Pergunta do leitor

duvida

Minha desconfiança está ultrapassando os limites. Sofri muito no meu casamento de oito anos, pois aconteceram coisas que me fizeram desconfiar do meu ex marido. Hoje ele está vivendo com a colega de trabalho. Acredito que isso já rolava enquanto estávamos casados. Do meu atual namorado, descobri um monte de conversas dele com outras mulheres no facebook. A maioria ele chamando as meninas de linda, que estava com saudades, que queria beijá-las… Também descobri que acessava sites pornográficos. Meu namorado justifica que a conta foi hackeada e outra pessoa, uma ex-dele, estava se passando por ele. Sobre os sites pornográficos, diz que, como só se relacionou sexualmente com duas mulheres e elas também eram inexperientes, queria aprender coisas novas, porque se sente inseguro comigo, já que eu fui casada oito anos. Estamos morando juntos há alguns meses e estou insuportável com minhas desconfianças. Olho o celular, email, facebook… Até instalar espião no computador eu instalei. Não sei o que eu faço, pois já fui embora uma vez e ficar longe dele parece doer mais do que a dor que sinto das coisas que aconteceram e me deixaram desconfiada. (RG, 30 anos)

Os motivos para desconfiar estão aparentes no seu relato. Você provavelmente foi traída no seu casamento. Isso deixou feridas, marcas que não são apagadas facilmente. E quando começou um novo relacionamento, ainda estava com feridas frescas do casamento que tinha acabado. Mais que isso, encontrou no novo parceiro comportamentos que ninguém espera da pessoa que ama.

Sabe, eu costumo dizer que não acredito em relacionamentos remendados. Não significa que alguém que foi traído não possa perdoar e dar uma nova chance. Significa que a chance de fazer dar certo é pequena. E que só mesmo alguém com muita disposição para amar, muito comprometido com o relacionamento pode superar as decepções do passado. Você tem todos os motivos para desconfiar. Foi traída no passado e o atual companheiro, pode até estar falando a verdade, mas te deu motivos para não se sentir segura.

Vamos analisar… Será mesmo que a conta do seu namorado foi hackeada? Uma ex teria feito isso pra se vingar, deixando “pegadas” pra você encontrar e terminar com ele? Afirmar que isso é impossível seria, no mínimo, irresponsável. Porém, é um bocado estranho.

E quanto à justificativa de acesso aos sites pornográficos? Acho que existem outras formas de se aprender como tratar uma mulher na cama. Vídeos pornôs estão longe de ensinarem algo proveitoso para se viver na intimidade. Quem quer reproduzir na cama o que é mostrado nessas imagens pode ter atitudes egoístas no sexo e frequentemente deixa a parceira insatisfeita.

Mas o que você pode fazer? Você já disse que sofre sem ele. Isso é amor, carência ou insegurança? Só você pode responder. Entretanto, penso que o mais importante é entender que, se você quer manter o relacionamento, terá que desenvolver equilíbrio emocional. Você não tem controle da situação. Você não pode evitar que seu parceiro te traia. E quanto mais cobrá-lo, mais vai afastá-lo e tornar a vida de vocês um inferno. Então, ou você relaxa e aproveita o melhor da relação ou vai sofrer cada vez mais até o romance se tornar impossível e acabar de vez.

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Recebo semanalmente questionamentos dos leitores sobre diferentes problemas. Não dou conta de responder a todos. Mas pretendo tratar, a cada sexta-feira, de pelo menos um caso. Se você deseja enviar uma pergunta, contar sua história, use o espaço de comentários do blog.

Por que não simplificar a vida?

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Não são raros os depoimentos de pessoas que, após passarem por momentos muitos difíceis, uma doença grave, por exemplo, dizem ter repensado a vida, encontrado um outro jeito de viver. Confrontadas com a morte, perceberam que davam valor para coisas que deixaram de fazer sentido.

Sabe, viver não é simples. Mas ela se torna muito mais complexa quando a gente fica problematizando aquilo que não se explica, aquilo que a gente não controla. É incrível como gostamos de complicar… Como estamos presos a busca de significado para tudo. Nosso olhar está comprometido pelas ilusões do que é estar bem ou estar mal. Temos referências quase sempre equivocadas sobre modos de viver. São projeções que fazemos. E, com isso, abdicamos do direito de viver.

