Gente imatura não sabe amar

maturidade

Relacionamentos se constroem por gente madura. Nenhum romance sobrevive quando uma das partes não tem maturidade suficiente para amar e ser amada.

Maturidade não se alcança apenas pelos anos vividos. Tem muita gente com 40 anos, mas que age como adolescente. “Esperneia” por tudo, chora fácil, reclama, se faz de vítima… Acha que os outros vivem conspirando contra ela. Esse tipo de pessoa sofre e faz sofrer. O problema é que muita gente não cresceu. E não quer crescer. Essa é uma das principais razões para tantos conflitos entre casais.

Dividir uma vida não é tarefa fácil. Com freqüência, escrevo aqui que dá trabalho fazer o romance funcionar. Afinal, não se trata apenas de sentir calafrios quando vê o outro, ter muito desejo ou achar o parceiro divertido. O dia a dia traz dificuldades e é nessas horas que a vida separa os homens dos meninos, as mulheres das meninas.

Gente madura não se frustra com o primeiro não. Gente madura sabe ouvir, esperar… Reconhece o momento certo de falar. Gente madura identifica quando uma situação tem potencial para se transformar em conflito e tenta evitar as mágoas. Gente madura dá a dimensão exata para os problemas, não intensifica, nem dramatiza, mas não finge que está tudo bem. Gente madura nota quando o outro não está bem e sabe silenciar ou ser gentil para não brigar.

Gente imatura quer na hora, não “engole sapo”, faz bico quando é contrariado… Se magoa fácil, tem dificuldade em ser criticado. Gente imatura decide primeiro, pensa depois. São meninos e meninas brincando de amar. Por isso, se machucam.

No relacionamento, é necessário ser pró-ativo. Não dá para esperar só do outro. É preciso pensar no casal, pensar em proteger o romance. Proteger sem mentir ou ocultar. Mas sabendo o momento certo de agir, reconhecendo as características do parceiro e procurando atuar de forma a não transformar “pingo d’água em tempestade”.

É fácil? Claro que não. No relacionamento, as emoções afloram. O que temos de melhor e de pior se potencializa. Tornamo-nos a medida do querer, da vontade, ou do que é justo. Afinal, “eu quero ser feliz”. No entanto, gente madura reconhece que romance bom se faz na troca, com quem sabe, primeiro, fazer bem ao outro, doar-se ao outro. Também pode errar. Ainda assim, procura se acalmar, racionalizar, avaliar-se. Releva o irrelevante, torna possível o impossível, ama por completo – virtudes e defeitos. Aprende e pratica a arte da paciência, pois se relacionar é saber que o outro também existe.

Pastor ou político? Nunca as duas coisas

pastor

O Tribunal Superior Eleitoral registrou, em comparação a 2010, um aumento de 40% no registro de candidaturas de pastores para as eleições deste ano. Pois é… Pelo menos, 270 pastores estão na disputa. Um deles, inclusive, o pastor Everaldo, concorre à presidência da República.

Sabe, talvez eu esteja errado. Talvez eu até mude de ideia com algum comentário… Ou, com o passar dos anos. Entretanto, embora seja cristão, eu não voto em pastor. Não concordo com a participação deles na política. Muito menos na disputa por cargos. Acho que membros de igreja, e até alguns líderes, podem participar do pleito, mobilizar-se por candidatos etc. Mas pastor, não dá.

Algo que me incomoda profundamente é o uso da condição de pastor na disputa. O sujeito tem uma relação de autoridade junto aos fieis. É respeitado, querido… Visto como uma pessoa de Deus. Muitas vezes, trata-se de alguém que mobiliza milhares de pessoas. Tem sob sua administração dezenas de outros pastores, presbíteros, diáconos etc. Toda essa estrutura acaba perdendo seu principal objetivo e servindo a um propósito político-eleitoral.

Para mim, igreja é igreja. É para tratar da espiritualidade das pessoas. É para cuidar das fragilidades, das dificuldades – inclusive emocionais. Pastor que se torna político rompe com os princípios bíblicos. A política pode ser um espaço para servir ao próximo, mas em nada se parece com o serviço pastoral. Os papéis são outros. Por isso, penso que o pastor que deseja ser político deveria renunciar a função de líder religioso.

