A mulher e os estereótipos

“Valente” é a primeira animação da Pixar a trazer uma heroína no papel principal
“Valente” é a primeira animação da Pixar a trazer uma heroína no papel principal

Embora os estudos não consigam provar a existência de uma relação direta entre o que a mídia mostra e o comportamento da sociedade, há vários indícios de que a gente reproduz muito do que passa na telinha, no cinema e até do que se propaga como modelo nas revistas, jornais e internet. Não dá para negar, por exemplo, que a moda surge, primeiro, em imagens midiáticas para depois ganhar as ruas. E não para por aí.

Se a gente pressupõe essa relação, algumas coisas deveriam nos preocupar. Entre elas, a imagem da mulher. E isso desde a infância.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Granada, Espanha, revelou alguns aspectos interessantes das animações e desenhos infantis. Após a investigação de 621 papeis de ambos os sexos, em 163 séries, os estudiosos identificaram que, para cada dois personagens masculinos, há um feminino. E quase sempre aparecem em segundo plano. Elas são as namoradas, as noivas, as mães dos protagonistas ou vilões.

Mais que isso. As mulheres, que raramente são as protagonistas, são retratadas de acordo com estereótipos bem conhecidos. São fúteis, nervosas, estressadas, histéricas, ciumentas, obcecadas pela aparência – querem se mostrar bonitas pra agradar os outros (geralmente, os personagens masculinos ou na competição com outras mulheres).

Muita gente pode olhar para esse retrato e dizer: mas esse é o retrato do que são as mulheres. Eu questionaria: isto é o que elas são ou este é o estereótipo construído delas? Não me parece que mulheres são assim. Há mulheres assim. E se existem mulheres assim, quem pode assegurar que essa é a essência delas? Será que não aprenderam a ser assim?

Parece-me que o conteúdo consumido por nossos filhos está longe de ser inocente. Cá com meus botões, acredito que as animações e desenhos infantis, ao retratarem as mulheres de forma estereotipada, promovem um reforço dessa imagem. E isso logo nos primeiros anos de vida. Tenho a impressão que meninos e meninas crescem sob efeito dessas imagens. Nossas crianças se desenvolvem tendo essas referências: de um lado, a supremacia masculina; de outro, mulheres frágeis, desequilibradas, fúteis, consumistas e reféns da estética. Isso não é nada positivo. Muito menos emancipador. Pais e educadores deveriam pensar um pouco nisso antes de exporem a molecadinha a certos conteúdos televisivos e cinematográficos.

PS- Não abordo aqui as questões envolvendo a música. Mas fica a dica: qual a imagem de mulher retratada pelas músicas que fazem sucesso entre nossas crianças, adolescentes e jovens?

Quem quer ser importante?

servir

Certa ocasião, a mãe de dois discípulos de Jesus chegou até Ele e fez um pedido inusitado. Ela reivindicou que, quando Jesus se tornasse rei, os seus filhos pudessem se assentar ao lado do trono dEle. Um ao lado direito; outro, ao esquerdo. Ela queria um lugar privilegiado para os filhos. Era uma mãe preocupada. Desejava o melhor para seus “meninos”.

A situação deu uma confusão danada. Os outros 10 discípulos acharam aquilo um absurdo. Onde já se viu tal privilégio? Como podia dois deles terem uma posição melhor, de maior destaque no novo reino?

Os discípulos achavam que Jesus estabeleceria um reino aqui na Terra. Se tornaria um homem poderoso. Quem sabe pudesse livrá-los da servidão a Roma. E se Jesus se tornasse rei, queriam ser beneficiados pelo seu governo.

Por sinal, naquela época, havia um costume em Roma que deu origem inclusive a um termo bastante conhecido hoje: clientelismo. A gente usa esse termo para falar sobre situações em que uma pessoa se beneficia do poder de outra. Na Roma antiga, cliente era o homem livre, mas sem terras e demais propriedades. O cliente se tornava dependente de um patrício (patrono), geralmente da aristocracia. Esse atuava como uma espécie de padrinho e auxiliava financeiramente, garantia proteção social. Ou seja, o cliente gravitava em torno de um poderoso.

Esse costume não se restringiu a Roma. Outras culturas adotaram o “modelo”. E, de certa forma, a mãe dos dois discípulos queria alguma coisa parecida. Só que foi mais ousada: pediu um privilégio ainda maior.