Simplesmente não deixamos a vida rolar. Queremos dar sentido a ela. E viver parece ser o mesmo que se divertir. E talvez essa seja a principal origem de nossas culpas. Quando tudo se resume a uma busca por diversão, agimos de maneira inconsequente.

O que é curioso é que, na mesma medida que há ansiedade por se divertir, não prestamos atenção no vertiginoso espiral de dias e noites. Dias e noites passam sem nos darmos conta do que estamos fazendo. Não reparamos nas pessoas, nos lugares, nos cheiros, nos sabores… E a vida passa.

É verdade que é difícil saber o que é bom ou ruim, se a decisão é certa ou errada. Na verdade, só o tempo permite julgar. Mas um princípio básico do bem viver é a relação do humano com o seu próximo, do humano com o mundo onde vive. Quando vive em harmonia com o outro e com o meio, preocupa-se menos em controlar o mundo, há mais chance de sentir-se bem consigo mesmo.

E, pra concluir, um pensamento que achei belíssimo:

A dor mais cruel não é a que resulta de uma frustração ou de um fracasso, mas que vem da falta de viver, de uma alma inerte.

Um futuro sem carros?

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Como serão nossas cidades daqui dez ou quinze anos? Na Europa, já há quem aposte que a circulação de carros estará proibida nos centros das cidades. Acredita-se que serão permitidos apenas o transporte público, os veículos elétricos, as bicicletas e, claro, andar a pé.

Na verdade, nos centros mais desenvolvidos, já existe o reconhecimento de que o problema não é apenas o tráfego intenso que estressa, irrita e causa tantos transtornos. Entende-se que o problema vai além disso. A questão está no ar que respiramos. A quantidade de carros em circulação tem comprometido a qualidade do ar.

Contribuímos impunemente todos os dias para tornar o ar irrespirável. Alguns estudos já apontam que em países como a Espanha 95% da população respiram ar contaminado. Anualmente, cerca de 20 mil pessoas têm morte prematura em função da contaminação atmosférica.

O que dizer do aquecimento global? O mês de setembro, por exemplo, foi o mais quente desde 1880. O planeta está pedindo socorro. Ah… e o uso de carros contribui para o aumento das temperaturas.

E os avanços são tímidos, porque nem mesmo o pedágio urbano de Londres, as ciclovias ou as ruas exclusivas para pedestres são suficientes para conscientizar-nos das consequências do uso diário do carro. A gente senta atrás do volante e não quer saber de mais nada. Não está interessado em nada além do nosso conforto.

Isso mostra que há necessidade de radicalizar as propostas. Hamburgo é a primeira cidade que está levando o assunto a sério. Por lá, o plano é tirar todos os carros das ruas em 20 anos. Já a cidade de Tallinn, capital da Estônia, oferece transporte público de graça para a população.

Entretanto, pelo menos no Brasil, deve demorar um pouco mais para serem tomadas medidas enérgicas a fim de melhorar o trânsito e, principalmente, a qualidade do ar. Nossos políticos seguem apegados ao atraso. E as motivações políticas ainda falam mais alto. Eles não têm a determinação necessária para enfrentar questões como essas. Quanto a nós, ainda não estamos maduros para reconhecer que o conforto do carro mascara nosso egoísmo. Falta comprometimento com o bem comum.

Na segunda, uma música

A canção que hoje destaco por aqui é uma das mais tradicionais, mais conhecidas de todos os tempos. Gravada e regravada por diferentes intérpretes, Hallelujah é arrebatadora, majestosa. Ao ouvi-la, é impossível ignorá-la.

Composta pelo mestre Leonard Cohen, a canção fala de fé, mas principalmente do efeito da música no coração das pessoas. Mais que isso, um meio do homem dialogar com o divino.

