Sozinhos no relacionamento

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Tem muita gente que ama, tem alguém do lado, mas está sozinho no relacionamento. E nos primeiros anos do romance quase sempre é difícil perceber a solidão. Geralmente é o tempo que revela, é o tempo que faz notar o quanto se está sozinho.

Não estou falando aqui de “sozinho” no sentido literal. No sentido de um trabalhar e o outro ficar em casa, de um ir para um lado, e o outro para outro. Não estou falando da ausência de se compartilhar os mesmos espaços, ou de se ter os mesmos projetos. Falo de sentir-se sozinho, ainda que tenha o parceiro dividindo a mesma sala, a mesma cozinha, a mesma cama.

Muitas vezes, a pessoa ama, mas um dia descobre que o outro não participa de sua vida. Você nota que não tem assunto… Ou simplesmente não encontra motivos para compartilhar nada com o parceiro. E nem nota que o outro está interessado em saber o que sente, o que pensa, o que faz.

Porque muita gente monitora o parceiro, olha o celular, quer ver as mensagens no Facebook, mas pouco participa do que vai no coração do outro.

Sabe aquela coisa de você ter conquistado algo, porém notar que a pessoa com quem escolheu viver não se importa? Ou pelo menos, não comemora com você? Você acha importante não se atrasar para sair, mas o tempo passa e o outro não parece perceber que perder a hora te incomoda? Você gosta de ler, mas percebe que o outro acha bobagem suas leituras? E quando passam o dia distantes e, ao se encontrarem, fazem elogios por estarem cheirosos, lindos… mas não sentem que é relevante contar o que fizeram, experimentaram, viveram porque sabem que o parceiro acha tudo chatice?

Dá pra viver junto, fazer tudo junto e ainda assim estar sozinho. Infelizmente, muita gente vive essa experiência. E isso corrói o coração, abre as portas da alma para desejar algo diferente. Embora um romance careça de programas juntos, planos em comum, sintonia na cama, o relacionamento pede a presença do outro nas coisas simples. É nisso que se revela a verdadeira intimidade. É preciso ter prazer na companhia do outro, sentir satisfação por conversar, ouvir, trocar experiências. O outro deve estar conectado com nossa própria alma. Do contrário, o amor esfria… E a vida em comum se esvazia.

Na segunda, uma música

Gilberto Gil é uma das figuras mais importantes da nossa música. Sujeito carismático, politizado e capaz de se atualizar constantemente, o cantor baiano é também um dos artistas brasileiros mais conhecidos no exterior.

Em 1982, Gil lançou uma de suas canções de maior sucesso. “Andar com fé” foi mostrada no Fantástico, numa época em que o dominical da Globo abria espaço para as grandes músicas.

“Andar com fé” é música simples, mas que mostra a importância das nossas crenças. Ter em quê acreditar acalma o coração, garante esperança, ajuda-nos a encontrar o caminho.

A fé tá na manhã
A fé tá no anoitecer

Quando tudo está difícil e a vida parece perder o sentido, ter fé nos fortalece. A fé nos serve de apoio para não desistirmos. Por vezes, a solidão bate, a desesperança nos assola e até a fé parece estar para morrer. Ainda assim…

Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”

E então… Vamos ouvir?

Em defesa de Bonner

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William Bonner está sendo vítima de agressões e xingamentos por fazer bom jornalismo. Sim, o âncora do principal telejornal do Brasil tem sido questionado por aliados e eleitores dos candidatos à presidência da República por cumprir uma das funções mais básicas do jornalismo: questionar.

O Jornal Nacional abriu a rodada de entrevistas com os candidatos ouvindo Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). E os apresentadores foram contundentes. Fizeram perguntas que colocaram os presidenciáveis em situações, no mínimo, desconfortáveis. No entanto, nenhuma delas estava desprovida de embasamento. Ficou nítido que Bonner e Patrícia Poeta estavam preparados para questionar os candidatos. Mas isso incomodou muita gente. O âncora, principalmente, foi alvo de agressões e xingamentos.

