Fantasias sobre a felicidade: se estou triste, não sou feliz

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Nossa cabeça está cheia de fantasias sobre a felicidade. Ainda nesse último fim de semana, vi minha filha num desses “surtos de felicidade”. Ela estava mega empolgada pois iria ver um filme que estava esperando há quase seis meses. Estava elétrica e repetia:

- Estou muito feliz, pai. Muito feliz.

Eu brinquei:

- Acho que você está alegre. Felicidade é outra coisa.

E é bem isso mesmo. Felicidade é diferente de alegria. Trata-se de uma ideia completamente equivocada acreditar que ser feliz é estar rindo à toa. Momentos de euforia não refletem um coração feliz. Na verdade, as fantasias que temos sobre felicidade tornam nossa caminhada mais difícil e frustrante. Porque, como não sabemos o que é ser feliz, tornamo-nos infelizes.

Um das ideias erradas que temos de felicidade é que “se estou triste, não sou feliz”. Essa é uma das grandes mentiras que repetimos pra nós mesmos. Ficar triste é uma condição humana. E natural. Alguém fala alguma coisa que nos machuca? Evidente que ficamos tristes. Um amigo querido foi embora? Sim, isso nos deixa tristes. A apresentação do trabalho na faculdade foi desastrosa e a nota pior ainda? Claro que isso nos deixa mal.

Sabe, a felicidade não é um destino, um alvo a alcançar. Felicidade é um estado emocional que devemos cultivar. E está muito mais próxima da serenidade que de outras emoções. Afinal, se você tropeça e arranca a unha do dedão do pé, vai sentir muita dor. Talvez tenha que correr ao médico, quem saber terá de ficar com o dedo enfaixado e se sentirá triste pelo acidente – até pelas impossibilidades que o machucado vai causar durante alguns dias. Mas isso não significa que você seja uma pessoa infeliz.

O problema é que para nós, ocidentais, felicidade parece ser sinônimo de prazer. A gente acha que é feliz quando está numa festa animada, quando ganha uma promoção… Na verdade, associamos felicidade ao prazer. Por isso, quando acontece alguma coisa errada, algo negativo nos envolve, supervalorizamos a perda e nos rotulamos infelizes.

Nossa visão deturpada de mundo nos faz negar a tristeza, o cansaço, as perdas. E se assim pensamos, viveremos a constante busca por essa tal felicidade e nunca a encontraremos.

Ps- Voltarei a falar sobre as fantasias que temos sobre a felicidade. O próximo texto vai tratar da necessidade de ter sempre mais.

Na segunda, uma música

Todas as vezes que ouço Elis Regina lamento a morte prematura dessa incrível intérprete da música brasileira. A energia de Elis, a maneira como cantava, as emoções sempre à flor da pele… Esse jeito “Elis Regina de ser”, no palco, é insubstituível.

É verdade que tem gente que não gosta. Outros lembram mais os caminhos errantes de Elis que suas interpretações inesquecíveis. Entretanto, é difícil ouvi-la e ser indiferente ao seu incrível talento.

Para esta segunda-feira, reservei uma música belíssima. “O bêbado e a equilibrista” é uma canção fascinante. Em especial porque é mais do uma simples poesia cantada; é uma daquelas músicas que serviram para provocar o regime militar, mostrar a covardia da ditadura.

Composta por Aldir Blanc e João Bosco, na voz de Elis, a música foi uma espécie de hino à anistia. “O bêbado e a equilibrista” foi o maior sucesso do disco “Essa mulher”, lançado em 1979. Na ocasião, o genial cartunista brasileiro Henfil chegou a fazer uma charge muito interessante inspirada na canção.

E então… Vamos ouvir a música?

Violência conjugal

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Um novo relatório da Organização Mundial de Saúde informou que, no mundo, uma em cada três mulheres sofre violência conjugal. Sim, uma em cada três é vítima do próprio parceiro, do sujeito que deveria estar ali não apenas pra prover, mas principalmente para amar e proteger.

