Insatisfeitos com a vida

tristeza

Viver não é fácil. A gente até sonha que possa ser simples… Mas não é. Viver é uma experiência dolorosa. Por mais que a gente não queira admitir.

Eu não sei se a gente sonha demais, se a gente leu muitos contos de fadas, romances ou se assistiu muitos filmes de Hollywood. Sei, porém, que a vida parece estar quase sempre em descompasso com aquilo que idealizamos.

O problema é que a vida não se resume a uma ou duas coisas. Trabalhamos, estudamos, nos relacionamos – com amigos, família, filhos, mulher, marido, namorado, namorada etc etc. Há um universo de coisas acontecendo o tempo todo. E basta uma coisinha não funcionar para começar a incomodar e minar as forças para tudo mais.

Isso faz com que seja difícil estarmos bem de verdade. É quase impossível tudo funcionar plenamente. Talvez até aconteça por semanas ou meses. Mas aí você bate o carro e já começa a desestabilizar.

Curiosamente, quando algo não está funcionando, outros aspectos parecem também entrar em colapso. Às vezes, nem existe um problema de fato, mas aí você fica mais sensível e começa a reparar situações que te incomodam. Pode ser a negligência do marido em elogiar as coisas que você faz, pode ser o fato da parceira não avisar quando vai sair para jantar com as amigas… Pode ser o filho que está sempre esperando que você resolva tudo pra ele… Esses pequenos detalhes ganham dimensão nunca antes imaginada e é quase impossível não olhar pra você e dizer: “mas que m* de vida!”.

Desiludido com tudo, você se olha no espelho e pensa: “o que estou fazendo aqui?”. As lágrimas não rolam no rosto, apenas correm por dentro do peito e machucam a alma. Quem entenderia seu choro? Ou seria capaz de estender a mão, te abraçar e te acalmar?

Quando essa insatisfação com a vida parece transbordar, a comida perde o gosto, o sorriso falta no rosto e o desejo é afundar no mar do esquecimento, nenhuma palavra é realmente suficiente para renovar os ânimos. Eu diria apenas que a vida é mesmo assim… Mas ainda assim vale a pena aguentar firme. Os poucos momentos em que tudo funciona, em que você ama e é amado, justificam a experiência do existir.

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Tem como consertar nossos erros?

passado

Não sei se sou prático demais, mas não me agrada ficar lamentando os desastres da vida. Sejam eles grandes ou pequenos. Entretanto, tem gente que parece não ser capaz de seguir adiante. A pessoa comete um erro e para de olhar pra frente. Fica voltando ao passado. Ou melhor, não abandona o passado.

E é interessante como essa forma de encarar a vida se dá a partir das pequenas coisas.

Derramou o leite? A pessoa fica ali tentando achar uma justificativa para o leite derramado… Queimou a roupa? Fica irritada com o ferro que está velho demais, com o filho que distraiu ou com o marido que nunca ajuda… Bateu o carro na garagem? Reclama que o arquiteto fez um projeto ruim, o vizinho estacionou mal… A comida estragou na geladeira? Acha ruim que ninguém lembrou de comer, briga com quem comprou demais, quer saber quanto tempo faltava pra vencer o produto…

Eu prefiro viver de outra forma. Derramou leite? Limpa. Queimou a roupa? Fazer o quê… Já foi. Bateu o carro? Vamos tentar prestar mais atenção pra não acontecer de novo. A comida estragou? Joga fora e fica o alerta pra evitar desperdício.

Nos relacionamentos, na vida profissional ou acadêmica, a gente também falha. E fracassa. A gente magoa pessoas, decepciona, trai… Perde vendas, troca de emprego na hora errada… Atrapalha-se, não se dedica o suficiente e perde o ano de estudos… Essas coisas acontecem. E nem sempre por que houve uma intenção.

Quando erramos, temos duas alternativas: ficar lamentando os erros cometidos ou desculpar-se pela bobagem, assumir as consequências e seguir em frente. As vezes, as bobagens que cometemos cobram uma conta muito alta. As consequências são variadas. E machucam. Ainda assim, o que dá pra fazer? Tem como reparar os erros? Não tem. O passado é passado. Foi um tempo vivido, mas que não tem como ser mudado. Entretanto, o futuro… a gente escreve. Se a gente ficar chorando os erros de ontem, perderemos a chance de tratar das feridas hoje e voltar a sorrir amanhã.

