A destruição agora é criativa…

Repetidas vezes afirmei que tenho medo de pessoas que dizem: “eu sou sempre assim”. Tenho medo porque gente que não muda é gente que não acompanha os movimentos da própria vida. E a vida é movimento.

Também me incomodo com pessoas saudosistas, gente que achava o passado melhor e luta para trazer o passado de volta.

Acontece que o passado pode até trazer lembranças e boas lições de vida. Porém, se não gostamos do presente, a culpa é justamente da história que foi escrita anteriormente. O que se vive hoje é fruto do que foi plantado.

Portanto, precisamos ter a flexibilidade necessária para viver o presente, construindo e reconstruindo nossos hábitos, saberes e práticas.

E este é um ponto fundamental e que talvez seja um tanto agressivo para quase todos nós: devemos ter disposição de aprender sempre, abrindo mão de tudo que aprendemos – e esse fluxo em intervalos cada vez mais curtos.

Sim, o que eu sei agora poderá não ter valor algum no final da tarde. Devo estar aberto para abrir mão do que sei e começar tudo de novo logo na sequência.

O sociólogo Zygmund Baumand, ao analisar o tempo presente, afirmou que a vida hoje é de constantes reinícios – um período no qual não há certezas e que toda ênfase está justamente em esquecer o sabe, apagar, desistir e substituir.

A destruição funciona de maneira criativa. Destruímos para começarmos de novo. Destruímos um modo de vida, um modo de trabalharmos, um modo de aprendermos, um modo de nos relacionarmos…

Claro, toda destruição é também a destruição um pouco do que somos, da nossa existência. E nem sempre damos conta de acompanharmos o ritmo frenético das mudanças.

Mas, gostemos ou não, esta é a condição essencial para sobrevivermos no momento presente.

O mito da liberdade de escolha

A modernidade parece oferecer inúmeras possibilidades de escolha. Se quero uma camisa nova, a quantidade de opções é tão grande que, por vezes, não sei o que levar para casa. Vale o mesmo na hora de comprar um esmalte, um smartphone ou até mesmo um carro.

Entretanto, é ilusória a sensação de que temos a chance de escolher o que queremos.

Podemos sim escolher, desde que esteja no “cardápio” das coisas socialmente aceitas. E vai para além disso. Podemos escolher, desde que as coisas a serem escolhidas devam ser escolhidas.

Deixa eu explicar de outra forma. Você pode sim escolher qual imagem postar no seu perfil do Facebook e até sobre o que vai escrever em sua rede pessoal. Porém, você pode optar por não ter uma conta no Facebook? Talvez você responda que sim. Mas qual será a reação do mundo ao seu redor? Será que não haverá reação alguma?

Você pode escolher entre inúmeros modelos de smartphone. Mas é preciso ter um aparelho. Atualizado, moderno. Do contrário, sequer roda boa parte dos aplicativos “necessários”.

E o que dizer dos corpos? Uma pesquisa divulgada em 2016 revelou que 9 em cada 10 mulheres não se sentem plenamente satisfeitas com seus corpos. Motivo? Não possuem os corpos que gostariam (vale dizer que parte dessa insatisfação deve-se aos modelos estéticos impostos pela sociedade). Então onde está a tal liberdade? Se não dou conta sequer de ter o corpo que gostaria de ter, que liberdade possuo?

A ideia de que podemos escolher também se aplica ao sucesso educacional e profissional. E essa é outra grande mentira.

Pobre tem escolha? Escolhe emprego? Pode efetivamente decidir qual e como será sua moradia? A escola do filho?

A sociedade impõe modelos. Cria condições restritivas que impedem as pessoas de viverem plenamente.

A solidão, o abandono, a falta de moradia, a hostilidade dos vizinhos, o desaparecimento dos amigos… Nada disso ocorre por escolha. Talvez para alguns até seja efeito de erros cometidos ao longo da vida. Porém, na maioria dos casos, são condições impostas pelo modelo que temos de sociedade.

A tese da possibilidade de termos qualidade de vida (nos parâmetros dados pela sociedade capitalista) também é falsa. John Reader, num estudo, provou que, se vivêssemos com todo conforto que supostamente merecemos (semelhante a parte das famílias norte-americanas, por exemplo), precisaríamos de três planetas semelhantes ao nosso para suprir as necessidades de todas as pessoas.

Ter liberdade de escolha é um privilégio de poucos, muito poucos.

Para muitos, a liberdade de escolha, como ressalta Zigmunt Bauman, é semelhante a do ciclista que está em movimento: se parar de pedalar, para, cai. A vida acaba sendo um destino sem escolha.