Jesus resolveu o impasse ensinando uma grande lição. Ele falou da sua morte e sustentou uma das teses mais lindas da Bíblia: Ele veio à Terra para servir e não para ser servido.

- Quem quiser ser importante, que sirva os outros.

Como a gente vive numa sociedade tida como predominante cristã, eu fico pensando na contradição entre o que Jesus disse e o que se pratica. As disputas de poder acontecem até mesmo na esfera familiar. Na dinâmica do trabalho, todo mundo quer o melhor cargo. Numa discussão, todo mundo quer ter razão. Nas relações, pedir desculpas parece um ato de humilhação. A gente luta para estar no topo. Precisa se sentir importante. A gente quer gente servindo a gente. Olhamos primeiro para nossas necessidades. Nosso ego é nossa referência. E os ensinos de Jesus se tornam apenas textos que servem de pretexto para uma religiosidade vazia e quase nada cristã.

PS- A passagem bíblica está no livro de Mateus, capítulo 20, a partir do verso 20.

Na segunda, uma música

Roxette foi uma dupla sueca de grande sucesso da década de 1980. Até meados dos anos 1990, Marie Fredriksson e Per Gessle emplacaram muitas músicas entre as mais tocadas nas rádios de todo mundo.

A dupla de pop rock surgiu quando Marie e Per já faziam sucesso na Suécia, mas individualmente. Eles pertenciam a outras bandas e se uniram pra romper as barreiras geográficas. O mundo conheceu muitas de suas canções. Algumas delas tocaram tanto que, para quem viveu aquele momento, ouvir de novo essas músicas é quase uma “tortura”. Isso revela, entretanto, que traziam algo de especial.

Para hoje, escolhi compartilhar “Vulnerable“.

Parece que nós dois somos iguais
Jogando o mesmo jogo
Mas à medida que escurece,
Este amor verdadeiro desmorona,
Na confusão do seu coração

Pois é… Tem amores assim. A relação muitas vezes sofre porque uma das partes é bastante frágil. Pode até não haver a intenção de magoar, mas mesmo uma palavra falada fora de hora já mexe com o coração, causa tristeza e afastamento.

Eu nunca poderia magoar a quem amo
Ela é tudo que tenho
Mas ela é tão vulnerável

Vamos ouvir e recordar?

Brasil mata ecologistas

amazonia
Este é o número: 448. Entre 2002 e 2013, 448 ecologistas foram assassinados no Brasil. Esse dado assustador está no relatório da ONG Global Witness que, parece, foi ignorado pela grande imprensa nacional. E também pelos políticos – inclusive de oposição (pelo menos até o momento, né).

Preocupados em falar dos “erros” da equipe econômica do governo petista, dos problemas da Petrobras e do deputado André Vargas, assuntos tão ou mais relevantes são silenciados. Talvez porque a morte de ecologistas não importe. Afinal, o Brasil amazônico nem parece coisa nossa. Ou quem sabe, falar de ecologistas mortos não atraia leitores. Nem votos.

O número se torna ainda mais expressivo quando a gente descobre que, nesse mesmo período, morreram 908 ecologistas no mundo. Isso significa que nosso país responde por quase metade dos assassinatos. E, no Brasil, quase sempre morrem nas mãos de grileiros e de poderosos que querem se apropriar de terras, de recursos naturais. As vítimas são defensores dos direitos humanos, gente que defende o direito à terra. Tudo que querem é deter o avanço de megaprojetos que destroem o meio ambiente e roubam suas fontes de sobrevivência. Conforme aponta a Global Witness, quase sempre pertencem às populações indígenas ou minorias que vivem em cidadelas ou aldeias no meio da mata.

Por acontecer em regiões esquecidas, longe do olhar das autoridades, a violência segue a escalada e nada se faz. A impunidade se perpetua. Desse universo de 908 mortes, apenas dez pessoas foram julgadas e condenadas. E as outras? Seguem livres. Muitas vezes prestigiadas como “pessoas de bem”.

Segundo a ONG, os assassinatos são apenas a ponta do iceberg. Há muita violência. Desde violência física até psicológica – com ameaças, terror contra famílias… Isso não aparece nos dados oficiais fornecidos pelos governos para a Global Witness. Os papeis silenciam o medo, a insegurança das vítimas. Mesmo as autoridades sabendo que os assassinatos quase sempre caminhem juntos com a devastação da floresta. Onde há luta por recursos naturais, há mortes. Pena que quase ninguém se importe.