Essa tal felicidade

felicidade

Vez ou outra trombo com a palavra “felicidade”. E sempre que penso nela e no que significa, fico constrangido com a sensação de que ser feliz, hoje, é quase uma imposição social. Você nasce para ser feliz. Mas que felicidade é essa? Sinceramente, desconheço. A felicidade que dizem existir é utópica.

A gente vive sob uma ditadura. É estranho, mas todos devem ser felizes. Esse é o discurso. A felicidade parece a glória, o paraíso perdido. Porém, não passa de uma miragem.

A obrigação de ser feliz nos leva a tomar atalhos, caminhar por caminhos secundários que mais trazem problemas que prazer real. Me perdoe, mas alguém pode explicar, por exemplo, a tese da felicidade sob a perspectiva de vivê-la embalada em copos de cerveja ou no sexo fácil? Com vistas ao “destino felicidade”, chega um tempo que o que se carrega são decepções e culpas.

Tudo bem, talvez eu esteja sendo moralista demais. E nem sou exemplo de nada pra falar sobre isso.

A obrigação de ser feliz tira o foco do prazer de viver. E não raras vezes leva-nos para um quadro oposto: tristeza, melancolia, vazio existencial. Curiosamente, quando viajamos por nossas lembranças, encontramos nas experiências mais simples os dias mais felizes de nossa vida. Uma brincadeira no parque, algumas horinhas no colo do pai, um feriado em que todos os primos se reuniram e brincaram pra valer…

O mundo que impõe a obrigação de ser feliz é o mesmo que parece vender pílulas de felicidade. A felicidade parece possível na fama, na boa vida, no bom emprego, no consumo, na beleza, nos prazeres do sexo… Tornamo-nos reféns, iludidos por promessas que não se cumprem. Ocupamos nossos dias com a busca da felicidade e deixamos a vida passar.

Na segunda, uma música

Uma frase. E ela poderia ser toda a música. Diz muito ao coração. Deveria ser uma espécie de guia para todos nós. Afinal, uma das coisas mais difíceis da vida é enfrentar as circunstâncias negativas com um sorriso, com olhar esperançoso.

Ao cantar “Brincar de viver”, Maria Bethania diz:

A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não

Toda vez que ouço, imagino os “nãos” que recebemos. E não é fácil aceitá-los. A gente resiste. A gente não quer viver a dor da rejeição. Muitos de nós não aprendemos a lidar com a frustração. Esperamos que tudo dê certo sempre, queremos ter controle das coisas, do ambiente, das pessoas. Queremos controlar o mundo. Mas não são raras as vezes que ele simplesmente diz… não.

E como sorrir quando isso acontece? Acreditando, tendo fé.

Você verá que é mesmo assim,
que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim
à sua imaginação

Sim, a história continua. A vida continua. Um “não” não determina nossa existência, não impede nosso futuro, não escreve nosso destino. Nosso desafio, porém, é romper com o desânimo, reaprender a sonhar. E nunca perder a chance de amar.

Eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho
Como eu sou feliz, eu quero ver feliz

Este é meu convite neste início de semana. Vamos ouvir?

Relações vulgares

amor
Pouco tem sobrado para se viver com a pessoa certa

Moro quase em frente a um dos bares mais badalados de Maringá. Não é, digamos, divertido. O pessoal estaciona por ali e, depois de beber um pouco, sai sempre “animado”, conversando alto. Claro, algumas brigas também acontecem. E isso geralmente após a meia noite. Dormir se torna tarefa difícil.

Misturado ao barulho que vem da avenida, vez ou outra escapam alguns diálogos. Dá para ouvi-los com nitidez. Na noite passada, por exemplo, escutava os argumentos de uma mulher. Era impossível não ouvir. E o conteúdo me chamou a atenção. Entre outras coisas, ela dizia:

– É só a segunda vez que isso acontece. Eu beijei o cara. Não significa que vou para cama com ele. Eu tenho namorado. A gente está bem.

Ela seguiu falando… Explicando…

Não sei quem era. Muito menos quem era seu interlocutor. Apenas ela falava alto. Também desconheço o contexto, o que aconteceu, suas motivações. Entretanto, foi impossível não pensar na dinâmica dos relacionamentos e na maneira como as pessoas se entregam umas as outras sem ao menos conhecê-las.