O assunto, que ganhou repercussão inclusive na internet, também apareceu em minhas aulas. Alunos trouxeram depoimentos de familiares e amigos que disseram que os apresentadores do JN estão vendidos ao PT. Algumas pessoas acharam deselegante o tom firme de Bonner e Poeta. Entendem que deveriam ser mais gentis, “generosos” com os candidatos.

Sinceramente, fico assustado com tanta bobagem. Na minha opinião, mostra o tamanho da imaturidade política do país. E o completo desprezo ao bom jornalismo.

Na verdade, historicamente, o Brasil sempre teve um jornalismo pequeno, pobre, acanhado, publicista, vítima de alinhamentos com o poder e/ou com grupos econômicos. O jornalismo no país pouco contribui para o debate democrático. Apresenta-se como imparcial, isento, responsável, porém, geralmente se dobra diante de interesses nem sempre republicanos. Quando o assunto é política, sabe-se que por vezes falta aos jornalistas liberdade para atuar como gostariam. Há uma “regra silenciosa” – que não se ouve, mas sabe-se que existe – de que o melhor é estar “de bem” com todo mundo.

Talvez por isso cause estranhamento que Bonner, no comando do JN, assuma uma postura crítica, firme diante de candidatos à presidência. Talvez também seja nosso desconhecimento da verdadeira prática jornalística. Talvez não estejamos acostumados a questionar o poder.

Não vou discutir aqui a entrevista de Eduardo Campos, vítima de acidente aéreo na quarta-feira, 13. Porém, a participação de Aécio Neves, na terça-feira, 12, é reveladora. Não mostra um Bonner e uma Patrícia dispostos a destruírem a candidatura do tucano. Aponta sim para o exercício justo do jornalismo, que ao longo dos anos ganhou status de mediador entre os fatos e a sociedade. Por isso, Aécio tem sim que explicar as contradições de seu discurso. Como terá que fazer Dilma Rousseff e os demais candidatos.

No horário eleitoral, nos palanques… os candidatos dizem o que querem. O discurso é efeito. E nele a realidade é a que se pode construir no imaginário popular. Aos jornalistas, cabe observar as contradições, problematizá-las e, sempre que possível, colocá-las em evidência. O público precisa conhecer o que está para além da aparência dos presidenciáveis. O marketing político, é claro, fará o possível para apresentar apenas o que é bonito de ver. Entretanto, a escolha do eleitor não deve ser baseada numa imagem.

E, sejamos sinceros, mesmo com toda contundência de Bonner e Poeta, ainda não temos todas as explicações. No caso de Aécio, ele assegura que fará um governo de “previsibilidade” e transparência. Porém, se é de previsibilidade, não deveríamos saber que cortes serão feitos, quais ministérios serão fechados? Apesar da insistência dos jornalistas globais, essa questão ficou aberta, sem resposta. E o sítio da família de Aécio valorizou ou não com o aeroporto? Tudo bem que a propriedade é da família há mais de 100 anos e não há interesse em vendê-la, mas custava responder a pergunta de Bonner? E se a saúde foi modelo em Minas, porém com dinheiro do governo federal, não poderia admitir isso e dizer que a diferença dele foi a eficiência?

Além do mais, ética e eficiência não seriam pressupostos básicos de todo governante? Como isso pode ser prioridade? Falta ao candidato planos para educação, saúde, segurança?

Enfim, o que quero mostrar é simples: William Bonner, ao lado de Poeta, estão apenas fazendo jornalismo. Talvez nossos políticos, e até nossa sociedade, não saibam muito bem o que é isso. Cá com meus botões, porém, fico contente por ver que, aos poucos, a mesma Globo, tão criticada por ser conivente e até partidária em muitos momentos da história, apresenta amadurecimento na prática jornalística e assegura certa liberdade aos seus jornalistas.

Serviço de casa também é serviço de homem

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Entre as coisas que me incomodam profundamente está a resistência de alguns homens em executar serviços domésticos. Sinceramente, não entendo por que acham absurdo lavar louça, passar pano no chão, lavar roupas, limpar o banheiro, trocar as fraldas do bebê…

É verdade que serviço de casa é chato. Mas se é chato pra nós homens, também é para as mulheres. Então por que só elas devem ficar responsáveis por essas tarefas?