E o pior problema, na minha opinião, é que pastor, quando eleito, torna a igreja um espaço político de mobilização de interesses que nem sempre são espirituais. Há pastores que manipulam os fieis, direcionando-os em defesa ou em oposição a determinadas ideologias políticas. E não é isso que a Bíblia apresenta como papel do cristão. Além disso, na política, alguns desses pastores passam a atuar em defesa de bandeiras moralistas, ignorando o bom senso e contrariando o que é de fato a real função do Estado (veja o caso de gente como o deputado Marco Feliciano).

Por fim, a maioria deles envergonha as religiões cristãs, cria uma imagem estereotipada do que é ser crente… Sem contar que contribui para a manutenção da ideia de que “crente é tudo igual”.

PS, Também há bispos e padres na disputa eleitoral. Mas, em comparação à última eleição, houve uma redução de 25% e 30%, respectivamente. Embora a igreja Católica seja muito maior no país, o número de bispos e padres candidatos, somados, não representa 30% dos pastores que estão na disputa. Ainda assim, penso que a reflexão sobre pastores-candidatos também é válida para o caso de bispos e padres que se rendem à sedução da política.

Ele não roubou minha carteira

carteiraSaí apressado de casa para comprar alguns pães. Optei por uma caminhadinha rápida. Já era noite e a rua é bastante escura. Ainda assim, não me preocupei. Carteira na mão… e lá vou eu. Andei alguns metros e notei um sujeito estranho. Fumava. E não era cigarro… Obrigatoriamente, passaria por ele. O rapaz não parecia ter pressa. Senti um friozinho na barriga. Já ouvi sobre alguns assaltos na região. Então tratei de esconder a carteira. O problema era a falta de bolso. Improvisei na blusa e me aproximei…

Quando fui passar pelo rapaz, ele olhou pra mim e disse:

- Ei, está andando na penumbra?

Falei qualquer coisa e fui logo passando. Mas a minha carteira caiu. E bem aos pés do sujeito. Quer dizer, eu que estava com medo de ser assaltado, “entregava” a carteira “de graça” para o camarada. Sequer tive tempo de esboçar alguma reação. Ele se abaixou, pegou a carteira, limpou e… me entregou.

Agradeci e segui em frente. Envergonhado, claro. Tinha acabado de levar um “tapa na cara” da vida. Havia julgado pela aparência.

Sabe, não estou dizendo que o mundo só tem pessoas boas. Nem que devemos andar descuidados pela rua. Não sei quem era o rapaz. Se era alguém honesto ou não. Porém, eu fui apressado em julgá-lo. Talvez por medo… Ainda assim, julguei.

A gente faz isso o tempo todo. Muitas vezes, as condições favorecem nossas conclusões. Tudo aponta para uma “verdade”. No meu caso, o fato de estar escuro, ter ouvido notícias sobre assaltos e mais a aparência do rapaz. Porém, com frequência, cometemos injustiças. Avaliamos de forma errada as pessoas. E até as rejeitamos, excluímos do convívio social.

Diariamente, devemos exercitar a dúvida. Duvidar do nosso olhar… Somos apressados demais em julgar, avaliar e tirar nossas conclusões. Sem pensar muito vamos logo dizendo que a pessoa é chata, sem-vergonha, falsa… A gente vê alguma coisa e acha que sabe o que está acontecendo ou aconteceu.

Para se aproximar do que é verdadeiro, é preciso conhecer. E conhecer depende de convivência, de contato, de relacionamento… Não é “de fora” que damos conta de dizer o que o outro é. Ou o que outro faz.

Na segunda, uma música

Talvez eu só esteja saturado dessas músicas barulhentas, da pobreza de espírito de gente que se diz cantor e/ou compositor. Mas, depois de trazer Renato Teixeira, hoje quero compartilhar outro artista brasileiro com um pé na música tida como caipira. Hoje é a vez de Almir Sater.

O violeiro, cantor e compositor natural do Mato Grosso do Sul consegue encantar gente simples e também o público erudito.

Dono de uma voz suave, de interpretação singela, Sater, que é bastante conhecido por sua amizade e parceria com Sérgio Reis e com o próprio Renato Teixeira, escreveu algumas canções que emocionam e fazem bem ao coração. O que dizer de “Tocando em frente“?

Tocando em frente pode ser considerado o “hino à vida”, a poesia de quem vive e aprende a viver a cada novo dia.

Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais

Em toda sua beleza, a canção faz refletir que a vida se constrói por meio de erros e acertos… Que nem tudo é perfeito. E seguir em frente é nossa única opção.

Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente

E então, vamos ouvir?

Por que não posso ser mecânico?

mecanico

Medicina é o curso mais concorrido do país. Cá com meus botões, tenho dúvidas se muitos desses jovens têm aptidão para a profissão ou se desejam ser médicos pelo status e salário.

Na verdade, essa história de profissão é bastante complexa. Medicina, digamos, é o topo. Porém, a lógica funciona para outras tantas atividades.

Recentemente, conversava com um garoto de 19, 20 anos. Ele trabalha num shopping. Tem uma rotina puxada. Não tem sábado ou domingo. As folgas são escalonadas. E até os estudos são prejudicados. Salário? Menos de mil reais.

Curiosamente, na mesma semana, falei com o dono de uma pequena indústria. Ele estava tentando contratar algumas pessoas. Já havia entrado em contato com o Senai. Afinal, quem vai pra esse tipo de atividade geralmente faz cursos ali. Porém, alguns cursos sequer fecharam turma. Não havia candidatos. E nem esse industrial conseguia gente para trabalhar. Detalhe, ele pagava, inicialmente, entre 1,5 mil e 2 mil reais.

Perguntei:

- Mas os jovens não se interessam por esse ramo?

Resposta:

- A moçada prefere o ar condicionado a sujar a mão de graxa.

Pois é. Por status, roupinha limpa e ar condicionado, parece-me que muitos jovens não têm interesse por determinadas profissões. Trabalhar na indústria, construção civil – ou mesmo como garçom, mecânico, cozinheiro etc – não os motiva. Na cabeça dos rapazes, pensam que também não ajuda a seduzir as meninas.

A facilidade de acesso a uma faculdade também trouxe certas ilusões. Fazem farmácia, informática e outros cursos, para terem uma profissão supostamente mais respeitada socialmente, ainda que ganhem menos que atividades tidas como mais “rudes”.

É curioso porque isso tudo não passa de uma imagem construída socialmente. Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, existe maior respeito as profissões que, no Brasil, consideramos inferiores. E o problema por aqui nem é tanto o salário. Afinal, um bom eletricista ou encanador, atualmente, ganha mais que um jornalista, por exemplo. Isso sugere que o olhar para certas profissões é preconceituoso. E de pura ignorância. Sim, porque trabalho é trabalho. E o que se espera dele é que ofereça condições dignas de sobrevivência e prazer em sua realização. Ou seja, se sou garçom, ganho o que considero suficiente pra viver e tenho satisfação no que faço, qual o problema de não ter escolhido ser engenheiro?

Sabe qual o maior problema disso tudo? Até na profissão, somos reféns das expectativas alheias. Pior, assumimos tais expectativas como verdades.

Faz bem ouvir…

casal
Nenhum relacionamento sobrevive quando deixa de existir admiração pelo parceiro. Se a pessoa que está do seu lado não te inspira orgulho, respeito, ela deixa de ter valor pra você. E o próximo passo será desprezá-la.

Entretanto, tem algo que acontece na dinâmica dos casais que também tem efeitos negativos: a ausência de palavras de reconhecimento. Faz bem demais ao coração saber que o parceiro te admira, te quer, te deseja. E não apenas na cama.

Não dá para explicar a sensação de levar um bombom para ela e, embora o gesto pareça tão pequena, ver um sorriso em seu rosto, os olhos brilharem e uma frase curta, mas mágica.

- Você é incrível!

A sensação é maravilhosa quando você termina de preparar o jantar, ela prova e diz:

- Não consigo viver sem o seu temperinho!

E quando você a abraça e escuta:

- Que homem cheiroso. Como pode ser tão cheiroso assim?

Uma relação se constrói também por palavras, por reconhecimentos. É o máximo ser elogiado pela pessoa que você ama. Não é só uma forma de reconhecimento; é muito mais que isso. É do namorado, da namorada… Do marido, da mulher… Que a gente mais espera os aplausos. Infelizmente, a rotina quase sempre nos consome e, com o tempo, muitos casais perdem a capacidade de trocarem palavras de afeto, de admiração. Pior, muitas vezes, substituem os elogios pelas críticas, pelas palavras ríspidas, agressivas.

