Aceitar todas as emoções

Temos uma tendência em negar a dor. Preferimos o isolamento a dizer “estou mal, preciso de ajuda”. Sentimo-nos pressionados; precisamos estar bem. O discurso dominante é “você pode, você consegue, você controla sua vida”. Isso faz com que nos sintamos frágeis, fracassados. O mundo parece ser dos fortes, das pessoas bem resolvidas. Emoções boas, aceitas, desejadas são a alegria, o entusiasmo, a motivação… Ninguém quer tristeza, desânimo, medo… 

Experimentar essas emoções resulta em sensações de indignidade, inutilidade… A pessoa acha que não será aceita se demonstrar medo, insegurança… E a gente não quer ser tratado como coitadinho, num mundo que pede que você se posicione, que esteja sempre motivado.

Posso assegurar que não gosto desse discurso… As pessoas são o que são. Algumas um pouco mais resistentes à dor, ao sofrimento… Outras, mais sensíveis… E isso não tira o mérito de ninguém. A beleza está justamente na diversidade, na pluralidade de personalidades.

É fundamental nos aceitarmos e aceitarmos as pessoas em sua completude. A negação da dor, silenciar emoções nos empobrece como humanos e contribui para o desenvolvimento de uma série de doenças psíquicas. Não é sem motivo que temos uma sociedade com mais gente sofrendo de ansiedade, estresse, pânico, depressão etc etc. Não é sem motivo que crescem os casos de suicídio… Entre 2011 e 2016, foram mais de 62,8 mil mortes – aumento de 12%.

Sim, precisamos cuidar mais da gente, cuidar mais do coração, cuidar mais das pessoas. Não somos máquinas. Somos pessoas. E pessoas sorriem, mas também choram, querem colo, abraço… Querem perceber que importam, que são relevantes no mundo.

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A fé é tudo que precisamos?

A fé é a crença no invisível. E justamente por acreditar em algo ou em alguém que não pode ser tocado, as pessoas se movem em diferentes direções. Por vezes, guiam suas vidas pela fé.

A fé pode ser motivadora, transformadora. Pode gerar esperança. Fazer sonhar com um mundo que não temos hoje.

Porém, a mesma fé que dá sentido à vida é aquela que tem potencial para gerar engano, distração e alienar.

Uma das críticas mais contundentes de Nietzsche está justamente relacionada a esse comportamento: a crença naquilo que não se vê, com frequência, nos impede de amar o mundo que temos. E, deixando de amar a vida como ela é, muitos abrem mão de atuar como artistas da própria existência.

Por ser cristão, vejo constantemente pessoas que, com os olhos no invisível, são displicentes com o presente. A fé torna-se uma espécie de muleta, que as impede de ser agentes do destino.

Essas pessoas ainda não entenderam o que é viver e qual o nosso papel no aqui e agora. A fé que nos faz “ver” o invisível, desejar o imprevisível, não pode ser a mesma que faz estacionar, que impede ações concretas, que buscam a construção de uma vida melhor, de um mundo melhor.

Persistência é diferente de teimosia

Tem gente que é persistente. Outras pessoas são teimosas. E por que é importante compreender isso? Porque algumas delas perdem anos e anos de suas vidas insistindo numa coisa que não dará certo. Pode ser um pequeno negócio… A pessoa se desgasta. Aposta alto, se endivida, mas não consegue prosperar. Talvez por falta de visão, de preparo ou mesmo vocação.

Pode ser o sonho de um curso universitário muito disputado… A pessoa quer muito, mas tem dificuldade para estudar, não gosta dos livros.

Costumo dizer que a realidade sempre se impõe. A realidade pode ser o limite do tempo, da capacidade para uma determinada tarefa. Pode também ser a falta de dinheiro.

Há situações em que até é possível fazer dar certo. Mas ainda assim é preciso avaliar: vale tanto esforço? É algo que quero a esse ponto?

Ter essa capacidade de questionar se a persistência não se tornou teimosia é fundamental. Sabe por quê? Porque, da vida, o que vale é nossa caminhada e não o destino. É a maneira como vivemos cada dia que determina nossos sorrisos, nossas alegrias… Ou mesmo determina nossas lágrimas e frustrações.

Atingir objetivos é importante. Todos nós precisamos ter metas, ter sonhos. Eu tenho dito que a diferença entre vitoriosos e fracassados está justamente na capacidade de pagar o preço pelos seus objetivos. Porém, a gente não pode deixar de se perguntar: qual é o preço? Estou realmente disposto? Não haveria outras formas de viver? Será que meus sonhos não estariam se tornando obsessões?

Em busca de um sonho, não podemos perder a alegria de viver. Em busca de um objetivo, não podemos abrir mão de pessoas que são queridas, que são especiais. O percurso em direção ao nosso alvo não pode se tornar um peso. E nem podemos permitir que anos e anos sejam consumidos por teimarmos em conquistar algo que talvez não seja pra ser nosso.

Sim, às vezes, pra viver, é necessário desistir. Claro, ninguém deve abrir mão de algo sem ter lutado. Mas, se não está funcionando, vale a pena buscar um conselho, ouvir pessoas experientes, experimentadas na vida. E, de forma madura, reorganizar seus projetos… Sem nunca deixar de sonhar.