Dias atrás, uma colega me contou que pediu para o marido arrumar a cama. Ele retrucou:

- Por que eu preciso arrumar a cama se tem três mulheres em casa?

O casal tem duas filhas adolescentes. E, na lógica dele, isso o exime de fazer qualquer coisa. O sujeito senta a bunda no sofá, assiste tevê enquanto elas limpam a casa, passam as roupas, lavam as louças… E ele folga. E ainda reclama. De verdade, não sei como consegue. Eu não dou conta.

Talvez seja porque minha mãe ensinou desde muito cedo a cuidar de casa. E até de minha irmã. Quando eu tinha dez anos, a babá de minha irmã pediu as contas. Não tínhamos como contratar outra pessoa. Então, passei a cuidar dela. Não era divertido, admito. Ela tinha apenas três anos. E dava um trabalhão. Mas até hoje rimos muito daqueles anos. Foi ali em casa, só com ela, que fiz minhas primeiras panquecas, lavei muita louça, aprendi a cozinhar… E até troquei fraldas (de pano).

Cresci também vendo meu pai cozinhar, lavar a louça, cuidar dos meus irmãos… Acho que isso faz com que até hoje eu me sinta muito à vontade para levantar da mesa, tirar os pratos, talheres… Não tenho problemas em lavar a louça, limpar a casa, cuidar das minhas roupas… Faço isso sem constrangimento algum. Não me acho menos homem por isso.

Na verdade, o machismo está dentro de casa. Não apenas personificado nas atitudes dos homens. Muitas mulheres são machistas. Mães, principalmente. Contribuem para manutenção dessa “crença” de que serviço de casa é serviço de mulher. São culpadas sim pela formação de homens que se omitem das tarefas de casa. Criam filhos que não estarão preparados para lidar com o mundo moderno, que ficarão perdidos se precisarem viver sozinhos, e que vão fazer sofrer suas futuras parceiras.

Eu sei que a gente pode comprar quase tudo. De comida até a limpeza de casa. Porém, nem sempre há dinheiro pra isso. Além do mais, dividir as tarefas domésticas é fundamental quando o casal trabalha fora. E mesmo quando apenas o homem tem emprego, ajudar a esposa é uma forma de carinho, de reconhecimento, de valorização do trabalho dela. É digno. É uma expressão de respeito à mulher. Não coloca o homem em condição de superior a sua parceira. Ou seja, humaniza o relacionamento. Torna-nos iguais.

Pais não são amigos dos filhos

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Confesso que muitas vezes me sinto tentado a confidenciar certas coisas aos meus filhos. Num tempo em que a gente praticamente não tem amigos, não consegue confiar nas pessoas, os filhos parecem ser “o ouvido” ideal.

Mas não são. Filhos são filhos. Não são amigos.

Na verdade, é um erro mudar a dinâmica do relacionamento pais e filhos. Pais são referência, são exemplo, não são amigos. Com amigo, temos outro tipo de relacionamento. Sei que muita gente usa o argumento “seu pai é seu melhor amigo” ou “sua mãe é sua melhor amiga”, mas, quando isso acontece, perdem os pais, perdem os filhos.

A situação é muito problemática na infância, adolescência e juventude. No entanto, na fase adulta, também há prejuízos.

Antes da maturidade, quando os filhos são feitos confidentes dos pais, atropela-se o bom senso… Eles desconhecem o universo adulto. Não possuem experiência suficiente para ajudar os pais. E o desenvolvimento emocional deles fica comprometido, porque criam expectativas distorcidas do que é a vida adulta. Além disso, esse tipo de dinâmica, aprisiona os filhos. Impede-os de ter novas experiências.

Lamentavelmente, as confidências muitas vezes estão voltadas para o que acontece entre o pai e a mãe. O pai fala da mãe para o filho… A mãe fala do pai… E a criança fica no meio das frustrações do casal. O filho acaba ocupando o papel que seria do cônjuge, de um amigo, de um terapeuta. E sabe o que é pior? Muitas vezes, o filho toma partido de um deles e desenvolve sentimentos negativos. Outra consequência se dá quando o filho cresce e vai ter seu próprio relacionamento… O namorado, a namorada passam a ser referenciados pelas experiências vividas no casamento dos pais.

