A arte de duvidar

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Nossas verdades constroem um solo firme… Nos ajudam na caminhada da vida. É bom ter em que acreditar. Entretanto, não são nossas convicções que nos fazem crescer; são nossas dúvidas.

Duvidar é uma arte. E devemos exercê-la. Embora a dúvida possa nos deixar inseguros, o ato de questionar leva ao conhecimento.

Infelizmente, muita gente é apegado as suas crenças. Apegado ao ponto de não se questionar. Muito menos de aceitar ser questionado. Tem gente que tem tanto apego as suas verdades que, quando sofre um questionamento, sente-se agredido. É como se não pudesse ser contrariado. E nessas horas chega a tornar-se pouco sociável. Outros são intolerantes ao que é diferente, a pensamentos divergentes.

O que precisamos entender é que nenhum de nossos pensamentos reproduz a realidade. Nossas verdades são projeções construídas… Um pensamento nunca dá conta de representar algo real, concreto. Aquilo que elaboramos em nossa mente não passa de uma imagem de um objeto.

É assim com coisas, com fatos e com pessoas. O seu marido não é o que você pensa que ele é. Seus pensamentos formam a sua verdade a respeito dele, mas nunca darão conta da pessoa, da complexidade desse ser humano com o qual você se casou. Por mais corretos e equilibrados que sejamos, nossos pensamentos se formam com base no recorte que fazemos… Pelas coisas que vemos, ouvimos e observamos. Entretanto, nunca passarão disso: nosso olhar para algo de fora, que não experimentamos e nem vivemos em sua totalidade.

Temos nossos pensamentos sobre família, relacionamentos… Também sobre nossa cidade, trânsito, médicos, saúde, alimentos…

Por que é importante compreender isso? Porque muitas vezes temos certeza das coisas… Com base nessas certezas, julgamos, avaliamos. E por isso, não raras vezes, somos injustos.

É necessário repensar nossas verdades. Essa é a melhor prática da humildade: reconhecer nossa pequenez, nossas limitações. Quando duvidamos de nossos pensamentos, alargamos o leque de possibilidades… Imaginamos outras situações possíveis. E assim descobrimos nossa ignorância. Por consequência, nos tornamos mais tolerantes, respeitosos… e sábios.

Um voto de confiança ao Dunga

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Antes de ser questionado, quero que o amigo e leitor saiba de uma coisa: defendo um técnico estrangeiro para comandar a seleção brasileira; e isso antes mesmo da contratação de Felipão em 2012. Penso que o futebol do país está atrasado e não temos treinadores para colocar a equipe da CBF de volta ao topo do mundo.

Feito o esclarecimento, vamos ao que temos de fato: o retorno de Dunga. A primeira grande pergunta que os torcedores deveriam fazer é: porque odiamos o Dunga? O Fantástico mostrou nesse domingo, 20, que cerca de 85% dos torcedores rejeitam o técnico na seleção. Quando o nome do capitão do tetra apareceu como provável substituto de Felipão, a rejeição “bombou” nas redes sociais. Mas por que isso?

Durante os quatro anos de Dunga na seleção, o Brasil nunca mostrou um futebol encantador. Eu mesmo pedi várias vezes a saída dele. Porém, duas coisas são certas: primeira, desde que comecei a acompanhar futebol, com exceção de algumas partidas, nunca vi o Brasil jogar bonito de verdade e, segunda, os números do treinador no comando da seleção são bastante positivos (em 59 partidas, apenas seis derrotas; e dois títulos em quatro anos).

Eu comecei a acompanhar futebol por volta dos anos 1990. Não vi as equipes treinadas por Telê Santana. Ou seja, a primeira Copa que acompanhei de fato foi aquela em que o Brasil foi eliminado pela Argentina. Curiosamente, naquele ano, Dunga foi crucificado como o responsável pela seleção ter caído ainda nas oitavas. Sinceramente, em nenhum momento aquela seleção me encantou. Depois veio Falcão no comando técnico. Foi um “deus-nos-acuda”. A tal renovação fez a gente ser saco de pancadas. Falcão foi demitido e Parreira assumiu. E como foi o time brasileiro? Horroroso! A gente sofria demais. Classificamos para Copa de 1994 na última hora. Um sufoco. Mas o futebol de resultados ganhou o título. Zagalo ficou com o comando da seleção. Nada mudou. E a saga terminou nos 3 a 0 para a França em 1998. Depois veio Luxemburgo, Leão… A torcida sofria, sofria. E a seleção raramente fazia um jogo empolgante. Com tantas decepções, veio Felipão. Que ganhou o título de 2002, mas também nada de futebol-arte. Na seqüência, mas Parreira… Depois Dunga, Felipão de novo…

Bom, estou retomando a trajetória do Brasil só para lembrar uma coisa: o tal futebol espetáculo, ou futebol-arte, faz tempo que é só história mesmo. Então não dá para acreditar que Tite, Abel Braga ou Muricy mudariam essa realidade. Nenhum deles é brilhante. Sem contar que nos faltam jogadores para isso.

