É fácil fazer o que se gosta

A gente se empolga em fazer coisas que gosta. Você adora jogar futebol e aí alguém te convida pra uma partida com uma galera bacana… É fácil dizer “tô dentro!!”.

Você curte festas e sua melhor amiga te chama para a festa do ano… Impossível dizer “não”. O coração acelera diante do convite e você já pensa até na roupa que vai usar.

Mas nossas emoções são bem diferentes diante de obrigações, de tarefas que precisamos desenvolver em nossas rotinas.

E eu tenho a impressão que aquilo que precisamos fazer, geralmente, está bem longe da lista das coisas que nos agradam.

Por que o trabalho se torna uma batalha diária? Por que os estudos são sempre desgastantes? Por que atender um pedido de favor de amigo ou mesmo do marido, da esposa, pode ser tão custoso?

Simples, porque provavelmente é algo que não nos agrada.

E como a gente lida com essas coisas chatas?

Frequentemente, leio ou vejo pessoas dizendo: “Se você não gosta do que faz, caia fora; encontre outra coisa pra fazer”.

Num mundo movido por uma ideia distorcida de felicidade, esse tipo de argumento parece fazer todo sentido.

Porém, as coisas não funcionam assim. Nem sempre fazemos todas as coisas que gostamos e, com muita frequência, não podemos simplesmente abrir mão delas.

Alguns trabalhos são muito chatos – ou se tornam irritantes. Mas não dá pra virar as costas e procurar outra coisa quando você tem contas pra pagar ou o mercado está difícil, sem ofertas disponíveis.

E essa é só uma das barreiras que a gente enfrenta.

Na vida privada, você não abandona o parceiro por que ele começou a perder cabelos ou ela ganhou uma barriguinha depois que teve filho.

Na prática, o que a gente precisa compreender é que nunca faremos apenas coisas que gostamos e nem teremos o mundo sorrindo pra nós o tempo todo.

Seremos responsáveis por tarefas desagradáveis. Outras tantas vezes vamos encarar gente que não merece nossa atenção e ainda assim teremos que sorrir para elas. Também faremos favores que não nos alegram e estaremos ao lado de pessoas em situações que aborrecem.

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Que dor você prefere suportar?

Quando vi esta pergunta pela primeira vez, meus pensamentos aceleraram. Eu falo de sofrimento com muita frequência aqui no blog. Jesus Cristo, há dois mil anos, também disse que no mundo teríamos aflições. Ou seja, sofreríamos. Mas poucas vezes tinha parado pra pensar que toda e qualquer escolha que fizermos será uma opção por viver algum tipo de dor.

Ninguém quer sofrer. E geralmente nossas escolhas são motivadas por expectativas de alegria, felicidade. A gente escolhe algo em função do que aquilo poderá nos proporcionar de bom. A gente nunca escolhe pensando nas dores que teremos que suportar. Acontece que nada que fizermos será sem dor.

Se você quiser casar, vai sofrer as dores de dividir a vida e sua rotina com alguém. Se quiser ficar solteiro, vai sofrer as dores de não ter com compromisso com outra pessoa.

Se quiser ter um filho, vai deixar de fazer passeios, vai ter menos dinheiro, vai doer quando ele estiver doente e ainda mais quando responder pra você. Mas, se não tiver, nunca saberá o que é sentir seu filho se aconchegando em seu colo.

Se escolher cursar uma faculdade, vai ter que aguentar as dores das noites sem dormir dedicadas aos estudos, nas aulas massantes, dos professores injustos… Se escolher não estudar, vai encarar as dores de ser visto como alguém acomodado, terá mais dificuldades no mercado profissional…

Para cada escolha, há inúmeras dores. E se quisermos evitá-las, nunca teremos uma vida plena; nunca concluiremos um único projeto. Nossa trajetória será marcada por desistências, fracassos e pela ausência de realizações que sejam motivos de orgulho.

Toda escolha poderá nos oferecer momentos de alegria e felicidade. Mas, para aproveitarmos as coisas boas das escolhas que fizermos, precisamos aprender a suportar as dores que farão parte do percurso de nossa caminhada.

O segredo da vida está em resolver problemas

A ideia de felicidade é uma das grandes bobagens da contemporaneidade. É uma ilusão que move milhões e milhões de pessoas apenas para se frustrarem e, pior, sentirem-se fracassadas.

Porque quando a gente descobre que não consegue ser feliz, a gente se sente o pior dos seres humanos.

Você abre o Instagram e vê ali todo mundo sorrindo, passeando, viajando… Você olha e diz: “cara, que droga de vida a minha”.

O problema é que a gente sabe, e só não quer acreditar, que aquilo que se publica no Instagram e noutras redes sociais é apenas uma projeção – uma imagem idealizada do melhor de si.

Entretanto, a imagem vende. Vende uma ideia. Vende um desejo.