Eu soube que havia um acorde secreto
Que Davi tocava, e que agradava o Senhor

A música mostra certo conflito interior. Esse homem que trilha por caminhos incertos, que por vezes duvida do próprio Deus, mas ainda assim se coloca diante dEle e diz:

Eu fiz o meu melhor, não foi muito
Não podia sentir, então eu tentei tocar
Eu disse a verdade, eu não vim para te enganar
E mesmo que
Tudo deu errado
Eu estarei diante do Senhor da Canção
Com nada mais em minha língua além de Aleluia

Para interpretar a belíssima Hallelujah, o grupo que transita entre o clássico e o popular, II Divo. Vamos ouvir?

Atitudes que dizem “te amo”

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Tenho dito que “amor bom é amor prático”. E são as atitudes que reafirmam o desejo de fazer bem, de querer bem, de importar-se com o outro.

Por sinal, pouca coisa é mais importante do que sentir que seu parceiro se importa com você. Não adianta escutar todos os dias “te amo” e, na hora que está fragilizado por alguma situação, você se sentir sozinho. Ou naquela hora que você precisa de silêncio porque está com a cabeça explodindo, ele resolve arrumar a pia da cozinha e quase derruba a casa.

E eu acho que os pequenos gestos são aqueles que fazem toda diferença. As grandes encrencas causam grandes confrontos, grandes crises, mas geralmente são enfrentadas pelo casal. Podem até causar o fim do romance, mas não ficam se acumulando, não são silenciadas. Os relacionamentos são minados diariamente pelas coisas pequenininhas. 

Por exemplo, se a mulher é organizada, para ela é importante que o parceiro diga, através de atitudes práticas, que se importa, que se preocupa, que a ama. Ela reclama da toalha na cama? Então, pra ela, isso significa que colocar a toalha no lugar mostra que se importa com os sentimentos dela. Ele não gosta de sair atrasado para os compromissos? Tentar agilizar a “produção” (tomar banho mais cedo, decidir antes a roupa que vai usar, a maquiagem etc etc), é um jeito de dizer que você se preocupa com ele.

Se ela gosta de ter um tempinho pra ler, deixá-la quietinha, sem aumentar o volume da música que você deseja ouvir ou manter a televisão desligada, não ficar falando ao telefone… É uma forma de dizer pra pessoa amada: “te amo e quero muito te agradar”. Se ele está incomodado com seus gastos com o cartão de crédito, porque o dinheiro anda curto, passar um tempinho sem fazer compras ou perguntar pra ele se dá pra assumir uma nova despesa, é também um jeito de dizer que o respeita e está comprometida com o relacionamento.

Sabe, a gente tem se tornado individualista demais. Para muitas mulheres, a questão da independência se tornou tão fundamental que, por vezes, ignora-se que o relacionamento é feito a dois. Para muitos homens, obrigar a mulher a respeitá-lo também virou um capricho pessoal. É algo do tipo “eu faço mesmo, se ela quiser é assim… Se não quiser, tem outra que quer”.

Acontece que comportamentos assim vão destruindo aos poucos, desgastando o romance. Amar não é só na cama, amar não é só dar presentes, amar não é apenas dizer palavras bonitas. Olhar para o outro e tentar suprir as carências do outro, reconhecer e respeitar as coisas que para o outro são importantes são maneiras práticas de dizer “te amo e estou sempre aqui para o quer der e vier”.

De volta pro meu aconchego…

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Eu sempre me encanto com gente que tenta fazer diferente, viver de uma forma nova, ousada… Gente que contraria os padrões atuais. Na verdade, quando falo em “padrões atuais”, me refiro a um modo de vida. E, pelo menos no ocidente, pensamos a vida a partir de algumas premissas básicas. Entre elas, ter um bom emprego, um bom carro, casa boa, equipamentos elétricos e eletrônicos que minimizem nossos esforços…

Também somos facilmente pegos pelo discurso da qualidade de vida. Mas uma qualidade de vida que se confunde com a ideia de possibilidades de consumo. Ter qualidade de vida parece ser o mesmo que ter poder de compra. Então quem pode comprar o que deseja, vive bem e é feliz.

Dias atrás, inclusive, discutia com meu filho sobre esse assunto e ele sustentava a tese de que o desejo por ter coisas foi criado pelo capitalismo e não há como escapar disso. Nos argumentos dele, não dá para se sentir bem nessa sociedade se a gente não possui coisas, não goza a vida a partir de coisas que o dinheiro pode comprar.

