O par perfeito

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Ele é perfeito. Fala mansa, tranquila, um sorriso cativante no rosto. Tem paciência, sabe esperar… até mesmo depois de você ter subido 25 vezes no quarto para trocar a blusa ou retocar a maquiagem. Nada o parece abalar. Ele encontra formas de estar ali, passar segurança e até te fazer rir. Sim, ele se encaixa no seu sonho de “príncipe encantado”.

Sabe, não há nada demais em desejar alguém que faça todos os nossos gostos. Não é ridículo sonhar com uma pessoa que queira sempre nos agradar. Entretanto, gestos singelos e meigos podem esconder a verdadeira personalidade.

Os primeiros meses de relacionamento ainda são marcados por atitudes de conquista. Claro, não acontece com todo mundo. Mas é natural que, no namoro, a pessoa procure vender a sua melhor imagem. Costumo brincar que este é um período em que a gente encontra a pessoa amada apenas para amá-la, para viver bons momentos. Pode ter um dia péssimo, mas fica pensando:

- Tudo bem. A situação está tensa… Mas, à noite, vou estar com ela.

Então, a gente chega em casa, toma um banho, passa o melhor perfume, coloca a melhor roupa para a ocasião… Deixa todos os problemas em casa, coloca a máscara de bom moço e vai encontrá-la com o melhor sorriso possível.

Homens e mulheres fantasiam com amores perfeitos. Quem não quer alguém sempre cheiroso, bem humorado, de ideias brilhantes, gentil, criativo, esperto, atencioso? Quem não deseja um namorado simpático com sua família, que não tenha ciúme dos irmãos, amigos, primos, tios e até dos ex-namorados? Que garota não quer ser sempre elogiada, mesmo quando coloca aquele vestido que nem deveria ter saído da loja? Que homem não gostaria de ter uma parceira que não se incomoda e nem reclama se ele chegou tarde, se saiu com os amigos, se esqueceu do aniversário de namoro e está sempre bem disposta para o sexo?

Nos relacionamentos, certas coisas são boas demais para serem verdade. Tem gente que finge ser o que não é. Por isso, semelhante a “garota exemplar”, retratada pela jornalista americana Gilliam Flynn, um dia a farsa é descoberta. Ninguém resiste muito tempo num personagem. O verdadeiro eu grita no interior, reclama ser revelado.

Não quero dizer que não existam pessoas incríveis, bem dispostas e que se entregam ao romance a fim de fazer feliz a pessoa amada. Entretanto, pessoas perfeitas não existem. Gente normal é cheia de contradição. Tem dias ruins, fica ansioso, nervoso, bate a porta, às vezes fala alto e reclama do trânsito. Gente normal engorda, faz dieta, fala mal da sogra, reclama do cunhado. Gente normal tem preguiça, trabalha demais, perde a hora, compra presente errado, escolhe mal o restaurante. Gente normal é promovido, elogiado… é demitido, humilhado. É o máximo hoje, a pior das pessoas amanhã.

É nisto que consiste a beleza de amar e ser amado.

Violência é base do namoro adolescente

Será que não há mais para que o respeito e o carinho sejam bases do romance?

Será que não há mais espaço para que o respeito e o carinho sejam bases do romance?

A força física é a estratégia dos fracos. Gente incapaz de dialogar, negociar, convencer, persuadir – e até manipular – impõe suas vontades gritando, agredindo, batendo.

Fruto de uma cultura machista, a violência dentro de casa é um mal histórico. Com o advento da modernidade, do feminismo e de legislações mais modernas, a mulher brasileira passou a ter amparo do Estado. E os agressores podem ser punidos.

Entretanto, o que parece um avanço não representa de fato uma pacivização das relações. Eles seguem xingando, espancando; mas, principalmente, entre as mulheres jovens, adolescentes é assustador o número de casos em que a situação se inverte: elas batem; eles apanham.

Publicado pela revista Época no final de 2011, levantamento realizado pelo Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves) da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, identificou que pelo menos 30% das meninas batem nos namorados. E vale tudo: puxões de cabelo, empurrões, arranhões, tapas, socos e até chutes. Como geralmente são mais fracas, parte dos parceiros não revida.