Não existe hora certa para ouvir um elogio. A gente gosta a qualquer hora. Não importa se é logo cedo, mesmo com a “cara amarrotada”, e ela diz:

- Hummm… está todo bonitão…

Ou se ela acabou de limpar a casa:

- Você caprichou hoje, hein? A casa está toda cheirosa.

Mesmo as pequenas as coisas, os afazeres cotidianos oferecem oportunidade para demonstrar em palavras que a pessoa que está ao nosso lado tem valor. Pode apostar, faz bem ouvir…

Vidas marcadas

marcas

Burro, louco, fracassado, vagabunda, safada, rebelde… Essas e outras tantas palavras classificam pessoas. Por vezes, são usadas até mesmo por pais ao se dirigirem aos filhos. São pessoas que desconhecem a influência da fala na construção da imagem. Sim, porque nós somos aquilo que acreditamos ser. E essas crenças, muitas delas, são construídas na relação com o outro.

Chega a ser criminoso quando os pais dizem para o filho que ele é burro. E pode ser pior… Conheço mães que chamam as filhas de vagabundas, sem-vergonha.

O que me assusta é saber que muitos desses comportamentos estão sendo discutidos há anos por educadores e psicólogos. A própria mídia abre espaço para orientar. Ainda assim, não sei se por raiva, palavras carregadas de sentidos negativos são usadas por muitos de nós para nos dirigirmos a filhos, amigos, alunos, funcionários... Palavras que afetam as emoções e subjetivam quem as ouve a ponto de assumirem tais discursos como sendo a verdade sobre elas.

O filósofo francês Michel Foucault pesquisou a história de pessoas que foram marginalizadas pela sociedade nos séculos XVII e XVIII. Os estudos dele nos ajudam a entender o mal que fazemos ao usar rótulos para falarmos sobre os outros. Foucault identificou pessoas que tiveram suas vidas aniquiladas por serem tratadas como fracassadas, loucas, mentirosas… por sofrerem rejeição.

Atualmente, os consultórios de psicólogos vivem lotados de vítimas de palavras duras… Essas pessoas foram subjetivadas por esses discursos. Foram marcadas e sofrem. Sofrem para romper com as mentiras que foram ditas sobre elas.

Quantas pessoas se acham limitadas, pensam ser incapazes? Quantas estão infelizes porque foram tratadas como incompetentes? Quantas cresceram como sendo culpadas por tudo de errado que acontecia em casa? Quantas meninas foram tratadas como vagabundas por seus pais por terem errado na escolha de um namorado?

O olhar raivoso, punitivo, desprovido de sabedoria, machucou, magoou, marcou. As palavras que ouviram – nos jogos de poder entre pais e filhos, entre chefes e funcionários, entre professores e alunos – construíram “verdades”. São mentiras, mas que são impostas como “verdades” a respeito das vítimas. Por gozarem de uma posição de autoridade – ser pai, ser professor, ser chefe etc -, dizem o que querem dizer e não percebem os traumas emocionais que causam.

O que é pior é que muitas dessas pessoas não se tornam (ou não se tornaram) mais do que aquilo que falam (ou falaram) delas. Embora exista um abismo entre o que poderiam ser e o que de fato são, assumem (ou assumiram) o papel que lhes foi dado por gente que parece incapaz de pensar antes de falar, de classificar o outro.

Sabe o que mais me assusta? Às vezes reproduzimos essas “verdades” a respeito de alguém próximo. O jovem que usou drogas será sempre o “ex-drogado”; a menina que teve um filho na adolescência será sempre a “mãe solteira”; o garoto que foi preso por um furto será sempre o “delinquente”… São pessoas marcadas. Uma vida marcada pela crueldade (ou ignorância) humana.

A arte de duvidar

duvidar

Nossas verdades constroem um solo firme… Nos ajudam na caminhada da vida. É bom ter em que acreditar. Entretanto, não são nossas convicções que nos fazem crescer; são nossas dúvidas.

Duvidar é uma arte. E devemos exercê-la. Embora a dúvida possa nos deixar inseguros, o ato de questionar leva ao conhecimento.

Infelizmente, muita gente é apegado as suas crenças. Apegado ao ponto de não se questionar. Muito menos de aceitar ser questionado. Tem gente que tem tanto apego as suas verdades que, quando sofre um questionamento, sente-se agredido. É como se não pudesse ser contrariado. E nessas horas chega a tornar-se pouco sociável. Outros são intolerantes ao que é diferente, a pensamentos divergentes.