PS- Vale acrescentar que, após quatro anos de queda, o desmatamento voltou a aumentar em 2013. O crescimento foi de 28%.

O professor e as tecnologias

O domínio do saber deixou de ser da escola, do professor
O domínio do saber deixou de ser da escola, do professor

Alguns críticos da educação apontam que, se um professor de história medieval do Século XVIII, deixasse o túmulo e aparecesse numa de nossas escolas, não teria nenhuma dificuldade em dar aulas sobre esse tema. Ele dominaria o conteúdo. E a dinâmica de uma sala de aula não é muito diferente do que se fazia 200 ou 300 anos atrás.

Como educador que sou, entendo que o processo de aprendizagem está longe de ser um ato prazeroso. Aprender dá trabalho. Entretanto, embora também reproduza parcialmente em minhas aulas esse modelo histórico de ensinar, entendo que o mundo mudou. E algumas coisas a gente precisaria repensar.

Não dá para achar que o aluno de hoje é igual ao do passado. Nem precisa ir tão longe. Há 30 anos, a gente não apenas ouvia silenciosamente o professor como também levantava quando ele entrava em sala. Era um ato de respeito. Os livros e enciclopédias eram tudo que tínhamos como fontes de pesquisa. E quase sempre estavam restritos às bibliotecas. E hoje? Hoje, todo conhecimento está a um clique. Com um pouco de habilidade, a gente usa o Google e o mundo se abre diante de nós.

O aluno sabe disso. Ele pode não pesquisar, não ter interesse por descobrir. Porém, sabe que na rede existe mais informação do que em sala de aula. E, ao mesmo tempo que isso o acomoda diante do saber (ele acha que, no momento que precisar da informação, pode buscá-la no Google), também motiva o desrespeito pelo professor, pela escola. O aluno olha a estrutura educacional como arcaica, o professor como um bobo. Nada ali o estimula.

Para mim, esse é um dos principais desafios da educação: reconhecer que o modelo está ultrapassado. E que o público da escola é formado por alunos nascidos num meio tecnológico que produziu um outro tipo de ser humano. Esses meninos e meninas necessitam de outros estímulos para aprender. O professor não perdeu o seu papel. Porém, é necessário repensar o jeito de ensinar. Como diz um autor que li recentemente:

O professor se torna essencial como facilitador, animador ou mediador de processos. Seu papel de provedor unilateral de informação vai perdendo espaço.

Ou seja, é ilusão achar que, em sala, o professor segue tendo o mesmo papel histórico de detentor do saber. Hoje, cabe a ele novos papeis. Ainda tem importância. Porém, muito mais como um mediador, um estimulador da busca pelo saber. E contar com as tecnologias da informação e comunicação pode ser uma boa estratégia para levar conhecimento ao público estudantil.

Quando vale reclamar

A vida não é cor de rosa. Ela não facilita. Por vezes, dá vontade de desistir
A vida não é cor de rosa. Ela não facilita. Por vezes, dá vontade de desistir

Eu gosto de olhar títulos de livros. Como quase sempre são feitos para vender, podem ser reveladores. Há dias observo no expositor de um sebo da cidade um título que me intriga:

- Pare de reclamar e concentre-se nas coisas boas.

Sugestivo, né? E eu gosto da tese. Não sei bem para que serve, mas gosto do argumento. A proposta é clara: devemos parar de reclamar e focar nas coisas positivas da vida.

Eu gosto da tese porque, sinceramente, queria muito que fosse simples assim. É como se reclamar fosse uma opção. Eu reclamo hoje, escuto a sugestão e não reclamo mais. Seria perfeito se fosse uma mera escolha. 

Bom, eu não estou aqui discutindo o conteúdo do livro. Apenas refletindo sobre a tese apresentado no título. Que fique claro. Entretanto, o que se estabelece como discurso, a partir do título, é que a escolha por se concentrar nas coisas boas é do sujeito. Entretanto, não sei bem para que serve tal afirmação, pois quando a gente está com problema, nada parece realmente bom.

Escrevi anos atrás um texto que fala sobre aqueles momentos em que a vontade é de desistir. Até hoje é um dos mais lidos do blog. E é natural que seja, porque às vezes a situação é tão ruim que a gente não encontra nada de bom. Não tem como se concentrar em coisas boas se elas parecem não existir. Tudo bem… a gente está vivendo. E só o fato de viver já deveria ser motivo de gratidão. Acontece que, quando a dor aperta, viver parece ser um fardo.