Mas 17% deles também confessam já terem agredido meninas.

Curiosamente, o estudo realizado com 3,2 mil adolescentes em dez estados apontou que pelo menos metade do público ouvido é das classes A e B. Ou seja, a violência não acontece apenas entre os pobres – como muita gente acredita. Dinheiro e acesso à educação escolar de qualidade não garantem respeito ao outro.

Sabe, esses dados assustam. Assustam, porque a violência no namoro adolescente não é fenômeno isolado. É global. Pesquisas mostram até 60% de relacionamentos na juventude são baseados na agressão.

E a violência não para nas agressões. Eles admitem que invade o quarto e se efetiva na intimidade. São comuns os casos, dentro dos namoros de adolescentes, de violência sexual e relações sexuais não consentidas. Esse mesmo levantamento aponta que elas não são apenas vítimas dessa realidade; 33% das garotas disseram já ter pressionado os namorados a transar fazendo uso de humilhações que colocam em xeque a virilidade deles.

Dá para acreditar?

Não vivemos na Idade Média. Nunca houve tanta informação, tanto debate sobre as relações humanas. Como chegamos a esse ponto?

O que é pior: eles toleram essa prática. Agridem e aceitam ser agredidos. Fazem da violência uma prática ritual que sustenta o relacionamento nas crises de ciúme, no controle, na posse… Muitos desses “romances” duram seis meses, um ano ou mais.

Sabe, eu não consigo conceber um relacionamento em que as coisas se resolvam “no tapa”. Não dá. Porém, ao que parece, essa é a única forma que muitos meninos e meninas encontraram para se comunicar. É lamentável.

Talvez a gente careça reaprender algumas coisas. Entre elas, a valorizar mais o outro e a si mesmo. Quem agride desrespeita e abre as portas para ser agredido. Aceitar a agressão também é rebaixar-se, colocar-se em posição inferior. Quem vive assim não sabe o que é amar.

Sem deixar a vida passar

vencer

Não acredito em fracassos permanentes. Acredito que há pessoas que se deixam afundar na derrota e desistem de lutar. Entretanto, quem olha para si e identifica os fatores que motivaram a perda consegue se erguer e tornar-se vencedor.

Pensava nisto enquanto lia a coluna “Meu erro”, da Época. O último entrevistado foi o técnico Tite, do Corinthians. Embora seja hoje um profissional respeitado e um dos melhores treinadores de futebol do país, ele admite: “falhei como técnico”.

Cheguei a pensar que encerrara minha carreira como técnico profissional. (…) Estava desempregado. Minha autoestima não era das melhores. (…) Pensava, todos os dias, no que tinha feito de errado.

Nos primeiros anos de trabalho, Tite fracassou. Mas a volta por cima aconteceu porque contou com o apoio da família e, principalmente, porque não perdeu a capacidade de olhar para si mesmo e aprender com os próprios erros.

Tentar encontrar o erro foi muito importante para mim e para minha carreira. Descobri que falhei como técnico. Percebi que não tive preparo suficiente (…). Faltava conhecimento sobre os jogadores e sobre como liderar uma equipe. A metodologia de trabalho era fraca. Era hora de estudar mais, de evoluir. Busquei todo tipo de aperfeiçoamento. Estudei.

Um dos grandes problemas de quem perde é transferir para o outro, transferir para o mundo a culpa. É mais fácil. Se a carreira não dá certo, o problema é do chefe; se a promoção não saiu, foi o colega que “puxou o tapete”. Se reprovou na faculdade; o professor é injusto; se o casamento acabou, o parceiro é que não soube amar.

A gente prefere não ver o que impede, o que está em nós e nos bloqueia. Não gostamos de reconhecer nossas limitações, nossas falhas, o que falta em nós. Optamos por lamentar e atribuir ao universo tudo de ruim que acontece, como se este conspirasse contra nós.

Acontece que a vida não é para os fracos. Não existem selecionados, escolhidos para vencer. Entretanto, os erros cometidos não são para ser lamentados, são caminhos naturais do aprendizado. Por isso, insistir no negativismo é retardar – ou abrir mão – o crescimento.