E mais, o documento mostrou que entre 100 milhões e 140 milhões sofreram mutilação sexual e cerca de 7% sofrem violência sexual ao longo da vida.

Esses números me assustam. Sei que existem diferentes motivos pra isso. Vão desde a cultura até posições religiosas de caráter questionável. Entretanto, o que mais me entristece é que isso tudo acontece e pouca coisa se faz. Estou cansado de ver denúncias, mas o que tem mudado?

Muitos desses crimes também acontecem perto da gente. Quem não conhece uma vítima de violência doméstica? Quem não sabe de pelo menos um caso de estupro contra mulher?

Pior que mesmo em países como o nosso, os atos de violência são por vezes tolerados. Muita gente age como se fosse normal o homem espancar a mulher. E isso ocorre por ciúme, porque ela queimou o arroz, porque esqueceu de passar a camisa ou simplesmente porque não quis fazer sexo.

Não sei se apenas punições mais duras são suficientes para mudar essa realidade. Talvez o maior problema ainda seja o medo, a vergonha. Por razões que a própria razão parece incapaz de explicar, muitas mulheres sofrem caladas. E outras inclusive assumem a responsabilidade pelo ato de violência sofrido. É como se repetissem o mantra: “eu mereci”.

Sei apenas que, como sociedade, precisamos rejeitar todo e qualquer ato de violência contra a mulher. Nada justifica. E eu entendo que isso deve mudar a partir do nosso discurso, da nossa posição diante de fatos que deveríamos condenar.

Dias atrás, por exemplo, ouvia uma mulher contando de uma conhecida que traiu o marido e apanhou dele. Ela repetia a história do espancamento, tendo como espectadores da narrativa duas filhas menores e um garoto de 12 anos:

- Bem feito! Quem mandou ser safada?, dizia.

Esse tipo de discurso perpetua uma visão machista e que tolera a violência. Essas meninas vão crescer pensando o quê? E o garoto? Será que não se sentirá autorizado a bater numa futura parceira? Violência nenhuma pode ser aceita. Em nenhuma situação. Não adianta a gente ter legislação rigorosa, mas uma cultura que admite (e até estimula) a violência em “casos específicos” – como se algumas ocasiões justificassem a agressão.

E o medo, por que ocorre? Porque além da sensação de impunidade, existe a impressão que ninguém se importa. Se pedir ajuda para o vizinho, até que ponto irá se envolver? Na verdade, muitas vezes, nem mesmo as autoridades policiais se empenham em dar atendimento às vítimas. Não são raros os casos de vítimas desestimuladas a denunciar os agressores.

Sinceramente, eu não tenho respostas… Não sei como mudar essas estatísticas. Sei apenas que, a partir da casa da gente, da sala de aula, temos que manter um discurso que rejeite por completo a violência contra a mulher. É preciso falar, falar e falar sobre essas questões. Aproveitar todas ocasiões. E fazer isso sem ter vergonha, sem ter pudor.

A arte de simplificar a vida

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Em setembro deste ano, Jack Ma, o homem mais rico da China fez uma declaração que, de certa forma, resume o pensamento do tempo em que vivemos:

- Se você ainda é pobre aos 35 anos, a culpa é sua.

Ser bem-sucedido é imperativo na sociedade atual. E ter dinheiro é sinônimo de sucesso. Ser pobre é ser visto como fracassado. Por isso, todo mundo vive correndo atrás do danado do dinheiro. Ainda que quase todo mundo entenda que é preciso se mexer pra conquistar coisas, esse jeito maluco de viver tem roubado a chance de sermos felizes.

O próprio Jack Ma disse recentemente à CNN que não é feliz. E disse os motivos: as pressões que sofre do mercado financeiro, a carga de expectativas que recai sobre ele, o desejo de não decepcionar os outros e, o mais importante, a dificuldade de ser autêntico. Gente como Jack Ma precisa agir de acordo com a imagem que construiu.