E a gente chega a se iludir achando que todo mundo está bem e só a gente está numa pior.

Acontece que a vida real é bem difícil. As dores são mais frequentes que poderíamos imaginar. E não há fase na vida em que não estejam presentes.

Na verdade, um problema resolvido só significa uma coisa: o início de um novo problema. Sim, porque ele virá.

O escritor Mark Manson tem uma frase que eu acho demais. Diz ele que “​o segredo está em resolver problemas, e não em não ter problemas”.

Enquanto a gente não entender que todos os dias teremos problemas pra resolver, seremos infelizes. Não vamos conseguir nos alegrar com os momentos da vida que poderiam ser alegradores.

E esta é a chave do sucesso de quem tem uma boa vida: ter compreendido que a vida tem problemas – muitos, por sinal. E o que nos diferencia é justamente a forma como lidamos com os problemas: passamos a vida achando que somos as únicas vítimas ou enfrentamos as dificuldades e tentamos superá-las para, daqui a pouco, começar tudo de novo.

Há situações que gostaríamos de evitar…

A gente vai levando, empurrando… Deixa pra amanhã… Amanhã, tenta deixar pra depois… Enquanto faz isso, segue ansioso(a) pois sabe que não terá como fugir. Em algum momento vai ter que encarar.

Quando isso acontece, o melhor a fazer é enfrentar de vez o problema. Se der para resolver bem, de maneira satisfatória, perfeito. Maravilha!!

Mas mesmo que a situação não termine de maneira favorável, que machuque um bocado, ainda assim, tá valendo… Afinal, você já enfrentou o mais difícil e poderá seguir em frente.

Viver sem receitas…

No mundo do trabalho, na escola, na vida… A gente gosta de receita. Receita. Como fazer?!

E, de fato, quando temos receitas, elas facilitam demais. Afinal, já foram testadas. É só pegar o que outra pessoa fez e aplicar. É fácil.

Na cozinha, tem gente que não tira uma panela do lugar sem a indicação do tipo de panela que deverá ser usada. Acho legal esse rigor.

Mas eu não dou conta disso.

Em tudo que faço, tento dar a minha cara. Pode ser num bolo de cenoura ou na apresentação de um conteúdo em sala de aula para meus alunos.

É fato que consulto as “receitas”. Procuro ver como outras pessoas fazem ou fizeram, mas me atrevo a dar meu toque pessoal.

Dá certo sempre? Não.

Na cozinha, às vezes, o bolo não cresce… No trabalho, às vezes não se é compreendido ou há confrontos por gostos, preferências, rotinas.

Entretanto, viver sem ser refém das receitas permite certa autonomia no pensar. Ajuda no desenvolvimento da criatividade.

E sabe o que é melhor? A gente consegue dar conta de resolver problemas naquelas horas em que algo diferente acontece e ninguém tem uma explicação pronta sobre como resolver.

E como a vida sempre nos traz situações inesperadas, vale a pena ousar viver sem seguir receitas.

Quando a “casa cai”, é possível manter-se calmo e ver alternativas onde ninguém parece ver.

Confundimos qualidade de vida com consumo

Um dos equívocos que a gente comete é confundir qualidade de vida com consumo. Acredita-se que consumir é ter qualidade de vida. Mais que isso, confunde-se inclusive prazer e felicidade com consumo. O sujeito fica feliz quando vai pro shopping e sai de lá abarrotado de sacolas. Ou quando se frequenta os restaurantes mais badalados… Ter carros modernos também é termômetro dessa tal qualidade de vida.

Gente, essa visão é obra do imaginário coletivo. Foi construída pela sociedade capitalista em que vivemos. Somos estimulados a comprar. Por isso, não é difícil entender por que distorcemos o próprio sentido do que é viver.

Vive-se para consumir. O consumo passou a ser a medida de boa vida das pessoas. E todo mundo mede seu estado de bem-estar pela quantidade de coisas que pode comprar. Quem pode comprar menos, sente-se excluído, sofre, deseja inclusive a vida do outro. Passa dias, semanas e anos na busca incansável de ter as mesmas possibilidades que o colega “mais riquinho”.

Essa tem sido a lógica da maioria de nós. Basta refletir sobre o que fazemos.

Trabalhar oito horas por dia já não é suficiente. É preciso ir além – acumular empregos ou atividades extras, que poderão ser feitas em casa. Queremos a tal “qualidade de vida” – casa boa, carro bom, televisor gigante… Queremos celular de última geração, tablet, férias duas vezes por ano – mas não qualquer férias; tem que ser em algum lugar cheio de glamour.

Essa é a medida da qualidade de vida.

Acontece que, ao fazer isso, ignora-se que qualidade de vida não é um momento de prazer. Não é o que o dinheiro pode comprar. Isso até contribui, mas não é garantia de nada.

