Ser honesto consigo mesmo

A honestidade é uma das qualidades mais apreciáveis numa pessoa. E não é fácil encontrar gente honesta – principalmente na política.

O Brasil vive uma séria crise de honestidade. Os homens públicos não são confiáveis.

É fato que a escassez de gente honesta não é um problema apenas da vida pública. Faltam homens e mulheres honestos em todos os ambientes. Às vezes, até na casa da gente.

Mas sabe de uma coisa? Às vezes, a honestidade é algo que falta em nós na relação que temos com nós mesmos.

Não são raras as ocasiões em que mentimos pra nós mesmos. Vivemos uma vida fingida sem encarar nossas fraquezas ou preferimos não olhar para as nossas imperfeições de caráter.

O relacionamento fracassa? A culpa é do outro. Perdemos o emprego? O problema foi o chefe que não conseguia ver nosso valor. Tiramos uma nota ruim? É o professor que nos persegue.

Ser honesto consigo mesmo é olhar pra si e ser capaz de avaliar qual foi a sua responsabilidade no fracasso, na perda, no desempenho ruim.

Parece que gostamos dos espelhos para nos embelezar, maquiar nossa aparência, construirmos uma versão melhor de nós mesmos. Não queremos espelhos para olharmos quem somos de fato.

Entretanto, a honestidade consigo mesmo é talvez o primeiro grande passo para nos tornarmos pessoas melhores, profissionais melhores, cônjuges melhores, pais e filhos melhores.

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Quando é difícil decidir

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Tomar decisão não é um processo fácil. Até porque toda decisão é uma escolha. E escolher é perder. Quando decidimos fazer algo, renunciamos outras possibilidades. Por isso, não é nada fácil tomar uma decisão.

Ainda assim, não dá para viver adiando as decisões. Por mais incerto que possa parecer escolher um caminho e não outro, é necessário decidir porque a vida é curta demais para abrirmos mão de seguir em frente. Afinal, enquanto ficamos adiando, deixamos de seguir adiante. Estacionamos.

Mas então… como tomar uma decisão? Penso que toda decisão passa pela consciência do que é prioridade. O que é essencial? O que é determinante? Do que não podemos abrir mão? O que implicará num custo maior?

Sei, porém, que não é nada fácil ter isso de forma clara em nossa mente. Por vezes, relutamos. É natural que ocorra. Em momentos difíceis, sentimo-nos inseguros. Por isso é fundamental se apegar a algo. E esse algo pode ser as verdades que norteiam nossa vida.

Sempre digo que precisamos estar dispostos a colocar em dúvida as nossas verdades. No entanto, quando temos que tomar uma decisão, são essas verdades que servem de referência para identificar nossas prioridades.

Ninguém vive ser ter uma referência moral, uma ética. Sem isso, vira uma bagunça. Perde-se o respeito a si mesmo e ao outro. Até os animais têm suas regras.

Essas verdades podem estar na religião, podem estar na filosofia… Não importa. Importa que carecemos de parâmetros; são eles que nos ajudam a reconhecer qual o caminho que devemos seguir.

E isso vale até para situações tidas como menores.

Devo ou não receber a comissão que a empresa está oferecendo para eu dar exclusividade na hora das compras? Devo ou não contar para o chefe que o colega está desviando dinheiro das vendas? Devo ou não contar para a pessoa que está interessada em comprar meu carro que o motor não está muito bom?

Essas verdades, que também podemos chamar de valores, são as bases da nossa vida. Quando a gente não sabe como decidir, precisamos ter um norte, algo em que acreditamos e que nos ajuda a ter uma noção do que é certo. Talvez o “certo” possa até contrariar o que diz o coração, mas ainda assim é a referência que temos, a indicação do que pode ser o melhor a fazer.

Jeitinho corrupto

Um país justo se constrói com gente honesta, moral, ética
Um país justo se constrói com gente honesta, moral, ética

É difícil admitir que nossos pequenos atos marginais projetam comportamentos corruptos. Entretanto, é isso que prova um estudo realizado pelo Josephson Institute of Ethics. Baseado em quase 7 mil entrevistas, o relatório aponta que o “simples” ato de colar na escola significa maior possibilidade do sujeito ser desonesto. Pior, países que têm a prática do “jeitinho” são países mais corruptos.