Como diz a música “Caderno”:

A vida segue sempre em frente
O que se há de fazer?

A gente tem a escolha de refletir, aprender, corrigir a rota e fazer diferente. Ou estacionar e perder a chance de ser feliz.

O que você prefere: ter atitude ou encolher e deixar a vida passar?

Na segunda, uma música

Uma frase. E ela poderia ser toda a música. Diz muito ao coração. Deveria ser uma espécie de guia para todos nós. Afinal, uma das coisas mais difíceis da vida é enfrentar as circunstâncias negativas com um sorriso, com olhar esperançoso.

Ao cantar “Brincar de viver”, Maria Bethania diz:

A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não

Toda vez que ouço, imagino os “nãos” que recebemos. E não é fácil aceitá-los. A gente resiste. A gente não quer viver a dor da rejeição. Muitos de nós não aprendemos a lidar com a frustração. Esperamos que tudo dê certo sempre, queremos ter controle das coisas, do ambiente, das pessoas. Queremos controlar o mundo. Mas não são raras as vezes que ele simplesmente diz… não.

E como sorrir quando isso acontece? Acreditando, tendo fé.

Você verá que é mesmo assim,
que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim
à sua imaginação

Sim, a história continua. A vida continua. Um “não” não determina nossa existência, não impede nosso futuro, não escreve nosso destino. Nosso desafio, porém, é romper com o desânimo, reaprender a sonhar. E nunca perder a chance de amar.

Eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho
Como eu sou feliz, eu quero ver feliz

Este é meu convite neste início de semana. Vamos ouvir?

Prazer em aprender

aprenderOuvi de uma acadêmica um comentário que me incomodou um pouco. Ao iniciar uma de minhas aulas, ela soltou:

- Poxa, estudar isso de novo? É muito chato.

Como é uma pessoa geralmente participativa, e procuro permitir a crítica, ela continuou:

- Não é com você, professor. É o assunto. Na verdade, este ano está tudo muito chato. Todas as matérias.

Eu entendi o comentário. E não a censuro. O tema é mesmo difícil. E carece de boa de paixão por conhecer para assimilá-lo. Apenas fiquei refletindo sobre o tema. Lembrei de meus filhos na escola, das reclamações deles quanto aos assuntos tratados em sala. Lembrei de um colega de mestrado, uma pessoa que admiro bastante. Dias atrás, ele falou:

- Quando passei no mestrado, vim decidido: abandonaria qualquer preconceito. Aproveitaria o melhor de cada disciplina.

E ele é mesmo assim: um sujeito super interessado. Não importa a discussão, o autor. Busca compreender, debater. Não bloqueia nenhum tema.

- Antes de entrar na sala, procuro me libertar dos meus gostos, preferências. Estou aqui para aprender.

Sabe, eu sinto nele algo raro no sistema de ensino: prazer em aprender.

Sempre gostei disso: aprender. Aprender por aprender. Foi assim que fiz jornalismo e me tornei jornalista. Foi assim que fiz psicopedagogia por dois anos e meio e, mesmo não exercendo a profissão, não me arrependo de ter frequentado uma única aula. Tenho convicção que me tornei uma pessoa melhor, mais tolerante como fruto do que aprendi com cada professor, cada teoria.

Infelizmente, vivemos um momento em que buscamos o saber sem nos despir das motivações que norteiam as demais escolhas. Queremos que o conteúdo nos garanta as mesmas emoções de um espetáculo de música, de um filme ou programa de TV. O conhecimento deve divertir. Se aparenta função prática, até toleramos, porque nos referenciamos por sua aplicabilidade; no entanto, se trata-se de um conhecimento histórico, filosófico, que parece não servir para o trabalho, descartamos, bloqueamos.

É uma pena.

Aprender dá trabalho sim, mas é uma escolha racional. Mesmo quando o sono vem, é preciso insistir. É necessário treinar o cérebro até para o que parece monótono, pois o conhecimento é nosso maior patrimônio. Nada pode tirá-lo. O saber transforma, muda a gente. Só não dá para pedir que sacie nossos desejos mais instintivos de prazer.