O que precisamos entender é que nenhum de nossos pensamentos reproduz a realidade. Nossas verdades são projeções construídas… Um pensamento nunca dá conta de representar algo real, concreto. Aquilo que elaboramos em nossa mente não passa de uma imagem de um objeto.

É assim com coisas, com fatos e com pessoas. O seu marido não é o que você pensa que ele é. Seus pensamentos formam a sua verdade a respeito dele, mas nunca darão conta da pessoa, da complexidade desse ser humano com o qual você se casou. Por mais corretos e equilibrados que sejamos, nossos pensamentos se formam com base no recorte que fazemos… Pelas coisas que vemos, ouvimos e observamos. Entretanto, nunca passarão disso: nosso olhar para algo de fora, que não experimentamos e nem vivemos em sua totalidade.

Temos nossos pensamentos sobre família, relacionamentos… Também sobre nossa cidade, trânsito, médicos, saúde, alimentos…

Por que é importante compreender isso? Porque muitas vezes temos certeza das coisas… Com base nessas certezas, julgamos, avaliamos. E por isso, não raras vezes, somos injustos.

É necessário repensar nossas verdades. Essa é a melhor prática da humildade: reconhecer nossa pequenez, nossas limitações. Quando duvidamos de nossos pensamentos, alargamos o leque de possibilidades… Imaginamos outras situações possíveis. E assim descobrimos nossa ignorância. Por consequência, nos tornamos mais tolerantes, respeitosos… e sábios.

Um voto de confiança ao Dunga

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Antes de ser questionado, quero que o amigo e leitor saiba de uma coisa: defendo um técnico estrangeiro para comandar a seleção brasileira; e isso antes mesmo da contratação de Felipão em 2012. Penso que o futebol do país está atrasado e não temos treinadores para colocar a equipe da CBF de volta ao topo do mundo.

Feito o esclarecimento, vamos ao que temos de fato: o retorno de Dunga. A primeira grande pergunta que os torcedores deveriam fazer é: porque odiamos o Dunga? O Fantástico mostrou nesse domingo, 20, que cerca de 85% dos torcedores rejeitam o técnico na seleção. Quando o nome do capitão do tetra apareceu como provável substituto de Felipão, a rejeição “bombou” nas redes sociais. Mas por que isso?

Durante os quatro anos de Dunga na seleção, o Brasil nunca mostrou um futebol encantador. Eu mesmo pedi várias vezes a saída dele. Porém, duas coisas são certas: primeira, desde que comecei a acompanhar futebol, com exceção de algumas partidas, nunca vi o Brasil jogar bonito de verdade e, segunda, os números do treinador no comando da seleção são bastante positivos (em 59 partidas, apenas seis derrotas; e dois títulos em quatro anos).

Eu comecei a acompanhar futebol por volta dos anos 1990. Não vi as equipes treinadas por Telê Santana. Ou seja, a primeira Copa que acompanhei de fato foi aquela em que o Brasil foi eliminado pela Argentina. Curiosamente, naquele ano, Dunga foi crucificado como o responsável pela seleção ter caído ainda nas oitavas. Sinceramente, em nenhum momento aquela seleção me encantou. Depois veio Falcão no comando técnico. Foi um “deus-nos-acuda”. A tal renovação fez a gente ser saco de pancadas. Falcão foi demitido e Parreira assumiu. E como foi o time brasileiro? Horroroso! A gente sofria demais. Classificamos para Copa de 1994 na última hora. Um sufoco. Mas o futebol de resultados ganhou o título. Zagalo ficou com o comando da seleção. Nada mudou. E a saga terminou nos 3 a 0 para a França em 1998. Depois veio Luxemburgo, Leão… A torcida sofria, sofria. E a seleção raramente fazia um jogo empolgante. Com tantas decepções, veio Felipão. Que ganhou o título de 2002, mas também nada de futebol-arte. Na seqüência, mas Parreira… Depois Dunga, Felipão de novo…

Bom, estou retomando a trajetória do Brasil só para lembrar uma coisa: o tal futebol espetáculo, ou futebol-arte, faz tempo que é só história mesmo. Então não dá para acreditar que Tite, Abel Braga ou Muricy mudariam essa realidade. Nenhum deles é brilhante. Sem contar que nos faltam jogadores para isso.