Acho que isso explica muita coisa, né? E também sugere que a condição moral, o comportamento ética se aprende desde cedo.

Recordo que uma das discussões mais polêmicas que faço em sala de aula é justamente sobre a corrupção cotidiana. Costumo dizer que não somos melhores nem piores que os políticos; a diferença está apenas no tamanho dos benefícios pessoais que se tenta obter.

A cola na escola, por exemplo, é um ato de corrupção quase institucionalizado. O discurso estabelecido é bem conhecido: “quem não cola, não sai da escola”. Entretanto, quem trapaceia numa prova está corrompendo o sistema, está buscando uma vantagem pessoal. É verdade que, num primeiro momento, pode parecer apenas uma ação sem prejuízos. No entanto, revela o caráter, revela uma pré-disposição em romper com a “lei” em benefício próprio.

O relatório do Josephson Institute deixa isso muito claro: independente da idade, as pessoas que colaram (ou colam) na escola estão duas ou mais vezes mais propensas a serem desonestas. E os números são contundentes. Vejamos a comparação entre quem colou e quem não colou em situações bem específicas:

Três vezes mais propensos a mentir para um cliente (20% contra 6%) ou inflar uma reivindicação de seguro (6% versus 2%) e mais de duas vezes mais propensos a inflar um reembolso de despesas (10% contra 4%). Duas vezes mais propensos a mentir ou enganar seu chefe (20% vs 10%) ou mentir sobre seu endereço para colocar uma criança em uma escola melhor (29% vs 15%) e uma vez e meia a mais de probabilidades de mentir para o cônjuge ou outra pessoa significativa (35% vs 22%) ou trapacear nos impostos (18% vs 13%).

Na verdade, a corrupção na política, na administração pública e até mesmo nas grandes corporações nasce justamente nas frágeis bases éticas e morais de cada um de nós. A gente não quer pagar impostos, pirateia livros, músicas, filmes… Passa ser natural pagar um vereador para propor uma lei, pedir favor a fim de furar fila e conseguir primeiro uma consulta médica, mentir sobre a condição do motor do carro na hora da venda etc etc. Num patamar diferente, torna-se natural receber “incentivo” para aprovar um projeto, para conseguir recursos para uma obra pública… Quando dá, a gente fura até fila de banco!!!

Embora o estudo tenha sido realizado há alguns anos, um aspecto que se sobrepõe é a necessidade da educação para a formação de um sujeito ético. Os primeiros comportamentos marginais ocorrem na infância. E como as crianças aprendem na relação com o outro, a disciplina e o exemplo são fundamentais. Quando o baixinho tenta levar vantagem, precisa ser corrigido. Contudo, quando ele nota que o pai dá um jeitinho de escapar da multa de trânsito, ou mente que não está em casa quando o telefone toca, tudo que ele diz para o filho deixa de ter valor. Por isso, é preciso combinar orientação e modelo ético.

Dias atrás eu li uma charge:
– Se não reformarem os políticos, não adianta nada.

O discurso está equivocado. A questão não começa lá, começa aqui… entre nós. Se a gente quer um país melhor, não adianta apontar o dedo pra Dilma, pro Congresso… A gente precisa reconhecer os próprios limites – inclusive morais. E mudar. Um país tem políticos honestos quando tem um povo honesto. Um país muda quando a gente muda.

A insatisfação no relacionamento

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A insatisfação é inerente ao ser humano. Acho que é uma característica nossa. Nada nos satisfaz por muito tempo. Por exemplo, a gente compra um carro novo. Ele é lindo, o máximo. Era o objeto desejado. Porém, não demora muito tempo pra outro modelo chamar nossa atenção.

Acontece que isso muitas vezes acontece nos relacionamentos. Quando o romance perde o “cheirinho de novo”, aparece a frustração e a vontade de mudar – de parceiro(a) inclusive.

Dias atrás lia uma entrevista com o ensaísta francês Pascal Bruckner. Em comum, tenho com ele os estudos em Letras e o gosto por refletir sobre relacionamentos. Achei interessante a explicação de Bruckner para as separações.

Antes, as pessoas permaneciam juntas, em nome das conveniências, da moral, para preservar os filhos. Hoje, os homens e as mulheres – sobretudo as mulheres – não hesitam em divorciar-se, desde que eles não se entendem mais. Ou seja, a intolerância ao tédio e ao desamor se tornou muito forte.