Quando não há mais forças para lutar

abandono
Você gosta, admira, entende o outro. Queria ficar junto. Mas já não consegue. A distância se instalou. E não tem forças para lutar. Até acredita que poderia reconquistar, mas se sente paralisado. As energias acabaram.

Certa vez, li um texto de um especialista em relacionamentos. Ele dizia que, no casamento, há raras situações que se instalam e que dificilmente são revertidas. Uma delas é a distância. Pode ser distância gerada por escolhas profissionais, por amizades conquistadas, por vivências e conhecimentos adquiridos. Os dois estavam juntos, tinham os mesmos propósitos. Por essas coisas que acontecem sem se darem conta, um dia acordaram e notaram ser pessoas completamente diferentes. E um abismo se instalou entre elas.

A distância esfria. Nem sempre é notada. Geralmente, demora. Não é incomum os casos em que apenas uma das partes abandona a relação. O outro continua ali. Às vezes, magoado, triste. Deseja a presença, o carinho, o toque, os beijos, a intimidade… Segue esperando. Tem esperanças. Mas a pessoa amada não mais consegue voltar. Talvez até siga ali do lado, por conveniência ou não, porém está morta por dentro.

Nada é mais triste num relacionamento que a ausência de uma das partes. O romance vai murchando, perdendo forças. Já não há brilho nos olhos. Apenas saudade. E, no coração, um lamento pela perda, pelo fracasso.

Eu não diria que não é mais possível voltar. Que o fundo do poço é o fim de uma história. Mas recomeçar dá trabalho. É possível – desde que se queira lutar. E lutar é uma escolha. Àqueles que têm fé, que acreditam numa divindade, pedir ajuda aos Céus acalma o coração. Fortalece a alma. Buscar terapia também ajuda. Entretanto, é necessário se mexer, tentar. Se não há mais forças, o fim é uma realidade – talvez antes mesmo de admiti-lo.

Maioridade penal: é preciso romper com o reducionismo

Faltam políticas públicas que contemplem a infância e a adolescência

Faltam políticas públicas que contemplem a infância e a adolescência

Repensar e rever conceitos não é vergonha alguma. É sinal de grandeza. Ou, pelo menos de disposição para mudar. E quem muda acompanha o ciclo da vida, pois o hoje nunca se repete; cada momento é único e surpreendente.

 

Digo isso porque aqui mesmo, no blog, já defendi a redução da maioridade penal. Entretanto, hoje, não entendo que o combate aos crimes envolvendo menores se resuma a tirá-los das ruas e colocá-los na cadeia.

Não vou teorizar sobre o tema. Dias atrás, a premiada jornalista e escritora Eliane Brum fez isso (recomendo a leitura, principalmente para quem defende a mudança na lei) com mais habilidade e argumentos. Muito do que ela publicou em sua coluna na Época me surpreendeu. Então, não tenho por que me aventurar nessa tarefa.

O que me incomoda é a ignorância que povoa esse debate. Procura-se até comparar o Brasil inclusive com países em que a idade penal é menor, caso dos Estados Unidos – comparação injusta, dadas as condições tão contraditórias de promoção ao ser humano entre essas nações.

O assunto tem ganhado corpo e virado arma nas mãos de quem é opositor ao governo Dilma. E, consequentemente, como a presidenta é contra a redução, vira uma questão partidária. Muita gente faz isso como se os problemas da segurança pública tivessem origem nos menores infratores.

Não, caríssimos, a gente precisa ir além das aparências. Um governo não pode ser julgado por uma única ação – ou ausência dela. É necessário romper com o reducionismo, deixar de ser simplórios e jogar no colo da presidente uma questão (reduzir a idade penal) que reclama um debate muito mais amplo.

Por exemplo, alguém aí que defende a mudança na lei pode me dizer qual o percentual de crimes cometidos pelos menores?

Seriam 50%? Quem sabe, 20%? Ou… seriam 10%?

Da população total de adolescentes apenas 0,09% cumpre alguma medida sócio-educativa. Isso significa que nem 1% dos menores comete crimes. E sabe quais os crimes mais recorrentes entre eles? Furtos. Motivo? Precisam de dinheiro para comprar drogas. E para terem acesso a alguns “privilégios” das classes mais ricas.