Beijar alguém num barzinho, trocar carícias com um desconhecido enquanto curte a balada tornou-se hábito comum. Incomum é achar isso tudo anormal. Quem questiona esse “jeito moderno” de viver é tido como antiquado. Dizem que cada um é dono de seu corpo, de sua boca e o que vale é divertir-se. Já não se reserva a intimidade para apenas uma pessoa, para se viver experiências plenas de um relacionamento comprometido, em que existam sentimentos reais – e não apenas desejo.

Vulgarizou-se o corpo; o amor tornou-se descartável, banal. Não é preciso muito para tocar alguém, sentir pele, gostos, cheiros… Bastam poucos momentos de empolgação e, às vezes, alguns copos de bebida. Já não se sabe quantas bocas foram beijadas nem quantas mãos tocaram um corpo. Pouca coisa tem sobrado para se viver com a pessoa amada.

Talvez eu seja mesmo um bocado careta. Entretanto, ainda penso que deveríamos nos valorizar um pouco mais. Não se trata de moralismo. Trata-se de respeito por si mesmo. Preservar-se também é investir num relacionamento real, profundo e com possibilidades de experiências únicas. Até pode demorar pra acontecer, mas acho que vale a pena. Esse jeito “livre” de viver é enganoso. Tornamo-nos reféns dos instintos. Liberdade é também ser livre (controlar) dos instintos, é saber dizer não inclusive para os próprios desejos a fim de se permitir, no momento certo, entregar-se ao amor.

Um jeito simples de viver

vidasimples
Enquanto voltava apressado para o trabalho, tropeçando nos próprios passos, encontrei pelo caminho um flanelinha que fica sempre próximo da prefeitura. Sentado num banquinho, ele almoçava tranquilamente. Marmita nas mãos, sorriu pra mim e até perguntou:

– Servido?

Como o conheço há algum tempo, retribui o sorriso, agradeci e lhe desejei uma boa tarde. É um simpático senhor de mais de 60 anos. E não foi a primeira vez que vi esta cena.

Seguindo a pé mais algumas quadras até a rádio, fiquei “revivendo” aquele momento.
Ele estava ali, calmo, saboreando a refeição. Eu havia acabado de comer. Acho que não fiquei 25 minutos em casa. Foi o tempo que tive para almoçar. Por conta da agenda de trabalho, mal dei conta de engolir. Acho que nem sei direito qual era o gosto dos alimentos. Mas o meu personagem certamente sabe direitinho o que comeu. Dava para notar no ritmo em que se servia de cada porção do alimento.

Recordei que semanas atrás, ele e mais uma moradora de rua riam à vontade. Conversavam alto, contavam histórias e até dialogavam com algumas pessoas que circulavam por ali. Até ri junto. Eles faziam graça de coisas muito simples. Já naquela ocasião fiquei com uma pontinha de inveja da “felicidade alheia”.

Temos feito escolhas que nos impedem de viver. A gente corre demais. E corre para ter qualidade de vida. Mas o problema é que essa tal qualidade de vida passou a ser sinônimo de consumo. Não é para dormir bem, ter tempo para um bom livro, um filme, um passeio de bicicleta…

Trabalhamos para ganhar dinheiro. Dinheiro para comprar. Chegamos a dedicar 12, 14 horas de nosso dia a atividades variadas a fim de, no fim do mês, comprar celulares, tablets, computadores, carros e, uma ou duas vezes por ano, tirar alguns dias de férias. Férias que não representam um desligamento da rotina. Afinal, quase sempre nos mantemos conectados resolvendo coisas nem que seja pelo smartphone.

Sabe, isso é legal. Trabalhar, estudar… tudo é muito bom. Mas o que fazemos com os nossos dias? Ocupamos cada minuto com tantas tarefas que não sobra um segundo sequer para abraçarmos as pessoas que amamos. Rir, contar histórias… são coisas que a gente não faz mais. Só em ocasiões especiais. É preciso combinar dia e horário para ter momentos de lazer. E quando as pessoas conversam, já não sabem fazer isso se não for com um copo de bebida nas mãos. Quem senta na frente de casa para simplesmente papear? Conversar com amigos virou “evento”.

Entendo a nossa necessidade de fazer mais, produzir mais, estudar mais. Parece que o universo conspira para que seja assim, que se viva assim. Romper com isso, ter uma vida simples como o desse simpático senhor, socialmente, não é o modo desejado. Ninguém quer ser pobre. Porém, às vezes, não sei se a gente precisa de muito mais do que um bom prato de comida, uma cama confortável e tempo para caminhar, sorrir, fazer amigos… amar e ser amado.