Os pais podem e devem falar dos seus problemas com os filhos. Se está triste, se anda com dificuldades no trabalho… Mas não dá para pedir colo. As conversas precisam ser numa perspectiva educativa. Até para mostrar que também falham, fracassam, se frustram.

Filhos também carecem de liberdade para falar com os pais. Contar seus dilemas, pedir orientação. Os pais podem ser bacanas, divertidos… Entretanto, os pais estão ali para acolher, disciplinar, conter. O papel de amigo é um; o de pai e mãe, é outro. Quando os papeis se confundem, a hierarquia é quebrada. Pode se perder o respeito e a autoridade.

A relação entre pais e filhos deve ter muito afeto, aceitação, perdão. Mas amizade é uma relação entre iguais. Presume-se mais que confidências. Entre amigos, a gente desabafa, compartilha coisas, faz coisas juntos, fala bobagem… Com amigo, a gente “peca” junto, acerta junto… Amigo interfere sim na vida da gente, mas não determina, não disciplina.

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E mesmo na fase adulta, quando a relação se torna de “amigos”, tudo se confunde. Não demora para a filha estar falando do marido para a mãe… Depois, faz as pazes, se ajeita… Mas os pais acabam ficando “ariscos” com o genro. O inverso também acontece com a nora. Sem contar os casos em que se perdem os limites. Pais, filhos, netos se misturam a tal ponto que começa a faltar respeito. Ninguém cresce.

Numa conversa com a psicóloga Adrina Furlan, ela disse que pais que fazem de amigos os filhos revelam que são incapazes de ter seus próprios amigos. Assim, acabam por “escravizá-los” neste tipo de relação.

Os filhos também se tornam inseguros. É como se os pais se tornassem um “ego externo”. Como não se desenvolveram, não possuem autonomia. Não sabem julgar o que é bom ou ruim para a vida, sempre precisando do aval ou parecer dos “amigos pais” para tudo. E é obvio que isso se torna um grande desastre para a vida.

Aos pais, também não é bom, pois agindo assim nunca verão os filhos como seres separados, independentes, adultos. Passam a vida inteira considerando-os crianças, incapazes de tomar as próprias decisões.

Enfim, por mais que alguns não queiram admitir, os papéis devem estar bem definidos. A Psicologia tem mostrado que a natureza humana reclama esses limites. Entre pais e filhos, há regras, posições distintas. Para o bem de todos e desenvolvimento emocional saudável, pais devem ser só pais.

Na segunda, uma música

Milton Nascimento não é dono de uma grande voz. Nem o considero um intérprete capaz de arrebatar corações.  Ainda assim, Milton é Milton. É impossível ignorá-lo. Ele faz sim parte da história da nossa música. E é reconhecido no Brasil e no exterior. Natural do Rio de Janeiro, mas mineiro de coração, o cantor tem mais de 50 anos de carreira.

Milton Nascimento se tornou conhecido nacionalmente em 1967 com uma canção simplesmente maravilhosa. Travessia, composta em parceria com Fernando Brant, ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção daquele ano. E esta é a música que compartilho. Afinal, quem nunca se sentiu um pouco assim?

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho pra falar

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

A canção mostra o quanto sofre o coração quando se vai a pessoa amada. E que por vezes deseja-se até mesmo a morte. Mas a vida segue… E quase sempre é possível voltar a sorrir.

Vamos ouvir e matar saudade?

O perigo da comparação

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É quase impossível escapar das comparações. A gente faz isso. E as pessoas fazem isso com a gente. Começa muito cedo, inclusive. Quem tem irmão sabe bem do que estou falando. Não é raro escutar:

- Mas seu irmão consegue…
– Sua irmã também trabalha, mas deixa o quarto arrumado todos os dias.
– Está vendo a nota que seu irmão tirou em matemática?

A lista de comparações é imensa. Mesmo quando servimos de referência positiva, a atitude de quem nos usou como exemplo pode causar desconforto. No emprego, por exemplo, pode causar inveja. Na escola, exclusão por parte dos colegas.