A insatisfação, que sempre apareceu em muitos aspectos da vida – e que nos movia, inclusive, para novas conquistas (uma casa nova, um emprego melhor etc) – também passou a significar os relacionamentos. Como sugere Bruckner, certos valores serviam quase como cabrestos. Impunham limites. E numa época em que ser feliz não era uma imposição social, as pessoas toleravam o tédio no relacionamento e, mesmo sem amor, mantinham o casamento.

Entretanto, os valores mudaram. E algumas teses se tornaram “verdades absolutas”. A felicidade permanente é uma delas. As pessoas acreditam que podem ser felizes o tempo todo. Outra tese é a de que o romance só é romance se houver paixão; tem que ter “fogo”.

Gostaríamos de sentir o fogo da paixão e a satisfação de uma felicidade permanente – e frequentemente fracassamos nessa tentativa.

E o fracasso se dá justamente porque são valores ilusórios. São verdades construídas, mas que se naturalizaram como crenças. E hoje norteiam nossas ações. Mas não representam a verdade concreta, a verdade da vida. A vida é construída por bons e maus momentos. Por dias de alegria e outros de tristeza. Risos e lágrimas, euforia e tédio fazem parte da dinâmica da própria existência. E não é diferente com o relacionamento.

A pessoa com quem a gente vive é alguém real. E como todo ser humano, cheio de contradições. Nas contradições, encontramos as virtudes e as imperfeições. Numa hora, o parceiro é mocinho; noutro, bandido. Assim também sou eu… Assim é você. Se não sou perfeito, por que o outro precisa ser?

É preciso, notadamente na vida amorosa, aceitar viver com as próprias imperfeições e com as imperfeições dos outros. Não podemos pedir ao outro para tornar-se um herói ou uma heroína em tempo completo. Quando aceitamos nossas imperfeições podemos chegar a uma espécie de harmonia com o outro.

Entender isso é que faz a gente viver bem o relacionamento e não descartá-lo diante da primeira novidade que aparecer.

Silas Malafaia e os homossexuais: ele tem direito de falar o que pensa?

Bom seria se as pessoas  aceitassem que a vida pode ser simples
Bom seria se as pessoas aceitassem que a vida pode ser simples

Ele é um chato. Um chato típico. Enquadra-se perfeitamente no perfil que retratei no blog. Muitas vezes, fala bobagem. Há muito, deixou de ser essencialmente um pastor. Virou celebridade. Mas ainda assim, ele tem direito de dizer o que pensa.

No país do “politicamente correto”, tem gente pedindo a cassação do registro de psicólogo de Silas Malafaia. Até uma campanha foi criada na internet. Tudo por que o líder da Igreja Assembléia de Deus diz que pode “reorientar” homossexuais e ajudá-los a se tornarem heterossexuais.

A briga do pastor com os gays é antiga. Malafaia é tido como homofóbico.

Cá com meus botões, não gosto do enfrentamento feito pelo pastor. Acho que ele só produz espetáculo. A postura de Malafaia não ajuda os evangélicos (cria ainda mais preconceito), não esclarece o público cristão sobre as questões de gênero e muito menos aproxima homossexuais da fé cristã.

Entretanto, por mais questionáveis que sejam as atitudes desse líder religioso, ninguém pode negar a ele o direito de dizer o que pensa. Um dos princípios democráticos é a liberdade de expressão. Por mais agressivo que seja, Malafaia não incita à violência. Sua agressividade é verbal. É focada no comportamento e na religião. Ele defende seus princípios e crenças. Faz isso, na minha opinião, de maneira torta, até discriminatória. Entretanto, tem direito de expressar-se. Como tem o dever de responder judicialmente caso extrapole os limites do respeito ao outro.

Vale tudo para agradar o outro?

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O que você faz por amor? É bonito perceber que, movido por esse sentimento, pessoas fazem coisas que não fariam noutras circunstâncias. É a superação do próprio eu num ato de doação, de entrega. Porém, vale tudo para agradar ao outro?

Relacionamento necessitam de parâmetros. E os valores individuais precisam ser respeitados. Por vezes, é necessário negociar determinados hábitos, mas valores não são apenas costumes… Fazem parte da essência do que é o indivíduo.