Quanto ao Dunga, ele não é melhor que nenhum desses três aí. No entanto, nenhum deles também representa grandes mudança ou é tão melhor. Tecnicamente, podem ser mais preparados; mas em experiência em competições com a seleção, Dunga tem larga vantagem (muitos anos como jogador e outros quatro como técnico).

Muita gente lamenta a não contratação de Tite, o ex-técnico do Corinthians. E eu também acho, pelo cenário atual, que ele merecia uma chance. Porém, Tite é bonachão… Manteria as portas abertas para a Globo, aceitaria as invasões de celebridades e, semelhante a Felipão (e até Dunga), é fiel aos seus jogadores. Foi isso que o afundou em 2013 no Corinthians. Não renovou e… dançou. Poderia revolucionar a seleção? Dificilmente.

Então, por que Dunga não pode retornar? Vamos voltar a primeira pergunta: por que o Brasil o rejeita?

É você que tem argumentos para rejeitar o Dunga ou esse sentimento foi criado aí dentro? 

Se a seleção não joga bonito há décadas, se mesmo jogando feio, o grande fracasso de Dunga foi a eliminação diante da Holanda em 2010, por que ele não pode voltar?

Posso estar errado, mas penso que as verdades sobre Dunga são verdades construídas. Crucificaram o ex-técnico naquela eliminação. Com problemas sim, mas o Brasil fazia uma Copa na África mais regular e bem menos dramática do que fez aqui no Brasil. A seleção principal, sob comando dele, nunca foi humilhada. Mesmo diante da Holanda, a equipe fez um excelente primeiro tempo. Vencia a partida. Sofreu a virada no segundo tempo, mas deixou o mundial sem ser envergonhada. Além disso, perdeu para quem foi vice-campeã naquele ano, e terceiro lugar agora, justamente contra a nossa equipe – com a diferença que desta vez foram 3 a 0. Ou seja, é preciso reconhecer que Dunga tem suas qualidades. E fome por vitórias.

No futebol, pela paixão que o povo tem pelo esporte, quando o Brasil perde, busca-se um culpado. Dunga foi culpado duas vezes: em 1990, como jogador; em 2010, como técnico. E pela maneira dura, raivosa com que tratou a Rede Globo, as notícias negativas contra ele foram amplificadas. Dunga não foi poupado. Não houve distanciamento na análise de seu trabalho (não muito diferente do que está acontecendo agora com o Felipão; a diferença é que pelo menos Felipão foi simpático com a grande imprensa e isso dá certo crédito ao treinador). Não foi a eliminação de 2010 que hoje deu – e dá - argumentos à rejeição absurda a Dunga. A rejeição é um sentimento construído. Potencializado sim por fatos, mas que não são a medida, não representam a totalidade do trabalho dele no comando do Brasil.

Penso que estatísticas não vencem jogos. Passado não constrói futuro. Porém, Dunga foi personagem da virada em campo. Foi do inferno em 1990 ao paraíso em 1994. Será que não pode se superar também como técnico?

PS- O texto apenas se propõe a fazer pensar. Parece-me que, além da rejeição ao Dunga ser efeito do discurso midiático, a decepção com o fracasso do futebol brasileiro não está gerando um debate equilibrado.

Na segunda, uma música

Renato Teixeira faz um tipo de música que ele mesmo define como folk. É um gênero raro… Mas que se identifica com nossa brasilidade, com nosso jeito de ser.

Sujeito politizado, simpático e dono de uma voz agradável, Renato Teixeira é autor de versos e canções bastante populares. A mais conhecida delas é Romaria. A música é linda e já foi interpretada por dezenas de artistas.

Mas eu gosto demais de “Amanheceu, peguei a viola“. A canção retrata a vida do artista popular… Daquele que vive na estrada e não tem um único lugar que possa chamar de sua morada.