Entretanto, parece-me que o maior dano acontece quando nos comparamos ao outro. E sobre isso, estava lendo um texto e encontrei algo precioso:

A comparação é a base de todo sentimento de inferioridade. No momento em que começamos a examinar os pontos fortes dos outros, em oposição às nossas fraquezas, a autoestima começa a ser abalada. Muitos são como a rã que queria ser boi e acabou explodindo.

Pois é… Embora entenda que o outro é nosso espelho e pode servir como estímulo para nosso crescimento, a comparação é nociva. Uma coisa é ter pessoas como fontes de inspiração; outra bem diferente é viver se comparando, porque sempre existirão pessoas melhores que nós.

Costumo brincar que até Bill Gates pode ter danos na autoestima se estabelecer comparações. Ainda que inteligente e bilionário, o todo poderoso criador da Microsoft certamente encontrará homens mais inteligentes, bonitos e até donos de ideias mais originais que as dele.

Além disso, quase sempre quando fazemos comparações, somos pouco generosos conosco. O outro vira o máximo, nós nos tornamos “patinhos feios”.

As mulheres sofrem por causa da barriguinha “perfeita” da amiga, do bumbum sem celulite da “ficante” do ex-marido, no namorado simpático da colega de trabalho… Sim, porque comparam a barriga, o bumbum e até o parceiro.

Os homens também sofrem. Fingem mais, é verdade. Machistas que são, nem sempre admitem. Mas na academia, por exemplo, muitos invejam os “fortões”… No trabalho, colocam defeito no colega que se dá bem com as garotas…

Toda comparação é nociva. Se o olhar é para alguém que parece ter atributos melhores que os nossos, nossas fraquezas se tornam evidentes e, não raras vezes, sofremos. A autoestima entra em colapso. Se o olhar é para quem parece mais fraco que nós, corremos o risco de nos tornar arrogantes, presunçosos.

Precisamos aprender que sempre teremos pontos fortes e fracos. Virtudes e defeitos. E nada dura para sempre. Força, beleza e até riquezas… são valores fugazes. O que nos diferencia é nossa disposição para ouvir, ajudar, apoiar, acolher, aprender, respeitar… amar e ser amado. São nessas coisas que devemos basear nossas referências e nosso desejo de viver.

É preciso mostrar que é feliz

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Não basta ser feliz; é preciso ser feliz na internet. As pessoas precisam mostrar que estão felizes. Publicizar a felicidade.

Ganhou flores do namorado? Publica no Facebook.
Tirou 10 na faculdade? Publica no Facebook.
Terminou o mestrado? Publica no Facebook.
O marido fez o almoço de domingo? Publica no Facebook.
Saiu para uma festa? Publica no Facebook.

A rede é mesmo pra socializar, mas será que não estamos exagerando um pouco?

Não existe mais vida privada. Tudo virou notícia. Dia desses, vi uma pessoa escrevendo “a rede social é minha, publico o que eu quiser”. Ela tem razão. Mas o que explica isso? Por que as pessoas estão agindo assim? Pra mim, só tem uma explicação: carência! Necessidade de se mostrar feliz.

As pessoas querem as curtidas, os comentários…

Em tempos de internet, redes sociais e programas do tipo Big Brother, a carência é tanta que tudo se tornou público. Pior, exige-se a publicação. O marido não pode mais dizer pra esposa “te amo”. Ela quer que ele publique a declaração na rede social. Todo mundo tem que ver que ela é amada. Falar pessoalmente, olho no olho, parece não ter muita graça. E se o marido da amiga fez mais bonito, conquistou mais curtidas… o coitado está enrolado. A atitude dele perde valor… A esposa fica frustrada.

No passado, a gente fazia fotos… Guardava pra gente e pra família, algumas poucas pessoas próximas que gozavam de nossa intimidade. Havia frustração sim, carência… Mas havia a capacidade de sublimar as faltas e celebrar a vida com as pessoas que realmente se importam com a gente. A gente se sentia realizado com a própria dinâmica da vida. Tinha a família por perto, amigos com quem dividir momentos felizes e tristes. Os abraços tocavam de verdade, os beijos eram sentidos…

Parece-me que cada vez que essas pessoas contam suas intimidades na rede estão dizendo:

- Não tenho com quem conversar.