Dias atrás, por exemplo, ouvi a história de uma garota que estava sofrendo com o namorado. Ela era virgem e não queria sexo naquele momento. O rapaz a pressionava. Pedia a “primeira vez” como prova de amor. A moça não queria perdê-lo, mas também não se sentia pronta.

O quadro é típico. Duas pessoas que estão juntas, mas desejam coisas completamente diferentes. E têm visões opostas da vida.

No caso desses jovens a situação é bem simples: se o cara gosta mesmo da menina, vai respeitá-la. Quem não é capaz de respeitar um valor individual hoje, vai atropelar outros valores amanhã. Portanto, quem tem que dar prova de amor aqui é o sujeito; não a menina. As ações dele estão motivadas por um desejo; as dela, por algo em que acredita.

Não são os raros os casos em que valores são colocados em xeque por chantagens emocionais. E não apenas nas questões da cama. Às vezes, uma das partes é mais frágil e acaba cedendo. Mas não fica feliz com o que fez ou faz. A pessoa se deixa usar. É manipulada. Sofre com isso. E cada vez que atende ao outro, sente-se agredida. Torna-se refém. Perde a autoestima e passa a agir pelo outro, não por ela mesma.

– Se eu não fizer isso, ele vai me deixar.

Esta frase é típica. E revela o quanto as emoções da pessoa estão fragilizadas. Ela já não se ama. Perdeu o amor próprio. Sente-se como se dependesse do outro para ser alguém. Quem vive assim já não vive. Precisa redescobrir-se, libertar-se.

Sabe, não existem regras ou manuais para um relacionamento. No entanto, algumas coisas são fundamentais. A primeira delas é respeitar-se, amar-se. Se você não se respeita, não se ama, nunca será respeitado e amado pelo outro.

Tem gente que diz:

– Ah… mas ele vive fazendo isso comigo.

Desculpe-me, mas você só tem no relacionamento aquilo que permite ter. Os parâmetros do que recebe é você quem estabelece. Se não tiver isso claro, certamente terá problemas. E o que espera do seu relacionamento deve ter como referência o que é importante para você. O que deseja pra sua vida, com base naquilo que acredita. A referência não pode ser o envolvimento emocional muito menos a atração que sente pelo outro.

O que eu quero pra mim? Como desejo que o outro aja em relação a mim? Como espero que me trate?

Estas perguntas devem ter respostas claras, principalmente para você.

Depois disto, você será capaz de saber o que pode fazer pelo romance, até onde se sente à vontade pra ir pelo outro.

Lembre-se:

É você que determina aquilo que valoriza e, se defender seus valores, terá mais chance de encontrar alguém que valorize o mesmo que você (Cloud & Towsend).

Sexo na terceira idade

Embora estudos recentes apontem que idosos sentem desejo e haja, inclusive, um esforço de cientistas para provar que “velho” também tem o direito de manter uma vida sexual ativa, ainda há muito preconceito. Diríamos, por parte dos mais jovens, até um certo nojo. Os filhos, principalmente, olham para seus pais, quando estes já estão na terceira idade, e não admitem que possam manter um relacionamento sexual. É como se fossem assexuados.

Até os dias de hoje, verifica-se uma pressão social, especialmente de filhos e netos para que os seus velhos se mantenham ‘em seus lugares, ‘se enxerguem’, ‘tenham auto-crítica’.

Um pesquisador, ainda na década de 1980, já ressaltava que há uma espécie de mito: sexo, amor e casamento seriam coisas da juventude. Portanto, proibidas para os mais idosos. “Os mais velhos devem fechar as portas da aventura, do romance, abrindo-as tão somente para a virtude”. Por isso, nas ruas, ao notarmos um casal jovem trocando carinhos – ou mesmo, beijando-se -, não achamos anormal. No entanto, se na mesma cena substituirmos os personagens por pessoas idosas, haverá uma reação de surpresa, talvez até de incômodo.

Um estudo de mestrado realizado por Marilu Chaves Catusso, concluído em 2005, ouviu idosos em Palmas, no estado do Paraná. A assistente social colheu depoimentos interessantes. Ao falar sobre a busca de um parceiro, alguém com quem se relacionar sexualmente, alguns chegaram a dizer: “Os netos não acham bom, os filhos também não, então a gente não procura”, ou simplesmente “a família não quer” .