A diferença entre vitoriosos e fracassados

Existe uma grande diferença entre vitoriosos e fracassados. Os vitoriosos encontram forças para prosseguir, mesmo quando o cansaço parece insuportável; os fracassados sucumbem às dificuldades e simplesmente param.

Não gosto nenhum pouco de conversas de autoajuda. Os papos de motivação me incomodam profundamente. Porém, não sou cego… Vejo, perto de mim, pessoas que conseguem superar o desgaste da luta e persistem na busca de seus sonhos.

O sonho pode ser uma vaga numa grande universidade. Observo, principalmente, aqueles que desejam cursar Medicina, Direito, Arquitetura, Engenharia… São cursos concorridos. Poucas vagas. Para serem aprovados no vestibular, esses garotos e garotas precisam encontrar disposição para estudar quando o cérebro parece já ter dado um nó e ter se tornado incapaz de aprender qualquer coisa nova. Muitos não suportam 10, 12 horas diárias de estudo. Se estão fazendo um cursinho, começam a faltar, perdem aulas, deixam de fazer exercícios… Não raras vezes, quando isso acontece, fracassam. Outros são aprovados. E eles ficam para trás.

Na faculdade, conheço jovens que acham tudo difícil. Reclamam quando são solicitadas leituras. Os textos com frequência são tidos como muito difíceis. Acham chatas todas as aulas. O intervalo de 15 minutos entre as aulas se torna meia hora. Encontram “motivos” para chegarem atrasados. Por outro, trinta minutos antes do término das aulas, já estão guardando canetas, lápis, cadernos. São pessoas que dizem ter sonhos, mas não querem enfrentar as dificuldades que surgem durante o percurso.

Nas empresas, já vi muitos funcionários falarem mal do chefe porque acham injusto, numa situação ou outra, ter que fazer o trabalho de outras pessoas. Parecem pouco dispostos a resolver problemas que “não são deles”. Outros atendem mal, nunca querem colaborar… Ficar depois do expediente então? Nem pensar!

Nos relacionamentos, a situação não é diferente. Vitoriosos são aqueles que estão dispostos a pagar o preço da escolha que fizeram. Investem suas energias, recursos…

Sabe, não existe caminho fácil em nada que optarmos por fazer. Sempre existirão mais forças reativas, querendo nos puxar para trás, que forças ativas, criadoras, criativas, que impulsionam nosso desenvolvimento. E é muito fácil a gente se deixar levar pela onda do “não consigo”, “não posso”, “não vai dar certo”, “isso não é justo”… Também é mais fácil colocar a culpa nos outros: “meu professor é um idiota”, “esse chefe quer me explorar”…

O que acontece é queremos as vitórias, mas não aceitamos enfrentar as dificuldades que trazem sofrimento durante a caminhada.

Lembro, porém, mais uma vez, que todo aprendizado implica em dor, sofrimento. Todo crescimento é resultado de esforço, persistência. E isso significa saber lidar com as lágrimas.

Do caderno da vida, nada se apaga

É provável que quase todo mundo tenha alguma história passada que gostaria de apagar. Talvez seja um episódio bobo, tipo um “mico” que constrangeu muito. Mas pode ser uma experiência dolorosa ou mesmo um erro que gostaria de não ter cometido.

Eu costumo dizer que o passado é passado. A gente aceita, perdoa a si mesmo e segue em frente. O máximo que dá pra fazer é evitar viver situações semelhantes. Ou seja, aprende com o erro e tenta não fazer as mesmas bobagens.

Ainda assim, às vezes a gente olha para o retrovisor e observa que aquela curva na estrada foi uma das piores coisas que aconteceu. E você não gostaria que estivesse ali, não gostaria que fizesse parte de sua história. Se tivesse uma oportunidade de apagar aquele momento de sua vida, apagaria.

Sempre gostei de pensar nas páginas de um caderno como uma espécie de metáfora da vida. A cada dia temos a chance de escrever nossa história. Porém, dias atrás, enquanto apagava anotações que estavam num caderno e arrancava algumas de suas páginas, observei o quanto o caderno falha como metáfora da vida. Do caderno, posso apagar textos escritos. E até eliminar algumas páginas. Da vida, não tem como apagar, não tem como eliminar nada.

Sabe, não adianta nos culparmos pelas falhas que cometemos em momentos que achávamos que aquelas eram as melhores escolhas. As escolhas foram feitas com base em expectativas e desejos de um outro momento. Nosso conhecimento era outro. E foram justamente os erros que nos ajudaram a repensar, a rever… Então, por mais que erros marquem nossa existência, não há mais nada a fazer. Só seguir em frente.

Por outro lado, justamente pela impossibilidade de apagar as páginas que escrevemos de nossa vida, é fundamental viver com sabedoria. As escolhas precipitadas, as escolhas mais ousadas, aquelas que contrariam os conselhos de pessoas mais experientes… Essas escolhas têm sempre maior chance de afetar negativamente nossa vida. Para evitar essas dores, vale sempre ouvir mais, refletir mais, esperar mais. Afinal, do caderno da vida, nada se apaga, nenhuma página se elimina.