E sabe o que é curioso? Muitos de nós somos iguais Jack Ma. Não temos os bilhões de dólares que ele tem, mas somos reféns do mundo que nos cerca.

Entretanto, existe outro fator que nos impede de viver feliz: a complexidade da nossa agenda. Dias atrás ainda escrevi aqui sobre a importância de ter um tempo pra não fazer nada. Mas a questão vai além da criatividade. Quanto mais a agenda está cheia, menos a gente vive.

A impressão que dá é que, se não estivermos muito ocupados, não somos importantes. Os outros precisam achar que trabalhamos demais. Quem tem tempo livre chega ser visto como vagabundo, folgado, preguiçoso.

O problema é que estar ocupado é trair a nossa própria humanidade. Nosso corpo não foi feito para dar conta de um ritmo tão intenso. Carecemos de tempo para desfrutar nossa família, para caminharmos à toa pela rua, sem nos preocupar que será um problema sair um pouco da rota para tomar um sorvete.

Quem corre demais está, na verdade, fugindo de si mesmo. São pessoas que precisam fazer mil coisas para se sentirem vivas. No entanto, ao terem rotinas tão intensas, não conseguem tempo para si mesmas. E isso resulta em infelicidade.

Sabe, não tem jeito… Se queremos viver melhor, temos que simplificar a agenda, tornar a vida mais simples. E aqui tenho algumas dicas:

Identificar nossas dificuldades – não adianta acordar decidido em mudar as rotinas. Embora seja necessário ter atitude para mudar comportamentos, é fundamental identificar o que nos levou a ter uma agenda tão complexa. Talvez as coisas foram acontecendo e você nem se deu conta de como estava afundando em tantos compromissos. Mas também pode ter ocorrido porque foi necessário se ocupar para evitar os confrontos com a esposa, com os filhos… Ou até pela necessidade de manter o emprego. Então, é preciso identificar quais as dificuldades que temos para simplificar a vida antes de tentar mudar qualquer coisa.

Focarmos no que é essencial e ter prioridades – simplificar a vida significa também descobrir o que pode ser abandonado. Ninguém muda sem abrir mão de hábitos, costumes ou até certos confortos. Talvez pra ter uma vida mais tranquila seja necessário trabalhar menos, reduzir despesas… É impossível conseguir mais tempo sem abrir mão de parte do que fazemos.

Esquecer a perfeição – ninguém dá conta de ser perfeito. É necessário admitir que vamos errar muitas vezes. Além disso, quem foca demais na perfeição, gasta tempo com detalhes que, na maioria dos casos, são irrelevantes, não fazem diferença. Isaac Newton certa feita disse:

A verdade sempre se encontra na simplicidade e não na multiplicidade e confusão das coisas.

Criar brechas de tempo em nossa agenda – já disse isso aqui, mas volto a repetir: sem tempo pra nos desligarmos de tudo, não dá para olharmos para nós mesmos, para apreciarmos o que está a nossa volta, as pessoas que amamos… Ninguém consegue ser feliz sem tempo pra si mesmo.

O parceiro dos sonhos não existe

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Não dá pra negar… Quase sempre, a gente idealiza o relacionamento. Na verdade, idealiza o parceiro. Imagina como deve ser na cama e fora dela. No trato diário dentro de casa e na dinâmica com a sogra. Por isso, é comum demais se frustrar. Afinal, esse serzinho perfeito, que se enquadra no desenho do príncipe ou princesa, não existe.

O que existe é uma pessoa que, por mais que te ame, nunca será como você idealizou. Ainda que isso pareça frustrante, e é, tem coisas no parceiro que nunca vão mudar. São hábitos, costumes, traços de personalidade com os quais terá de conviver – se não quiser descartar o romance.

Muitas vezes é difícil compreender isso. Chega ser doloroso pensar que a pessoa que está ali contigo, que talvez você tenha escolhido para dividir uma vida, tenha atitudes que te contrariem tanto. E o que é pior: ela não vai mudar. Ou você aceita ou cai fora. E, detalhe, se “trocar de amor”, vai esbarrar de novo em coisas que não gosta. Sim, porque essa outra pessoa tem a própria identidade, que vai para além do número que aparece no RG. Talvez agrade em determinados aspectos, mas vai desagradar noutros. É assim que funciona.