Qualidade de vida tem a ver com bem-estar físico e emocional. De nada adianta consumir tudo que se deseja, mas ter como custo estresse, cansaço, ansiedade e até insônia. Não adianta ter boa cama, mas não conseguir dormir.

Sabe, não adianta ter carro bom e não ter prazer ao dirigir – enquanto dirige, xinga o motorista do lado, fala ao celular, buzina, grita…

Não adianta ter férias num paraíso duas vezes por ano, mas passar as demais semanas e meses do ano sem namorar a mulher, sem conversar com os filhos, sem ler um bom livro.

Não adianta ter dinheiro para frequentar os melhores médicos, mas estar com o colesterol alto, sofrer hipertensão ou ter a libido reduzida por causa da pressão na empresa.

Mentiram pra nós. E nós acreditamos. Disseram que viver bem é ter coisas, ter a chance de comprar tudo que desejamos. O problema é que não param de nos oferecer coisas.

O problema é que nos incentivam a consumir cada vez mais e nos transformaram em escravos de um sistema que aprisiona nossa mente e rouba nossa saúde, nossa paz de espírito. Rouba o nosso tempo.

Viver assim não é viver. Qualidade de vida não é nada disso. Mas nos engaram. E, tolos como somos, não conseguimos mudar nada disso. Ninguém está satisfeito com a vida que tem, mas não consegue romper com o modelo proposto. Lamentável!

Somos livres?

A liberdade talvez seja um dos nossos maiores valores. Mas somos livres?

Ainda ontem vi uma postagem feita por uma amiga com o seguinte questionamento: “se sou livre, por que tantas amarras?”.

Não, nós não somos livres. Nós gozamos de uma liberdade limitada. E vigiada.

Desejamos a liberdade, mas ela não é plena.

Para viver em segurança, é necessário abrir mão da liberdade.

Se queremos um trabalho, não podemos fazer tudo que desejamos. Ainda que nosso emprego seja o emprego dos sonhos, temos responsabilidades. E as responsabilidades limitam nosso ir e vir, condicionam o uso do tempo…

Se queremos uma moradia, assumimos o cuidado com esse espaço. Cuidamos da limpeza, pagamento de impostos, tarifas de serviços como água, luz, internet… Não podemos simplesmente morar. Nem mesmo fazer tudo que desejamos na casa. Afinal, existem vizinhos e impedimentos que tratam de ruídos, cuidado com o ambiente…

Se queremos o desenvolvimento pessoal, necessitamos investir anos e anos nos estudos. Isso significa ler o que não desejaríamos ler, manter uma rotina diária escolar, universitária… Nosso tempo é consumido. E se queremos fazer apenas as coisas que gostamos, somos punidos. Punidos com uma nota ruim, punidos com uma reprovação…

Porém, o condicionamento da liberdade não diz respeito apenas às formalidades da vida. Diz respeito também à convivência. Relacionamentos impõem limitações à liberdade. O convívio com outras pessoas exige o estabelecimento de regras. Isso se chama civilização.

Pra eu conviver com você, são necessários certos limites. Do contrário, eu invadiria sua individualidade. Além disso, também deixamos de viver livremente em função das expectativas alheias.

O olhar do outro é julgador, até mesmo punitivo. Se eu não entender isso, terei problemas nos relacionamentos, serei impedido de viver algumas coisas, de estar em determinados ambientes.

Esses condicionamentos da liberdade, por vezes, incomodam. Entretanto, não há outra maneira de ser gente. A nossa liberdade não é incondicional; é apenas uma utopia.

Nossas escolhas afetam outras pessoas

Nem sempre a gente se dá conta do quanto nossas escolhas afetam outras pessoas. Às vezes, em nome dos nossos gostos, dos nossos sonhos, fazemos o que entendemos ser o melhor para nós e ignoramos o efeito de nossas escolhas na vida de gente que amamos.

Não há nada de errado em lutar pelo que queremos. Porém, tenho aprendido que não estamos isolados do mundo. O que fazemos mexe com a vida dos outros.

Significa que, pelos outros, devemos deixar de buscar nossos objetivos? Não. Mas significa sim avaliar, primeiro, quais serão os impactos de nossas escolhas na vida de quem está por perto. Segundo, é preciso analisar se queremos que sofram os efeitos dessas decisões.

Em algumas situações, vale conversar com os possíveis afetados. Falar sobre seus sonhos, a importância deles e pedir o apoio. Noutros casos, talvez não seja possível antecipar, prever. Talvez seja necessário tomar a decisão sozinho/a. Mas ainda assim defendo que haja a consciência dos efeitos e de como é possível amenizá-los para que interfira menos, prejudique menos ou haja algum tipo de compensação. Isso é agir de maneira ética.

Atitudes assim mostram maturidade, amor ao próximo e, principalmente, compreensão de que não estamos sozinhos no mundo. E nossa felicidade não pode ser construída às custas das outras pessoas.