E por mais chato que seja ouvir gente reclamando, o ato de reclamar se torna uma espécie de desabafo. A pessoa reclama quase como um pedido de socorro, como se estivesse dizendo:

- Ei, tem alguém aí que pode me ajudar?

Eu concordo que tem gente que só sabe reclamar. Reclama do café, reclama da comida, reclama da mulher, reclama do preço da gasolina, reclama do atendimento no banco, reclama do chefe, reclama do carro… Essas pessoas não crescem, não progridem. Contudo, existe uma diferença entre ser um “reclamão contumaz” e alguém que vez ou outra se lamenta dos problemas.

Quem repete a tese que a gente tem que ver só as coisas boas está, na verdade, tentando não envolver-se, não participar do problema alheio. E é mais fácil, né? É mais fácil dizer pro outro esquecer as dificuldades e se concentrar nas coisas boas que se dispor a ajudar, a ouvir lamentações… Por isso, por mais simpático que seja o discurso pra parar de reclamar e concentrar-se nas coisas boas, a vida não é cor de rosa. Ela não facilita. Tem momentos que a gente chora sim e não encontra motivos pra sorrir.

Na segunda, uma música

Toda vez que ouço Rita Lee fico pensando: como pode ainda ter a voz tão clara? A voz de Rita é simplesmente impecável. Parece que os anos só fizeram bem à rainha do rock. E canta sem “fazer força”.

Talvez eu seja mesmo saudosista. No caso de Rita, ela já cantava antes mesmo de eu nascer. Entretanto, dá prazer ouvir canções que, sem nenhum tipo de pretensão, faz a gente pensar. A música de hoje, por exemplo, faz pensar na vida. Ou… no final da existência.

Depois que eu envelhecer,
ninguém precisa mais me dizer
como é estranho ser humano nessas horas de partida.

A gente passa os dias fugindo do tema. Poucos se dispõem a falar da morte. A refletir sobre a velhice, o final de nossos dias. E, de fato, nada que a gente diga é suficiente para significar a partida.

Qual é a moral? Qual vai ser o final dessa história?
Eu não tenho nada pra dizer por isso digo
Eu não tenho muito o que perder, por isso jogo
Eu não tenho hora pra morrer, por isso sonho.

Sim… Enquanto respiramos, há vida. E nesse “jogo” em que perder e ganhar faz parte do simples ato de estar no mundo, resta-nos aproveitar cada momento… Claro, a despedida não é nada simples. Mas ainda assim só nos cabe viver. Sem nunca deixar de sonhar.

Vamos ouvir? “Coisas da vida” é a música de hoje.

Drogas e meninos

drogas
O relógio nem marcava 7h30. O dia estava começando. Eu ainda tinha um tempinho… Não estava atrasado para chegar ao trabalho. Caminhava tranquilo. Quando passava numa praça central da cidade, vi um garoto sentado num dos bancos. Estava com uniforme de escola. E de um bom colégio da cidade. Ele mexia as mãos com certa ansiedade. Não foi difícil notar o que manipulava. Ele preparava um “cigarro” de crack. Estava plenamente envolvido pela tarefa de quebrar pedacinhos da pedra que nem se importava com as pessoas que por ali passavam.

O adolescente tinha uns 15 anos. Era branco. As roupas estavam limpas e, pelo perfil, parecia ser filho de gente da classe média. Não reproduzia o estereótipo de menores consumidores de droga. Não era negro, não parecia pobre, não está fora da escola.

Eu tenho filhos adolescentes. E sempre que vejo notícias sobre crianças se envolvendo com drogas, com crimes, sinto-me impotente como cidadão, como pai. A gente não tem controle de tudo. E embora muitos digam que esses meninos e meninas fizeram uma escolha, eu não sei dizer até que ponto foi de fato uma escolha.

Será que possuem tanta maturidade para dizermos que escolheram? Por que um garoto de classe média estaria na praça, com uniforme de escola, preparando um cigarro de crack? Quais os motivos dele? Qual o futuro dele? Será que os pais sabem? Será que a família sabe?

Na verdade, por que o consumo de drogas se tornou uma espécie de epidemia?

Tem gente que fala que isso é falta de Deus. Pode até faltar Deus. Mas não, religião. De religião, igreja, discurso doutrinário muitos deles estão cansados. Já conhecem as contradições.