Amanheceu, peguei a viola,
Botei na sacola e fui viajar.
Ao meio-dia eu tava em Mato Grosso
Do Sul ou do Norte, não sei explicar.
Só sei dizer que foi de tardezinha,
Eu já tava cantando em Belém do Pará.

A música segue narrando outras viagens… E falando da beleza e aventura que é cantar.

Parei em Minas pra trocar as cordas
E segui direto para o Ceará.
E no caminho eu fui pensando, é linda
Essa grande aventura de poder cantar.

Vamos ouvir?

Atitudes para ter equilíbrio emocional

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Equilíbrio emocional. Eu gosto da ideia. Acho incrível pensar que podemos administrar nossas emoções. Porém, entre querer e conseguir administrá-las existe um abismo. Sempre digo que não é tão simples assim viver bem com a gente mesmo. Às vezes, sofremos uma perda, estamos diante de caminhos incertos e nos deixamos abater. Ou, como aconteceu com os jogadores do Brasil na Copa, sofremos um “apagão emocional”.

Dias atrás, numa conversa com a psicóloga Adriana Furlan, ela citou seis atitudes que podem nos ajudar a ter certo controle das emoções. Vou fazer aqui a minha leitura dessas “regrinhas”.

Auto-aceitação – Você se gosta? Se aceita? Ou se acha a pior pessoa do universo? Penso que precisamos ser humildes e reconhecer nossas limitações. Porém, também precisamos nos amar. E aceitar o que somos, nossas falhas, nossos erros… ajuda a lidar melhor com os problemas. Principalmente com nosso passado.

Relacionamentos positivos – Precisamos conviver com gente que nos faça bem. Mais que isso, temos carência de ser amados. Não dá pra viver mendigando um carinho, um abraço… Então, necessitamos viver coisas boas com as pessoas que nos cercam. E ter por perto gente que seja capaz de exercer boa influência em nossa vida.

Autonomia – Reconheço que estamos distantes de ser definitivamente livres. Dependemos uns dos outros. Porém, é possível ter certa autonomia. Ter autonomia é não orbitar em torno de alguém. Esse alguém pode ser os pais, pode ser o marido, um namorado… E até um amigo, uma amiga. Precisamos dar conta de responder as nossas próprias demandas. Não dá pra depender a vida inteira dos outros. E a autonomia não para nas questões práticas. Uma questão fundamental é: temos que ter nossos próprios pensamentos, nossas próprias ideias. Tem gente que só pensa, só decide pela cabeça dos outros. Não funciona!

Domínio ambiental – Não dá para ficar a vida inteira esperando pelas coisas. É fundamental ter iniciativa. Devemos criar oportunidades. Claro, não podemos ser imprudentes. Porém, quem vive esperando, nunca chega a lugar algum. Para isso, temos que conhecer bem o ambiente onde estamos, seus limites e o que podemos fazer a partir da realidade que nos é dada.

Propósito de vida – Qual é seu plano? Você tem um projeto? Não estou falando em como será sua aposentadoria. Esse plano até pode constar na lista. Porém, também temos que ter propósitos diários, projetos de curto e médio prazo. Podemos atuar como voluntários, sonhar com uma casa nova, viagens… Devemos pensar em coisas que gostamos e tentar trabalhar para experimentá-las, vivenciá-las.

Crescimento pessoal – Quando se está num relacionamento, é fundamental investir na vida a dois. Entretanto, isso não significa esquecer de si mesmo. Como disse no item anterior, qual é nosso propósito de vida? Por mais que inclua uma outra pessoa, também temos que ter nossos próprios sonhos. E cuidar de nós mesmos. Fazer academia, cursos… Trabalhar por uma promoção… Pra ter equilíbrio emocional, também temos que nos sentir úteis, perceber que não estacionamos.

Enfim, embora não exista “receita”, e em alguns momentos nos sintamos incapazes até de nos mexer, a prática dessas atitudes pode ajudar a ter maior equilíbrio emocional.

Pode me dizer “bom dia”?

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Enquanto caminhava até o trabalho, três senhores que nunca havia visto me cumprimentaram. Um boa tarde rápido… Um deles esboçou um sorriso. Fiquei tocado. E achei a situação curiosa. Afinal, embora percorra o mesmo trajeto todos os dias, raramente alguém desconhecido se dirige a mim. Na verdade, parece que cumprimentar uma pessoa na rua é uma atitude invasiva. É como se estivéssemos rompendo sua privacidade.