É por não aceitar que o parceiro nunca vai nos completar que as relações tornam-se tão frágeis. Queremos que tudo aconteça como gostamos.

Se queremos ter uma relação duradoura, ou quem sabe pra toda vida, é necessário admitir que o outro vai nos chatear. E não poucas vezes. Por isso, escolher alguém pra participar dessa caminhada é um negócio muito sério. A gente precisa conhecer bem a pessoa, sem pressa. E identificar nela as características que mais valorizamos, porque é certo que, no pacote, vem um monte de coisas que vai nos decepcionar. Entretanto, será preciso tolerar, exercitar diariamente a paciência.

Sabe, pra mim, o que é mais importante é que o parceiro seja alguém que te faça sentir-se “em casa”. Alguém que te deixe à vontade. Que não te faça ter vergonha do que você é, do seu corpo, do seu cheiro, dos seus defeitos… Nem do que você pensa. Alguém que te permita se revelar. Afinal, por mais que o outro seja belo, inteligente, competente…Não existe nada pior que conviver com uma pessoa que te inibe, alguém que te faz optar até por não brigar, porque sabe que, se brigar, só vai se desgastar; suas palavras serão rebatidas, rejeitadas… E ainda vai ouvir que você é culpado de tudo, dos desencontros de hoje, de ontem, de amanhã.

Então, sabendo que a pessoa perfeita não existe, resta descobrir o que você mais valoriza. Sem ser exigente demais, claro. Rsrs.

Compartilhar o carro: muito mais que uma carona

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Amsterdã incentiva o uso de bicicletas. Outras cidades começam educar os motoristas a dividir espaço no carro com outras pessoas

Quando o Protocolo de Kyoto foi assinado em 1997, havia expectativa de que muita coisa mudasse… Que fossem reduzidas as emissões de gases de efeito estufa, que medidas concretas fossem tomadas pelos governos e que afetariam, inclusive, os hábitos de vida da população. Entretanto, desde então, pouca coisa mudou. Na verdade, alguns problemas se acentuaram, principalmente em função do rápido desenvolvimento e industrialização de economias emergentes, como é o caso da China.

Consequência disso? Hoje, precisaríamos de 1,5 planetas para dar conta de cobrir todos recursos naturais que usamos e resíduos que geramos. O dado é da Global Footprint Network.

De forma prática, algumas cidades têm se esforçado para reduzir a poluição ambiental, o tráfego e congestionamento de veículos. Isso, principalmente nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e alguns países da Europa. São casos pontuais, é verdade. Porém, servem de referência por seus projetos de mobilidade mais eficientes.

Amsterdã, na Holanda, talvez seja o exemplo mais conhecido. Por lá, o uso diário de bicicletas é uma realidade para parte significativa da população. Outras cidades também têm feito o mesmo, inclusive com serviços de aluguel de bicicletas. Em Londres, anos atrás foi instituída uma taxa de congestionamento. Uma espécie de pedágio urbano. Em todos esses lugares, o trânsito está fluindo mais e o, que realmente importa, melhorou a qualidade do ar.

Na Europa, há cerca de 20 anos, crescem os investimentos no transporte público. Por lá, há nítida percepção que a população deixa o carro em casa quando tem um serviço de transporte público que respeita o usuário. Isso inclui bons ônibus, também agilidade no atendimento, rapidez nos trajetos e tarifas populares.

Mas uma medida que tem sido bastante incentivada, e que ainda não havia destacado aqui no blog, é o uso compartilhado dos veículos. Deixa eu explicar… Quando o trânsito está lento ou há  congestionamento, observe!!! Olhe para os carros. O que você vê? O tráfego intenso que desgasta, cansa é também lugar do individualismo. A maioria dos carros parados no trânsito tem apenas um passageiro, o condutor.