Essa é uma crença histórica, internalizada até mesmo pelos próprios idosos. E a mulher tornou-se a principal vítima desse modelo social. De alguma maneira, aos homens foi dado o direito de se relacionaremsexualmente. No passado, mesmo casados, era aceito que tivessem amantes mais jovens quando as esposas deixavam de ter vigor e beleza. Hoje, não é muito diferente. São cada vez mais comuns os relacionamentos entre homens mais velhos e mulheres jovens – agora, de maneira oficial. Eles, portanto, divorciam-se e se casam novamente. Já as mulheres idosas sofrem mais preconceito. Se demonstram interesse sexual, vontade de se relacionar, são vistas como “velhas assanhadas”.

Entretanto, ainda que essa visão tenha sido internalizada por muitos idosos, o desejo sexual não se perde com o avanço dos anos. Não há um tempo determinado para pôr fim ao prazer, a busca pela satisfação do corpo.

Mesmo que silenciadas por costumes históricos, as mulheres também sentem necessidade de manter relações sexuais. E, por serem obrigadas a abandonarem a atividade sexual, por vezes, desenvolvem algum tipo de sofrimento psíquico.

Portanto, numa sociedade que se diz livre, penso que está na hora de rompermos com alguns mitos. O sexo na terceira idade faz tão bem quanto faz ao jovem – talvez até mais, porque os mais velhos contam com experiência e se machucam menos. Não há vergonha em admitir isso. Muito menos, em aceitar que as pessoas vivam plenamente a sexualidade em qualquer idade.

Mais felizes e menos ocupados com nosso eu

Tenho sustentado por aqui a tese de que nossos valores estão invertidos. Nossas prioridades quase sempre estão relacionadas a conquistas materiais e a eterna busca da beleza. Embora não sejam coisas ruins em si mesmas, estão distantes daquelas que de fato nos fariam bem. Nossos problemas, hoje, quase sempre se dão em função de valorizarmos o aparente, pois acreditamos que é nisso que consiste a felicidade.

Pensava em alguns textos que discutimos sobre essas questões por aqui ao ler trechos do diário de duas adolescentes da mesma idade.

A primeira dizia:
– Está decidido: pensar antes de falar. Trabalhar com afinco. Ser comedida nas palavras e nas ações. Não me deixar divagar. Ser digna. Interessar-me mais pelos outros.

A segunda:
– Tentarei ser melhor de todas as maneiras que puder […] perderei peso, comprarei lentes de contato novas; já fiz um novo corte de cabelo, comprei uma boa maquiagem, novas roupas e acessórios.

Não é preciso ser um grande observador para notar a diferença entre as prioridades. Um otimista talvez possa pensar:

– Nem tudo está perdido!

O problema, caríssimos, é que a segunda é uma garota do nosso tempo. A primeira, é do Século XIX. Cem anos separam as duas adolescentes.

Não estou dizendo que a perda de referências seja sintoma das novas gerações. Há gente comprometida em fazer o bem, doar-se, servir, dividir, aprender, conhecer… Ser tolerante, paciente, digno, ético… Entretanto, é fácil notar que não são esses os valores predominantes.

Vivemos a sociedade da aparência. A ilusão da eterna juventude se confunde com a ideia de que é preciso ter cada vez mais para ser alguém.

Respeita-se quem é jovem e belo. Aplaude-se o famoso, bem vestido e bem “montado”. E não basta apenas isso. Competitivos que somos, é necessário ser o primeiro. O outro nos importa apenas quando pode nos ser útil.

Os valores culturais de nossa época são o da mulher gostosa, do homem forte, dos carros poderosos, das mansões… É isso que a própria mídia traduz nas capas de revistas como a Caras, Nova, Cláudia, Criativa, VIP etc etc. A televisão, o cinema e a internet reafirmam tais imagens.

Por conta disso, somos consumidos pela eterna insatisfação. Por mais que façamos, somos felizes por apenas alguns instantes. Logo nos pegamos frustrados e nem sabemos muito bem por quê. Nossa alma permanece vazia, carente de valores reais. Talvez estejam expressos na busca da garota do Século XIX. Por alguns momentos me pego pensando: quem sabe também pudéssemos nos descobrir mais realizados se começássemos a nos ocupar menos com o nosso eu.

Por mais belos que sejam nossos sorrisos, o que mais importa ainda é o que vai dentro da alma.