Quando eu era ainda criança, vez ou outra saia com meu pai. A cidade era relativamente pequena. Cerca de 70 mil habitantes. Estávamos nos anos 1980. Andava-se muito a pé, de bicicleta e até em carroças puxadas por cavalos. Pelas ruas, meu pai sempre cumprimentava as pessoas. Não apenas ele. Mas ali no bairro as pessoas falavam umas com as outras. Nem sempre se conheciam. Ainda assim, eu ouvia com frequência trocarem um “bom dia”, “como vai?”, “tudo bem?”.

Porém, já naquela época, meu pai e também meus avós comentavam que os mais jovens eram “mal educados”; não cumprimentavam as pessoas. Os anos passaram, meus avós se foram e não saio mais pela cidade com meu pai. Também não cumprimento as pessoas. E nem ouço alguém me dizer “bom dia”. Talvez por isso cause certo estranhamento encontrar gente que fale conosco, mesmo sem nos conhecer.

Não sei se perdemos a gentileza. Ou a educação, como diriam meus avós. Sei, porém, que nos tornamos bastante individualistas. Estamos presos em nossos casulos, fechados em nós mesmos. Ficamos conectados apenas com nossos pensamentos. E quando falamos, falamos ao celular. É impressionante como as pessoas saem falando, falando sem parar. Mas raramente com alguém que esteja do lado.

Poderíamos dizer que é tudo uma questão de hábito. Entretanto, penso que a questão é mais complexa. Ao longo dos anos, perdemos a relação com o outro. Pessoas são números, estatísticas. Nos identificamos apenas com aqueles que fazem parte de nosso círculo de amizade. E, por vezes, mesmo quando vemos um conhecido na rua, desviamos o olhar para não ter o trabalho de dizer “bom dia”, talvez com receio de que o outro puxe conversa e percamos tempo.

É lamentável. Mas nos tornamos solitários demais. Não vemos quem está do nosso lado. Parece que não nos sentimos como sendo da mesma espécie. Por isso, por mais simbólico que seja, cumprimentar é uma forma de reconhecer o outro, de identificá-lo como humano, gente como a gente.

Como viver quando faltam certezas?

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Há momentos em que tudo que temos são dúvidas. O que fazer? Como fazer? O que decidir? Como decidir?

A vida é incrível. E também por isso. Não há rumos certos, definidos e definitivos. Mas judia do coração não saber o que fazer. Ou por onde começar.

Muitas vezes, até temos noção do que nos faz bem. Porém, temos medo, insegurança. E o que parece nos fazer bem também traz perigos. Olhamos para um lado, olhamos para o outro e nada se apresenta como concreto, como seguro.

E segurança é uma das coisas que mais carecemos. Faz parte de nossa natureza. Por isso, flutuar por um universo que não nos oferece nada muito firme, sólido, causa um enorme vazio.

É bom quando as coisas parecem conspirar a nosso favor e tudo se mostra de maneira clara: este é o caminho, é o certo a fazer. Entretanto, a vida não é simples assim.

Às vezes, estamos insatisfeitos com a carreira, mas há tantas coisas envolvidas que não sabemos como agir. Outras vezes, sentimos a necessidade de mudar alguma coisa no ambiente familiar, mas não temos ideia de como resolver. Há situações que envolvem o relacionamento, mexem com as emoções, desestabilizam, porém, faltam iniciativas. E todas supostas soluções que aparecem se mostram ruins, inclusive deixar como está.

Quando faltam certezas, resta-nos esperar. É ruim. Cansa, desgasta, faz sofrer. A ansiedade incomoda. E com a ansiedade se mistura a insegurança. Ficamos atordoados. Afundamos na ausência de boas expectativas. No entanto, ter calma, paciência é a única atitude sensata. Quando faltam certezas, decisões geralmente são precipitadas e bastante arriscadas. Ter fé e esperança ajudam a esperar.

Como viver sem culpa?

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Não temos controle de tudo, mas é possível ter paz de espírito, viver livre das mágoas. A vida pode ser mais simples ou mais difícil, dependendo das nossas escolhas. A maneira como olhamos os desafios que temos vai determinar nossas ações e, principalmente, nosso estado de espírito. Ou seja, a angústia e o sofrimento podem ser menores ou maiores. A decisão é nossa.

