia por semana. A hiper conectividade não ajuda nosso cérebro. Se queremos ser criativos, precisamos nos desligar do mundo.

c) Eleja as tarefas mais importantes. Ser produtivo é essencial, mas, para isso, é preciso saber o que realmente é relevante nos seus dias. Descarte o inútil.

d) Permita que outros colaborem contigo. Divida tarefas. Não assuma todas as responsabilidades.

e) Realize pelo menos uma atividade diária que te dê prazer. Dê preferência a algo manual – tipo cuidar de plantas, desenhar, pintar, pequenos peças de artesanato.

Tempo para pensar

pensarNão apenas para pensar, mas também para acalmar. Um dos erros de muitos casais é tentar resolver tudo na hora. Acontece um descompasso, uma briga e já tentam resolver. Se estiverem de cabeça quente, a chance de se magoarem aumenta muito.

Eu defendo que nada deve ser silenciado. Se o casal teve um problema, precisa conversar, dialogar. Entretanto, quando se está muito irritado, não é possível ter um diálogo.

Diálogo é quando a gente consegue falar, mas, principalmente, ouvir. E isso… no tom de voz natural.

Tem casais que, após um mal entendido, não dão conta desse tipo de comportamento. Ficam estressados e, ao insistirem em conversarem, vão perdendo o controle das emoções. Em pouco tempo, até coisas do passado voltam à pauta e atravessam esse novo momento. Vira uma confusão. Logo estão gritando. Pra voltarem ao normal, dá muito mais trabalho.

Por isso, entendo que faz bem esfriar a cabeça. Não é uma regra sem exceções, claro. Não precisa valer para todas as situações. Entretanto, é uma coisa um tanto óbvia. Muita gente negligencia essa “estratégia”. Prefere continuar ali… insistindo. Não dá. Tem que parar. Se a confusão for cara a cara (estiverem juntos), vale dizer:

– Vamos continuar essa conversa daqui a pouco?

E aí dá uma saidinha, ouve uma música, assiste um programa na tevê… Quem sabe, faz uma caminhada, dá uma volta de bicicleta. Mas… separados. Se o descompasso for por telefone, também vale agir da mesma maneira. Claro, o outro precisa entender, respeitar; o outro deve compreender que a atitude visa preservar o casal. Não é uma fuga. Apenas uma maneira de esperar o momento certo pra conversarem. Por isso, tem que ser algo já acordado previamente entre o casal. Tem que estar combinado. Detalhe, também não é pra guardar, fazer outras coisas juntos e retomar. Isso não funciona. Vai ficar incomodando, distanciando. Como você vai sair pra jantar com a pessoa amada se está com um problema? Ninguém vai curtir, se divertir. O “tempo pra pensar” é pra esfriar, acalmar… retomar onde pararam, mas com equilíbrio emocional.

Saber esperar, respeitar o tempo do outro para colocar as ideias no lugar é saber preservar o relacionamento, evitar mágoas e garantir uma vida feliz para o casal.

Um convite para a vida

viver

Tem dias que os problemas nos consomem. Cansam, esgotam. A gente se sente péssimo. Perde-se a vontade, o desejo… Nada parece fazer sentido. Chega-se a imaginar que a vida é um grande vazio. Lembramos das rotinas, de tudo que fazemos repetidas vezes, e concluímos que a existência é muito chata.

Hoje, depois de ouvir uma pessoa lamentar pela “vida chata”, pensava nas sensações ruins que certos momentos nos trazem. Fiquei procurando elementos que podem acalmar o coração. Minutos depois, saí da mesa, percorri o corredor até onde fica o bebedouro. Enquanto aguardava encher o copo, olhei pela janela do prédio. Vi o céu azul, a copa das árvores, ouvi o ruído da cidade em pleno movimento. Observei as pessoas caminhando, alguns pássaros… Senti paz.

Parar por aqueles poucos instantes e simplesmente contemplar, me fez sorrir. O céu azul parecia agradecido porque eu o observava… Ele parecia convidar para o sossego, para uma pausa na agitação. Um pensamento percorreu minha mente:

– Tudo que a gente mais precisa é parar, descansar.

Não é descansar numa cama debaixo dos lençóis. É descansar das preocupações. Permitir-se viver. Viver é sentir. Sentir a natureza, sentir o toque, sentir o sangue pulsar.

Numa certa ocasião, Cristo falou aos seus seguidores sobre os problemas que geralmente ocupam nossa mente. Entre outras coisas, ele disse:

Observem as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas?

E continuou:

Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu lhes digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles.

Ao olhar pela janela, vislumbrar tanta coisa bonita, ver a bela cidade onde moro, lembrei desse discurso de Cristo. Acho que Ele já naquela época nos convidava a desfocar um pouco dos problemas e se dar uma chance. Uma chance de contemplar, de sentir. Cristo diz “observem”, “vejam”. Quem hoje para tudo, investe tempo para simplesmente “observar”? Quem se dá ao “luxo” de ver? De sentir?

Nossos olhos contemplam a tela do computador, nossos olhos se fixam nas imagens em movimento da tela da TV ou do cinema. Nossos ouvidos escutam ruídos mecânicos, tecnológicos, sintetizados… Nossas mãos tocam botões, aparelhos… Nossas mãos tocam a pele de alguém apenas quando buscamos o sexo. Porém, ignoramos outras tantas formas de prazer que o tato – e demais sentidos do corpo – nos proporciona.

Talvez quando nos sentimos consumidos pela rotina, algo dentro de nós esteja a nos convidar a parar e simplesmente contemplar. Desligar-se das telas, desligar-se dos aparelhos, dos sons, sair dos ambientes fechados… Quem sabe sentar num banco de praça ou apenas abrir nossa janela e ver… Ver e sentir o mundo. A natureza nos acalma. Somos parte dela. Ela nos convida a viver. Uma vida mais simples… Num ritmo compassado, tranquilo.

O mundo natural nos ensina… Na natureza, cada coisa acontece no seu tempo. Cada ser ocupa-se apenas do que lhe cabe ocupar-se. E tudo acontece no seu tempo… Inclusive a vida ou a morte.