Essa molecada é excluída pela mesma sociedade que ignora que eles carecem mesmo é de escolas de verdade, ensino integral, atividades culturais, programas de formação para o trabalho. E, principalmente, de investimento social nas famílias desestruturadas que acabam motivando crianças e adolescentes a viverem nas ruas.

Já que a gente quer resolver as coisas de forma simplista, com uma canetada (sob a crença equivocada de que “reduz a maioridade, reduzem os crimes), por que a gente não muda o enfoque e não fala em reduzir a idade para acesso dos menores ao trabalho?

Não acreditamos na máxima de que “o trabalho dignifica o homem”?

Convenhamos, a gente precisa ir além das aparências. Deixar de reproduzir discursos prontos e entender os problemas com profundidade antes de sair acreditando na primeira bobagem compartilhada nos meios de comunicação – sejam eles os tradicionais ou no mundo digital.

Na segunda, uma música

Estou feliz
Eu encontrei alguém
Que pode não ficar aqui
Para sempre
Para me ajudar
Mas eu encontrei
Força em você

Como é bom saber que a gente encontrou alguém que soma, que renova, que fortalece. Um amor bom tem esse poder. É capaz de tocar a ponto de sermos gratos pelo simples fato de viver ao lado da pessoa amada. Viver sem culpa, sem ansiedade, sem insegurança. Faz bem mesmo reconhecendo que o amanhã é incerto.

Não se preocupe
Com o que acontecer comigo
Pois na minha mente
Você ficará
Aqui eternamente

Claro, quem vive um amor assim não quer perder. Deseja o “pra sempre”. Sonha um futuro bom.

O amor
Que você sente por mim ficará?
Você ficará ao meu lado
Para me ajudar
Até que a minha vida
Acabe

Embora nem sempre tudo dependa de nossos desejos, a vontade é esta. O querer é de uma vida juntos:

Na minha cabeça
Nós podemos conquistar o mundo

A canção de hoje é de Mariah Carey. Neste vídeo, a cantora americana faz uma interpretação belíssima de You and I, com direito a Steve Wonder na plateia. Vale ver e ouvir.

O que é cultura?

cultura

A cultura transcende as artes; ela manifesta os hábitos, comportamentos e rituais de um povo

Defini-la conceitualmente não é tarefa simples. Há mais de 160 definições de cultura. Trata-se, como diz Edgar Morin, de uma palavra mítica, traiçoeira, tenta ser mágica, reunir tudo e, também por isso, confunde. Entretanto, não é por confundir que estamos autorizados a nos equivocar. Há coisas que cultura não é. Por exemplo, não dá para confundir arte e cultura. A arte manifesta as expressões de uma determinada cultura. Entretanto, cultura não se resume às manifestações artísticas.

Por que digo isso? Porque ainda vejo muita gente, inclusive dentro da academia, falando bobagem. Há pessoas que acham que cultura é música, teatro, cinema. Isso é arte – que pode mostrar valores culturais de uma época. Mas o conceito vai muito além disso.

O historiador, pesquisador e imortal Alfredo Bosi explica cultura como “conjunto de modos de ser, viver, pensar e falar de uma dada formação social”. O antropólogo inglês Edward Barnett Tylor, ainda em 1871, apresentou-a como “o conjunto de conhecimentos, crenças, artes, leis, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade”.

Ou seja, os atos de uma pessoa são baseados em suas crenças e estas são culturais. O ritmo de vida, horários de trabalho, para almoçar, jantar, o que comemos (se arroz, feijão, cachorro quente etc), as músicas que ouvimos etc são manifestações de uma cultura. Até mesmo o conjunto de leis que um povo possui tem relação direta com a sua cultura.

Desde o nascimento, somos inseridos em uma cultura. Comportamento, crenças, civilização são ditados pela sociedade. A cultura, portanto, é transmitida coletivamente.

Talvez um dos principais equívocos que se comete ao falar sobre cultura é entendê-la como sinônimo de “ser culto”. Transfere-se ao conceito algo que ele não busca ser. Há um intelectualismo, um elitismo ao tratar do tema. Desta forma, cultura passa a ser algo quase inatingível, de um público específico – como se cultura fosse produzida e consumida apenas por cultos e intelectuais. Ignora-se cultura se faz e se refaz no cotidiano, no interior, na vida ativa de uma sociedade.