E imagine a situação: se alguém conhecido troca de emprego para trabalhar menos horas por dia, mas ganhando metade do que ganha, o que dizemos dessa pessoa?

E se a pessoa deixa a cidade, o emprego, a casa boa e vai morar no campo? Sim, numa pequena propriedade, sem moradia, sem estrutura alguma?

Pois é. Pouca gente teria disposição de fazer isso. Parece loucura, né? Na cidade, trabalhar menos ganhando menos, parece coisa de quem é folgado. Deixar a cidade pra viver “no mato”, seria coisa de doido.

Entretanto, tem uns “doidos” por aí que estão abrindo mão da vida da cidade pela simplicidade do campo. Mais que isso, ao saírem do “conforto” da cidade estão ganhando saúde, paz, alegria.

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O espanhol Lucho Iglesias é uma dessas figuras. Há quase 15 anos, achou um cantinho perdido na beira de um rio, um pedaço de terra praticamente abandonado, tomado por laranjeiras e cana, e transformou esse espaço em um lar. Sem nenhum luxo. Tem construído tudo com as próprias mãos. Trabalha doze, treze horas por dia. Vive a utopia de uma harmonia com a natureza. E não troca seu cantinho por nada nesse mundo.

As cidades têm nos consumido, roubado nosso tempo, tirado nossa saúde, nos afastado das pessoas. Por isso, com 44 anos, Lucho diz que reúne ali na sua pequena propriedade todas as ferramentas para construir o seu paraíso. O espanhol e a esposa plantam a própria comida. Da terra, eles tiram amêndoas, damascos, peras, figos, azeitonas… Tem as laranjeiras, a cana…

Longe da loucura da cidade grande, o casal tem o que precisa para viver. E, firme em sua utopia, acredita que a busca por esse modo de vida deve crescer ao longo dos próximos anos. Para ele, esse é o jeito do homem viver de bem com a natureza e consigo mesmo. Estar na terra, portanto, seria uma forma do humano reencontrar suas origens.

PS – Lucho Iglesias produziu anos atrás um documentário no qual propõe uma reflexão sobre esse modo de vida.

Sustentabilidade: o Brasil precisa passar do discurso à prática

FOTO: LAURENT REBOURS (AP) - REPRODUÇÃO DE EL PAÍS
FOTO: LAURENT REBOURS (AP) – REPRODUÇÃO DE EL PAÍS

Quando o assunto é mobilidade urbana, o Brasil segue muito atrasado. O incentivo ao uso dos carros passa, inclusive, pelo próprio poder público. As cidades são pensadas para privilegiar os veículos. E, recentemente, durante a política de redução de impostos promovida pelo governo para não permitir o desaquecimento da economia, o setor automobilístico foi um dos mais beneficiados.

Enquanto isso, na Europa, os carros ganham status de vilões do meio ambiente. Todo projeto de sustentabilidade que se discute por lá prevê menos veículos nas ruas (por aqui, o povo briga quando são reduzidas vagas de estacionamento pra carro e ninguém luta por bicicletários). A França, por exemplo, está muito empenhada em fazer uma transição energética. Não se tratam de projetos pontuais, mas sim para toda a nação. O governo de François Hollande está determinado em viabilizar a proposta e já recebeu sinal verde do Legislativo francês para promover uma grande mudança no país.

A lei em discussão prevê medidas de curto, médio e longo prazo. A meta é tornar a França campeã ecológica na Europa até 2050. Entre as principais medidas estão incentivos para as empresas que motivarem os funcionários a usar bicicletas. Cada quilômetro rodado de magrela vira dinheiro no bolso do trabalhador. E a empresa ganha benefícios fiscais.

Além disso, as companhias com mais de 100 funcionários deverão apresentar um plano de transporte para sua equipe envolvendo transporte coletivo, carros compartilhados e uso das bicicletas.

Paris é a cidade mais empenhada no projeto. A capital ganha cada vez mais espaços para os veículos de duas rodas. Também estão sendo instaladas milhares de “tomadas” para atender veículos elétricos.