Estão falando:

- Ei, você aí… pode me dar sua atenção?

Sabe, cada pessoa tem direito de administrar o Facebook da forma que quiser. No entanto, é um sentimento pequeno demais tornar-se dependente de exibir na rede os movimentos da própria vida para se sentir gente. Talvez seja necessário redescobrirmos as relações reais – aquelas com toque, gosto, cheiro… sorrisos e lágrimas, que não são apenas “caretinhas” criadas pela combinação de códigos de uma máquina.

Trate as pessoas como gostaria de ser tratado

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Uma das regrinhas básicas de convivência passa pelo exercício diário de um tratamento gentil, afetuoso. A gente fala, mas nem sempre tem disposição de praticar:

- Trate as pessoas como você gostaria de ser tratado.

Estamos tão focados em nós mesmos, em nossos desejos e vontades, que ignoramos as pessoas com as quais convivemos. É impressionante como tem gente que não dá conta de reprimir seu “eu”. Parece incapaz de se colocar na posição do outro. Alguns tratam mal e outros até são desonestos nas relações.

Quem gosta de ser corrigido aos gritos? Quem se sente confortável de ter um trabalho seu rasgado sob a justificativa de que não prestou? Quem fica bem ouvindo uma resposta atravessada?

E aqueles que acham natural tirar vantagem? No supermercado, trocam etiquetas de produtos que estão próximos de vencer… Na oficina, mecânicos dizem que o carro tem um defeito quando tem outro, apenas para faturar a mais… Não é honesto. E ninguém gosta de ser passado para trás.

Uma das palavras que eu adoro é “empatia”. E empatia é um pouco isso: sentir a dor do outro, reconhecer a posição do outro, imaginar-se como se sentiria se a vítima fosse você. E isso se dá inclusive numa discussão (quando a gente escuta algo que nos contraria, é importante transcender nossas mágoas e tentar pensar: por que ele disse isso?). E há muitos outros momentos que nos falta disposição para perceber que faz bem ser bem tratado, ser respeitado.

E então… Se não gostamos, por que fazemos? Quantas vezes gritamos com o parceiro, com os filhos e até com os pais? Quantos não humilham as crianças porque não deram conta de fazer a tarefa de escola corretamente? Quantos parceiros, amigos e até colegas de trabalho, são incapazes de uma resposta gentil? E nem precisa ser assunto grave… Pode até ser sobre qual o horário ficará pronto o jantar ou onde foi colocado o relatório…

Tratar de forma gentil, respeitosa – e honesta – deveria ser prática constante. Precisamos reprimir nossos instintos. É verdade que há dias que estamos irritados, que estamos odiando o mundo, mas quem está do nosso lado não tem culpa. Por vezes até tem culpa, mas quando retribuímos com agressividade, nos rebaixamos, nos tornamos semelhante ao outro. Não vale a pena… Ser grosseiro, violento com as palavras, não nos garante paz de espírito. E ainda nos faz perder a chance de preservar ou abrir-se para novos relacionamentos.

Na segunda, uma música

Roberta Sá tem uma voz belíssima. Ela faz parte do que a gente pode chamar de nova geração da música popular brasileira. Na canção que compartilho por aqui, Roberta canta “Peito vazio” ao lado de um dos grandes intérpretes da nossa música, Ney Matogrosso.

Composta por Cartola, “Peito vazio” fala se saudade… E de como a falta de alguém muitas vezes afeta a ponto de não darmos conta de fazer absolutamente nada.

Nada consigo fazer
Quando a saudade aperta
Foge-me a inspiração
Sinto a alma deserta
Um vazio se faz em meu peito

Não são raros os casos de amor frustrado que motivam pessoas a fazerem coisas tolas.

Em meu peito um vazio
Me faltando as tuas carícias
As noites são longas
E eu sinto mais frio.
Procuro afogar no álcool
A tua lembrança

Felizmente, como diz a música, sempre aparecem alguns bons amigos para nos fazer lembrar que a vida não se resume aos nossos dramas… Por mais que a saudade machuque, ainda existem motivos para seguir vivendo.

Vamos ouvir?