O que noto entre nossos adolescentes é a predominância de um sentimento de tédio. Eles acham a vida vazia demais. Estão cansados de tudo, chateados com tudo, aborrecidos. E já conhecem todos os argumentos de pais e professores em defesa de uma vida digna, que deveriam honrar tudo que possuem, a família, a escola, a comida na mesa… Mas a fala dos adultos não preenche o vazio existencial. O cotidiano não preenche. Nada parece suficiente. Por isso, mergulham numa vida marginal. E as drogas estão entre as alternativas que proporcionam fortes emoções. Garantem prazer, quebram a rotina, representam confronto com o que é legal… E quebrar regras é tudo que querem. Precisam experimentar o que há de mais novo, algo que os diferencie e, ao mesmo tempo, os inclua em alguma tribo.

Não há respostas claras. Apenas incertezas. O menino que fuma crack no início do dia talvez só queira viajar… Viajar por terras novas, ambientes surpreendentes. O mal que a droga faz provavelmente ele conheça. Mas não se importa. E como sociedade, eu e você não sabemos o que fazer. Nem como proteger o futuro de nossos meninos.

A neutralidade no Jornalismo

jornalismo
Ouvir as diferentes versões de uma mesma história é um dos princípios jornalísticos. A gente chama isso de “entrevistar os dois lados”. Afinal, se você tem alguém que reclama, do outro lado deve haver alguém pra se defender. Numa greve, existem as versões dos empregados e dos patrões. Num acidente, envolvidos e até testemunhas. Na política, situação e oposição… E assim por diante.

Entretanto, há algo nessa dinâmica do jornalismo que pouca gente nota. Quando o assunto carece de uma interpretação, entrevista-se um especialista. Esse expert explica o acontecimento, as implicações do fato. E a visão desse profissional não se questiona.

Por exemplo, quando ocorrem atos de violência nos morros do Rio de Janeiro, moradores são ouvidos, a polícia é ouvida. E, com frequência, um único especialista é convidado para explicar o confronto. Essa pessoa problematiza as questões envolvidas e as interpreta para os ouvintes, telespectadores, leitores etc.

Essa lógica da imprensa funciona basicamente para todos os assuntos. Do meio ambiente à economia. Os lados são ouvidos. E, pra concluir a “reportagem”, também um especialista, que deve interpretar os acontecimentos.

O que pouca gente questiona é a neutralidade desse especialista. Será não há visões diferentes entre pesquisadores do mesmo tema? Será que um expert reúne toda a verdade? Será que um especialista não se posiciona de um determinado lugar, inclusive ideológico? É claro que sim.

A Ciência não é um todo homogêneo. Todos os fenômenos sociais possuem diferentes interpretações. Um mestre, um doutor – ou mesmo pós-doutor – faz suas pesquisas partindo de uma linha teórica. Isso se reflete na forma como analisa os fatos. Por exemplo, um especialista adepto de uma linha teórica mais liberal vai criticar as intervenções no Estado na economia; outro pode entender que a presença do governo interferindo no mercado é uma necessidade para que se reduzam as desigualdades sociais.

A questão, portanto, é bastante complexa. E é complexa porque raramente a gente reclama da imprensa por trazer apenas um especialista (ou uma vertente ideológica) nas explicações de um determinado fato. O Brasil, por exemplo, supostamente vive um momento delicado. Parece não dar conta de controlar o crescimento da inflação e, ao mesmo tempo, não consegue expandir a economia. Entretanto, temos visto na mídia diferentes interpretações dos movimentos econômicos? Tenho impressão que o discurso dominante é de total crítica ao governo. Mas será que não há visões contraditórias? Todos concordam? Não há ninguém com analise de outra maneira? Estaríamos vivendo um momento em que todos pensam igual? Ou será que quem pensa diferente não estaria sendo ouvido?

Um autor americano que respeito, Roberto Darnton, ressalta que:

Os jornais devem ser lidos em busca de informações a respeito de como os acontecimentos eram interpretados pelas pessoas da época, em vez de representarem fontes confiáveis dos acontecimentos em si.

E o motivo é muito simples: o jornal – o jornalismo em si – interpreta a realidade. Não significa que mente, manipula ou pretende aliar o público. Apenas não reproduz a realidade em sua totalidade. Ela faz um recorte. Por isso, decidir nossa vida pelo que sai na imprensa pode ser bastante arriscado.

Um espaço de reflexão sobre a vida e a sociedade

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