Por isso mesmo, governos, empresas e instituições têm orientado à população a compartilhar assentos dos automóveis. A ênfase é nas vantagens: economia de combustível, transporte mais eficiente (em função da redução de carros nas ruas) e os benefícios ambientais. Como nem sempre só o discurso educativo é capaz de mudar hábitos, algumas cidades estabeleceram restrições, por outro lado, compensando quem leva pelo menos três passageiros – até com a criação de faixas exclusivas para esses veículos em determinados horários do dia.

Na verdade, nesse momento da história em que as tecnologias digitais estão a disposição de todos nós, há possibilidade de se apropriar e até criar ferramentas que viabilizem um sistema mais eficaz de transporte, inclusive com serviços que permitam a criação de comunidades online para o uso compartilhado dos veículos.

Na Europa, por exemplo, já existem plataformas nas quais as pessoas podem se cadastrar e, a partir disso, dividir trajetos com outras pessoas. Ali é possível ofertar assentos vazios, informando a hora da “viagem”, o custo etc. E por meio de pontuações e histórico de comentários, dá para identificar quem é confiável e quem não é. Assim, na hora de ir para o trabalho, para a universidade e até para o médico, a pessoa divide o carro, paga menos e contribui para um trânsito melhor.

Bem, lá fora essas coisas começam a funcionar. E por aqui quando vai acontecer?

Na segunda, uma música

Formada ainda na década de 1970, a dupla Sá e Guarabyra é conhecida por alguns sucessos que marcaram época. Músicas como “Dona” e “Espanhola” são inesquecíveis.

A dupla se consolidou como intérprete de um gênero identificado como rock rural. Isso mesmo!!! Trata-se de um estilo criado na década de 1960 quando Sá e Guarabyra tinham como parceiro, Rodrix, outro músico e compositor que chegou a trabalhar com Milton Nascimento, compor pra Elis Regina…

O gênero representa bem a cultura popular, principalmente por seu caráter quase experimental e letras mais simples, que falam do cotidiano, da vida no campo. É uma delicia de ouvir.

Sem Rodrix, Sá e Guarabyra perderam um pouco o teor de inovação. Ainda assim, produziram canções como a que compartilho nesta segunda-feira. “Roque Santeiro“, até por ter sido abertura de uma das novelas mais vistas na história da televisão brasileira, fala de um sujeito simples, mas idealista… Alguém que lutou por sua terra e morreu.

E no ABC do Santeiro
O que diz o A, o que diz o A,
O A diz adeus a matriz,
O que diz o B, o que diz o B,
O B é a batalha da morte,
O que diz o C, o que diz o C,
Coitado do povo infeliz.

Vamos ouvir?

Quando é preciso não fazer nada

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Não fazer nada. Pelo menos por algumas horas. Ou minutos. Importa ficar desocupado, ocioso. Pois é… Confesso que esse é meu sonho de consumo. No entanto, mais que um desejo, desligar-se é uma necessidade. O cérebro precisa. E não apenas para evitar um colapso, mas para potencializar nossa criatividade.

Admito que nunca dei muita atenção a isso. Sou daquelas pessoas que trabalham 12, 13 horas por dia. Além disso, quando não trabalho, estudo. Entretanto, como monitoro minhas rotinas, com o tempo fui notando que tenho alguns rituais. Para começar escrever, por exemplo, preciso sair da mesa, dar uma volta, pegar um café, uma água, às vezes passar no banheiro… Parece que isso desliga uma parte de mim e conecta outra. As ideias aparecem, consigo organizá-las e fica mais fácil colocar no papel.

Também já notei que as melhores “sacadas” para meus textos aparecem após períodos de leitura e de “desligamento”. Ou seja, quando estou caminhando, fazendo exercícios… Quando estou em atividades que não exigem concentração mental, o cérebro viaja e a criatividade entra em ação. Porém, se fico diante da tela, me esforçando para ter uma ideia, não sai nada.