Parece racional demais. Ou até auto-ajuda. Afinal, como já escrevi noutras ocasiões, a razão parece não comandar o coração. Entretanto, podemos conversar com nossos sentimentos. Esse diálogo interior ajuda a reorganizar os sentimentos.

Há coisas que acontecem conosco que não procuramos entender. Não questionamos os motivos, as razões. Acontece que, sem procurar resposta para as dores da alma, abrimos mão de viver melhor.

Às vezes nos pegamos tristes. Pode ser por causa de um relacionamento mal resolvido, de uma amizade desfeita, uma desavença com um professor… Ficamos recordando tudo que houve ou ainda existe de ruim, alimentando a dor interior. Sofremos durante dias – alguns, até por anos – por algo que poderia ser trabalhado, sublimado.

Mas como?

Em qualquer dessas situações, a primeira pergunta a responder é: “por que estou triste?”. Se o problema for identificado, a segunda pergunta é: “posso resolver?”. Se posso, “de que maneira?”.

Temos condições plenas de avaliar perdas e ganhos diante de qualquer situação. Se o caso for de um relacionamento, é preciso concluir: “vale a pena mantê-lo como está?”, “devo romper?”, ou ainda “invisto na reconstrução?”. Afinal, quais as consequências? Que consequências posso assumir? O que eu consigo fazer? Tem algo que posso fazer?

Precisamos compreender que a solução perfeita não existe. Nenhuma opção é livre de consequências. Todas terão graus variados de perdas e ganhos. Por isso, conformar-se é uma capacidade que deve ser desenvolvida.

Para alcançar novos sonhos, talvez alguns antigos terão de ser abandonados. Ninguém vive feliz se não compreender esse princípio da vida. O mundo nunca será perfeito. E nem a vida, cor-de-rosa.

Por fim, os erros de ontem nos servem de aprendizado. Não podem ser lembrados para alimentar a culpa. Ninguém volta atrás. Insistir na culpa é investir no passado e ignorar o futuro. Só reconhecemos que certas escolhas foram desastrosas porque as experimentamos. Do contrário, poderíamos nos arrepender por não tê-las vivido.

Na segunda, uma música

Zeca Pagodinho é uma das figuras mais carismáticas da música brasileira. O cantor e compositor é considerado um dos maiores nomes dos gêneros samba e pagode. Certamente, mesmo quem não gosta de sua música, já o ouviu em algum momento.

Para esta segunda-feira, compartilho “Não sou mais disso”. A canção é agradável. Tem uma letra leve. Chega ser divertida. Zeca, em parceria com Jorge Aragão, mostra a influência que uma mulher pode exercer na vida de um homem.

Eu não sei se ela fez feitiço
Macumba ou coisa assim
Eu só sei que eu estou bem com ela
E a vida é melhor pra mim
Eu deixei de ser pé-de-cana
Eu deixei de ser vagabundo
Aumentei minha fé em Cristo
Sou bem quisto por todo mundo

Pois é… O amor tem dessas coisas. Pro bem e pro mal, né? Quando a gente ama, a vida muda. E pode mudar pra muito melhor.

Na hora de trabalhar
Levanto sem reclamar
E antes do galo cantar
Já vou
À noite volto pro lar
Pra tomar banho e jantar
Só tomo uma no bar
Bastou

E o efeito dessa mulher é tão grande na vida do sujeito, que Zeca Pagodinho encerra a canção dizendo:

Não perco mais o meu compromisso
Não perco mais uma noite à toa
Não traio e nem troco a minha patroa

Então, vamos ouvir?

Aceitar a perda

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Enquanto a gente vive, a gente perde. Sim, a gente perde coisas, perde oportunidades, perde pessoas. É doloroso perder. Gostamos mesmo é de acumular. Ou… negociar. Machuca perder. Muitas vezes, causa-nos até uma sensação de impotência. Faz-nos sentir fracos, incapazes, por não conseguirmos manter o que desejamos, sonhamos ou amamos.

Perder um ano de estudos machuca bastante. Significa fazer de novo, tentar de novo, correr riscos. Perder o emprego fere a auto-estima. Com bastante freqüência, não é algo que se esperava, que se desejava.

Perder uma oportunidade causa sofrimento, angústia, medo. Impossível não se sentir inseguro. Os pensamentos se tornam perturbadores. Vou ter outra oportunidade? Teria sido a única? Será que nada vai dar certo na minha vida?