Viver e amar o que se tem

viver

Há uma vida toda lá fora. Por vezes, agitada; por vezes, calma… Não importa. É uma vida que se modifica, se alterna entre grandes momentos e outros, quase insignificantes. O mundo é mágico, grande, maior que se pode apalpar. Dá vontade, é claro. A gente quer. Sonha. Afinal, o universo é mágico. Porém, não dá. Não dá para acessar tudo, ver tudo. Impossível.

Sabe, nossa alma reclama o universo. Deseja superar os limites. E isto não é ruim, pois nos move. Entretanto, na mesma medida que faz bem, pode ser o nosso mal. Nunca teremos tudo o que desejamos. Mas é difícil entender isso. Esta é a razão da constante insatisfação da maioria de nós. Não se vive o que tem; vive-se pelo que ainda não tem.

O pensador alemão Immanuel Kant certa vez disse:

Dê a um homem tudo o que ele deseja, e ele, apesar disso, naquele mesmo momento, sentirá que esse tudo não é tudo.

Sim, é assim que vivemos. Nossa experiência diária é de gostos e desgostos. Paixões e rejeições. O que hoje é o máximo, descarta-se amanhã. Perde a graça.

Não é raro encontrar gente que durante meses – até anos – deseja um carro. O carro dos sonhos. Um dia, um belo dia, compra. Nos primeiros dias, semanas, a relação é de completo apego. Os meses passam, um modelo novo é lançado, e o que era a “menina dos olhos”… deixa de ser.

Funciona assim também nos relacionamentos. As pessoas se empolgam num dia, acham o outro o máximo; dias depois, encontram defeitos. O amigo passa a ser chato, insuportável. O namorado torna-se um idiota e o bonitão em quem esbarrou na balada passa a ser o homem perfeito.

Quem está disposto a amar o que é seu? Valorizar de verdade? Escolher hoje e assumir a escolha amanhã – ainda que haja novidade no “mercado”?

É normal querer mais. Desejar algo melhor. Mas a gente não deve se tornar refém de si mesmo. Do contrário, vive-se eternamente insatisfeito. Frustrado. Infeliz. Viver é mais que isso… É sentir e amar o que se tem. É saber valorizar as conquistas de hoje e não descartá-las pela primeira novidade que apareça.

O que faz com suas perdas?

perdas

Já parou pra pensar? Todos os dias perdemos alguma coisa. Quando não são objetos, são pessoas. Se não perdemos nada disso, perdemos oportunidades. E mesmo quando escapamos dessas perdas, perdemos minutos preciosos de vida.

Perdas. Algumas irreparáveis. Outras, nem tanto. Mas sempre… perdas. Como lidamos com elas? Como convivemos com as perdas? O que fazemos com elas? Sofremos? Lamentamos? Ou, sublimamos?

Tem gente que passa a vida lembrando as perdas. Chorando pelo que não pode trazer de volta.

Pode ser um filho que se foi… A mãe, o pai. Um namorado que perdeu. Um emprego. A faculdade que não terminou… Sofre com isso. Perde oportunidades no presente porque as lágrimas do passado embaçam o olhar, atrapalham a visão, impedem vislumbrar o futuro.

Sabe, perdas machucam. Entretanto, fazem parte do nosso crescimento. São conquências naturais do complexo ato que é viver. E ninguém está livre das dores que esse processo provoca.

Entretanto, a maneira como reagimos diante das perdas é o que faz diferente entre aqueles que afundam no sofrimento e os poucos que se tornam mais fortes.

Dia desses, lendo um texto de Augusto Cury, achei uma frase incrível:

Não há pessoas isentas de sofrimento. O que há são pessoas menos encarceradas que as outros. Todos somos reféns de algum período do passado.

Viver sem sofrer é ilusão. Pessoas se frustram, ficam amarguradas, “encarceradas” por não entenderem o óbvio: todos nós sofremos. A diferença é que alguns entendem que as perdas são parte da existência. Ninguém caminha sem gotas de suor; ninguém viaja sem gastar combustível, pneu…

Quem tem uma direção, segue em frente. Pode até sentir dores… Sentir-se cansado. Vez ou outra, tropeçar no passado. Sentir falta de algo que ficou para trás. Mas segue. Segue, porque a prisão do passado não deve ser mais cruel que as possibilidades da liberdade futura.