O cientista e sociólogo italiano Domenico de Masi publicou uma obra brilhante no início do século. “O ócio criativo” questionava por que estamos tão ocupados se houve tantos investimentos para tornar a vida mais fácil. E sustentava que ter períodos em que não fazemos nada é a melhor maneira de ser criativo.

Agora é a vez da pedagoga, psicoterapeuta e neurocientista espanhola Marta Romo sustentar tese semelhante no livro “Entretena tu cerebro”. Ela lembra que os maiores gênios da humanidade também eram pessoas que sabiam relaxar, que se desligavam de suas atividades.

E não é difícil entender por que isso acontece. Durante nossas mil e uma atividades diárias, acumulamos muitas informações. Enquanto permanecemos concentrados no desenvolvimento de nossas tarefas, o cérebro está bloqueado para os insights. Nosso cérebro possui circuitos diferentes: um encarregado da atenção e outro voltado para a introspecção. Esses circuitos são incompatíveis. Se estamos ocupados demais, não há espaço para que os conhecimentos adquiridos sejam devolvidos em ideias criativas, criadoras.

Pode observar… Quando surgiram suas melhores ideias? Talvez tenha sido numa caminhada no parque ou enquanto estava espichado no sofá de casa, em silêncio…

O problema é que existe um imperativo para que trabalhemos, trabalhemos, trabalhemos. Não fazer nada parece comportamento de gente preguiçosa. Além do mais, sentimos necessidade de nos ocuparmos com coisas divertidas naqueles momentos em que não há nada pra fazer. Por isso, nos colocamos diante da televisão, ficamos navegando na internet… E olhos que estão ocupados não liberam a mente para que faça suas próprias viagens.

Por isso, quem quer ser criativo, ter ideias novas ou simplesmente achar solução para problemas cotidianos, deve seguir alguns conselhos bem básicos.

a) Tire pelo menos 10 minutos do seu dia para não fazer nada. Nada mesmo. É para deixar a mente divagar.

b) Desligue o celular, o tablet e o computador por algumas horas. Ou pelo menos, um dia por semana. A hiper conectividade não ajuda nosso cérebro. Se queremos ser criativos, precisamos nos desligar do mundo.

c) Eleja as tarefas mais importantes. Ser produtivo é essencial, mas, para isso, é preciso saber o que realmente é relevante nos seus dias. Descarte o inútil.

d) Permita que outros colaborem contigo. Divida tarefas. Não assuma todas as responsabilidades.

e) Realize pelo menos uma atividade diária que te dê prazer. Dê preferência a algo manual – tipo cuidar de plantas, desenhar, pintar, pequenos peças de artesanato.

Você tem iniciativa?

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A falta de iniciativa está entre as coisas que me incomodam. E, olha, isso aqui não é um papo voltado ao mundo corporativo, pra quem quer ter sucesso profissional. Estou falando de vida mesmo, do dia a dia e até dos relacionamentos.

Sabe aquela coisa de ver um copo descartável esquecido em cima da mesa e saber exatamente o que fazer? Pois é… É disso que estou falando. Viu o copo ali “abandonado”, sujo? Joga fora. E no lugar certo.

Quem tem iniciativa dá conta de viver melhor. E torna melhor o ambiente por onde passa.

Eu fico impressionado que tem gente incapaz de se mexer. E nas coisas mais básicas da vida. A pessoa vê que falta sabonete no banheiro, mas não procura outro. O papel higiênico acabou, porém não dá conta de repor. O chuveiro parou de funcionar? Precisa a mulher reclamar e pedir pra arrumar.

Nas empresas então têm de tudo… Desde o sujeito que acha que colocar papel na copiadora é só serviço da secretária até aqueles que não sabem que, se a sala está vazia, pode ser importante desligar o ar condicionado.

Ter iniciativa não é necessariamente se antecipar aos problemas; é notar que algo precisa ser feito, ir lá e fazer. Tem marido que escuta a mulher reclamando de dor o tempo todo, mas não parece notar que ali está um pedido de ajuda. Pior, o cara ainda diz: “mas ela não me falou nada!”. Parece ser necessário que a coitada caia dura, travada, para que o camarada acorde, repare que a parceira tem que ser levada ao médico.