Quanto ao Dunga, ele não é melhor que nenhum desses três aí. No entanto, nenhum deles também representa grandes mudança ou é tão melhor. Tecnicamente, podem ser mais preparados; mas em experiência em competições com a seleção, Dunga tem larga vantagem (muitos anos como jogador e outros quatro como técnico).

Muita gente lamenta a não contratação de Tite, o ex-técnico do Corinthians. E eu também acho, pelo cenário atual, que ele merecia uma chance. Porém, Tite é bonachão… Manteria as portas abertas para a Globo, aceitaria as invasões de celebridades e, semelhante a Felipão (e até Dunga), é fiel aos seus jogadores. Foi isso que o afundou em 2013 no Corinthians. Não renovou e… dançou. Poderia revolucionar a seleção? Dificilmente.

Então, por que Dunga não pode retornar? Vamos voltar a primeira pergunta: por que o Brasil o rejeita?

É você que tem argumentos para rejeitar o Dunga ou esse sentimento foi criado aí dentro? 

Se a seleção não joga bonito há décadas, se mesmo jogando feio, o grande fracasso de Dunga foi a eliminação diante da Holanda em 2010, por que ele não pode voltar?

Posso estar errado, mas penso que as verdades sobre Dunga são verdades construídas. Crucificaram o ex-técnico naquela eliminação. Com problemas sim, mas o Brasil fazia uma Copa na África mais regular e bem menos dramática do que fez aqui no Brasil. A seleção principal, sob comando dele, nunca foi humilhada. Mesmo diante da Holanda, a equipe fez um excelente primeiro tempo. Vencia a partida. Sofreu a virada no segundo tempo, mas deixou o mundial sem ser envergonhada. Além disso, perdeu para quem foi vice-campeã naquele ano, e terceiro lugar agora, justamente contra a nossa equipe – com a diferença que desta vez foram 3 a 0. Ou seja, é preciso reconhecer que Dunga tem suas qualidades. E fome por vitórias.

No futebol, pela paixão que o povo tem pelo esporte, quando o Brasil perde, busca-se um culpado. Dunga foi culpado duas vezes: em 1990, como jogador; em 2010, como técnico. E pela maneira dura, raivosa com que tratou a Rede Globo, as notícias negativas contra ele foram amplificadas. Dunga não foi poupado. Não houve distanciamento na análise de seu trabalho (não muito diferente do que está acontecendo agora com o Felipão; a diferença é que pelo menos Felipão foi simpático com a grande imprensa e isso dá certo crédito ao treinador). Não foi a eliminação de 2010 que hoje deu – e dá – argumentos à rejeição absurda a Dunga. A rejeição é um sentimento construído. Potencializado sim por fatos, mas que não são a medida, não representam a totalidade do trabalho dele no comando do Brasil.

Penso que estatísticas não vencem jogos. Passado não constrói futuro. Porém, Dunga foi personagem da virada em campo. Foi do inferno em 1990 ao paraíso em 1994. Será que não pode se superar também como técnico?

PS- O texto apenas se propõe a fazer pensar. Parece-me que, além da rejeição ao Dunga ser efeito do discurso midiático, a decepção com o fracasso do futebol brasileiro não está gerando um debate equilibrado.

Na segunda, uma música

Renato Teixeira faz um tipo de música que ele mesmo define como folk. É um gênero raro… Mas que se identifica com nossa brasilidade, com nosso jeito de ser.

Sujeito politizado, simpático e dono de uma voz agradável, Renato Teixeira é autor de versos e canções bastante populares. A mais conhecida delas é Romaria. A música é linda e já foi interpretada por dezenas de artistas.

Mas eu gosto demais de “Amanheceu, peguei a viola“. A canção retrata a vida do artista popular… Daquele que vive na estrada e não tem um único lugar que possa chamar de sua morada.

Amanheceu, peguei a viola,
Botei na sacola e fui viajar.
Ao meio-dia eu tava em Mato Grosso
Do Sul ou do Norte, não sei explicar.
Só sei dizer que foi de tardezinha,
Eu já tava cantando em Belém do Pará.

A música segue narrando outras viagens… E falando da beleza e aventura que é cantar.

Parei em Minas pra trocar as cordas
E segui direto para o Ceará.
E no caminho eu fui pensando, é linda
Essa grande aventura de poder cantar.

Vamos ouvir?