E o que dizer da perda de alguém? Como entender o abandono da esposa que se foi? Como administrar a rejeição de um filho que não quer mais ficar na casa paterna? Como seguir adiante quando a morte bateu à porta e levou o seu marido?

Nunca é fácil. Não existem perdas sem dor. Algumas provocam feridas que persistem em sangrar. Porém, feridas cicatrizam. Cicatrizes permanecem, fazem lembrar as lágrimas… Mas é possível conviver com elas.

Quem perde, perde. Sofre, chora. Perder pode significar o fim de um ciclo. Mas é possível prosseguir, é possível recomeçar. E o recomeço passa pela aceitação. É preciso admitir que nada é nosso para sempre.

Quando a gente perde alguma coisa, uma oportunidade, ou a pessoa que tanto amamos, nossa reação é negar que aquilo está acontecendo ou aconteceu, é lamentar, por vezes, revoltar-se e até se deprimir. E isso é normal. Até necessário. É o que a Psicologia chama de período do luto. Entretanto, esse período também é pra reelaborarmos, ressignificarmos a perda e a própria existência. No entanto, isso só acontece quando aceitamos a perda.

Sim, temos que aceitá-la. O que tínhamos se foi, acabou. Não queríamos isso, não desejávamos. Talvez nossos sonhos, projetos, nosso “chão”… Talvez tudo pareça ter ido embora junto. Talvez fique uma sensação de fracasso, de vazio absoluto. Mas existe vida para além do que hoje é possível ver. E a vida recomeça quando a gente admite que acabou. Perdemos, pronto. Não há mais nada a fazer diante do que passou. Quando aceitamos isso, uma página em branco nos é estendida pelo Universo e podemos escrever uma outra história.

O sucesso pede mudanças

desconhecido

Quem já andou por trilhas no meio da mata talvez tenha percebido que muitas delas são bastante sinuosas, com obstáculos… Formam caminhos nem sempre práticos para se chegar ao destino. Curiosamente, algumas delas nem foram feitas por mãos humanas; apenas foram adaptadas por terem menos vegetação. Há trilhas, inclusive, que eram originalmente “caminho” de animais, mas que passaram a ser o trajeto usado pelos homens para exploração da mata.

Nosso cérebro funciona mais ou menos da mesma forma. Quando acessamos uma informação nova, cria-se um novo caminho ali. No início, sempre há certo estranhamento. Por exemplo, quando vamos a um supermercado pela primeira vez, temos dificuldades para explorar cada setor. Se repetirmos as compras sempre no mesmo lugar, logo faremos tudo “no automático”.

É assim que funciona com tudo. Do jeito que trabalhamos, do jeito que compramos, comemos e, em alguns casos, até do jeito que fazemos sexo. Entretanto, há um risco nisso. Um sério risco. Tudo que se torna automático deixa de ser experimentado, vivido. É como se nos tornássemos robôs. Aos poucos, vai ficando chato, perdendo a graça. Acontece que, pelo medo de ousar, optamos pelo “caminho mais fácil”.

Mas há um outro problema. Quando algo que fazemos dá muito certo, passamos a utilizar aquela fórmula como se fosse a “receita do sucesso”. E isso não é nada bom. Primeiro, porque nos tornamos previsíveis; segundo, porque a vida é dinâmica e o que hoje dá certo, amanhã pode fracassar. O futebol é um exemplo disso. O Brasil de Felipão usou uma tática vencedora na Copa das Confederações. Repetiu na Copa do Mundo e deu no que deu: a seleção foi presa fácil para os alemães.

Isso vale pra tudo. No relacionamento, o que hoje agrada demais seu parceiro, amanhã pode perder a graça e ganhar contornos de rotina (em seu pior sentido). No trabalho, a estratégia que hoje te faz vender muito, amanhã pode se revelar um fiasco.

O que quero dizer com isso? Muito simples: não podemos nos engessar pelo sucesso. O sucesso pode ser mais perigoso que o fracasso. O fracasso aponta o erro e a necessidade de mudar. O sucesso ilude e faz temer a mudança. Não mudar é estagnar. E estagnar é o primeiro passo para a derrota. Precisamos entender que o que deu certo uma, duas… dez vezes não representa um modelo a ser seguido. O mundo está em constante movimento e modelos são superados. Nosso cérebro sempre vai sugerir os caminhos já percorridos, já conhecidos. Porém, não dá para se iludir com a aparente segurança que temos em apostar no que está dando certo. “Em que time que está ganhando” também se mexe.