Como sou professor, ainda me surpreendo com aqueles alunos que escutam você passar uma atividade para dali dois meses e, quando chega o momento de apresentar, aparecem com um trabalho ridículo… Aí você aponta os problemas e eles respondem: “mas eu não tinha entendido que era assim”. Ué, se não entendeu, por que não perguntou?

E os filhos que já têm namorada, fazem sexo, mas só faltam pedir pra mamãe limpar o bumbum?

E o parente que aparece pra visitar, almoça, farta-se, mas não tira a bunda do sofá pra ajudar a lavar a louça? E tem aquele que diz: “tá precisando de ajuda?”… Só a cara da pessoa já te impede de pedir qualquer coisa. Dá vontade de responder: “não, minha filha, fica aí sentada antes que morra de desânimo”.

Tem gente que espera tudo dos outros. “Ah… mas não é meu papel”, justifica. O problema é que, na escola, espera que o outro tire cópia do livro, marque o horário pra fazer o trabalho… Espera que o outro o leve até o shopping, pague a conta, limpe a casa, prepare a comida, marque a consulta médica…

A coisa é feia! Tenho impressão que a gente vive um momento de apatia generalizada. Parece viver esperando uma ordem. Às vezes acho que os pais têm parcela de culpa, pois passam a vida mandando… “Escova os dentes”, “arruma a cama”, “junta os brinquedos”… A pessoa cresce e não consegue ver o que tem pra fazer; carece de alguém pra mostrar, pra dizer o que tem de ser feito.

Por outro lado, também estamos muito voltados para os nossos problemas. Somos individualistas demais. Ocupados com os desejos, prazeres e compromissos, o que não está programado “mentalmente” não parece importante, não é notado. O problema é que, sem iniciativa, perdem-se oportunidades e a pessoa se torna um peso para as outras.

Escravas sexuais

escravaPor pesquisar sobre cultura, sempre defendo que não existe uma cultura superior a outra. Hábitos, costumes… são valores de cada povo. Entretanto, parece que algumas coisas carecem de uma medida universal. Como não ficar chocado quando mulheres são vendidas como escravas sexuais? É isso mesmo… Vendidas como uma mercadoria qualquer, numa feira. Detalhe, e com comprador inclusive propondo a troca por armas. É assustador.

O mercado de escravas sexuais contempla inclusive adolescentes. Num vídeo chocante que está no Youtube, é possível ver homens fazendo piada enquanto estão falando da venda das garotas. Chegam a sugerir que os compradores não esqueçam de espiar os dentes das escravas.

Esse comércio de mulheres é promovido pelo estado islâmico no norte do Iraque. E quem são elas? Geralmente são de famílias yazidis, mas também existem cristãs. As Nações Unidas estimam que pelo menos 2,5 mil foram capturadas no último verão, porém pesquisadores da Universidade de Oklahoma acreditam que esse número passe de 4 mil e pode chegar a 7 mil.

Sabe, não dá para entender como o homem é capaz de desprezar o humano que lhe parece diferente, que não professa sua fé ou cultura. A discriminação contra mulheres e crianças, contra negros, homossexuais etc, como ainda ocorre em países como o nosso, é algo que não dá para aceitar. Mas e com esses povos? Sinceramente, não sei como adjetivar. É simplesmente assustador notar que existem pessoas que chegam ao ponto de vender gente como escravo – nesse caso, mulheres e meninas como escravas sexuais.

Você consegue se colocar no lugar dessas mulheres? Dá para imaginar como se sentem? Eu não dou conta de fazer isso. Apenas me sinto menos gente ao saber que esse tipo de coisa acontece no mundo. Tenho vontade de pedir “para o mundo aí que eu quero descer”.

Quem quiser ver o vídeo que citei, está logo aí… O vídeo foi considerado autêntico por autoridades e pesquisadores.