O francês que for trocar o carro a diesel por um elétrico também ganha uma espécie de prêmio – bônus. E o poder público também faz sua parte. Na renovação da frota, para cada dois veículos comprados, um deve ser elétrico.

Entretanto, o “pacote ecológico” não tem apenas medidas visando reduzir a poluição e melhorar o trânsito. Também saem de cena as sacolas plásticas descartáveis, os pratos e talheres do mesmo material. E como o objetivo é promover uma transição na matriz energética, edifícios devem ser reformados visando reduzir o consumo de energia de lâmpadas e equipamentos de ar condicionado. Quem for fazer a reforma, recebe incentivos fiscais e pode fazer empréstimos com juros subsidiados.

Coisa boa, né? Pois bem… É desse tipo de avanço que a gente precisa. No Brasil, um debate político sério também deveria contemplar projetos ambiciosos dessa natureza. Entretanto, por aqui, nossos supostos representantes ainda carecem de maturidade para fazer o enfrentamento de temas mais complexos. E a sociedade, por sua vez, está acomodada e é só quer saber de mudanças que, na verdade, não mudam nada.

“Foi isso que a vida me deu”

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Ninguém passa pela vida sem experimentar algumas perdas. Alguns mais, outros menos… Mas todos vivem momentos de dor.

Entretanto, tem gente que passa pelas tragédias aceitando-as como parte da vida. E isso faz toda diferença. Faz os dias ficarem mais leves e a pessoa vive menos amargurada, revoltada, ansiosa.

Dias atrás, reconheci nas falas de Manoel Carlos a beleza de aceitar a vida como ela é. Ele perdeu o terceiro filho. Mas ainda assim conseguiu dizer:

- Perdi três filhos. Foi isso que a vida me deu.

Após participar da cerimônia de cremação, o autor estava bastante abalado. Mas demonstrou toda sensatez de alguém que aprendeu a passar pelas tragédias, aceitando-as como parte da existência. Ao falar sobre o que seria feito com as cinzas do filho, Manoel Carlos chegou a demonstrar bom humor. Comentou que a esposa talvez usasse um pouco para levar num colar, mas brincou que ele já tinha passado da idade de andar com esse tipo de adereço. E completou que levaria o filho no coração: “o resto está tudo bem. Vamos tocar a vida”.

Eu não sei a dimensão da dor de Manuel Carlos. Perder um filho deve doido demais. Perder três, ainda mais. Entretanto, vejo nas falas do autor algo que aprecio demais: não tornar a tragédia um modo de vida. Tem gente que parece gostar de sofrer. Fica remoendo, falando, repetindo… A pessoa se apega ao que perdeu. Não liberta o coração.

Sabe, tem perdas que vão ficar pra sempre marcadas. Quem perde um filho, mesmo que tenha outros dez, nunca vai esquecer quem se foi. Quem perde o marido, vê parte de sua história ir embora junto. Entretanto, se a pessoa passa a vida chorando por alguém que se foi, deixa de ver o brilho do sol, a lua prateada, o azul do mar, o sorriso das crianças… Ouvir o cantar dos pássaros, o som harmonioso das mais belas canções.

A vida é bem mais que nossas perdas. Não dá pra estacionar na tragédia, ficar bebendo o cálice amargo dos fracassos. A gente chora sim… Mas precisamos aprender enxugar as lágrimas, olhar pro azul do céu e seguir em frente. Afinal, cada dia que temos – com suas vitórias ou derrotas – é um dia a mais que a vida nos deu.

Na segunda, uma música

Sarah Brightman é uma das melhores sopranos do mundo. Andrea Bocelli é um tenor incrível. E os dois juntos nos transportam para o mundo da beleza, da perfeição.

A canção que compartilho é muito conhecida. Foi gravada por várias vozes. Mas gosto particularmente do dueto entre Sara e Andrea. Eles são maravilhosos.

“Time to say goodbye” ou “Con te partiro” é uma canção majestosa. E a letra toca o coração.

Com você partirei
Países que nunca
Vi e vivi com você
Agora sim os viverei

Com você partirei
Em navios por mares
Que, eu sei,
Não, não existem mais

E então, vamos ouvir?