No jornalismo, se eu falo de moda, falo de cultura; se falo de comida, falo de cultura; se falo de arquitetura, falo de cultura; se falo do trânsito, falo de cultura. Essas questões, é claro, se modulam noutras expressões – comportamento, gastronomia, sociedade, por exemplo. O hábito de tomar café com leite e pão pela manhã é manifestação de uma cultura. E mais… Por exemplo, essa onda de “pegação”, “amor livre” pode ser classificada como comportamento, mas o comportamento é uma manifestação da cultura de um povo numa determinada época. E ainda falando sobre o fazer jornalístico, até mesmo o entretenimento de um povo revela uma cultura – os senhorzinhos que se reúnem para jogar cartas em algumas praças de Maringá sugerem uma manifestação cultural.

Quando penso em literatura, teatro como cultura, não apenas confundo com arte, mas também com o erudito. E esta é uma construção conceitual, numa perspectiva crítica, que exclui a população como produtora de cultura. Os pesquisadores brasileiros Antonio Carlos Brandão e Milton Fernandes Duarte dizem que essa “cultura elitizada” se distancia do povo, ignora que nosso agir é cultural.

A cultura popular é produzida espontaneamente e em qualquer lugar. No trabalho, na rua, em bares, clube, dentro de casa, igreja, sem lugar específico para surgir. Ela ocorre quase sempre a produção anônima, de domínio público, também sendo uma criação coletiva.

Insistir na ideia de que cultura é só teatro, dança, ópera, orquestra, música etc é perpetuar uma tese equivocada. É silenciar o povo como autor de sua história.

Educadores, formadores de opinião precisam romper com esse valor equivocado do que é cultura. É necessário entender e fazer entender que andar em volta do parque também é um hábito cultural. Como diz a pesquisadora Isaura Botelho, o conceito não é reducionista. A maneira como povo elabora sua forma de pensar, de sentir, constrói seus valores, maneja suas identidades e diferenças e estabelece suas rotinas é manifestação cultural. Por isso, podemos resumir:

As relações familiares, as relações de vizinhança e a sociabilidade num sentido amplo, a organização dos diversos espaços por onde se circula habitualmente, o trabalho, o uso do tempo livre, etc. Dito de outra forma, a cultura é tudo que o ser humano elabora e produz, simbólica e materialmente falando.

Até quando vale a pena insistir?

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O relacionamento acabou. O outro disse adeus. Mas não é o que você quer. O coração reclama, as lágrimas rolam de saudade. Por que não tentar? Por que não voltar?

Quem ama sabe o quanto dói o fim do romance. O sonho sonhado a dois torna-se desejo de um só. Insistir parece ser tudo que resta. Tentar convencer o outro que é possível recomeçar.

As estratégias são variadas. Pedidos de perdão, promessas de tudo vai ser diferente, discursos de que vai mudar… Presentes, flores, cartinhas, surpresas no começo do dia… Recadinhos no email, no facebook, celular.

Uma bela história de amor pode acabar. E por motivos que nem sempre a razão explica. Por isso, quem ouve o “não quero mais viver com você” se surpreende, quer entender, voltar.

Os possessivos sofrem ainda mais. Não apenas pelo fim do romance, mas também pela expectativa que um outro alguém ocupe seu lugar.

A separação dói. E perder nunca é fácil. Fere, faz o coração sangrar.

Entretanto, por mais que machuque, insistir aumenta a dor. Intensifica. Retarda a cicatrização, mantém a ferida aberta.

Se o outro disse que acabou, é importante saber abrir mão, entender que “ninguém é de ninguém”. Vale sim procurar conversar, mas se isso não acontece, resta aceitar, respeitar. Sofrer com dignidade e retomar a vida. Não significa sair com a primeira pessoa que aparecer pela frente… Só para se distrair. Não é isso. Mas é permitir que o tempo cuide de sublimar a perda. O mesmo tempo vai trazer novas oportunidades e o sol voltará a brilhar, a vida ganhará novas cores.